Capítulo 23 – O Segredo da Casa Ignivor
No ano 500 o amanhecer tingia os céus de Fiâmoria com tons dourados e carmesim, enquanto a fortaleza despertava para mais um dia sob os ventos cortantes do norte. No interior da mansão Ignivor, na sala de reuniões, Hiroshi estava sentado à cabeceira de uma grande mesa de carvalho escurecido pelo tempo. Mapas, pergaminhos e relatórios estavam espalhados diante dele, desenhando o teatro de guerra que se aproximava.
Diante do duque, cinco homens mantinham-se de pé, atentos às instruções que ele passava. Eram os espiões encarregados da missão de infiltração, liderados por Akihiro Takeda, um homem de feições marcantes, com olhos estreitos e escuros, pele pálida e cabelos lisos e negros, que caíam sobre seus ombros. Sua mãe era de Imperion, mas seu pai vinha de Luminára, a terra dos guerreiros do leste, um povo conhecido por sua disciplina. Essa herança lhe dava um olhar sempre calculista e uma postura impecável.
Ao lado dele estavam os outros quatro integrantes da equipe:
— Rael Vascon, um homem alto e magro, de cabelos curtos e castanhos, com um olhar astuto. Exímio rastreador, conhecia os caminhos mais escondidos e as melhores formas de se mover sem ser notado.
— Taro Kimura, baixo e atarracado, mas extremamente ágil. Seu rosto era marcado por cicatrizes, lembranças de batalhas passadas. Especialista em venenos e assassinato silencioso.
— Erwin Falk, um loiro de olhos cinzentos, de aparência refinada, que poderia se infiltrar em qualquer corte fingindo ser um diplomata ou mercador. Sua lábia era tão afiada quanto sua adaga.
— Igor Drakov, o mais robusto do grupo, de pele clara e barba cerrada. Um guerreiro disfarçado de espião, capaz de enfrentar qualquer um caso a furtividade falhasse.
Hiroshi percorreu o olhar sobre cada um deles e então continuou:
— O imperador Magnus chegará à fronteira em dois dias. Isso significa que nossa janela de ação é curta. Vocês se infiltrarão em Drakmor e descobrirão os números, rotas de suprimentos e pontos fracos do país. Sigam o plano e mantenham-se nas sombras. Se forem descobertos, não tentem heroísmos. Voltem vivos.
Akihiro assentiu firmemente.
— Entendido, meu senhor.
— Vocês têm até o fim do dia para se prepararem e se despedirem de suas famílias. Partam ao anoitecer.
Os homens saíram da sala em silêncio, cada um já imerso em seus próprios pensamentos. Quando a porta se fechou, Hizuke, inclinou-se sobre a mesa com um olhar curioso.
— Há alguns dias recebi um corvo da mansão Ignivor na capital. Era uma mensagem de Edward… Ele disse que vai se casar.
Hiroshi sorriu de canto, cruzando os braços.
— Sim, é verdade. Ele vai se casar com a herdeira da família Ferres.
Hizuke arqueou a sobrancelha.
— Então o garoto finalmente tomou coragem… Lianna Ferres é uma boa moça. O senhor deve estar orgulhoso.
Hiroshi ficou em silêncio por um momento, perdido em pensamentos. Então, como se uma ideia lhe ocorresse, ele murmurou:
— Eu preciso de um presente de casamento para eles…
— E o que tem em mente?
— Algo digno de um Ignivor.
Hizuke estreitou os olhos.
— Você está falando do cofre, não está?
Hiroshi assentiu.
— Sim. Vamos até ele.
Os corredores da mansão Ignivor eram silenciosos àquela hora. Hiroshi e Hizuke caminharam até uma sala pouco utilizada nos fundos da propriedade. À primeira vista, era apenas uma biblioteca, com estantes forradas de livros antigos e móveis cobertos de poeira.
Hizuke franziu a testa.
— Onde está a porta?
Hiroshi sorriu.
— Não existe porta.
— O quê?
Hiroshi se aproximou de uma parede aparentemente comum e passou a mão sobre ela. Com um leve gesto, parte da tinta descascou, revelando símbolos arcanos pintados em dourado logo abaixo da superfície.
— O cofre não fica em um único lugar. Ele é um espaço fora deste mundo. Desde que se conheça os símbolos e as palavras certas, pode-se abri-lo em qualquer parede.
Hizuke piscou algumas vezes, surpreso.
— Isso é…
— Um segredo da nossa família.
