Capítulo 474 - Os herdeiros das brumas.
Com todos os seus músculos tensos, Haldor preparou-se para a batalha, o coração acelerado, mas a mente focada. Ele sabia que a sobrevivência de sua família dependia de sua habilidade.
Yalanue se jogou no chão junto a sua mãe, indo para debaixo de uma mesa.
“É uma emboscada?”, pensou ela. “O Rei está ajudando meus irmãos?”
O primeiro atacante avançou com uma série de estocadas rápidas.
Ting! Ting! Ting!
Haldor desviou e contra-atacou com um golpe lateral, forçando o inimigo a recuar. Ele girou a espada com destreza, criando uma barreira de aço entre sua família e os agressores.
— Seu oponente sou eu!
Yalanue e Lymseia, embora assustadas, mantinham-se firmes. Haldor, percebendo a superioridade numérica dos adversários, sabia que precisava terminar a luta rapidamente.
— Devia ter morrido com aquele velho desgraçado!
— Vai só ficar ameaçando?
— Ora seu pivete!
Ting! Ting! Ting!
Ele desferiu uma série de ataques precisos, derrubando um dos encapuzados com um golpe direto no peito.
Crunch!
Outro atacante tentou flanquear Haldor, mas foi recebido com um chute poderoso que o lançou contra a parede.
Bam!
— O que foi? — provocou o ruivo. — São assassinos ou amadores?
Um dos encapuzados conseguiu se aproximar de Yalanue, mas ela, com um movimento rápido, sacou uma adaga escondida e desferiu um golpe preciso no abdômen dele, neutralizando a ameaça.
Haldor sorriu com orgulho e redobrou seus esforços, eliminando o último atacante com um golpe final e decisivo em seu pescoço.
Swin!
Com a ameaça neutralizada, Haldor respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Ele olhou para sua irmã e a mãe dela, assegurando-se de que estavam bem.
— Precisamos sair daqui — disse, a voz firme, mas carregada de urgência.
Antes que pudessem fazer qualquer movimento, a porta da sala se abriu violentamente, revelando mais guardas do palácio. Haldor ergueu a espada, pronto para mais uma batalha, mas um dos guardas levantou a mão, pedindo calma.
— Viemos ajudar — disse ele, olhando para os corpos no chão. — O rei Colin está ciente da situação. Vocês estão seguros agora.
Haldor, ainda cauteloso, baixou a espada lentamente.
Colin entrou na sala com passos firmes, o olhar penetrante varrendo o ambiente.
Seus olhos caíram sobre os corpos caídos no chão.
Ele se aproximou de um deles e, com um gesto brusco, retirou o capuz do encapuzado, revelando um rosto desconhecido.
Franziu a testa e se virou para Tuly.
— Investigue isso — ordenou Colin, a voz fria e cortante. — E deixe-nos a sós com os Bruminianos.
Os guardas rapidamente saíram da sala, deixando Colin com Haldor, Yalanue e Lymseia. Colin suspirou profundamente, alisando o cabelo para trás. — Estão todos bem? — perguntou ele, tentando adotar um tom mais brando.
Os três ficaram impressionados com a presença imponente de Colin. Era a primeira vez que viam alguém tão alto e com um porte físico tão intimidador. Eles assentiram, ainda apreensivos.
— Sentem-se, por favor — disse Colin, gesticulando para as cadeiras. Eles obedeceram, ainda tensos.
— Peço desculpas pelo que acabaram de passar — começou o rei. — Runyra está passando por um momento difícil. Uma praga mortal assola a cidade, mas minha primeira esposa está trabalhando para conter isso. — Ele fez uma pausa, olhando para cada um deles. — Sei que não deve ter sido uma viagem fácil.
Colin ergueu os olhos, e a mudança foi imediata. O ar ao redor dele pareceu se tornar pesado, quase sufocante, era como se a temperatura no salão tivesse caído alguns graus.
Haldor sentiu os pelos da nuca se eriçarem, a mão deslizando automaticamente para o punho da espada. Lymseia, que sempre tinha uma resposta afiada, ficou em silêncio, seus lábios pálidos apertando-se em uma linha fina. Yalanue, geralmente tão expressiva, parecia ter congelado no lugar, seus olhos arregalados, como se estivesse presa em algum tipo de feitiço sombrio.
