Índice de Capítulo

    No céu noturno, onde as estrelas eram apagadas pelos clarões de energia, Ryan observava a batalha titânica entre Colin e Milveg.

    Cada impacto era como um trovão, reverberando nas alturas e sacudindo as nuvens ao redor.

    Ele estava de pé em seu círculo mágico, tentava acompanhar os movimentos dos dois guerreiros. A cada troca de golpes, faíscas de energia explodiam no ar, iluminando brevemente o rosto de Ryan.

    À medida que a luta continuava, Ryan percebeu algo inquietante: quanto mais Milveg aumentava seu poder, mais Colin parecia acompanhá-lo, como se cada novo nível de fúria fosse igualado por Colin com facilidade.

     A batalha estava além de qualquer coisa que Ryan já tivesse presenciado. Colin, mesmo diante de um adversário tão formidável, não recuava. Na verdade, ele parecia prosperar no caos da luta, seus ataques cada vez mais ferozes, suas defesas cada vez mais impenetráveis.

    “Merda… ele pode… ele pode derrotar um apóstolo? Claro que não, isso é impossível! Colin não passa de um mortal!”

    De repente, ele sentiu seu corpo começar a endurecer, uma paralisia fria subindo por suas extremidades.

    — Mas… que merda é essa?

    O pânico o tomou por um instante enquanto ele tentava entender o que estava acontecendo. Seus olhos se moveram rapidamente, procurando a fonte do feitiço que o prendia.

    Então, de canto de olho, ele viu uma figura no topo do palácio. Heilee estava lá, sua silhueta destacando-se contra o céu iluminado pelos raios de energia.

    Ela estava concentrada, o rosto contorcido em esforço, enquanto apontava uma mão para ele, seus lábios murmurando palavras arcanas.

    — Que tipo… de magia é essa?

    Antes que ele pudesse reagir, uma aura poderosa emergiu de cima. Ryan mal teve tempo de registrar o que estava acontecendo quando sentiu o impacto.

    — Leona…

    Boom!

     Leona, com o punho cerrado, desceu sobre ele como um meteoro, a força de seu soco gerando uma pressão avassaladora no ar ao seu redor.

    O golpe atingiu Ryan com uma força brutal, quebrando qualquer resistência mágica que ele pudesse ter conjurado. Ele foi lançado em direção ao chão, incapaz de controlar sua queda.

    O impacto foi devastador.

    Ryan sentiu o ar ser expelido de seus pulmões enquanto seu corpo colidia com o solo, levantando uma nuvem de poeira e destroços.

    Ele tentou recuperar o fôlego, seu corpo ainda tremendo do choque, mas a dor e a força do golpe de Leona o mantinham preso no chão, os olhos arregalados enquanto ele processava o que acabara de acontecer.

    — Te peguei, seu fodido! — Leona já estava ali, o encarando com um sorriso convencido. — Tem que ser mesmo muito burro para vir atacar o mestre Colin na cidade dele. Você está mesmo de parabéns.

    Antes que Ryan pudesse se mover, placas de terra seguraram seus braços, pernas e pescoço. Elhad veio dos fundos, as mãos nos bolsos enquanto seu cabelo longo esvoaçava. 

    Crunch!

     Yonolondor cravou a espada no abdômen de Ryan, fazendo-o cuspir sangue.

    — Não atingi nenhum ponto vital, então não se mexa. Se eu sentir qualquer manifestação de mana, mato você.

    Dos lábios de Ryan, escorria sangue, mas ele não se moveu, não tinha sequer forças para isso. O soco de Leona havia decretado seu fim.


     No céu tumultuado, Colin e Milveg eram pouco mais que borrões, uma tempestade de energia pura em tons de vermelho e verde que se entrelaçavam em um combate beirando o divino.

    Colin, com a precisão de um predador, conseguiu se posicionar atrás de Milveg e, em um movimento fluido, agarrou o calcanhar do oponente com uma força esmagadora.

    Com um grito animalesco, ele girou Milveg em pleno ar, usando a força centrífuga para lançá-lo em direção ao solo.