Hiroshi então ergueu a mão e desenhou um dos símbolos com o dedo, reativando o traçado com sua energia. Em seguida, murmurou palavras em uma antiga língua. Os símbolos brilharam intensamente por um momento, e a parede à sua frente se desfez como se fosse feita de fumaça, revelando um corredor sombrio que levava ao cofre.
Eles entraram.
O cofre era um vasto salão iluminado por cristais encantados que brilhavam em tons azulados. Prateleiras de ferro e vidro exibiam artefatos antigos, relíquias mágicas e armas forjadas há séculos. Havia pergaminhos, elmos e até um escudo que pertencera a um rei de tempos passados.
Mas o que mais chamava atenção era a enorme pedra azul-clara no centro da câmara.
Hizuke arregalou os olhos.
— Isso… isso é Astralite?
Hiroshi passou a mão sobre a superfície lisa e brilhante da pedra.
— Sim. Foi o que restou do minério que extraímos em Aethernia durante a guerra. Esse é o metal mais valioso do mundo.
Hizuke aproximou-se lentamente. A pedra tinha o tamanho de dois palmos de um homem adulto, irradiando uma leve luz azulada.
— Dizem que uma lasca do tamanho de um dedo já vale cerca de trezentos mil Éldros. Isso aqui… isso vale milhões.
— É o suficiente para comprar uma cidade inteira. Mas não para vendê-la. Eu tenho um propósito melhor para isso.
Hizuke ergueu uma sobrancelha.
— E qual seria?
Hiroshi pegou um pano grosso e começou a enrolar a pedra com cuidado.
— Eu vou levá-la até um ferreiro… e transformá-la em algo digno de um herdeiro da Casa Ignivor.
Hizuke soltou um riso baixo.
— Então Edward terá um presente de casamento que ninguém jamais poderia sonhar.
Com a pedra segura nos braços, os dois saíram do cofre. Assim que atravessaram a passagem, Hiroshi voltou-se e apagou os símbolos, fazendo a entrada desaparecer.
Apenas um punhado de pessoas sabia sobre aquele segredo. E assim deveria permanecer.
…
A manhã em Fiâmoria estava fria, mas o céu límpido e azul indicava que seria um dia agradável. Hiroshi Ignivor saiu da mansão vestindo um casaco longo de lã escura, fechado por botões de prata, sobre uma túnica bordada em tons de vermelho e negro. Suas calças de tecido grosso eram presas por botas de couro reforçado, gastas pelo tempo, mas ainda bem cuidadas. Ele não usava armadura nem ostentava seu título, mas mesmo sem os adornos da guerra, sua presença era inconfundível.
Embaixo do braço, carregava um embrulho volumoso envolto em um pano grosso de linho cinzento. A pedra de Astralite, relíquia dos tempos de guerra, estava ali, ocultando seu brilho intenso e seu valor incalculável.
Ao atravessar os portões da propriedade, Hiroshi chegou à praça que se estendia diante da Castelo Ignivor. O local era amplo, com uma grande fonte de mármore no centro, onde a estátua de um cavaleiro segurando uma espada flamejante representava os antigos heróis do reino. Ao redor da fonte, vendedores já começavam a montar suas barracas, e crianças corriam entre os bancos de pedra, enquanto algumas donas de casa carregavam cestos de frutas e pães recém-assados.
As ruas de Fiâmoria eram pavimentadas com pedras cinzentas, algumas gastas pelo tempo, mas bem cuidadas. As casas, feitas de ardósia reforçada e telhados de sândalo vermelho, variavam entre construções simples de um andar e edifícios mais elaborados, pertencentes a mercadores e artesãos renomados. As roupas das pessoas refletiam suas ocupações: os comerciantes usavam túnicas bem cortadas, enquanto os camponeses vestiam trajes de linho rústico, protegidos por mantos para enfrentar o frio.
À medida que Hiroshi avançava, guardas que patrulhavam a cidade paravam para saudá-lo, batendo o punho sobre o peito em sinal de respeito. Os cidadãos inclinavam a cabeça levemente ao vê-lo passar.
Hiroshi Ignivor não era apenas um nobre; ele era uma lenda viva.
Diferente de outros membros da aristocracia, o respeito que recebia não vinha do medo ou da bajulação, mas da admiração genuína. Ele havia lutado pelo reino, marchado ao lado de cavaleiros comuns e defendido Imperion com o próprio sangue. Seu nome era falado nas tavernas, nas academias militares e até mesmo entre os aventureiros que buscavam inspiração.
No meio do caminho, um feirante robusto, de avental sujo de farinha, o chamou com um sorriso largo.
— Lorde Ignivor! Aceite estas maçãs, são as melhores da colheita!
O duque hesitou por um momento, mas o olhar insistente do homem fez com que aceitasse a cesta.
— Agradeço, mas não posso carregá-las agora.
Ele fez um gesto para um dos guardas próximos.
— Leve isso até a mansão.
O guarda acenou e partiu com a cesta, enquanto o feirante, satisfeito, fez uma reverência exagerada.
— Que as chamas da sua família nunca se apaguem, meu senhor!
Hiroshi sorriu de canto e seguiu seu caminho.
Ao se aproximar da loja de ferraria, foi interceptado por dois jovens aventureiros que usavam mantos leves e carregavam espadas curtas à cintura. Um deles, de cabelos castanhos bagunçados e expressão nervosa, parecia tremer de animação.
— Lorde Ignivor! Eu… eu não acredito que estou falando com o Herói das Chamas!
O outro, um rapaz mais sério de cabelos negros presos em um rabo de cavalo, suspirou.
— Controle-se, idiota. Você está passando vergonha.
O jovem exaltado ignorou o comentário e agarrou a mão de Hiroshi, apertando-a com força, quase chorando de emoção.
— Meu avô lutou ao seu lado na guerra! Ele dizia que o senhor era um guerreiro incrível!
Hiroshi soltou um suspiro paciente e deu um leve tapinha no ombro do rapaz.
— Espero que seu avô esteja bem.
O aventureiro mais sério tomou a palavra.
— Lorde Ignivor, o líder da guilda de aventureiros de Fiâmoria deseja falar com o senhor. Ele pediu que o senhor fosse encontrá-lo assim que possível.
Hiroshi franziu o cenho.
— Diga a ele que irei mais tarde, depois que resolver alguns assuntos.
Os jovens concordam, depois de algumas despedidas entusiasmadas, seguiram seu caminho.
Hiroshi voltou sua atenção para a loja de ferraria.
A loja de armas de Fiâmoria era conhecida como A Forja do Dragão. Sua fachada de pedra negra era decorada com entalhes de chamas e um grande brasão de dragão dourado esculpido na porta. O calor do forno era perceptível mesmo do lado de fora, e o som de marteladas constantes ecoava pela rua.
Hiroshi empurrou a pesada porta de carvalho e entrou.
O interior era iluminado por lampiões encantados que pendiam das vigas do teto. Armas de todos os tipos estavam expostas em suportes de ferro: espadas com runas incandescentes, machados encantados, adagas forjadas com metais raros. O cheiro de metal quente e óleo pairava no ar, misturado ao leve odor de pergaminhos velhos.
Um pouco à frente, atrás do balcão, uma jovem lia um livro com a cabeça baixa, completamente alheia à entrada do visitante. Sem levantar os olhos, ela falou de forma desinteressada.
— Bem-vindo à Forja do Dragão. Se procura algo específico, veja a prateleira à esquerda. Se quiser um serviço personalizado, fale com o velho.
Hiroshi cruzou os braços.
— Onde está Lothar?
A jovem suspirou, revirando os olhos, e ergueu a cabeça para responder com desdém.
Então, ao reconhecer quem estava à sua frente, seus olhos se arregalaram.
Ela tropeçou para trás e caiu da cadeira com um grito.
— HOMEM RICO!
Hiroshi ergueu uma sobrancelha.
A garota se levantou num salto, batendo a poeira da roupa, e murmurou, envergonhada.
— E-eu… vou chamar o dono.
Sem esperar resposta, correu até a porta dos fundos e desceu uma escada de pedra.
Hiroshi suspirou, apoiando-se no balcão enquanto esperava.
Após alguns minutos, passos pesados subiram os degraus. A porta se abriu e um homem alto, de cabelos grisalhos e barba espessa, surgiu com um largo sorriso.
— Ora, ora… Olhe só quem resolveu visitar um velho ferreiro.
Lothar, o dono da Forja do Dragão, era um amigo de longa data. Um homem que lutou ao lado de Hiroshi durante a guerra e que, depois de muitas batalhas, trocou a espada pelo martelo.
Eles se aproximaram e se cumprimentaram com um aperto de mão firme.
— Precisamos conversar.
Lothar assentiu.
— Então vamos para um lugar mais reservado.
Ele fez um gesto para que Hiroshi o seguisse até as escadas que levavam ao subterrâneo da loja.

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