Índice de Capítulo

    Em um salão austero, iluminado por tochas que lançavam sombras dançantes nas paredes de pedra, Colin e Anton se encontravam.

    A mesa de carvalho maciço, polida pelo tempo e pelo uso, separava-os. Anton suspirou, olhando para o chão gasto sob seus pés.

    — Eu preferiria falar com a deusa Brighid — disse ele, sua voz carregada de desespero. — Os fiéis precisam de direção, Colin. Eles não sabem o que fazer.

    Colin inclinou a cabeça, estudando Anton. — Brighid está ocupada — respondeu ele, sua voz grave e firme.

    Anton franziu o cenho. — Como podemos liderar quando não temos respostas? Quando as igrejas estão abandonadas e os altares empoeirados?

    Colin levantou-se, caminhando até a janela estreita que dava para o pátio. — Parabéns, Anton — disse ele, olhando para o nobre. — Sua esposa está grávida. Em breve, uma nova vida virá ao mundo, e isso é bom. Crianças deixam uma casa viva.

    Anton sorriu, recordando-se da esposa. — Sim, em breve.

    Colin voltou à mesa e se sentou novamente. — Quantos fiéis precisam de direção? — perguntou ele, os dedos entrelaçados nas costas.

    Anton hesitou. — A maioria das igrejas abandonou nossa fé, mas ainda temos cerca de quinhentos devotos fiéis.

    Colin assentiu. — Diga a todos que a Santa irá salvá-los — declarou ele. — Ela não abandonaria aqueles que creem nela.

    Anton olhou para Colin, buscando conforto. — Mas será mesmo possível? Ela… nos ouve? Ouve as nossas preces?

    Colin sorriu. — Aprendi que a fé é uma chama frágil, Anton. Às vezes, ela se esconde nas sombras, mas nunca se apaga completamente. Fique tranquilo, Brighid não abandonaria aqueles que creem nela.

    Anton assentiu, visivelmente aliviado.

    — Agradeço, Colin. Você mudou desde a época em que nos conhecemos…

    Colin soltou um leve riso, os olhos encontrando os de Anton.

    — Você também mudou. Sinceramente, preferia você quando tentava me matar.

    Ambos riram, um riso carregado de boas memórias.

    — Cuide de sua esposa, Anton — disse Colin, a voz suavizando. — É a irmã de uma aliada importante.

    Anton se levantou, fazendo uma reverência respeitosa.

    — Não se preocupe com isso. Avisarei os fiéis sobre o que conversamos.

    — Diga para eles se reunirem aqui no palácio.

    — Certo.


    Nos corredores sombrios do castelo, onde o eco das botas de couro se misturava ao murmúrio ancestral das pedras, Lettini avançou com determinação.

    A carta, dobrada e amassada, queimava em suas mãos como brasas. Seus olhos, vermelhos e inchados de lágrimas, eram a prova da dor que a consumia.

    A porta da sala real rangeu quando ela a empurrou. Colin estava lá, sentado à mesa de carvalho, a luz das velas dançando em seu rosto.

    Ele ergueu os olhos, e a expressão de Lettini disse tudo antes que ela pudesse falar.

    — É verdade? — sussurrou ela, a voz trêmula. — Falone e Dasken… eles estão mortos?

    Colin desviou o olhar e o silêncio pesou como chumbo. — Sim — respondeu ele, a voz rouca. — Eles partiram deste mundo… estão com os deuses agora…

    A tristeza de Lettini se transformou em fúria. — E o senhor não fará nada? Não buscará vingança?

    Ele a encarou, os olhos cinzentos como tempestades distantes. — Não assim — disse ele, com uma calma que a enfureceu ainda mais. — Runyra está em crise. Precisamos manter a cabeça no lugar.

    — Eles tinham família, Colin! Você já contou a eles? Eles confiavam em você, acreditavam em você!

    Ele se levantou, sua bota ecoando no chão de mármore.

    — Confiavam em você — Lettini repetiu, as lágrimas voltando a escorrer pelo rosto. — Acreditavam em você!

    Colin olhou para ela, sua expressão endurecendo.

    — Você realmente acha que eu não farei nada? — A aura na sala mudou abruptamente, uma energia intensa e pegajosa. — Levarei a vingança até os assassinos deles, mas não agora, não desse jeito emocionado e desesperado. Isso não é o que um rei faria.

    Lettini balançou a cabeça, teimosa.

    — Eu vou ficar na cidade.

    — Não, você não vai — Colin disse, sua voz firme e autoritária. — Você vai com minhas esposas. Peça a elas para treiná-la, para que você fique mais forte. Você não é útil no nível que está agora. Com sua força atual seria morta como Falone.

    Ela desviou o olhar, as lágrimas voltando. — Jure, senhor Colin. Jure que irá vingá-los!

    A aura na sala mudou abruptamente. Colin se aproximou dela, o rosto sombrio. — Eu Juro — murmurou ele, a voz carregada de promessa. — Com minha vida, Lettini, eu os vingarei. Deixarei o lar de Grakk irreconhecível, uma marca que eles nunca irão se esquecer.