    Booom!

    O impacto foi apocalíptico. O chão se abriu como se tivesse sido atingido por um meteoro, ondas de choque ressoaram por toda a região, destruindo árvores, edifícios e até morros ao redor, transformando tudo em escombros.

    A cratera que se formou era tão profunda que parecia querer engolir o mundo.

    Mas Colin não esperou para ver os resultados. Em uma fração de segundo, ele avançou em direção ao ponto de impacto com a velocidade de um cometa, um traço vermelho riscando o céu.

    Ele se preparava para terminar a luta quando, de repente, Milveg emergiu dos escombros. Em um movimento rápido e preciso, Milveg atingiu Colin no rosto com uma força devastadora.

    Cabrum!

     O impacto foi tão poderoso que lançou Colin para longe, destruindo tudo em seu caminho. Construções inteiras foram reduzidas ao pó.

    Colin, com sangue escorrendo pelo rosto, se recompôs no ar, sua respiração pesada, mas sua determinação inabalável. Como um corredor se preparando para a largada, ele se posicionou, os olhos fixos em Milveg, que já estava pronto para o próximo ataque.

    Num instante, Colin disparou contra Milveg, cortando o ar com um silvo agudo. O choque de seus punhos reverberou, criando faíscas de energia que iluminavam a escuridão ao redor.

    — Você está enfraquecendo! — bradou Milveg encaixando um soco no abdômen de Colin. — Não importa o quão poderoso seja, é só um mortal.

    O apóstolo encaixou mais dois golpes devastadores.

    — No fim, você fica sem mana, você se cansa e perece!

    Milveg, agora com um sorriso selvagem nos lábios, aproveitou a fraqueza de Colin.

    — Isso é poder de verdade, garoto, você só deu sorte por ter o sangue abençoado, mas você, no fundo, sabe que não é nada!

    Com uma brutalidade visceral, ele começou a golpear Colin sem piedade.

    O primeiro soco atingiu Colin no estômago, dobrando-o ao meio, seguido por um golpe ascendente que o lançou novamente no ar. Sem dar tempo para recuperação, Milveg se lançou atrás dele, desferindo uma sequência de golpes implacáveis.

    Bam! Bam! Bam!

     Cada soco, cada chute era um ataque calculado para destruir Colin não apenas fisicamente, mas espiritualmente.

    — Está sentindo isso, garoto? É a sua mortalidade, você não pode ser poderoso se ainda tiver isso!

    Colin tentava se defender, mas Milveg estava implacável, sua força aumentada ao ponto de parecer quase imbatível. Um golpe particularmente poderoso atingiu Colin nas costelas, o som do osso quebrando ecoou na noite, seguido por um chute que o arremessou contra o chão, cavando outro sulco profundo na terra.

    Colin mal teve tempo de recuperar o fôlego antes que Milveg estivesse sobre ele novamente, segurando-o pelo pescoço e levantando-o no ar, sua mão livre já preparada para desferir outro golpe mortal.

    — Mesmo que eu fosse um mortal, o resultado seria o mesmo. Rei de Runyra? Você é uma piada! Seus golpes carecem de técnica, você luta como um animal, por isso nunca conseguirá me vencer.

    — Todos vocês adoram falar, né? — Ele cuspiu sangue e abriu um sorriso de canto. — Eu vi o seu passado, Milveg… se sacrificou tanto para nada… imagino como deve ser frustrante se empenhar tanto para criar a raça pura e ter sua filha sujando seu sangue com um mestiço… Virar um apóstolo do deus morto… isso foi o máximo que conseguiu nessa sua vidinha cheia de fracasso, e é disso que você se orgulha? Hehe! Patético até o fim…

    Foi a primeira vez que Milveg sentiu tanta raiva de alguém. Aquilo não foi um mero insulto, Colin escarrou em sua honra, pisou em seu orgulho. O que mais o deixou zangado foi que Colin tinha razão.

    — Senhor Drez’gan tinha razão quando disse que tudo que saía de sua boca era veneno.

