Índice de Capítulo

    A água morna da banheira envolvia o corpo de Jane, mas não conseguia dissipar a tensão que dominava seus músculos.

    Suas mãos seguravam firmemente as bordas da banheira, os nós dos dedos esbranquiçados, enquanto gotas de suor se misturavam com a água perfumada. O rosto dela estava contorcido em uma máscara de dor e determinação, os olhos fechados com força enquanto tentava controlar a respiração irregular.

    Então, um grito agudo e primal rasgou o silêncio do quarto. A dor se intensificou, percorrendo cada nervo do corpo de Jane como uma corrente elétrica.

    Ela arqueou as costas, a cabeça jogada para trás, e soltou um berro que reverberou pelas paredes de pedra. O som era um misto de agonia e uma força brutal de vida lutando para emergir.

    A cada contração, a dor aumentava, e Jane se debatia na água, seu corpo se contorcendo de maneiras quase impossíveis.

    Finalmente, em um último esforço desesperado, ela sentiu algo escorregar de dentro dela. Com um suspiro final e exausto, Jane caiu para trás, ofegante e tremendo, o suor escorrendo pelo rosto e misturando-se com as lágrimas.

    Ela olhou para baixo e viu o Ovo de carne imergir na água tingida de vermelho.

    Era do tamanho de uma criança, uma forma grotesca e pulsante que parecia ter vida própria. Com mãos trêmulas e olhos arregalados, Jane pegou o Ovo, envolvendo-o em seus braços com ternura.

    — Shh, está tudo bem agora — sussurrou ela, os olhos suavizando enquanto acariciava a superfície pulsante do Ovo. — A mamãe está aqui. A mamãe te ama.

    Ela apertou o Ovo contra o peito, como se fosse um filho amado. O semblante de Jane, porém, tornou-se sombrio, uma expressão demoníaca tomando conta de suas feições delicadas. Um sorriso maligno se espalhou por seus lábios enquanto seus olhos brilhavam com uma malícia insana.

    — Vou te esconder — murmurou ela, o tom de voz sinistro. — Você é o futuro!

    Com o Ovo firmemente seguro em seus braços, Jane se levantou da banheira, a água escorrendo de seu corpo. Ela saiu do quarto, suas passadas decididas, o olhar fixo em um futuro que apenas ela podia ver.


    A tarde se estendia sobre o reino, o sol lançando seus raios sobre o cenário que parecia desenhado por um mestre artesão. A túnica real de Colin era uma obra de arte sombria e imponente, um manto de veludo negro com intrincados bordados dourados que se entrelaçavam em padrões de serpentes e dragões que refletiam a majestade e o poder do rei.

    O tecido brilhava de maneira soturna sob o sol poente, como se absorvesse a luz e a devolvesse em uma aura de autoridade.

    Colin, com o cabelo penteado para trás e uma mecha rebelde caindo sobre a testa, observava o cenário com um olhar impassível.

    Seu semblante era o de um monarca preparado para enfrentar o caos com um estoicismo calculado. A enorme criatura pandoriana de Ayla, com escamas que reluziam como o metal, estava adornada com uma sela ornamentada.

    As crianças subiam pelas asas da besta, acenando animadamente para o pai.

    Ao redor, dezenas de Wyverns menores, criaturas ágeis e imponentes, estavam alinhados, seus corpos escamosos brilhando sob a luz. Fiéis devotos da Santa estavam montados nas criaturas, prontos para partir a qualquer minuto.

    Brighid se aproximou de Colin, seu cabelo solto balançando ao vento. Trajava uma blusa branca clara que combinava perfeitamente com as calças verde-escuras que usava. Uma cinta ajustava sua bainha, onde repousava sua katana, a lâmina fria e afiada feita da raiz da grande árvore.

    Ayla, ao seu lado, estava com o cabelo preso em um rabo, e ela usava uma blusa branca que contrastava com as calças amarelas e as botas de couro que completavam seu traje.

     — Fiquem bem… — disse Colin, sua voz firme, mas carregada de ternura. — Quando voltarem, estarão mais fortes, tenho certeza.

    Brighid assentiu com um sorriso encorajador, enquanto Ayla fez um gesto de aprovação.

    — Não se esqueça de se cuidar! — berrou Ayla em meio ao vento.

    — E não deixe as janelas do quarto abertas — berrou Brighid. — Pode chover!

