Capítulo 12 - Parte 7
Era uma visão maldita.
O pequeno diabo que se lambuzava em meio ao sangue como um porco na lama. O deleite das criaturas ao dilacerar as vísceras do pobre cadáver, espalhando sangue a cada mordida. Tudo compunha um espetáculo cruel e traumático.
Ou melhor… seria… aos olhos de qualquer homem. Mas para Zarek… apesar da cena vil que presenciava, não foi o sentimento de repulsa e pavor que o invadiu. Nem mesmo um vestígio sequer de náusea transpassou o seu ser. Era apenas uma simples surpresa, ao perceber que sua interpretação anterior estava equivocada.
“Ah… por um momento achei que eram pessoas…”, ponderou internamente, enquanto a chama de seus olhos piscava ao passo que ele observava, inerte, aquela cerimônia.
O comportamento selvagem de tais criaturas prendeu a atenção de Zarek por alguns curtos segundos.
— Então… assim são as aparições… — murmurou, enquanto assistia tamanha brutalidade.
Era apenas a segunda vez que se deparava com elas. Ainda assim, algo já se tornava evidente em sua mente. Aquela natureza que Zahara descrevera como insana, não encontrava eco nele.
Ele não se identificava.
Na verdade, ele já está quase certo… se pudesse escolher, gostaria de continuar sendo quem ele era. Seja lá o que fosse.
Enquanto sua visão vagava pela cena, ele acabou focando no rosto daquela pobre criança que, apesar de não estar mais entre os vivos, ainda era possível ver em seu rosto o horror que ele havia sentido antes de partir. Era como se fosse o resíduo do último sentimento de sua alma.
Seria o medo da morte?…
A dor?…
A sensação de abandono ao ver que não haveria ninguém para ampará-la daquele mal?…
Quem sabe…
Os olhos de Zarek repousaram sobre aquela expressão por um breve instante.
Foi nesse momento que, em meio a todo aquele caos, o rosto daquele pequeno humano lhe causou algo inesperado. Uma sensação de amargor se espalhou pela boca desprovida de paladar de Zarek, como um resquício de algo que ele não deveria ser capaz de sentir.
O sentimento o prendeu por um instante.
Quase o hipnotizou.
E não passou despercebido que aquela já era a terceira vez. A terceira vez em que o olhar de alguém parecia atravessá-lo. Olhos diferentes entre si — em idade, forma, origem — mas estranhamente semelhantes naquilo que evocavam.
Algo em seu peito oco se contorceu.
Por um breve momento, uma fagulha de pensamento tentou se formar. Uma ideia incompleta, nebulosa, como a lembrança de um conceito esquecido.
O que deveria ser aquilo?
Ele não chegou a concluir.
Foi quando, de súbito, um chamado instintivo encheu o seu interior, rompendo o fio daquele pensamento nascente antes que pudesse ganhar forma.
Como se um fio invisível puxasse sua atenção de maneira singela, porém irrecusável, Zarek voltou o rosto na direção do início da vila,
“Zahara…”, ponderou Zarek, internamente.
Aparentemente, ela já havia chegado à vila, e Zarek sentiu que já estava um pouco atrasado.
Seu rosto voltou-se novamente em direção às criaturas, que continuavam a se banquetear ininterruptamente e, dando uma última olhada para o rosto da jovem alma penada, ele seguiu em frente, sem perder mais tempo.
Ele voltou a deslizar entre as ruas e becos estreitos… e a cada esquina, a vila parecia se repetir em um labirinto sem fim, como se quisesse confundi-lo. Ele não tinha plena certeza de onde estava, afinal de contas, ele só havia estado lá uma única vez. E não tivera tempo para observar o ambiente.
Mas, uma lógica simples lhe servia de guia: se refizesse o mesmo trajeto que havia percorrido na fuga, só que agora em sentido inverso, acabaria chegando onde queria.
Conforme avançava, porém, as ruas começaram a mostrar mais do que apenas a névoa.
Entre os véus esbranquiçados, mais silhuetas passaram a se delinear. Algumas lembravam formas humanas; outras, no entanto, desafiavam qualquer tentativa de reconhecimento.
E mais corpos… muito mais corpos.
Mais pessoas que haviam ficado para trás, abandonadas no meio do caminho.
Zarek passou por uma mulher caída de bruços, os dedos cravados no barro, como se tivesse tentado se arrastar mesmo depois de já estar condenada.
Um pouco adiante, um homem estava encostado contra a parede de uma casa, o tronco rasgado de cima a baixo. O rosto ainda exibia uma expressão estranhamente serena — talvez a mente tivesse se partido antes que a dor chegasse.
E a cada passo, a contagem aumentava.
Foi então que um pensamento ecoou em sua mente:
“Parece que muitos não chegaram a ser evacuados…”
O pensamento não se dissipou de imediato. Ele se arrastou pela mente de Zarek enquanto suas patas continuavam avançando sobre o chão que começava a exibir uma mistura de lama e sangue.
“Será que a Zahara estava esperando por isso?”, ponderou, pensativo.
Mas algo em sua mente parecia almejar responder essa pergunta por si só.
Zahara não parecia ser do tipo misericordiosa.
Muito menos ingênua.
Provavelmente… ela havia antecipado a possibilidade de que nem todos escapariam.
Foi então que, ao dobrar a última esquina, ele finalmente chegou ao seu destino. A residência onde tudo havia começado.
O berço.

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