    — Sério? — zombou. — Morwyna pode não concordar com isso…

    Cabrum!

     Milveg avançou. Ele batia em Colin como se estivesse forjando uma arma, cada golpe moldando-o, quebrando-o, transformando-o em algo mais fraco, mais vulnerável.

    O sangue de Colin manchava suas mãos, seus punhos cerrados enquanto ele tentava resistir, mas a dor era insuportável, a força de Milveg imensurável.

    Cada golpe era como uma sentença de morte, cada soco ressoando com a certeza de que Colin estava sendo levado ao seu limite.

    “A mana dele não chega ao fim nunca?”, pensou Colin sendo alvejado pelos poderosos golpes do apóstolo. “Não posso me curar enquanto absorvo a mana dele, mas já gastei mana demais para aumentar a força de meus ataques para tentar me igualar a ele… se esse desgraçado for mesmo imortal, então eu não tenho chance…”

    — Não parece tão arrogante, agora — zombou Milveg segurando Colin pelo pescoço. O Errante não se dobrou, forçando um sorriso.

    — Acabe logo com isso…

    Milveg, ainda com o punho erguido, prestes a desferir o golpe final em Colin, sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

    “O que é isso?”

    Um pressentimento de perigo, algo que ele não conseguia identificar de imediato, tomou conta dele. Antes que pudesse reagir, o chão abaixo de seus pés começou a tremer. Algo colossal, majestoso, emergia das profundezas da terra, ascendendo aos céus com uma imponência magnífica.

    A criatura que se ergueu era de uma beleza e majestade incomparáveis.

    Sua pele era de um verde suave, quase translúcido, com uma aura brilhante que refletia a luz ao seu redor, tornando-o uma figura angelical.

    Dois pares de asas imensas se desdobram de suas costas, cada uma delas adornada com penas brancas que cintilavam como estrelas.

    Seu cabelo, tão branco quanto a neve mais pura, caía em ondas suaves sobre seus ombros largos, contrastando com os olhos profundos e enigmáticos que fitavam Milveg com uma calma inquietante.

    Milveg, até então indomável, sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo. Nunca antes havia sentido tal presença. Quem ou o que era essa criatura?

    Antes que pudesse encontrar uma resposta, o ser alado falou com uma voz suave, mas cheia de autoridade.

    — Solte Colin — ordenou a criatura, seus olhos fixos em Milveg. — Minha mestra não gostaria que ele morresse aqui.

    Milveg hesitou por um momento, a mão ainda firmemente agarrada ao pescoço de Colin.

    Mas o poder que emanava daquela criatura era inegável, e por um instante ele se perguntou se estava diante de uma força superior.

    Relutante, ele soltou Colin, deixando-o cair pesadamente ao chão, enquanto seus olhos permaneciam fixos na criatura alada, o medo começando a crescer dentro dele.

    “Isso… é um Deva?”, perguntou-se Milveg. “Não importa o que ele é, eu venço.”

    A criatura, sem desviar o olhar, ergueu um braço na direção de Milveg. Imediatamente, um círculo mágico se formou no solo abaixo de Milveg, brilhando com uma luz dourada. No centro do círculo, um ponteiro de relógio surgiu, começando a girar lentamente.

    “Não consigo me mover!”

    Com um som crepitante, uma rachadura no espaço se abriu acima de Milveg, distorcendo o ar ao redor como se a própria realidade estivesse sendo rasgada.

    Milveg tentou resistir, lutar contra a força que agora o puxava inexoravelmente em direção à rachadura.

    Seus músculos se contraíram, a energia verde ao redor de seu corpo brilhou intensamente enquanto ele se debatia, mas era em vão.

    A força que o puxava era absoluta, inescapável.

    Milveg soltou um grito de fúria, seus olhos arregalados enquanto ele era sugado para dentro da rachadura, que se fechou logo em seguida, deixando apenas o silêncio no ar.

    A criatura alada pousou suavemente ao lado de Colin, que jazia no chão, ofegante e ferido, mas ainda consciente. A majestosa figura inclinou-se sobre ele, seus olhos brilhando com uma luz compassiva.

