Índice de Capítulo

    Colin teve que se curvar bastante para passar pela abertura baixa e estreita que servia de porta para o abrigo improvisado.

    O cheiro de terra úmida, mofo e corpos não lavados o atingiu assim que entrou, mas era um refúgio, um esconderijo precário naquele mundo subterrâneo hostil.

    Morwyna e o rapaz que os guiava entraram logo atrás.

    O espaço era minúsculo, mal iluminado por uma única lamparina a óleo que tremeluzia num canto. Apesar do aperto e do cheiro, havia uma sensação inegável de segurança ali, um pequeno bolsão de calma no meio do caos.

    Mal tinham entrado, e três vultos pequenos surgiram da penumbra dos fundos.

    Duas meninas e um menino, todos magrinhos e vestidos com roupas que eram mais remendos do que tecido original, correram na direção do rapaz, agarrando-se às pernas dele com a força desesperada de quem temia não vê-lo mais.

    — Você demorou! Aconteceu alguma coisa? — perguntou uma das meninas, a mais velha talvez, erguendo um rostinho sujo e olhos enormes e assustados para o irmão.

    — Calma, calma, tá tudo bem! — Ele forçou um sorriso, tentando parecer mais confiante do que se sentia, afagando os cabelos emaranhados deles. — Eu… eu fiz uns amigos novos.

    As crianças, que tinham se agarrado ao irmão com alívio, de repente perceberam as outras duas figuras no abrigo.

    Seus olhos se arregalaram ao verem a altura e a presença imponente de Colin, que parecia ocupar metade do espaço apertado só por estar ali.

    O medo voltou com força total, e eles se encolheram atrás das pernas do irmão, como pequenos animais assustados.

    — Ei, não precisam ter medo — disse o jovem, ajoelhando-se e segurando as mãozinhas trêmulas deles. — Eles são amigos. De verdade. São gente boa. Podem confiar.

    As crianças espiaram Colin e Morwyna por cima dos ombros do irmão. O medo ainda estava lá, mas a segurança na voz do irmão pareceu acalmá-los um pouco.

    — Vão lá buscar alguma coisa pra eles comerem, tá bom?

    As meninas assentiram, ainda desconfiadas, mas obedientes, e correram descalças para os fundos escuros do abrigo.

    Morwyna encontrou um caixote virado que servia de banco e sentou-se, enquanto Colin, grande demais para qualquer assento improvisado, simplesmente se acomodou no chão de terra batida, encostando as costas largas na parede úmida.

    Logo, as crianças voltaram, equilibrando com cuidado copos de barro lascados e um bule de chá amassado em suas mãos pequenas.

    — A gente acabou de fazer! — disse a menina mais nova, oferecendo um copo a Morwyna com um gesto tímido.

    — Oh, obrigada! Que gentileza! — Morwyna aceitou o copo com um sorriso caloroso.

    Colin pegou o seu com um aceno de cabeça e um sorriso que suavizou seus traços rudes. As crianças também trouxeram alguns biscoitos disformes, ainda quentes, empilhados num pedaço de pano limpo.

    Ao provarem, tanto Colin quanto Morwyna foram surpreendidos por um sabor agradável, levemente achocolatado e adocicado, que os fez sorrir genuinamente.

    — Aqui vocês estão seguros — disse o rapaz, a voz recuperando um pouco da firmeza. — Ninguém vai procurar vocês aqui por enquanto. Eu preciso sair de novo, vou tentar descobrir onde levaram a Samantha. Fiquem aqui, não saiam por nada.

    Ele se levantou e saiu pela porta baixa, desaparecendo na escuridão dos túneis.

    As meninas ficaram num canto, abraçadas, ainda lançando olhares curiosos e um pouco assustados para Colin. O menino, um pouco mais corajoso, ficou perto da entrada, observando tudo.

    Morwyna, querendo quebrar o gelo, sorriu para as meninas. — Sabem, os vestidos de vocês são muito bonitos! Os bordados são lindos.

    As meninas se entreolharam, surpresas pelo elogio, e um pequeno sorriso tímido surgiu em seus rostos. — O seu também é bonito… — murmurou a mais velha.