    — Certo, pode deixar.

    As esposas de Colin se dirigiram para os Wyverns que haviam sido preparados para a viagem. Brighid subiu em um dos monstros alados e Ayla seguiu com a mesma graça, montando em outro Wyvern.

    Morwyna, com a mente cheia das visões recentes e a inquietação à flor da pele, olhou para Colin com uma expressão que misturava ansiedade e vergonha.

    — Aqui, Morwyna — chamou ele. — Tenho algo para você.

    Colin retirou uma pulseira do bolso, a mesma que Sirela havia o entregue no plano astral.

    Ele gentilmente a colocou no pulso dela.

    — Isso vai proteger você, dará sorte.

    Ela corou. — Obrigada…

    — Faça o que Brighid ordenar — disse ele. — Ela é responsável por vocês agora.

    — Tá…

    — Se cuida.

    — O senhor também…

    Morwyna, com os olhos brilhantes, se afastou. Ainda era inacreditável que ela havia se tornado sua consorte. Era estranho encará-lo sendo tão cuidadoso depois da brutalidade e luxúria de mais cedo.

    Era ainda mais estranho ver Brighid e Ayla agindo normalmente após tamanha depravação.

    Balançando a cabeça, ela afastou esses pensamentos, era hora de focar em chegar na ilha das fadas, mesmo que fosse difícil não pensar em outra coisa.

    Os filhos de Colin balançavam os braços e gritavam, enquanto o imenso dragão de Ayla alçava voo, suas enormes asas cortando o ar com um rugido triunfante. O grupo voador se afastava, deixando para trás uma nuvem de poeira dourada e sons distantes.

    Entre os fiéis que observavam a partida, murmurava-se uma onda de especulação.

    — Por que o rei vai ficar? — perguntou um deles.

    — A Santa não teria um covarde como marido — respondeu um velho. — E a rainha não se casaria com ele se fosse um homem comum. Ele é o rei, por isso vai ficar.

    — Mas… tem a praga e Runyra em breve será atacada…

    — É por isso que estamos indo embora e ele está ficando — respondeu outro jovem. — O rei Colin nunca será derrotado, é o que meu pai sempre disse.

    — Ele é o Conquistador — disse o velho. — Se ele não conseguir vencer, então estaremos condenados.

    Não eram apenas os fiéis que partiam. Elfos da floresta, Elfos do Mar, refugiados do subterrâneo e nortenhos que ainda mantinham fé não apenas na Santa, mas também no rei, estavam entre aqueles que se preparavam para a jornada.

    Valagorn se aproximou com passos firmes e parou diante de Colin, seus olhos penetrantes fixos no rei.

    — Cuide-se, garoto — disse Valagorn, sua voz grave e cheia de preocupação. — Você trouxe meu povo de volta para mim, sou eternamente grato por isso, então não morra.

    Colin apenas assentiu, sem desviar o olhar. Valagorn se afastou, desaparecendo entre os fiéis e guerreiros que se preparavam para a jornada.

    Logo em seguida, Jane surgiu, seu sorriso sedutor iluminando o rosto. Ela se aproximou de Colin, a malícia dançando em seus olhos.

    — Parece que estou precisando mesmo de umas férias — disse ela, com um tom de voz provocador.

    Ela inclinou-se para mais perto, sussurrando no ouvido de Colin, seu hálito quente contra sua pele.

    — Graças ao novo contrato de alma, consegui fazer algo incrível. Você vai adorar, foi tudo preparado pensando em você!

    Ela se afastou, deixando um sorriso enigmático no rosto. Atrás do rei, Leona e Hailee balançavam os braços, acenando para os viajantes.

    — Tem certeza de que não precisa de mim? — indagou Josan.

    — Cuide da sua esposa e dos outros — respondeu Colin. — Eles vão precisar de ajuda e alguma proteção. Eu assumo daqui.

    — Certo… que os deuses o abençoem.

    Kurth se despedia da mãe e da irmã, enquanto Elhad se despedia de Sashri, eles ficariam com o rei.

    Sua tia, Cykna, se aproximou, tocando o braço dele gentilmente, seus olhos carregados de uma ternura maternal.

    — Cuide-se, Colin — ela murmurou, sua voz tremendo levemente. — Eu orarei por você todos os dias.

