Finalmente alcanço um pequeno castelo parcialmente destruído e, até onde eu sei, abandonado.

    Pouso no topo da muralha que ainda permanece em pé, ao lado de Perséfone.

    Algumas torres permanecem intactas, outras não tiveram tanta sorte e desmoronaram parcialmente.

    — Castelo Kreuzenstein? Esse lugar não foi destruído e abandonado durante a Guerra dos Trinta Anos?

    Perséfone, entretanto, permanecendo em silêncio, salta para baixo, caminhando até uma porta dupla de madeira destruída que leva até um pequeno salão bagunçado. Dentro, há uma mesa no centro, pratos, talheres, armas e cadeiras jogados por aí, além de bandeiras rasgadas ou queimadas.

    — Marechal von Wilczek? — Sua voz ecoa pelos salões vazios. — Sou eu, Proserpina.

    Me mantenho atento, tentando ouvir, cheirar, ver qualquer coisa.

    Então, de cima, o som de um tecido esvoaçando contra a brisa das janelas quebradas ecoa.

    Ao olhar para o teto, vejo um homem de cabelo encaracolado e olhos escuros descendendo até o chão, bem diante de Perséfone.

    Suas roupas são um tanto trabalhadas, o esperado de um burguês.

    — Proserpina… a quanto tempo… — Ele realiza uma breve reverência com um sorriso cordial. — E este cavalheiro atrás de ti?

    — Dracula, este é Heinrich Wilhelm von Wilczek. Este é Vlad Dracula, um compositor.  — Ela dá um passo para o lado para que possamos nos encarar diretamente. — Eu o vampirizei hoje.

    — Como? — Sua expressão amigável imediatamente se transforma para uma de surpresa. — Então finalmente conseguiu transformar alguém?

    — Sim, apesar de eu… não saber como me sinto quanto a isso… — Ela encara o chão com uma expressão complicada.

    Até quando ela ficará assim? Eu não fiz nada de errado…

    — Ora, neste caso, devemos comemorar! Venham! — Ele abre seus braços, e atrás de mim, além de uma porta na direita salão, entram outras pessoas.

    Da direita, uma mulher loira com penteado parecido de Perséfone e olhos azuis se aproxima do marechal.

    — Maria Charlotte, sua maravilhosa esposa, prazer. — Ela basicamente se agarra nele, não deixando que ele se afaste.

    Atrás de mim, pela porta que viemos, surge um homem de olhos azuis e cabelo curto, e uma mulher de cabelo escuro, ambos de aparência mais jovem.

    — Joseph Baltazar von Wilczek, e esta é minha esposa, Maire Antonie Gräfin Kottulinský.

    Sua esposa se encolhe atrás dele, murmurando algo que eu, mesmo com minha audição aprimorada, não fui capaz de ouvir.

    — Como deve ter percebido, meu caro convidado, Joseph é um de meus filhos, o outro não está presente no momento.

    Surpreso, encaro todos da sala, mas mais especificamente o marechal Heinrich, uma pessoa que eu acreditava ter morrido décadas atrás, quando eu ainda era uma criança.

    — Todos vocês são vampiros? E este castelo, vocês vivem aqui?

    Percebo que nenhum deles tem olhos vermelhos, como eu e Perséfone.

    — Exato, bem, como sabe, os humanos acham que eu morri, portanto devo tomar cuidado para não ser reconhecido, por isso passo a maior parte do meu tempo aqui.

    — Certo, e por que não reformar este lugar? Não seria mais agradável?

    — A Ordem dos Caçadores é sagaz, filhos da puta, mas sagaz. — Joseph dá um passo adiante. — Não há por que eles procurarem por vampiros em um lugar abandonado, a maioria de nós, com razão, é orgulhosa demais para viver em ruínas.

    — Então vocês se escondem como ratos em um buraco destruído… — Sinto-me frustrado com aquilo, por que se esconder dos caçadores? — Somos muito superiores, poderíamos exterminá-los com facilidade!

    — Novamente falando sobre carnificina… — Escuto a voz quase inaudível de Perséfone.

    — Viu só, pai? Ele pensa como eu, deveríamos juntar o maior número de nós e acabar com esses arrombados fudidos!

    — E-Eu co-concordo com me-meu esposo…

    Perséfone, Maria e Heinrich nos encaram com um olhar complicado, um tanto triste.

    — Isso não cabe a nós decidirmos… Sabem que Paris Lodron não concorda com isso…

    — Mas pai!

    — Por hora, deveríamos deixar estas conversas pesadas de lado e aproveitar um banquete, em comemoração pelo nascimento de Vlad Dracula como um vampiro!

    Joseph segue a sugestão hesitantemente, e todos nós, guiados por Heinrich e sua esposa, caminhamos até a “sala de jantar”, que fica no subsolo onde seria os calabouços e prisões.

    Me deparo com uma visão patética. A sala de jantar está bagunçada, coisas quebradas jogadas por aí, poeira em cima dos móveis, nenhuma iluminação além de uma singela vela…

    Eles precisam manter esse lugar assim, com um aspecto abandonado, para que caçadores não suspeitem de sua existência.

    Ridículo… nós somos vampiros, superiores a qualquer humano ou caçador, por que nos escondemos?

    Não consigo entender…

    Me sento naquela mesa e me preparo para nossa refeição. Nos trazem comida normal, nada de carne ou sangue humano, um jantar totalmente triste e decadente.

    ***

    Sangue, carnificina…

    O mármore branco, as paredes, chão e teto estão totalmente vermelhos, há membros decepados, órgãos espalhados por todo lugar.

    Respirando pesadamente, decepo a cabeça da última gárgula, finalmente acabou.

    Olho ao redor… demora um pouco para minha mente processar o que estou vendo, e quando percebo…

    Desespero…

    — Ninguém… conseguiu… — Sinto meu coração apertar, doer. Agarro meu peito com força. — Eu condenei… todas essas pessoas…

    Minha cabeça gira, caio de joelhos quando sinto minhas pernas perdendo forças.

    — Por quê…? É culpa deste sangue que corre em minhas veias… sangue daquele homem maldito…

    Sinto nojo e desprezo de mim mesma, da minha existência profana.

    Levo ambas minhas mãos até meu rosto, lágrimas começam a escapar de meus olhos.

    Por quê? Por que sou a única Vrykolakas que não consegue transformar ninguém? Por que justo eu?

    Não consigo salvar ninguém…

    Ah… seria melhor se eu simplesmente nunca tivesse existido, seria melhor se eu apenas morresse…

    — Ora, o que temos aqui?

    Passos ecoam, mesmo sem me virar, consigo sentir o cheiro do sangue daquela pessoa atrás de mim.

    É um sangue parecido, mas diferente do meu pai.

    — Que pena, não é mesmo, sobrinha? Tu não conseguiste salvar ninguém… — Ele se aproxima cada vez mais. — Por que insistes em lutar contra nós? Nós, Vrykolakas, deveríamos nos unir todos e matar todos os humanos que possuem um Icor, todos esses Deuses falsos.

    Seria melhor se eu morresse… mas não agora.

    Antes… preciso acabar com o reinado de terror de meu pai.

    E hoje, começarei com você, tio…

    ***

    — …cula… Dracula!

    Uma voz me desperta, olho pra cima, percebendo Heinrich e sua família.

    Ah… é mesmo, estávamos em um “banquete”.

    — Peço desculpas, estava distraído… — As memórias de Perséfone bagunçam minha mente, meus sentimentos… Não, os sentimentos dela…

    Inconscientemente lembro-me dos caçadores que eu matara… matei, mais cedo.

    Suas famílias, amigos… quantas pessoas sofrerão com o que eu fiz?

    O que é isso? Estou sentindo culpa? Não, isso é ridículo! Eles tentaram me matar! Mereciam morrer…

    Sim, mereciam…

    — Onde está Perséfone? — Olho ao redor, não a encontro.

    — Ela sa-saiu mais cedo, não se le-lembra? — Marie se aproxima, mas logo se afasta. — Está tu-tudo be-bem?

    — As memórias de Perséfone… — Toco minha testa, minha mente dói.

    — Ah, isso é o esperado, ainda mais de Proserpina, ela é a vampira mais velha de todos nós. — Heinrich ajuda sua esposa a limpar a mesa.

    — Ela disse onde foi?

    — Creio que não necessita se preocupar com isso, rapazinho, afinal… — Maria toca meu ombro, encarando-me gentilmente. — Você é o primeiro vampiro que ela conseguiu criar, vocês não ficarão afastados por muito tempo.

    Ela diz isso, mas as memórias de Perséfone me dizem outra coisa.

    Eu matei pessoas, mesmo quando ela pediu, quase implorou, que eu não o fizesse.

    A única pessoa que ela salvou foi alguém como eu, que mata aqueles que me desafiam.

    Mas não estou errado, eles mereciam morrer.

    Mereciam, mas… eu a decepcionei.

    Droga, que merda, por que estou me sentindo assim? Sentindo pena de humanos que ousaram me atacar? Esse não sou eu.

    Não me arrependo, porém sinto que talvez eu deva me desculpar com ela.

    — Peço desculpas, preciso despedir-me mais cedo. — Caminho rapidamente para fora daquele castelo.

    — Certo, volte sempre que puder. E caso tenha problemas com caçadores, esconda-se aqui se estiver perto.

    Aquelas palavras de Heinrich me travam no lugar.

    Voltar, esconder? Ridículo…

    — Isso não será necessário… — digo sem me virar, Heinrich e Maria, esses fracos me dão nojo.

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