     Uma paz estranha emanava daquele ser, como se o próprio ar ao redor tivesse se tornado mais leve e tranquilo com sua presença.

    — Você… — murmurou Colin. — É o terceiro pandoriano da Ayla, né?

    — A mana daquele homem estava incompleta, por isso consegui mandá-lo de volta para o abismo. É um homem sortudo, Colin, sua mana agressiva me despertou. Tenho que retornar antes que o plano da raiz me negue.

    — Retornar para onde? E como você conseguiu bani-lo?

    Colin ergueu-se lentamente enquanto curava seus ferimentos.

    — Aquele apóstolo tinha um tempo limite para habitar esse plano, apenas acelerei esse tempo. Criaturas poderosas demais habitam partes sensíveis do plano da raiz, isso permite que seres como eu não desapareça, mas não posso deixar esse lugar por muito tempo.

    Colin suspirou, coçando a nuca. — Tenho que agradecer Ayla por isso, agora me deixe adivinhar, essa parte sensível desse plano está logo abaixo de Runyra, certo?

    — Correto — O Deva estreitou o olhar, como se encarasse o fundo da alma do Errante. — Você… não é o homem que eu esperava…

    — Decepcionado? — brincou Colin.

    — Fez contrato com uma súcubo, sua mana é perversa, quase o confundi com o inimigo, e vejo que gosta de se aproveitar dos fracos mentindo e manipulando. Não sei o que mestra Ayla viu em alguém com uma alma tão instável.

    — Se já fez o que tinha que fazer, pode ir — Colin abanou as mãos. — Vê se não demora tanto da próxima vez.

    O Deva bateu as asas e entrou novamente na terra num estrondo.

    Boom!

     Colin protegeu o rosto da poeira, tossindo.

    — Que exagero… — Ele olhou a destruição em torno. — Será que sobrou alguém?


    O reino de Runyra estava em ruínas, uma sombra do que era antes do combate titânico entre Colin e Milveg.

    O ar estava carregado de poeira, misturada ao cheiro acre de destruição. As torres góticas que um dia se ergueram majestosamente em direção ao céu agora eram pilhas de escombros, espalhadas por todos os lados como corpos em um campo de batalha.

    As muralhas, outrora impenetráveis, estavam quebradas e devastadas, com rachaduras profundas que serpenteavam por suas superfícies.

    Pedaços de pedra e madeira jaziam por toda parte, as marcas do poder devastador que havia sido liberado naquela fatídica luta.

    Colin caminhava lentamente pelos escombros.

    Seus olhos, cansados e sombrios, observavam os restos do que antes era o orgulho de Runyra.

    Ele sentia a terra desmoronando sob seus pés.

    — Merda… Runyra está acabada…

    Cof! Cof!

    Ele tossiu e encarou o sangue na palma de sua mão.

    “É igual quando enfrentei os príncipes. Mesmo que eu tenha ficado forte, ainda não é o suficiente, não para vencer Drez’gan… melhor continuar andando, devo encontrar algum sobrevivente.”


      Após o que pareceu uma eternidade vagando pelos escombros, Colin avistou seus companheiros à distância, um pequeno grupo reunido ao redor de uma das poucas estruturas ainda de pé, embora danificada.

    Entre eles, Leona balançava os braços de maneira animada, chamando-o.

    — Mestre Colin, por aqui!

    Com um suspiro pesado, ele apressou os passos, desviando-se das pedras caídas e das pilastras partidas que obstruíam seu caminho.

    Quando se aproximou, Leona sorriu, sua expressão ainda carregando a energia juvenil que parecia indestrutível, mesmo em meio à destruição. — Eu o derrubei! — exclamou ela, o orgulho em sua voz, seus olhos brilhando com uma excitação quase infantil.

    Colin se aproximou, vendo a espada de Yonolondor cravada no abdômen de Ryan.

    — Ryan… — Colin abriu um sorriso de canto enquanto seus companheiros abriam caminho. — Dessa vez parece que pegamos você.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota