Índice de Capítulo

    Os túneis úmidos da caverna se estendiam à frente de Colin e seu grupo, as paredes gotejando água que formava pequenas poças no chão.

    As tochas, trêmulas como almas aflitas, lançavam sombras que pareciam dançar nas superfícies de pedra. O ar ali era denso, carregado com o cheiro de umidade e musgo, como se os próprios deuses tivessem chorado ali por séculos.

    Passos ecoavam, misturados com murmúrios de cansaço, até que Colin ergueu a mão calejada, indicando que todos parassem.

    Seus olhos, dourados como o sol, varreram o grupo. A multidão, composta por camponeses e poucos aventureiros, aguardava com nervosismo. Afinal, não era todo dia que se aventuravam pelo subterrâneo.

    — Esperem aqui — disse Colin, sua voz grave como um trovão. — Vou resolver as coisas e retornarei em um instante.

    As pessoas ao redor murmuravam, olhando entorno com curiosidade e desconfiança. Morwyna, a Elfa de olhos gentis, cruzou os braços sobre o peito e lançou um olhar penetrante à escuridão.

    Ela era a única que conhecia aquele lugar.

    — Que lugar é este? — perguntou uma jovem, os olhos arregalados.

    Morwyna suspirou.

    — Este é o esconderijo dos Elfos do Mar — respondeu.

    Os murmúrios aumentaram, a incredulidade evidente nas vozes. Alguém sussurrou que os Elfos do Mar haviam sido extintos havia eras, relegados a lendas e canções noturnas.

    Mas Morwyna balançou a cabeça.

    — Eles sobreviveram, ficaram ocultos aqui, nas profundezas.

    Colin avançou, sua capa encharcada roçando na grama úmida. Os Elfos o reconheceram de imediato, seus olhos imortais fixando-se nele. Um deles, ágil como um coiote, aproximou-se.

    — Rei da superfície… Por que voltou? — perguntou o Elfo, o mesmo que o havia escoltado da última vez.

    Colin não hesitou. Sua missão era urgente, afinal, os Caídos poderiam estar em seu encalço.

    — Preciso falar com seu rei, é urgente — respondeu, sem perder tempo.

    O Elfo assentiu, e os dois seguiram pelos corredores sinuosos. E assim, adentraram o salão do rei, onde o monarca dos Elfos do Mar, com olhos enrugados pelo peso dos anos e da coroa, fitou Colin com certa desconfiança.

    Seus súditos murmuravam, inquietos, enquanto a multidão se aglomerava nas vielas estreitas da cidade.

    — Você parece cansado, Colin — disse o rei, ajeitando-se em seu trono. — O que o trouxe até aqui?

    Colin, com os cabelos revoltos e os olhos faiscantes, não hesitou. — Acabei com os príncipes do abismo e seus demônios. Estamos retornando a Runyra, e quero que nos acompanhem.

    O rei franziu a testa.

    — Hum… Essa multidão lá fora que o acompanha… são os seus seguidores?

    — Seguidores? Não… são parte do meu povo agora — respondeu Colin, firme como aço. — O seu povo deseja o mar, velhote, desejam a vastidão que se estende além das colinas e florestas. De Rontes, meu próprio território, podemos alcançá-lo, o que me diz? Vocês merecem algo melhor que isso., chega de se esconder aqui, nesse… buraco. Vocês merecem algo melhor, não concorda?

    O rei ponderou.

    — Não me entenda errado, mas… confiar em você é como entregar nossas vidas ao capricho das ondas… Meu povo nunca saiu daqui, rapaz… o que você quer é fazer com que mudemos totalmente nossas vidas… não conhecemos o seu mundo, nem o quão implacável ele possa ser…

    Colin bateu no peito.

    — Prometo cuidar deles. Não há ninguém mais forte do que eu na superfície. Os demônios que enfrentei eram apenas o começo. O verdadeiro abismo está à nossa frente, e não posso proteger vocês se ficarem aqui. Não há maior segurança do que ficar ao meu lado, senhor. Seu povo merece algo melhor, como rei, é sua obrigação oferecer isso a eles.

    O rei suspirou, olhando para a multidão que esperava. — Espero não me arrepender disso, rapaz.