— Vocês têm algo a ver com a tomada do norte e o assassinato do rei gigante? — Colin perguntou, a voz tão afiada quanto sua lâmina. — Vou saber se estiverem mentindo.
Haldor abriu a boca para responder, mas nada saiu, sua garganta estava seca, e seu corpo começou a tremer, cada músculo rígido de tensão. Lymseia ficou imóvel, o rosto pálido, como se todo o sangue tivesse fugido de sua pele.
Yalanue não conseguiu manter a compostura. Ela caiu de joelhos, as mãos apertando o chão, a testa pressionada contra o carpete.
— Não sabemos de nada! — As palavras saíram de sua boca como um rio em cheia, rápidas e desesperadas. — Fugimos depois que meus irmãos tomaram o trono. Meu pai disse que você poderia ajudar, não a Ilha das Brumas, mas ao cosmos. Viemos por você porque meu pai confiava em você, e decidimos fazer o mesmo!
O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. Colin relaxou na poltrona, e a atmosfera na sala começou a se acalmar, o peso no ar gradualmente desaparecendo.
— Entendo — disse ele finalmente. — Runyra está cheia de traiçoeiros. — Ele olhou para Yalanue, ainda prostrada aos seus pés. — Qual é o seu nome?
— Yalanue… — respondeu ela, a voz ainda tremendo.
— Gostei de você, Yalanue. Você sabe seu lugar. — Colin então virou o olhar para Haldor. — Mas você… Se tivesse sacado a espada, eu teria te matado.
Haldor engoliu em seco, o medo evidente em seus olhos. — Desculpe — murmurou ele.
— Levante-se, Yalanue — ordenou Colin. — Quero ouvir tudo o que têm a dizer.
Ela se levantou lentamente, tentando recuperar a compostura. Haldor e Lymseia também se endireitaram, ainda tensos.
— Meu pai, o rei da Ilha das Brumas… ele sempre acreditou que a verdadeira ameaça ao nosso mundo não vinha de conflitos internos, mas de algo muito maior — começou Yalanue. — Nos últimos momentos de meu pai, ele falou de você… disse que você tinha o poder e a sabedoria para unir todos nós contra esse mal…
Colin ouviu atentamente. — Continue — disse ele.
— Quando nossos irmãos tomaram o trono, sabíamos que não havia mais segurança para nós lá. Fugimos para procurar você, na esperança de encontrar um líder capaz de nos guiar… Desde então, Runyra tem sido nossa última esperança.
Colin assentiu lentamente. — Vocês chegaram em um péssimo momento, a praga que assola esta cidade está nos enfraquecendo.
Yalanue entregou a ele um pergaminho. — Meu pai disse que deveria ser entregue na mão do senhor.
Haldor, Yalanue e Lymseia se entreolharam, aliviados. Sentiam que, finalmente, estavam começando a encontrar um caminho depois do caos.
— Vamos trabalhar juntos para superar isso — disse Colin, parando em frente a eles. — Mas saibam que a lealdade é algo que prezo acima de tudo. Traição não será tolerada.
— Entendemos — respondeu Haldor, a voz firme enquanto abaixava a cabeça. — Estamos ao seu lado, meu senhor.
Colin assentiu. — Muito bem. Descansem por agora. O que não falta são quartos vazios, sinta-se melhor para ocupar aquele que melhor os atender.
Para o Rei Colin de Runyra,
As estrelas, que sempre foram minhas confessoras e guias, revelaram a verdade sobre você e sobre nós. Nosso sangue é entrelaçado, talvez por um ancestral comum, uma herança que nos liga além das distâncias e do tempo.
Com minha filha, você encontrará um artefato de valor imenso: um livro antigo, datado desde as primeiras eras dos habitantes das Ilhas das Brumas.
Esse tomo, escrito em um diálogo sagrado com as estrelas, contém segredos e sabedorias que devem ser passados a uma de suas esposas, a chamam de Santa. É com grande esperança que confio a você a responsabilidade de entregar-lhe este legado.
Desejo também falar de Haldor, meu filho mais confiável, um espadachim de habilidades incomparáveis. Acredito que ele será um aliado valioso para seus empreendimentos. Adicionalmente, Lymseia, uma de minhas concubinas, é uma mestre na arte culinária e, agora, estará sob sua disposição.
E, por fim, Yalanue, uma de minhas filhas, é a mais gentil de todos os meus filhos.
