Olho para o céu rápidamente, a lua lentamente se ergue até o ponto mais alto, a lua de sangue está próxima…

    Olho para baixo, no exato momento em que uma espada em chamas se aproxima. Tento desviar, mas ela ainda atinge meu braço, o arrancando.

    Dou um salto para o telhado de uma grande casa de telhado triangular. Olho para baixo, avisto cinco pessoas, três homens e duas mulheres, todos vestindo roupas de couro escuras.

    Não são caçadores comuns da Ordem, são caçadores de elite.

    Olho rapidamente para minhas próprias roupas, que estão em um estado deplorável. Meu vestido Victoriano bege está rasgado, queimado pelos ataques daqueles caçadores, e a parte que ainda está intacta, está tingida de vermelha do meu sangue.

    Um deles, um loiro, segura um lampião à óleo.

    — Maldita besta! — Ele grita, erguendo o lampião. — Pare de fugir e aceite seu destino!

    Respiro pesadamente, meu braço começa a crescer novamente, porém mais devagar do que deveria, afinal, estou fugindo e lutando faz horas…

    — Por favor, isso não é necessário! Vós não precisais atacar-me, não desejo feri-los!

    — Silencio, vampira! Tuas palavras não nos afetam! — Uma mulher de cabelo longo, um passo atrás dos outros, estende sua mão na direção dos quatro e seus corpos são cobertos em uma luz dourada.

    Splendor! — O loiro ergue seu lampião, a chama amarela se torna branca, tão intensa que me cega por um momento.

    — Louis! Comigo! — O homem com a espada flamejante pula na minha direção.

    — Entendido, chefe! — O outro, com uma espada de gelo, me cerca por trás.

    Salto por cima dos dois, desviando por pouco do ataque conjunto.

    Pouso ainda em cima do telhado, mas perco o equilíbrio por um momento.

    — Preciso de sangue… só um pouco…

    Olho para os dois homens com suas espadas. Se pudesse, tomaria o sangue de um deles, mas…

    As Benções Divinas deles… são tão difíceis de se lidar.

    Mantenho meu olhar neles, estão cuidadosos, esperando por mim.

    Então, subitamente sinto um movimento atrás de mim, algo se aproxima.

    Me viro, notando uma mão se aproximando de meu pescoço, agarro-a, impedindo aquela mulher de cabelos negros e maquiagem roxa de me tocar.

    — Apodreça… — Com um sussurro, ela usa sua outra mão para tocar meu braço, que necrosa rapidamente.

    Dois vultos aparecem nos meus lados… maldição, preciso escapar.

    Dou um forte chute contra a mulher, seu corpo brilha em uma luz dourada, protegendo-a dos danos, mas ainda é arremessada para longe.

    Vejo as lâminas de fogo e gelo se aproximando, devo desviar? Não vai dar tempo…

    Uso minhas garras negras, bloqueio a espada flamejante, mas a gélida atravessa parcialmente minha mão apodrecida.

    Usando pouco da força que me resta, arremesso os dois.

    Ambos se recuperam no ar e caem de pé, no entanto, antes que possam fazer algo, me viro e corro, saltando dezenas de metros no ar e avançando o mais rápido possível do centro de Vienna.

    — Atrás dela!

    Os caçadores não me deixam em paz, continuam me seguindo… preciso despistá-los…

    ***

    A orquestra continua tocando, não consigo evitar de colocar uma mão diante de meus olhos, que desastre…

    Lanço um olhar fulminante na seção de baixos, com minha mão esquerda sinalizo sua entrada, mas…

    — CONTRABAIXOS! — Solto um grito irritado, parando de conduzir e interrompendo a prática. — Quantas malditas vezes tenho que repetir?! Estão atrasados, merda!

    Encaro os malditos contrabaixistas, já resta apenas uma semana para a apresentação da minha quinta sinfonia, e esses incompetentes continuam ferrando com meu trabalho.

    — Vocês ainda chamam a si mesmos de músicos? Vergonha! Cof! — Maldição… estou velho demais pra isso. — Vocês malditos não tem olhos nem ouvidos! Não conseguem me acompanhar nem quando ajudo vocês! — Dou um forte soco contra a estande de partitura.

    Começo a me sentir cansado, passo a mão na testa, sentindo-a molhada de suor.

    Apalpo meus bolsos e tiro dele um relógio, ao abri-lo, vejo uma arte de minha falecida mãe…

    Maldição… você me deu tanto apoio, e morreu antes mesmo de me ver finalmente conseguir a oportunidade de apresentar meu trabalho em um grande salão de concertos… se eu tivesse pagado médicos melhores para ela…

    Preciso terminar essa sinfonia, ela precisa estar perfeita no dia da apresentação, para que ela se sinta orgulhosa, para que ela a escute lá de cima…

    — Ah… Resolvam esse maldito problema até a próxima prática, se não estrangulo vocês… Cof! Cof! — Coloco a mão na minha boca e, ao tirá-la, percebo sangue. — Dis-Dispensados…

    Os músicos começam a ir embora, escuto alguns deles sussurrando entre si, me chamando de ‘convencido’, ‘ignorante’ e ‘velho cadavérico.

    Quando todos saem, solto o peso do meu corpo e me ajoelho, sentindo-me extremamente fraco…

    Acabo tossindo mais algumas vezes, minhas mãos magras ficam cobertas de sangue.

    — Ah… merda… — Com grande dificuldade, me levanto e caminho para fora do salão.

    O vento forte e frio faz todo meu corpo tremer… ótimo, já estou doente e raquítico, tudo que eu preciso é piorar.

    Olho para cima, o céu noturno está limpo, e a lua mais brilhante que o normal.

    Está tarde, preciso voltar pra casa…

    Começo a caminhar com dificuldade pelas ruas de Vienna, alguns homens estão terminando de colocar combustível e acendendo as lâmpadas, mas fora eles, não há quase ninguém fora.

    Passo na frente de uma loja de roupas, não consigo evitar e me olhar no vidro.

    Ah… que terrível… sou basicamente um cadáver ambulante… Meu cabelo branco e bagunçado, meus olhos negros vazios e fundos, e meu corpo totalmente magro…

    — Eu… realmente vou morrer, né?

    Continuo andando enquanto reflito sobre minha vida fracassada.

    Comecei a compor pouco depois dos vinte, já faz trinta anos? E mesmo assim, nunca fui capaz de me tornar tão conhecido quanto Mozart, na verdade não estou nem perto.

    Nunca ganhei muito com comissões, apenas o suficiente para sobreviver. Ironicamente, justo agora que recebi uma comissão grande de um burguês influente, adoeço terrivelmente.

    Eu preciso apresentar minha quinta sinfonia antes de morrer, afinal, escrevi o último movimento em homenagem à minha mãe…

    Mas… nesse ritmo…

    Dobro uma esquina, entrando em um beco estreito.

    Cof! Cof! — Me apoio contra a parede, quase perdendo as forças. — Malditos médicos inúteis! Sanguessugas!

    Preciso viver… faria qualquer coisa para viver mais um pouco, nem que eu tenha que fazer um pacto com o diabo…

    Continuo caminhando com dificuldade, cada passo é lento, vacilante.

    Então, naquele beco, percebo uma mulher de cabelos castanhos presos em um coque apoiada contra a parede, de costas para mim, posso perceber que suas roupas estão rasgadas e… meu Deus! Es-Está sangrando!

    — Ei, tudo bem? — Me aproximo dela, estendendo minha mão para ela.

    Então, ela se vira, revelando olhos de uma cor que nunca vi antes: vermelho, são quase como rubis.

    ***

    — Precisa de ajuda? — Aquele idoso parece preocupado.

    — Estás doente… — Imediatamente sinto seu cheiro pútrido. — Estás morrendo.

    — Hmph, que rude… esses jovens de hoje em dia… — Ele cruza os braços e me encara irritado. — O que aconteceu com você?

    Minhas feridas não fecham… preciso de sangue, mas aquele humano… está tão doente que não sei se me ajudará muito.

    Mas, se eu não fizer nada, os caçadores me encontrarão…

    — Preciso de… — Avanço na sua direção, o seguro com firmeza e mordo seu pescoço, sugando seu sangue.

    — O quê?! Que porra?! — Ele se debate, tenta se soltar em vão.

    Sou cuidadosa e tento não tirar o suficiente para matar, um litro deve funcionar.

    No entanto percebo seus braços perdendo força, seu corpo se tornando mole.

    Paro de mordê-lo, percebendo que, caso continue, acabarei o matando.

    Minhas feridas começam a se fechar lentamente, mas ainda não é o suficiente, este homem está tão doente que não há vitalidade o suficiente em suas veias.

    — Me desculpe, tu estás bem? — O ajudo a se manter em pé.

    — Que merda… de criatura você é? — Seu rosto está pálido, sua voz mal sai.

    — Eu…

    Antes que possa falar, escuto passos se aproximando, cinco pessoas.

    Encaro aquele homem, sentindo-me culpada pelo que farei.