    Morwyna aproveitou a deixa. — Ah, eu adoraria saber bordar assim! Mas sou um desastre com agulha e linha… — ela fez um biquinho exagerado, tentando parecer engraçada.

    A tática funcionou.

    As meninas riram e, perdendo um pouco da timidez, se aproximaram dela.

    — A gente pode te ensinar! É fácil! — exclamaram quase juntas, pegando nas mãos de Morwyna e puxando-a animadamente para o fundo do abrigo, onde guardavam seus poucos tesouros. — Vem, vem ver!

    Colin ficou sozinho com o garotinho, que agora o encarava com uma fascinação cautelosa.

    O menino deu alguns passos hesitantes em sua direção, os olhos fixos nos braços musculosos de Colin, que mesmo relaxados, pareciam feitos de pedra.

    — Esses músculos… são de verdade? — perguntou o menino, a voz baixa e cheia de admiração.

    Colin riu, um som grave e rouco.

    — São sim, garoto. De verdade. Deu trabalho pra conseguir.

    O menino se sentou no chão na frente de Colin, as perninhas cruzadas, ainda o olhando com uma mistura de medo e admiração.

    — Como você treinou? Você lutou com muita gente forte?

    — Lutei, lutei sim — respondeu Colin, o tom ficando mais animado ao lembrar das batalhas. — Enfrentei… uns caras bem poderosos. Quase morri algumas vezes, pra ser sincero.

    Os olhos do menino brilhavam de curiosidade.

    — Você… você é um guerreiro de verdade? Meu irmão disse que os guerreiros são heróis, que eles são justos e protegem os fracos. Você é assim?

    Colin coçou a nuca, um pouco sem jeito com a pergunta direta. Herói? Justo? As coisas eram mais complicadas que isso.

    — Bem… mais ou menos — admitiu ele. — Mas olha, uma vez eu lutei contra um Bakurak! Sabe o que é isso? Um gato gigante, do tamanho de uma montanha! A pata dele era tão grande que podia esmagar uma cidade inteira só de pisar!

    Os olhos do garoto quase saltaram das órbitas. A imaginação infantil disparou.

    — Sério?! Co-como foi?! Conta!

    Colin se empolgou, gesticulando com as mãos enormes enquanto enfiava mais um biscoito na boca.

    — O bicho era colossal! Os olhos dele brilhavam como dois sóis furiosos! Tive que usar toda a minha força, cada truque que eu conhecia! Foi uma briga feia!

    O garoto estava completamente hipnotizado pela história.

    — E você ganhou?!

    — Mas é claro que ganhei! — disse Colin, inflando o peito com orgulho. — Senão não estaria aqui pra contar, né? Mas não foi fácil, não. O bicho era forte pra caramba.

    O menino parecia mais relaxado agora, totalmente conquistado pela história e pela presença menos intimidadora de Colin.

    — Nossa… você deve ser muito forte mesmo. — Ele baixou o olhar por um instante. — Eu queria ser forte que nem você…

    — E você pode ser — disse Colin, o tom ficando surpreendentemente encorajador. — Sabe, cinco anos atrás eu era um magricela. Aposto que você me daria uma surra naquela época. É só treinar, treinar muito, todo dia. Todo mundo pode ficar forte, basta querer e não desistir.

    O menino ergueu a cabeça, os olhos brilhando.

    — É sério? Então eu vou treinar! Vou treinar muito! Quero ser um guerreiro forte e justo, que nem meu irmão falou!

    Nesse momento, Morwyna voltou da penumbra dos fundos, seguida pelas meninas risonhas. Os olhos de Morwyna brilhavam de empolgação.

    — Colin, Colin, olha só! Olha o que eu aprendi a bordar! — Ela exibia um pedacinho de pano com alguns pontos tortos formando algo que vagamente lembrava uma flor.

    Ela estava obviamente orgulhosa de sua criação.

    Colin olhou para o bordado. Era… interessante. Mas vendo a animação dela, ele engoliu qualquer comentário sincero demais.

    — Hmmm… é… você leva jeito…

    — Sério?! Você achou?! — Os olhos dela brilharam ainda mais.

    Ele desviou o olhar, coçando a bochecha. — É… acho…

    As meninas, agora completamente à vontade, se aproximaram de Colin novamente.

    — Sua esposa é muito legal, senhor! — disse a mais nova, com a inocência infantil.

    — Ela não é minha-

    — Do que vocês estavam falando? — interrompeu Morwyna, curiosa, sem perceber o que a menina tinha dito.

    — O senhor grandão contou que matou um gato do tamanho de uma montanha! Que esmagava vilas com a pata! — respondeu o menino, ainda excitado com a história.

    Agora foram as meninas que arregalaram os olhos para Colin.

    — É-é verdade isso?!

    — Conta pra elas também, senhor! Conta de novo! — pediu o menino.

    — Certo, certo, estão preparados?

    — Sim!

    Eles se sentaram todos juntos no chão sujo do abrigo apertado. Colin, incentivado pela audiência atenta, continuou a contar suas histórias, provavelmente exagerando um pouco mais a cada repetição, enquanto Morwyna mostrava orgulhosamente seu bordado torto e as crianças faziam perguntas sem parar.


    Longe dali, o irmão mais velho das crianças corria pelos túneis escuros e úmidos que formavam o labirinto subterrâneo.

    A única luz vinha da tocha que ele segurava.

    Ele conhecia aqueles túneis como a palma da mão, mas agora, a urgência o fazia tropeçar nas pedras soltas.

    Finalmente, chegou a uma porta de madeira reforçada, diferente das outras entradas improvisadas. Bateu três vezes, uma sequência específica.

    — Sou eu, Ardan! — anunciou, a voz abafada ecoando pelo corredor silencioso.

    Uma pequena portinhola de madeira na altura dos olhos se abriu com um rangido, revelando um par de olhos vermelhos e cansados que o examinaram na escuridão.

    Reconhecendo-o, ouviu-se o som de ferrolhos sendo puxados, e a porta pesada se abriu.

    Ardan entrou, e o cenário que o recebeu era ainda mais sombrio do que o cheiro do lado de fora sugeria.

    O espaço era maior que seu próprio abrigo, mas estava apinhado de gente.

    Dezenas de pessoas, homens, mulheres, crianças, idosos, estavam amontoadas ali, seus rostos pálidos e magros iluminados por algumas poucas lamparinas.

    Muitos estavam doentes, tossindo ou gemendo baixo em esteiras sujas. Eram os últimos sobreviventes, os que tinham conseguido se esconder da loucura que tomara conta de Gheskou.

    — Ardan! Graças aos deuses! Você soube? Soube o que está acontecendo lá em cima? — perguntou um homem de barba rala, agarrando o braço de Ardan assim que ele entrou. — Os guardas… eles enlouqueceram!

    — Eu sei. Colin está aqui. O rei da superfície. Ele veio ajudar — respondeu Ardan, tentando manter a voz firme.

    — O quê?! — O homem que o segurava soltou seu braço como se tivesse levado um choque, mas sua expressão se tornou furiosa. — Colin?! Aquele assassino?! Você trouxe ele pra cá?!

    Antes que Ardan pudesse responder, o homem, cego de raiva e medo, agarrou-o pelo colarinho da túnica rasgada e o jogou com força contra a porta que acabara de fechar.

    O impacto fez um barulho surdo e doloroso.

    — Seu moleque idiota! Esconder o assassino do nosso rei aqui? Você quer matar todos nós?!

    Ardan, ofegante, empurrou o homem com toda a força que conseguiu reunir. — Ele não é assassino! Ele vai nos ajudar! Eu vi!

    — Ajudar?! — gritou o homem, o rosto vermelho, uma veia saltando em sua testa suja. — O rei de Gheskou está morto! E a culpa é dele! Desse seu Colin! Os guardas começaram um expurgo lá em cima! Estão caçando e matando qualquer um que pareça suspeito! Vão matar todos nós até encontrarem ele!

    As palavras do homem ecoaram pelo abrigo silencioso e tenso.

    As outras pessoas, que observavam a cena com olhos arregalados, começaram a se agitar, o medo se transformando em raiva coletiva.

    Eles se aproximaram, cercando Ardan.

    — Você tem que levar a gente até ele, Ardan! — disse uma mulher magra, a voz esganiçada pelo pânico. — Temos que entregar ele! É a nossa única chance!