Entendo que, sendo eles parte da casa secundária, seus destinos estavam selados com a iminência do golpe. Deixe-me ser claro: você pode fazer com eles o que achar necessário. No entanto, peço que lhes transmita algo do que aprendeu em sua jornada. Ensine-lhes a justiça e a integridade.
Que suas decisões e ações sejam guiadas pela prudência.
Com respeito e confiança,
Rei da Ilha das Brumas
Seus olhos, frios e calculistas, correram pelas palavras uma última vez antes de entregá-la a Yalanue.
— Aqui, leiam isso.
Ela o fitou por um momento, a expressão indefinida, antes de aceitar o pergaminho com dedos trêmulos.
Com uma respiração profunda, Yalanue desenrolou o pergaminho e começou a ler, seus olhos movendo-se rapidamente pelas linhas escritas pelo falecido pai.
Ao terminar, ela ergueu o olhar, sombrio e resoluto, e entregou o pergaminho à mãe, Lymseia.
A mulher, silenciosa como uma sombra, leu as palavras com uma expressão inalterada.
Finalmente, ela passou o pergaminho a Haldor.
O espadachim, de postura rígida e expressão endurecida, leu o conteúdo e, sem dizer uma palavra, dobrou a carta cuidadosamente antes de se ajoelhar diante de Colin.
Ele ergueu a espada, a lâmina brilhando suavemente à luz fraca, oferecendo-a ao rei de Runyra.
— Minha lâmina pertence ao senhor.
Colin olhou para ele, os olhos de um dourado frio e distante. — Você não precisa disso — disse, sua voz carregada de um tédio contido. — Eu não planejo seguir o que está escrito na carta.
Haldor, sem levantar a cabeça, respondeu com uma firmeza que beliscava o silêncio do salão. — É a vontade do meu pai. Ele confiava em você, e nós respeitaremos seu desejo.
— Isso não importa — retrucou Colin, com um suspiro exasperado, sua paciência começando a se esgotar.
— Para nós, importa — insistiu Haldor, sua voz tingida de uma teimosia que só o luto pode nutrir. — Vamos atender ao pedido.
Colin o observou por um longo momento, seus olhos avaliando o espadachim como se pesasse o peso de suas palavras.
Então, ele soltou um suspiro, o som de resignação e desinteresse. — Façam o que quiserem, então — disse ele, voltando-se para o salão.
— Vou providenciar alguns quartos para vocês — continuou Colin, sua voz agora mais suave, mas ainda carregada de frieza. — Mas não esperem mordomia. Runyra tem pouco a oferecer no momento, e menos ainda para aqueles que vêm com um legado tão… pesado.
Ele deu-lhes um último olhar, antes de se afastar, as sombras do crepúsculo, engolindo sua figura alta e imponente.
[Uma hora depois]
Colin caminhava pelos corredores vazios, o som de seus passos ecoando no piso de madeira, cada estalo ressoando como um lembrete da solidão que o cercava.
Ele parou diante de uma janela, e seus olhos se fixaram na vastidão de Runyra. A cidade estava envolta em escuridão, com apenas algumas luzes tremeluzindo nas casas abaixo.
O vento balançava suavemente seu cabelo e ele sorriu, um sorriso que carregava a sabedoria de quem já enfrentou muitas tempestades. — É só um contratempo — murmurou para si. — Já passei por isso antes.
De repente, o céu de Runyra começou a se distorcer agressivamente, como se a própria realidade estivesse sendo rasgada.
Zioom!
Um portal se abriu, e dele emergiram duas figuras.
Milveg, diferente de como seu povo se lembrava, tinha a pele pálida como a lua, cabelos prateados que brilhavam sob a luz fraca, e olhos esverdeados que pareciam penetrar a alma.
Ele trajava uma túnica escura junto a trapos que esvoaçavam com o açoite do vento.
Milveg sorriu, um sorriso frio.
— Esperava que Runyra fosse mais grandiosa — desdenhou ele. — Mas não importa.
Com um movimento teatral, ele bateu palmas e abriu os braços, criando uma lança de mana pura.
Raios esverdeados serpenteavam ao redor da arma, iluminando o rosto tenso de Ryan, que engoliu em seco.
— Não temos muito tempo antes que o plano da raiz me rejeite — continuou Milveg. — Isso é pelo deus morto, isso é por Drez’gan.
Agarrando firmemente a lança, ele a lançou com toda a sua força.
Cabrum!
Os céus se rasgaram em um rugido furioso.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.