    Antes que ele pudesse responder, sua prima se aproximou, os olhos dela cheios de uma ansiedade silenciosa. — Queria poder ajudar mais, Colin — ela confessou. — Parece que tudo sempre acaba recaindo sobre seus ombros…

    Colin ergueu uma mão, um gesto para acalmar os sentimentos que ela expressava.

    — Não se preocupe — disse ele com uma voz firme, porém calma. — Este é o meu dever como herdeiro da coroa dos Elfos da Floresta. Manter vocês seguros é minha responsabilidade.

    As duas mulheres se afastaram, as sombras dos Wyverns as engolindo enquanto se retiravam. Em seu lugar, surgiram três figuras menores, seus filhos, Hamald, Meg e Tobi.

    Colin se abaixou, ficando na altura dos três. Seus olhos se suavizaram, mas sua voz se manteve grave.

    — Vocês devem sempre obedecer às suas mães — começou ele, as palavras firmes. Ele então apontou para a espada que cada um carregava na cintura. — Mas lembrem-se, esta — ele tocou levemente na espada de Hamald. — É a coisa em que mais devem confiar na vida. Pessoas podem traí-los, abandoná-los, mentir para vocês… mas a espada nunca trairá.

    Colin estendeu os braços para seus filhos. Hamald, Meg e Tobi se aproximaram, cada um oferecendo um abraço que carregava a sinceridade e a inocência de suas idades.

    Hamald foi o primeiro, seus braços fortes envolvendo o pai com uma intensidade que falava mais do que palavras poderiam expressar. Meg, com seus olhos brilhando, o seguiu logo depois, o abraço dela suave, mas cheio de uma confiança que apenas uma filha pode ter. Tobi, o menor, foi o último a se juntar, seus braços envolvendo Colin com uma força inesperada para alguém tão jovem.

    — Amo vocês — disse ele. — Agora vão, não deixem as mães de vocês esperando.

    Os Wyverns cruzavam o céu de Runyra, suas sombras longas e escuras projetadas sobre o reino abaixo, enquanto o imenso dragão de escamas brancas os acompanhava.

    O silêncio caiu como um manto pesado sobre o palácio, uma quietude gélida que parecia absorver a própria essência do legado que o Conquistador havia construído, agora levado pelas criaturas.

    Leona, com um bocejo sonolento, quebrou o silêncio opressivo. Sua voz soou leve, quase infantil.

    — O que vamos fazer agora? — perguntou com a despreocupação que parecia ser um dom dela.

    Colin se voltou para ela, um sorriso sutil brincando em seus lábios.

    — Querem jogar cartas?

    Antes que qualquer resposta pudesse ser dada, uma voz surgiu do fundo do palácio, firme e decidida. — Vocês são mesmo despreocupados, né?

    Todos se voltaram, encontrando Yonolondor parado ali, imponente e inabalável. Colin arqueou uma sobrancelha, seu olhar passando de surpresa a uma curiosidade fria.

    — Pensei que tivesse se aposentado — comentou o rei.

    — Perdi um braço, não minha vida — respondeu Yonolondor.

    Colin deu de ombros.

    — Vamos jogar cartas.

    Elhad, observando a cena com um olhar crítico, interrompeu com uma nota de seriedade.

    — Diga-me — começou ele. — Qual é seu plano? Você não mandaria suas esposas e filhos para um lugar seguro se não tivesse nada diabólico em mente… Conheço você o suficiente para saber disso.

    Colin sorriu, um sorriso frio e calculado.

    — Você tá certo. Levarei o caos ao que sobrou do continente, mas não faria isso com minha família por perto. Você sabe como mulheres são, iriam se encher de preocupação e no final quem ficaria preocupado seria eu.

    — Então por que Heilee e eu estamos aqui? — perguntou Leona cruzando os braços.

    — Vocês não me questionam, agora vamos.


    No subterrâneo do palácio, uma câmara sombria e fria iluminada por tochas trêmulas abrigava uma reunião secreta dos nobres de Runyra.

    As paredes de pedra gotejavam umidade, e o ar estava impregnado com o cheiro de mofo e intriga. Uma mesa de madeira maciça, desgastada pelo tempo, estava no centro, cercada por figuras encapuzadas.

    — Estão abandonando a cidade — disse uma voz rouca, pertencente a um nobre de rosto pálido e olhos inquietos. — Mas o rei ficará.