    De volta a sua sala, o crepitar das chamas na lareira lançava sombras dançantes pelas paredes de pedra, e Colin permanecia imóvel, os olhos fixos no fogo.

    O calor lambia sua face, e o reflexo das chamas parecia incendiar seus pensamentos. Ele estava sozinho naquela sala, mas sua mente não estava em silêncio.

    — Não estou pensando direito — murmurou ele para o fogo, como se pudesse confidenciar seus segredos à labareda. — Este momento de crise é uma oportunidade perfeita para fazer história.

    No crepitar das chamas, Colin via mais do que simples brasas. Via massacres, cidades inteiras em chamas, e o rugido da guerra ecoava em seus ouvidos.

    Ele sabia que o destino estava tecendo suas teias, e ele estava disposto a dançar nessa tapeçaria de sangue e poder como nunca fez.

    Deixando a sala, ele caminhou pelo corredor, o sorriso que se desenhava em seus lábios era assustador, sanguinário. As sombras pareciam se curvar diante dele, como se reconhecessem o predador que se aproximava.

    A porta se abriu e lá estava Leona, dormindo toda destrambelhada em sua cama. Colin a chamou, e ela acordou, esfregando os olhos com um bocejo sonolento.

    — O que foi? — perguntou ela, ainda meio adormecida.

    — O castelo está ficando vazio — disse Colin, os olhos brilhando com um fervor intenso.

    Leona se ajeitou na cama, tentando se orientar.

    — Eu sei o que está acontecendo — respondeu ela.

    — Você vai ficar no castelo, você e Heilee — ordenou Colin, sem espaço para questionamentos.

    Leona franziu a testa, confusa.

    — Por quê?

    Colin sorriu, um sorriso que não prometia nada de bom.

    — Porque vamos nos divertir.

    A empolgação brilhou nos olhos de Leona e ela subiu na cama, animada.

    — Vamos lutar com alguém forte?

    — Sim — respondeu Colin, assentindo. — Fique no palácio, ele será nosso por um tempo, nosso e dos soldados.

    — Posso bater nos soldados? — perguntou Leona, quase pulando de empolgação.

    — Não — disse Colin, a voz firme.

    — Vai ter rato frito? — Leona perguntou, seu entusiasmo começando a diminuir.

    — Se você caçar, sim — respondeu, o tom seco.

    O sorriso de Leona se desfez e ela fez uma careta.

    — Você é chato.

    Colin ignorou o comentário.

    — Avise Heilee — ordenou ele, antes de deixar o quarto.


    Noite envolvia o castelo como um manto sombrio, e Colin, o rei atormentado, vagava pelos corredores agora mais vazios e silenciosos.

    As tapeçarias pendiam desbotadas, e o eco de seus passos ressoava nas pedras gastas. Vestido despojadamente, como se a majestade lhe pesasse menos, ele usava uma camisa branca larga e calças negras que quase roçavam o chão. Nos pés, chinelos simples, quase indignos de um monarca.

    Os poucos servos que ainda se moviam pareciam sombras trêmulas, embalando suas escassas posses. O êxodo não era apenas deles; a capital inteira sofria.

    Comércios fechavam suas portas, e famílias partiam em busca de refúgio nas vilas distantes. A peste havia se tornado uma foice impiedosa, ceifando vidas e esperanças.

    Colin parou diante da janela, olhando para além das muralhas. A cidade, antes pulsante de vida e comércio, agora agonizava. Controlar os crimes era uma tarefa impossível; os becos escuros escondiam facas e ardilosos segredos. A economia, antes robusta, afundava como um navio de pedra.

    Mas ele não podia partir. Não depois de tudo que sacrificara para estar ali, no trono de Runyra. O sangue derramado, as alianças forjadas, os inimigos vencidos.

    Ele bateu na porta, vendo Morwyna arrumar suas coisas, os olhos cansados refletindo a mesma angústia que corroía o reino.

    Quando ele adentrou o aposento, fechando a porta atrás de si, Morwyna ajeitou prontamente o cabelo, erguendo-se com a graça de uma rainha. A reverência foi automática.

    Colin observou os pertences dela e comentou:

    — As coisas no castelo andam bem agitadas.

    — Eu não me importo… — respondeu Morwyna. — Fico feliz de estar aqui…

    Colin se aproximou mais e perguntou: — Você já decidiu sobre seu irmão?

    Morwyna desviou o olhar. Colin, com a mão no queixo dela, a fez encará-lo.

    — Preciso de você ao meu lado — disse ele, com firmeza. — O que você faria se o seu irmão fosse responsável pela praga?

    Morwyna, cabisbaixa, pediu: — Por favor, não me faça escolher…

    — Olhe para mim — pediu Colin, em um tom que soou como uma ordem. Quando ela o fez, ele suspirou e se afastou, sentando-se na cama.

