Capítulo 17 – As Lembranças de Um Herói
O Ano 460
Hiroshi Ignivor era então um jovem herdeiro da Casa Ignivor, uma família de barões não tão respeitados e nem tão ricos de Imperion. Ele acabara de completar vinte anos, a idade em que todos os homens eram obrigados a se alistar no exército do reino. A guerra já durava vinte anos, e parecia não haver fim à vista.
Naquele dia, o céu estava nublado, refletindo o peso da ocasião. Hiroshi caminhava pelas ruas movimentadas da capital, suas botas batendo contra a pedra enquanto ele fazia o caminho para o quartel. Mas antes de se apresentar, ele tinha um lugar especial para visitar.
Uma pequena padaria de esquina, com um letreiro de madeira simples que balançava ao vento. Era um lugar comum para muitos, mas para Hiroshi, era onde vivia a garota que ele amava.
Eiko estava atrás do balcão, seus cabelos negros presos em uma trança simples, enquanto atendia um cliente. Quando ela viu Hiroshi entrar, seu rosto iluminou-se, mas seus olhos denunciavam a tristeza que ela sentia.
– Você veio… – disse ela, sua voz suave, enquanto terminava de entregar o pão ao cliente.
– Eu não podia ir sem te ver – respondeu Hiroshi, aproximando-se do balcão. – Hoje é o dia, Eiko.
Ela assentiu, desviando o olhar por um momento, como se tentasse segurar as lágrimas.
– Eu sabia que esse dia chegaria, mas… – ela respirou fundo, tentando manter a compostura. – É difícil aceitar que você vai para a guerra, Hiroshi.
Ele tocou a mão dela por sobre o balcão, os dedos calejados encontrando os dela, tão delicados.
– Eu irei voltar, Eiko. Não importa o que aconteça, eu vou voltar para você.
Ela levantou os olhos, cheios de determinação e tristeza ao mesmo tempo.
– Você promete?
– Eu prometo.
Eiko mordeu o lábio inferior, hesitante, mas então abriu uma gaveta atrás do balcão e pegou algo pequeno e cuidadosamente embrulhado em um pano de linho.
– Quero que leve isso com você.
Ela desdobrou o pano, revelando um pequeno pingente em forma de chama, esculpido em prata. Ele era simples, mas brilhava como se tivesse sido feito com o maior cuidado.
– É um símbolo de proteção – explicou Eiko, segurando o pingente como se fosse algo precioso. – Dizem que ele mantém o portador seguro nas batalhas. Eu… fiz isso para você.
Hiroshi olhou para o presente, surpreso, e então para Eiko. Ele pegou o pingente com cuidado, segurando-o como se fosse a coisa mais valiosa que já recebera.
– Eiko… – começou ele, mas a voz falhou por um momento. Então, colocando o pingente em volta do pescoço, ele continuou: – Obrigado. Vou levá-lo comigo, sempre.
Ela sorriu, mas as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Hiroshi, então, deu a volta no balcão e a abraçou, segurando-a com força, como se quisesse gravar aquele momento em sua memória.
– Por favor, volte para mim, Hiroshi – sussurrou ela, segurando firme a camisa dele.
– Eu voltarei – repetiu ele, apertando-a com mais força.
Depois de alguns instantes, eles se afastaram. Eiko limpou as lágrimas e tentou sorrir novamente, mesmo que a dor fosse evidente.
– Você deve ir. Não quero que se atrase.
Hiroshi assentiu, dando um último olhar para ela antes de sair pela porta.
Enquanto ele caminhava em direção ao quartel, o peso do pingente contra seu peito parecia trazer um conforto inesperado. Ele sabia que a guerra seria brutal e implacável, mas aquele pequeno símbolo de proteção era um lembrete de que ele tinha algo pelo qual lutar.
Ao chegar ao quartel, o som de vozes e armas preenchia o ar. Soldados treinavam, oficiais gritavam ordens, e o caos organizado do exército de Imperion estava em plena exibição. Hiroshi se apresentou, sua expressão determinada, pronto para enfrentar o que viesse.
Mas em sua mente, o rosto de Eiko permanecia, junto com a promessa que ele havia feito: ele
voltaria.
O Quartel de Pyronia
O quartel militar de Pyronia era um lugar austero, com paredes de pedra cinzenta e um portão de ferro que parecia intransponível. Hiroshi atravessou os portões com passos firmes, segurando o pingente de chama que Eiko lhe dera momentos antes.
Dentro, o caos reinava. Recrutas recém-chegados se amontoavam em filas desorganizadas enquanto oficiais impacientes gritavam ordens. Hiroshi dirigiu-se à recepção, onde um sargento corpulento estava sentado atrás de uma mesa desgastada, preenchendo papéis com uma expressão de desdém.
– Nome? – perguntou o sargento, sem levantar os olhos.
– Hiroshi Ignivor – respondeu ele, mantendo a voz firme.
O sargento finalmente olhou para ele, os olhos avaliando-o de cima a baixo.
– Mais um pirralho rico buscando por glória.
Hiroshi manteve a compostura, embora o tom do sargento fosse ácido.
– Estou aqui para cumprir meu dever – respondeu ele simplesmente.
O sargento bufou e empurrou um formulário para Hiroshi preencher.
– Assine aqui. Não que vá fazer muita diferença. A maioria de vocês não dura mais do que algumas semanas.
Ignorando o comentário, Hiroshi pegou a pena e assinou seu nome no documento. Assim que terminou, o sargento apontou para uma porta ao fundo.
– Vá para o pátio. Eles vão te mandar para os alojamentos. Próximo!
Hiroshi respirou fundo e seguiu para o pátio, onde o treinamento era visivelmente intenso. Lá, em meio à agitação, ele ouviu uma voz familiar chamando seu nome.
– Hiroshi!
Ele virou-se e viu um jovem de cabelos castanhos e olhos castanhos profundos acenando. Era seu velho amigo Harland Ferres, herdeiro da Casa Ferres, uma família de baronetes de Imperion. Harland correu até ele, vestindo um uniforme de recruta já desgastado pelo uso.
– Você chegou, afinal! – disse Harland, sorrindo, embora houvesse cansaço em seus olhos.
– Harland, quanto tempo! – Hiroshi apertou a mão do amigo com força. – Pensei que você ainda estivesse em casa.
– Já faz um mês que estou aqui – explicou Harland, cruzando os braços. – Queria ter vindo antes, mas tive que deixar minha esposa e meu filho recém-nascido em segurança. Você sabe como as coisas são.
Hiroshi concordou, sentindo o peso das palavras do amigo. Harland sempre fora um homem de família, mas a guerra não perdoava ninguém.
Antes que pudessem dizer mais, outro amigo se aproximou. Era Rylen Tharne, um plebeu de uma família de fazendeiros. Seu rosto estava suado e suas mãos calosas, resultado de anos trabalhando no campo.
– Hiroshi! – Rylen exclamou, com um sorriso caloroso.
– Rylen, você também está aqui?
– Não tive escolha – respondeu Rylen, esfregando a nuca. – Deixei minha esposa e minha filha de cinco anos na fazenda. Não sei como vão se virar sem mim, mas… – Ele suspirou, olhando para os campos de treinamento. – Não somos mais donos de nossas vidas, não é?
Os três sentiram o peso da realidade que todos compartilhavam. Ele colocou uma mão no ombro de Rylen.
– Vamos passar por isso juntos. Não importa o que aconteça, nós cuidaremos uns dos outros.
Harland concordou, estendendo a mão para que os três formassem um círculo.
– Pelo futuro de nossas famílias.
– Pelo futuro de Imperion – completou Hiroshi, com determinação nos olhos.
Assim, unidos pela amizade e pela determinação, os três se prepararam para o treinamento que os aguardava.

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