    Aoth, com olhos penetrantes e barba bem aparada, inclinou-se para frente, os dedos tamborilando na mesa.

    — Fiquem atentos — alertou ele, sua voz baixa, mas firme. — O rei pode estar tramando algo.

    Linald, de vestes escuras e olhar calculista, balançou a cabeça e enfiou a mão no paletó tirando um saco cheio de pedras preciosas.

    — Os magos vermelhos não se moveram mais desde que dominaram o norte — disse. — Mas cerca de trinta navios estão prestes a desembarcar por todo o norte. Isso é para vocês, para pagarem mercenários.

    — Mercenários? — perguntou outro.

    — Eles estão cientes que Runyra enfraqueceu, eles prometem que continuarão enviando dinheiro se criarmos ducados e jurarmos lealdade a ilha das brumas. Podem até enviar soldados, recursos, tudo para fragmentar Runyra de dentro.

    O silêncio invade a sala, com os nobres encarando um ao outro. Aquela era uma oferta e tanto, mas aceitá-la implicaria colocar um alvo em suas costas, e eles sabiam muito bem o que o conquistador fazia com seus inimigos.

    — É uma boa oferta — Aoth tentou convencê-los. — O centro-leste está se fragmentando, o êxodo está indo para vilas entorno. Não há soldados o suficiente em Runyra, e aquela criatura, Grakk, avança pelo sul, é questão de tempo até chegar aqui. Os carniceiros estão praticamente extintos, e a Ordem dos Caçadores de espectros foi desfeita naquela batalha do norte. Esse é um momento perfeito!

    — Brag, o amputador e o comandante Leerstrom continuam vivos — disse outro nobre. — Há alguns homens fiéis a eles e eles são fiéis ao Conquistador.

    — Isso não importa — continuou Aoth. — Eles continuarão sendo ameaçados, e com Runyra caindo, eles caem. Além disso, — ele pegou uma esmeralda, mostrando para seus companheiros — podemos pagar. Acham que as pessoas escolheriam o quê? Estabilidade? Pessoas não são leais a pessoas, são leais ao que essas pessoas podem proporcionar a elas. Primeiro, convença as crianças e as mulheres, os maridos vão segui-las.

    Vendo a relutância de seu pessoal, Aoth se ergueu, caminhando entre eles. — Pensem — disse. — Não querem ter seu próprio reino? Essa é nossa chance, nossa chance de ter um país para chamar de nosso! Seus filhos poderão ser príncipes e princesas, suas mulheres, rainhas e vocês, vocês serão a autoridade máxima, o rei!

    Ele se inclinou sobre a mesa, apanhando o saco de joias e o derramou, deixando as pedras quicarem na madeira maciça.

    — Um rei mestiço vem até aqui, cospe na tradição de vocês tendo duas esposas, destrói a igreja para qual são devotos há décadas, traz inimigos para morar em seu lar e vocês ainda assim temem esse homem. — Aoth subiu o tom de voz. — Eu era um rei em Valéria, cheguei até aqui com minhas riquezas e fui roubado pela família real, reduzido a nada como vocês, e eles nos deixaram assim!

    — Aoth tem razão — disse Linald, erguendo-se. — O rei mestiço ameaçou me matar e dormir com minha esposa na frente de outros nobres porque o questionei. Todos que foram contra a família real estão mortos, é isso que querem? Viver com essa faca no pescoço?

    Os homens naquela sala ficaram reflexivos, ponderando as possibilidades.

    — Colin, o rei mestiço, é a maior ameaça desse continente desde os tempos de Alucard de séculos atrás — continuou Aoth, sua voz energética. — Se querem se salvar, salvar suas famílias, esse homem tem que ser destruído. Os Elfos Negros reconheceram isso e estão nos ajudando. Mesmo que tenhamos nossas diferenças, eles nos apoiam. Colin também é uma ameaça para eles.

    — Vamos fazer isso! — disse um deles. — Vamos ter nossos próprios principados com nossos próprios homens. Vamos curá-los da praga e dizer que aquela Santa que adoravam era falsa, assim como o reinado do rei mestiço.

    Todos eles concordaram.

    — Perfeito! — Aoth não conseguiu esconder a felicidade. — Deixem que o rei fique com essa cidade em ruínas, não precisamos dela. Em breve, será esquecida como ele.

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