    — Não! Eu não vou fazer isso! — respondeu Ardan, recuando, o coração martelando no peito. — Ele veio pra ajudar, eu juro!

    — Ajudar?! Ele nos condenou! — gritou outra pessoa da multidão. — Vamos entregá-lo ao novo rei! Talvez ele tenha piedade de nós!

    A multidão, agora uma turba movida pelo instinto de sobrevivência mais primitivo, avançou sobre Ardan.

    Alguns já pegavam pedaços de pau, facas enferrujadas, qualquer coisa que pudesse servir de arma.

    Vendo que não conseguiria convencê-los, Ardan usou sua agilidade. Esquivou-se de mãos que tentavam agarrá-lo, deu um encontrão na porta para abri-la e disparou de volta para o corredor escuro.

    A multidão enfurecida veio atrás, derramando-se para fora do abrigo como uma onda de ódio. Tochas foram acesas apressadamente, e logo o corredor estava iluminado por chamas bruxuleantes e ecoando com gritos de raiva.

    — Traidor! Você vai matar todos nós! — gritou o primeiro homem, brandindo uma espada curta e enferrujada.

    — Ele tem que pagar pelo que fez! Peguem ele! — berrou uma mulher.

    Ardan corria o mais rápido que podia, o som das botas e dos gritos da turba logo atrás dele. Seu coração parecia querer sair pela boca e as sombras dançavam nas paredes, parecendo garras tentando alcançá-lo.

    — Vocês não entendem! — gritou ele por cima do ombro. — Colin pode nos salvar! Ele é diferente! Eu vi o que ele fez!

    — Salvar?! — zombou uma voz na escuridão logo atrás. — Ele trouxe a morte pra nós! Ou você nos leva até ele, ou vamos te pegar e fazer você pagar junto!

    Ardan virou uma esquina apertada, o suor escorrendo pelo rosto e ardendo em seus olhos.

    Ele precisava despistá-los, precisava encontrar Samantha, precisava avisar Colin. O peso do mundo parecia estar sobre seus ombros.

    — Assassino! Não deixem ele escapar! — os gritos continuavam.

    Ele tropeçou numa pedra solta, quase caindo, mas conseguiu se recuperar no último instante. Os gritos pareciam mais próximos agora.

    Avistou uma fenda estreita na parede do túnel, quase invisível na escuridão. Sem pensar duas vezes, espremeu-se por ela, rasgando a túnica, e se viu num corredor lateral ainda mais escuro e estreito.

    O som da turba ficou um pouco mais distante, mas ele sabia que era apenas uma questão de tempo até o encontrarem.

    — Ardan, volta aqui, seu moleque maldito! — a voz do líder da turba ecoou pelo túnel principal. — Você está condenando todos nós com essa sua lealdade idiota!

    Ele continuou a correr, a respiração queimando em seus pulmões. Cada passo era um esforço imenso. Mas não podia parar.

    A vida de Colin, de Morwyna, de seus irmãos… tudo dependia dele agora. Precisava encontrar Samantha. Ela era a única que talvez pudesse trazer alguma esperança para aquela situação desesperadora.

    Continuou correndo pelo túnel escuro, a respiração ofegante ecoando nas paredes úmidas. De repente, do nada, uma mão forte surgiu da escuridão à sua frente, agarrando a gola de sua túnica e puxando-o com uma força surpreendente.

    Woosh!

    Ele foi arrancado do chão e caiu com um baque surdo. Assustado e desorientado, levou um segundo para se levantar, piscando para tentar enxergar na penumbra.

    Quatro figuras encapuzadas o cercavam em silêncio, bloqueando o caminho.

    Uma das figuras deu um passo à frente e, com um movimento rápido, jogou o capuz para trás. A luz fraca da tocha de Ardan, que ele ainda segurava tremulamente, iluminou um rosto conhecido: cabelos loiros que pareciam brilhar mesmo na escuridão e olhos azuis penetrantes que o encaravam com intensidade.

    — Ouvi dizer que estava me procurando.

    — Sa-Samantha! — gaguejou Ardan, um alívio imenso inundando seu peito, quase fazendo suas pernas cederem.

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