    — Quando toquei o Lithium, eu a vi — mentiu com convicção, observando a reação de Morwyna. Ela engoliu em seco. — Nossos destinos estavam ligados antes mesmo de nascermos. Respeitarei sua decisão, mas seria melhor se, como minha esposa, você estivesse ao lado do seu marido.

    Morwyna ficou sem palavras. Ela ainda não era sua consorte oficialmente, mas Colin estava plantando essa ideia em sua mente. Ele continuou: — Teremos nossa própria família. Você me trocaria por um traidor mesmo que fosse seu irmão?

    Os olhos de Morwyna se encheram de lágrimas enquanto ela desviava o olhar. Colin estendeu a mão, e ela caminhou até ele, segurando suas mãos.

    — Preciso da sua força. O cosmos precisa. Seu avô confiava em mim, e eu pergunto: você confia?

    Morwyna o encarou com olhos marejados e respondeu: — Eu… sim… confio.

    Seus dedos se entrelaçaram, e Colin pediu para ela fechar os olhos. As tatuagens em seu braço direito começaram a brilhar, e um anel mágico circundou tanto seu indicador quanto o dela.

    — Nossas almas agora estão conectadas — disse ele suavemente. — É mais forte do que um pacto, isso vai influenciar tanto sua mana quanto a minha.

    Tum! Tum!

    O mundo parou por um instante, como se o tempo tivesse congelado. Colin se viu sozinho no cosmos, de pé na vastidão da Via Láctea.

    Ao seu redor, seres etéreos do tamanho de estrelas o cercavam, suas formas nebulosas e luminosas emanando um poder incompreensível.

    O suor escorreu de sua têmpora enquanto as criaturas etéreas o observavam, seus olhares penetrantes como se pudessem ver através de sua alma.

    Uma delas, uma mulher de beleza sobrenatural e olhos que refletiam o infinito, aproximou-se. Seu rosto veio tão perto que Colin podia sentir a pressão esmagadora de sua presença, seus ossos quase se partindo sob o peso do poder dela. Em uma voz que ecoou entre as estrelas, ela falou:

    — Eu sei o que você quer com a garota, Colin. O seu sangue… é como o daquele homem, o amaldiçoado filho das cinzas. Veio cumprir o que ele não conseguiu?

    “Do que ela está falando?”

    Outra entidade, um homem de corpo musculoso e robusto como uma montanha, riu com desdém.

    — Você não pode nos controlar — disse ele, sua voz ressoando como trovões. — Um mortal não pode controlar um deus. Nem mesmo a casca da garota vai nos prender aqui por muito tempo.

    Colin, forçando um sorriso arrogante, manteve seu olhar firme.

    — Vocês são meus cachorrinhos agora — disse ele, a voz carregada de uma confiança feroz. — Melhor se acostumarem. Vocês têm um novo dono.

    Os seres etéreos se entreolharam e, por um momento, o cosmos parecia hesitar. Então, Colin saiu do transe. Nem meio segundo havia se passado no mundo real.

    Ele piscou, retornando à realidade.

    “O que foi isso?”

    Morwyna sorriu, feliz, e o abraçou apertado.

    “Ah… eu tinha me esquecido disso…”

    — Ayla e Brighid são suas irmãs a partir de agora.

    Ela assentiu, enquanto Colin limpava suas lágrimas. — Preciso ir agora — ele disse, beijando a testa dela antes de sair do quarto.

    Antes que ele deixasse completamente o quarto, Morwyna disse: — Eu escolho você…

    Colin a encarou por sobre o ombro, e ela continuou. — Se o meu irmão realmente nos ameaçar, eu escolho você, Colin…

    Colin sorriu e deixou o quarto, notificações pipocando de seu status como nunca antes.

    Parabéns!

    Você divide a alma com um ser primordial.

    Uma conexão antiga e poderosa foi estabelecida. A essência primordial agora corre em suas veias, conferindo-lhe um poder incomensurável.

    Você divide a alma com uma criatura do plano superior.

    Uma criatura etérea e de imensa sabedoria compartilha sua alma com você. Sua visão do cosmos e do além se expandiu.

    Você divide a alma com um deus morto.

    A alma de um deus que outrora caminhou entre os mortais agora reside em você. Seu conhecimento perdido e poder divino renascem em sua existência.

    Você divide a alma com o senhor do fogo.

    O fogo primordial arde dentro de você. Chamas de poder incomparável aguardam sua invocação, trazendo destruição e renascimento.

    Você divide a alma com a deusa do mar tempestuoso.

    As profundezas do oceano e as tempestades rugem dentro de sua alma. A força indomável das águas está ao seu comando.

    Você conseguiu uma nova consorte.

    Uma nova aliança foi formada, fortalecendo sua alma.

    Todos os seus atributos foram aumentados em 100 pontos.

    “O que é isso? Eu… que poder é esse?”

    Colin não foi o único que recebeu aquelas notificações, todos os seres que dividiam alma com ele também haviam recebido.

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