Índice de Capítulo

    Kurth se movia na cozinha vazia do palácio com a familiaridade de um homem habituado ao silêncio.

    Cada mínimo som ecoava nas paredes de pedra, o rangido da porta do armário, o rasgar suave do pão quando ele o partiu ao meio.

    O aroma da carne de porco assada ainda fresca do dia anterior inundou seu olfato quando ele a pegou, colocando generosas fatias entre os dois pedaços de pão.

    — Isso parece que está ótimo.

    Com um copo de suco recém-derramado, ele se dirigiu ao grande salão, onde o eco de seus passos era a única companhia.

    O lugar parecia maior, com seus tetos altos e tapeçarias antigas. Kurth se sentou em uma das cadeiras de carvalho, o estofado muito desgastado pelo tempo.

    Quando Kurth levou o sanduíche à boca, um trovão ribombou tão próximo que fez o copo de suco vibrar sobre a mesa.

    Cabrum!

    Ele parou, o pão a centímetros dos lábios, quando um relâmpago verde cruzou o céu, sua luz estranha e sinistra se infiltrando pelas janelas do salão, projetando sombras distorcidas nas paredes.

    A pressão no ar mudou de repente, tornando-se esmagadora, como se o próprio peso do mundo estivesse sendo jogado sobre ele.

    Deixando o lanche de lado, Kurth se levantou de um salto e correu até uma das janelas do salão. Sem hesitar, ele a abriu e, com a agilidade de um caçador, saltou para o telhado do palácio.

    O ar lá fora estava carregado de eletricidade, e ele sentiu cada fio de cabelo em sua nuca se arrepiar. Usando sua análise aguçada, ele olhou em direção ao céu e viu Colin, de pé em seu círculo mágico, uma presença imponente, mesmo à distância.

    Mas o que realmente chamou sua atenção, foram as duas figuras que pairavam acima dele.

    Uma delas irradiava uma mana que fazia a do próprio rei de Runyra parecer pequena em comparação.

    As sombras em volta das figuras ondulavam e se contorciam, como se estivessem vivas, moldando-se a cada mudança de energia.

    — Senhor Colin está lutando?

    Kurth observava, seus sentidos em alerta máximo, quando, de repente, ele sentiu o ar ser cortado por algo mortal.

    Woosh!

    Ele se jogou para trás instintivamente, esquivando-se de uma lâmina que passou zunindo por sua orelha.

    Ao se levantar, ele viu diante de si um espectro. A criatura era um ser de pura escuridão, envolto em uma armadura negra, seus olhos brilhando com uma luz esverdeada que parecia devorar tudo ao seu redor.

    O metal de sua espada ainda gotejava com uma substância etérea, como se tivesse rasgado o próprio véu da realidade.

    — Então estamos sob ataque, ótimo, podem vir!

    Ele se preparou, os músculos tensos, prontos para enfrentar o espectro, enquanto o trovão continuava a rugir nos céus acima.

    Kurth não era o único que enfrentava espectros, eles haviam aparecido para matar todos os que habitavam a capital.

    No topo, Colin estava sorrindo de canto com as mãos nos bolsos.

    — Você absorveu minha lança — disse Milveg. — Então é mesmo um errante.

    — E você… quem é? — perguntou Colin, despreocupado. — Alguma criatura do abismo? Venci todos os seus príncipes, pensei que tivessem aprendido a lição.

    — É exatamente como me disseram, sua arrogância não tem limites — cuspiu Milveg.

    Colin deu de ombros. — Você tem uma mana bem anormal, com certeza não deve ser alguém comum, então diz logo quem é você.

    — Sou Gra’visk, o apóstolo da abominação, e fui enviado para acabar com você.

    Cabrum!

    Uma explosão aconteceu na cidade abaixo de Colin, o chão rachando, engolindo casas, a fumaça e destroços caindo como chuva. Gra’visk estava lá, em um enorme buraco, sua mão cravada na terra. Ele jurou que havia esmagado a jugular de Colin.