    — Desculpe-me pelo que farei agora. — Viro seu corpo, uma mão o segura pelo pescoço com minhas garras ameaçando cortá-lo, já a outra segura um de seus braços com força.

    — O que você…

    Momentos depois, duas pessoas aparecem na minha frente, duas atrás, e uma no topo das construções ao redor, bloqueando qualquer rota de fuga daquele beco.

    — Não se mexa, besta! — O loiro, ao lado do líder, usa seu lampião para iluminar o beco.

    — Ela tem um refém, covarde… — Louis e a mulher de cabelo longo se aproximam do outro lado.

    — Se aproximem, e matarei este homem. — Pressiono minha garra contra seu pescoço, um filete de sangue escorre.

    Os quatro param de andar, me encarando atentamente.

    Olho para cima em expectativa, então, a lua começa a se transformar, seu brilho prateado lentamente começa a ser tingido de vermelho.

    — Chefe! — Louis aponta sua espada de gelo para mim. — Temos que matá-la antes que o eclipse a fortaleça!

    — Não! — A mulher ao seu lado o segura pelo ombro. — Precisamos salvá-lo!

    Engulo em seco, neste ritmo, consigo prever que eles podem decidir sacrificar o refém para me atacar.

    — Por favor… não me mate… — Com lágrimas nos olhos, ele sussurra, quase sem forças para sequer falar.

    Vê-lo dessa maneira faz meu coração apertar… o que estou fazendo? Usando um humano como refém? Eu vivo para salvá-los, não os matar.

    Por que estou lutando ainda…? Tudo seria muito mais simples se eu morresse, afinal, minha existência só causou dor.

    Quantos humanos falhei em salvar através da vampirização? Humanos que perderam totalmente a sanidade e tive que eu mesma matar?

    Tentei tantas vezes, conversei com tantos outros vampiros experientes, mesmo assim…

    Seria melhor se eu morresse…

    — Este velho já está no bico do corvo. — Louis dá um passo adiante. — Se ele morrer agora não vai fazer diferença.

    Olho para trás, o líder está hesitando, considerando a sugestão.

    Não… por mais que eu deseje, não posso morrer, minha morte causará um mal maior do que se eu continuar viva, afinal, sou uma das únicas capazes de impedir a facção de Franz… A guerra que minha morte causaria definitivamente selaria nosso destino…

    Lanço outro olhar para cima, a lua está quase completamente vermelha.

    Sinto minhas forças aumentando, mas ainda não é o suficiente…

    O que eu faço? Mato e sugo o resto do sangue deste homem?

    Não, não posso fazer isso… Não apenas o matarei, como seu débil sangue ainda não será capaz de me revitalizar, então o que…

    — Tem razão… — O líder segura sua espada flamejante com força. — Sinto muito, senhor, mas não podemos deixá-la escapar.

    Tanto da minha direita quanto da esquerda, os caçadores se aproximam lentamente.

    — Não! Por favor!

    Ele se debate, mas está tão fraco que eu seria capaz de segurá-lo mesmo se fosse uma humana.

    Se fosse humana…

    Beber seu sangue não bastará, mas há algo que posso fazer…

    — Me desculpe, senhor, mas preciso fazer isso…

    Assim como todas as centenas, não milhares de tentativas falhas, não conseguirei transformá-lo em um vampiro, mas não importa, mesmo falhando, ainda terei o que preciso.

    — O que você vai…

    — Shh… — Agarro seu rosto com firmeza, então, forço meu dedo indicador a entrar em sua boca.

    Gulp… Cof! Cof! — Ele tenta lutar contra, mas faço meu dedo ir ainda mais fundo.

    — Beba…

    Sua língua acaba, inconscientemente, lambendo meu dedo coberto de sangue.

    O escuto engolindo e, no momento seguinte, todo seu corpo fica tenso.

    — Essa maldita está transformando ele!

    — Parem-na agora!

    Vejo todos os caçadores, exceto aquela no telhado, avançando na minha direção.

    Mas já é tarde…

    O idoso começa a babar, seus músculos incham, sua pele se torna vermelha, as veias de todo seu corpo parecem prestes a explodir, suas unhas crescem até se tornarem garras negras, seus dentes se transformam em presas, e seu rosto começa lentamente a adquirir o formato de um morcego.

    — Tu não se transformarás em um vampiro, isso é óbvio. Apenas necessito que tu falhes e se transformes em uma gárgula…

    Sim, agora a luta não é mais um contra cinco.

    Além disso, uma gárgula é um ser irracional, adicionei uma variável imprevisível que quebrará a organização desses caçadores.

    — ARGH! — A gárgula grita…

    Não, a transformação ainda não está completa, ele ainda tem alguma humanidade.

    Está resistindo por mais tempo do que o normal, a maioria já teria se transformado completamente.

    Encaro os dois caçadores atrás e me preparo para lutar com eles.

    Estou prestes a avançar, quando… tudo fica vermelho?

    Encaro o céu, o eclipse, a lua de sangue está com um tom escarlate ainda mais profundo, seu brilho torna tudo vermelho: o céu noturno, as nuvens, o chão…

    — É como naquela noite… — Minha voz quase não sai pela surpresa, ou melhor…

    Medo…

    Memórias indesejáveis, que há muito tento esquecer, surgem na minha mente.

    Balanço minha cabeça… Não posso pensar nisso, tenho que focar no objetivo.

    Encaro os caçadores, estão todos em choque olhando para cima.

    A gárgula ainda está se debatendo, mas percebo sua pele começando a se tornar negra.

    É agora.

    Flexiono minhas pernas e pulo até o telhado.

    Avanço naquela que está isolada, ela ainda está olhando para cima, para a lua de sangue, é minha chance.

    — Lena! Cuida…

    Ela se vira na sua direção, vejo-a flexionar os joelhos para desviar, contudo…

    — Sinto muito… — Estendo meus dedos no formato de uma lança e miro seu peito. — Eu tentei…

    Seus olhos se arregalam no momento em que ela percebe que não será capaz de desviar.

    Então, minha mão atravessa seu coração.

    Cof, cof! — Ela cospe sangue, lágrimas se formam em seus olhos. — Guh… Eu morrerei, mas te levarei comigo…

    Com um resquício de determinação, ela segura minha cabeça com força, consigo sentir minha pele apodrecendo, se tornando negra.

    — Eu vou… conseguir… eu vou…

    Contudo, conforme sua vida se esvai, suas mãos me soltam.

    — Descanse em paz, caçadora, fizeste seu melhor… — Tiro minha mão de seu peito e, segurando-a gentilmente, a deito no chão.

    — LENA! — Quando olho para trás, percebo o líder subindo atrás de mim. — Merda! — Ele corre na minha direção, sozinho.

    — Nós… — Tento conversar, contudo, quando percebo seu olhar, sei que este encontro apenas terminará com um lado completamente aniquilado.

    — Morra! — Ele me ataca com sua espada flamejante, seus movimentos estão mais velozes, poderosos, contudo, ataca sem pensar.

    Desvio uma, duas, três vezes, quando percebo uma brecha e rasgo seu peito.

    — Guh! Merda! — Ele salta para trás, apertando com força a ferida.

    Avanço contra ele, não posso dar tempo para que se recupere.

    Splendor!

    — Droga… — Uma luz forte, que vem de trás do líder, me cega.  — Não se preocupe, chefe, estou aqui! Vou me vingar pela Lena!

    Escuto-o se aproximando…

    — Idiota! Espera!

    — Morra, besta!

    — Quando tu privas vosso oponente de um sentido… — Pulo para a direita e estendo minha mão, agarrando e erguendo algo no ar. — Não se esqueças que ele tem outros quatro…

    — Guh! Me… solta…

    Ele se debate, tenta se soltar, contudo, antes que possa fazer algo, aplico mais força na minha mão e quebro seu pescoço.

    Creck!

    Solto seu corpo, ao mesmo tempo que minha visão retorna e…

    — FILHA DA PUTA! — Uma espada se aproxima, rápida… Não conseguirei desviar.

    — Droga… — Ergo meus braços juntos na frente do meu pescoço. — Argh! — A lâmina atravessa e arranca um, contudo para na metade do outro.

    Seguro sua espada com força, impedindo que ele a use novamente.

    — Não preciso disso! — Ele ergue seu punho envolto em chamas e me soca.

    O golpe me atinge em cheio no rosto, que afunda perante a força.

    — Morra! — Ele afasta seu punho e prepara um segundo soco. — Vai pagar pelo que…

    Avanço subitamente na sua direção e mordo seu pescoço, cravando meus dentes fundo e arrancando um grande pedaço de carne.

    — O… quê…? — Ele me encara, confuso, como se a ideia de perder fosse algo impossível, esquecida.

    Sinto seu sangue em minha boca, eu poderia devorá-lo e recuperar completamente minhas forças, contudo, se eu engolir o sangue de um caçador…

    Imediatamente viro meu rosto e cuspo seu sangue, sem engolir nem mesmo uma gota.

    Ele cai para frente e eu o abraço, colocando-o no chão devagar.

    — Por que você… não bebe nosso…

    Sua fala permanece suspendida no ar, é interrompida, assim como sua vida.

    — Que vossa alma encontre descanso… — Fecho suas pálpebras, dessa maneira, tu estarás apenas dormindo.

    Fico de pé, observando os cadáveres dos três caçadores e sentindo um aperto em meu coração.

    — A gárgula… — Escuto rugidos vindo de baixo. — Precisarei dar um fim nela também…

    Caminho até a borda do telhado e olho para baixo, a gárgula conseguiu tranquilamente matar os dois caçadores restantes, se alimentando de um deles nesse exato momento.

    Dou um passo adiante e caio de volta no beco, me aproximando da besta que criei.

    — Seis pessoas… — Caminho lentamente na direção da gárgula, meu braço já cresce novamente. — Seis vidas que roubei apenas nessa noite…

    Quão irônico… vampiros podem tornar outras pessoas imortais com seu sangue, a taxa de sucesso nem é baixa… a maioria dos humanos conseguem se vampirizar, contudo por que eu…

    Por que nunca consegui transformar ninguém depois de tantos séculos? Tantas tentativas?

    Este sangue amaldiçoado que corre em minhas veias, o sangue daquele homem…

    ROAR! — A gárgula ruge, se vira na minha direção e avança.

    A criatura já está quase totalmente transformada, seu corpo duplicou de tamanho e sua pele está tão escura quanto uma noite sem estrelas nem lua.

    Ela tenta me segurar com ambas as garras, contudo eu agarro seus braços firmemente, aplicando tanta força nas minhas mãos que a criatura solta gemidos de dor, tentando se libertar.

    — Obrigada pela ajuda… — A forço contra o chão, ergo meu braço e preparo o golpe final. — E sinto muito…

    Hesito por um breve momento, graças àquele senhor, fui capaz de viver, contudo estou retribuindo o favor ao matá-lo…

    — Passaste por tantos desafios, se esforçaste tanto para conseguir viver com algo que amava, mesmo assim não conseguiste se tornar conhecido, vossas comissões apenas rendiam-te o suficiente para sobreviver.

    As memórias dele passam rapidamente na minha cabeça, aquilo só torna meu trabalho ainda mais difícil.

    — Adeus… — Uma lágrima escorre pelo meu rosto — E que sua alma…

    — Per…séfone… Justina…

    O quê…?

    A gárgula… falou? O meu nome?

    Isso… é impossível… qualquer resquício de racionalidade já teria se apagado completamente.

    Sem contar que… é o meu nome… Isso significa que… ele viu minhas memórias?

    — Justina… Perséfone…

    Vejo lágrimas em seus olhos… Isso realmente está acontecendo?

    Minha mão erguida treme, sinto meu coração acelerar.

    — Me chamaste?! — Agarro seu rosto, fazendo-o me encarar nos olhos. — Lute! Olhe para mim, e não desista!

    — Aahh…

    — Lembra-te de quem tu és!

    Por favor… Por favor!

    — Eu… ser compositor…

    Seu corpo começa a reduzir de tamanho e sua pele lentamente retorna ao tom branco.

    — Não desista! Tu consegues! Por favor! — Começo a chacoalhá-lo. — Lembra-te de vosso sonho! Tu queres se tornar tão conhecido como Mozart!

    — Eu querer… quero ser como… Mozart… — Seu cabelo branco se torna preto, e seus olhos, escarlate. — Não… serei melhor do que ele!

    Finalmente, toda bestialidade desaparece, tudo que sobra é um jovem homem adulto com garras negras e longas.

    — Ah… Ah… — Está respirando pesadamente, seu rosto está coberto de suor.

    — Impossível… — Realmente deu certo?! Aquele homem se tornou um vampiro?! — Me diga em que ano estamos!

    — Ah… três de janeiro de… 1787…

    — Tu… conseguiste! — Sem pensar duas vezes, o abraço calorosamente. — Ainda bem… — Lágrimas escapam de meus olhos, não sou capaz de pará-las, afinal…

    — Ah, eu… — Confuso, ele me abraça de volta. — Quê…? Por que estou chorando?

    Eu finalmente vampirizei alguém, finalmente salvei alguém da morte certa!

    Com meus olhos embaçados, olho para cima. A lua ainda brilha, tingindo todo o mundo de vermelho.

    O sangue daqueles que matei no telhado começa a escorrer, pingar, chover sobre nós.

    Então, embaixo da lua escarlate e da chuva de sangue, me afasto um pouco, encarando aquele senhor… não, aquele homem diretamente nos olhos.

    — Parabéns por teres se tornado um vampiro… Vlad Dracula!

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