    A multidão que se aglomerava à sombra das rochas arqueou as sobrancelhas ao vislumbrar os Elfos do Mar emergindo das profundezas.

    Os seres de pele azulada e orelhas pontudas montavam sapos-gigantes e salamandras. Seus olhos, como pérolas negras, sondavam os sobreviventes de Gheskou.

    Esses elfos, com uma graça que beirava o etéreo, aproximaram-se. Suas vestes eram tecidas de algas e corais, e seus cabelos esverdeados dançavam ao sabor da leve brisa que corria pelos túneis labirínticos.

    Um deles, de olhos tão azuis quanto o oceano, dirigiu-se à multidão.

    — Querem ajuda com seus pertences?

    A hesitação inicial cedeu à curiosidade.

    As pessoas, com olhares famintos por esperança, aceitaram a oferta. Os elfos, então, começaram a ajudar, erguendo caixotes e sacolas, apoiando-os em seus animais exóticos.

    O rei dos Elfos Marinhos observava com curiosidade a cena, até que seus olhos enigmáticos encontraram os de Colin.

    — Acho… que julguei você mal, rapaz. Obrigado, rei da superfície… — disse ele, com sinceridade.

    Colin, com um sorriso cansado, respondeu: — Estou acostumado a ser julgado. Mas precisamos continuar. Quanto mais cedo saímos do subterrâneo, melhor.

    O velho Wenrick, enrugado como uma concha fossilizada, aproximou-se de Colin, dando-lhe alguns tapinhas nas costas.

    — Está tudo bem, Colin — disse ele. — Se até o Rei dos Elfos Marinhos confia em ti, então você está fazendo o certo. Tenho certeza que há algo mais que espadas e coroas no seu destino.

    O anão, robusto e atarracado, se aproximou, assentindo com a cabeça.

    — Concordo! O Conquistador deve ser o homem mais forte que já pisou neste continente. Vi com meus próprios olhos. E já vi muita coisa, mas matar um ser do abismo abaixo somente dos apóstolos do deus morto? Isso… eu nunca vi.

    O rei dos Elfos do Mar, com seus olhos profundos como o abismo, observou as costas largas de Colin por um momento antes de apertar o passo para alcançá-lo.

    — Colin, preciso perguntar — disse ele, sua voz carregada de curiosidade. — Por que está fazendo tudo isso? Quero uma resposta verdadeira.

    Colin, ergueu os ombros, como se carregasse não apenas o peso de sua indumentária, mas também o destino de reinos inteiros.

    — Faço o que é certo — respondeu, sua voz poderosa. — É o legado que minha mãe deixou. Ela iria querer que eu usasse minha força para proteger os fracos… você sabe, ser o último pilar de luz mesmo quando a escuridão ameaça engolir tudo, esse tipo de coisa…

    O rei Elfo assentiu, contemplativo.

    — E o que te move além do dever? Há algo mais, algo que transcende títulos e a coroa?

    Colin sorriu, um sorriso cansado.

    — Me faz sentir bem — admitiu. — Talvez seja egoísmo, mas também faço para que meus pecados sejam perdoados.

    — Pecados… — murmurou o velho rei. — É um homem religioso, senhor Colin?

    — Nunca fui, majestade. Mas agora? Agora nem eu sei ao certo. Só sei que ninguém trilha o caminho que percorri sem manchar suas mãos com um monte de pecados.

    O rei assentiu, como se compreendesse as sombras que dançavam nos olhos do Errante. — E por que, então, persiste? Tudo para honrar a memória da sua mãe?

    — É porque gosto disso… da sensação de arriscar minha vida em uma batalha visceral, da sensação… de tirar uma vida que mereça ser tirada… É um vício, majestade.

    O velho rei tocou o ombro do Errante com dedos enrugados.

    — Você é mesmo um paradoxo, rapaz. Consigo sentir que remorso e orgulho duelam em teu peito. Mas há nobreza em sua… como eu diria… brutalidade. Poucos reis se curvariam à causa dos desconhecidos como você o faz.

    Colin lançou um olhar ao horizonte. — É… acho que sim. Agradeço, majestade.

    — Não gaste suas energias comigo. Vai, Conquistador. Segue teu caminho na frente. E que os deuses, se ainda existirem, te guiem.

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