    “Ele se esquivou?” pensou ele.

    Colin ainda estava lá em cima, encarando Milveg com as mãos nos bolsos e olhos cheios de arrogância.

    — Você é lento demais para um apóstolo. Minha esposa grávida consegue ser mais rápida que isso.

    “Ele está mais forte” pensou Ryan. “Esse desgraçado, ele está bem mais forte que da última vez que o encontrei! O potencial evolutivo dele não tem fim?”

    — Ryan, né? — Colin tirou a mão direita do bolso. — Pensei que tivesse arrancado esse braço quando nos encontramos. Não importa, arrancarei de novo.

    Woosh! Cabrum!

    Movendo a cabeça para o lado, Colin esquivou-se de uma lança de relâmpago, deixando que ela explodisse longe, engolindo uma montanha, a onda de choque, um poderoso vendaval, caindo sobre Runyra, fazendo as casas mais frágeis serem arrancadas do chão.

    Ryan se protegeu cruzando os braços frente ao rosto, mas o apóstolo Gra’visk e o Conquistador continuaram imóveis, sequer piscaram enquanto suas vestes chicoteavam.

    Uma nuvem de poeira cobriu Runyra.

    — Uma habilidade surpreendente — comentou Colin encarando Milveg escondido pela nuvem de poeira. — Me responda uma coisa, você está com Thaz’geth? Se ela estivesse aqui, seria mais interessante.

    Woosh!

    Milveg deixou a nuvem de poeira num piscar de olhos e tencionou os músculos de seu braço direito, envolvendo-o em raios esmeralda.

    “Ele ficou mais rápido!” Colin cruzou os braços na altura do rosto antes de ser enviado com tudo para o chão, estremecendo o centro de Runyra e estilhaçando todas as vidraças do palácio e das casas entorno.

    Boom!

    O apóstolo desceu com os dois pés em Colin numa velocidade vertiginosa, mas o rei defendeu, o chão abaixo de seus pés fora rachado em placas grossas de terra.

    Colin apanhou o calcanhar de Milveg e o lançou longe, mas ele logo se recompôs, faíscas esverdeadas circundando todo seu corpo.

    “O primeiro golpe que ele me deu não se compara ao segundo, a força dele praticamente dobrou”, pensou Colin. “Isso pode significar duas coisas, ele estava se segurando ou ele é um Monarca Arcano da pujança. Se for a segunda opção, então significa que estou com problemas. Se não consigo ganhar dele na força, então isso se torna uma batalha de mana. Tenho que gastar o mínimo possível enquanto absorvo a mana dele, mas acho que isso é impossível.”

    Alisando o cabelo para trás, Colin rasgou o torso de sua túnica, deixando seus músculos expostos.

    “Ele não é um príncipe do abismo, deu para sentir a diferença de poder no primeiro golpe. É semelhante à aura que senti quando Drez’gan possuiu o corpo daquele príncipe, talvez seja até mais opressiva já que quem está aqui é um apóstolo de verdade. O véu já se enfraqueceu o suficiente para eles passarem para esse plano? Parece que foi uma decisão acertada mandar o pessoal para a ilha das fadas.”

    Cabrum!

    Colin defendeu um soco poderoso de Milveg em velocidade maior que Mach 3. Ele sequer saiu do lugar, mas tudo atrás dele fora destruído.

    — Por que sinto a mana dela em você? — Milveg cerrou os dentes.

    “Dela?”

    — Vai ter que ser mais específico, amigo.

    Cabrum!

    Afastando-se, Milveg golpeou Colin no rosto num chute brutal que o rei não conseguiu ver chegando. Colin recuperou-se em um movimento acrobático e os raios entorno dele ficaram mais agressivos.

    Num assovio, foi a vez de ele avançar.

    Cabrum!

    Milveg levou uma poderosa joelhada na testa. Ele foi lançado violentamente entre casas vazias, mas logo se recuperou.

    — Morwyna! — A mana que ele emanava dobrou. — O que você fez com ela?

    “Então é isso…”

    Colin sorriu de canto. — Não ficou sabendo? Nós dividimos a alma agora. Morwyna é minha.

    Uma veia saltou na testa de Milveg.

    — Ela se submeteu a um mestiço como você? Não acredito nisso!

    — Não foi difícil convencê-la — provocou Colin. — Você é Milveg, certo? Então se tornou um apóstolo do deus morto? Hehe! Ele está tão desesperado assim? Bom, de qualquer modo, eu tenho que te agradecer — Colin lambeu os beiços, seus olhos brilhando como os de uma fera faminta. — Morwyna está me servindo bem.

    A raiva de Milveg continuava em uma crescente.

    — Obrigado por jogá-la direto no meu colo, vou aproveitar cada segundo disso.

    — Seu desgraçado!

    “Aí vem ele!”

    Cabrum! Cabrum! Cabrum!

    Os dois se lançaram um contra o outro novamente, suas forças colidindo como ondas contra rochedos. Socos eram trocados com uma velocidade e ferocidade impressionantes, cada impacto enviando tremores pelo chão e criando novas crateras.

    Com um soco direto, Colin destruiu a jugular de Milveg, o socou no abdômen e o chutou no queixo, direto para o céu.

    Dobrando os joelhos, Colin saltou, deixando uma cratera e poeira para trás.

    — Devia ter vindo até mim e dobrado os joelhos — provocou Colin acertando um soco no nariz de Milveg, o lançando entre as nuvens. — Se tivesse oferecido a sua filha, eu teria te poupado, te deixaria vivo para ver eu corrompendo o sangue puro da sua herdeira, ver tudo pelo que lutou tanto desmoronar. O sangue mais puro do cosmos corrompido por um mestiço!

    Os golpes não paravam.

    — Merda, só de pensar nisso fico excitado!

    Colin estava ultrapassando os limites do que era ser humano, e isso se refletia em cada movimento, em cada golpe que desferia.

    Sua força havia se tornado algo mais do que físico, algo que ultrapassava o mero poder de um homem. Ele era um ser que não podia mais ser comparado às criaturas mortais que habitavam o plano da raiz.

    A mente de Colin, já deteriorada por incontáveis batalhas e perdas, havia se fragmentado em pedaços que ele mal conseguia manter unidos.

    Cada quebra, cada trauma, empurrava-o mais fundo nas trevas, onde a linha entre o homem e o monstro começava a desaparecer.

    Os contratos e pactos que ele havia selado ao longo de sua jornada também desempenhavam um papel crucial.

    Eles não apenas alteravam a natureza de sua alma, mas também a corrompiam, impregnando-a com poderes e maldições de entidades antigas e perigosas.

    Lentamente, essas influências puxavam-no cada vez mais para o abismo de seu ser, reforçando seu poder, mas também afastando-o de qualquer traço de humanidade que ainda restasse.

    Mas talvez o mais perturbador de tudo fosse o prazer que Colin encontrava na batalha, algo que crescia a cada combate que travava.

    A brutalidade do combate, o som de ossos quebrando sob seus punhos, o cheiro de sangue fresco no ar — tudo isso o excitava de uma maneira que poucas coisas podiam.

    O êxtase de dominar seus inimigos, de sentir a vida esvair-se de seus corpos sob sua força implacável, dava-lhe uma satisfação que ultrapassava qualquer prazer carnal.

    Nem mesmo deitar-se com Brighid e Ayla juntas poderia compará-lo ao êxtase que sentia ao submergir-se em uma batalha violenta e sangrenta.

    Era esse desejo insaciável por destruição, essa sede por violência e poder, que o empurrava cada vez mais para além do que é ser humano.

    Cada elemento de sua existência — sua mente fragmentada, os pactos que rasgavam sua alma, e o tesão pela batalha — se fundia nesse caldeirão fervente, transformando-o na criatura mais poderosa e perigosa do continente.

    Um ser que não podia mais ser chamado de homem, mas que se aproximava cada vez mais das bestas e dos monstros que habitavam os recantos mais sombrios do mundo.

    Cabrum! Cabrum! Cabrum!

    Raios de energia carmesim e esmeralda se entrelaçavam no ar, formando um espetáculo de luz e caos que iluminava o céu escuro como fogos de artifício de um mundo desolado.

    Nas paredes escuras do castelo, o ar estava denso, impregnado com o cheiro de morte e desespero.

    Haldor, o filho mais confiável do rei da Ilha das Brumas, avançava com a espada em punho. Ele havia sido treinado por toda a vida para enfrentar inimigos de carne e osso, mas os espectros que assombravam aquele lugar eram outra coisa.

    As lâminas etéreas dos espectros cortavam o ar com silvos sibilantes, quase imperceptíveis, enquanto eles se lançavam sobre Haldor com uma fúria infernal.

    Ting! Ting! Ting!

    Seus olhos vazios brilhavam com um brilho verde fantasmagórico, e seus corpos translúcidos pareciam flutuar a poucos centímetros do chão.

    — Merda! Eles não somem?

    Ele girou sua espada em um arco largo, a lâmina emitindo um brilho prateado quando encontrou o primeiro espectro.

    Ting!

    O choque da espada contra o ser espectral ressoou pelo corredor, como um sino distante, e o espectro soltou um grito agudo antes de se dissipar no ar.

    Mas onde um caía, outros surgiam.

    Haldor estava cercado, seus movimentos precisos e meticulosos enquanto ele bloqueava e contra-atacava, cada golpe mais feroz do que o último.

    Um dos espectros avançou de repente, sua lâmina espectral cortando em direção ao pescoço de Haldor. Ele se abaixou no último segundo, a lâmina passando por ele com um silvo mortal, antes de girar a espada e cortar o espectro ao meio.

    Swin!

    A criatura soltou um grito fantasmagórico antes de desaparecer em uma nuvem de fumaça, mas Haldor não teve tempo para comemorar. Outro espectro já estava sobre ele, suas garras fantasmagóricas tentando agarrá-lo.

    Com um movimento rápido, Haldor girou a espada e perfurou o peito do espectro.

    Crunch!

    O ser espectral estremeceu, sua forma tremulando antes de desaparecer como névoa ao vento. Haldor recuou, seus olhos varrendo o corredor em busca de mais inimigos.

    As sombras ainda se moviam, mas a presença dos espectros estava diminuindo.

    — Acho que consegui acabar com todos eles!

    De repente, um espectro maior e mais ameaçador emergiu da escuridão, seus olhos brilhando com um ódio intenso. Este era diferente dos outros, sua forma mais sólida e definida, sua presença mais opressiva.

    — Então, você é o chefe? Ótimo, vem logo! — Ele se preparou, a espada firme em suas mãos, e avançou.

    O combate foi feroz, as lâminas se cruzando em uma série de golpes rápidos.

    Ting! Ting! Ting!

    O espectro era incrivelmente rápido, mas Haldor era um guerreiro treinado, seus reflexos eram tão afiados quanto sua lâmina.

    Ele desviou dos ataques do espectro, contra-atacando com força e precisão de um espadachim acostumado a batalhas difíceis.

    A luta parecia durar uma eternidade, mas Haldor não mostrou sinais de cansaço.

    Finalmente, ele encontrou uma abertura. Com um movimento rápido, Haldor girou sua espada e cortou o espectro de cima a baixo, a lâmina prateada brilhando quando cortou a forma etérea do inimigo.

    O espectro soltou um grito agudo, sua forma tremulando violentamente antes de se dissipar completamente.

    O corredor ficou em silêncio, as sombras finalmente em repouso.

    Haldor respirou fundo, baixando a espada enquanto observava o lugar onde o espectro havia caído.

    — Tenho que encontrar minha irmã!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota