Capítulo 478 - Conexão.
Assim que Walorin e os outros atravessaram o portal, uma chuva pesada começou a cair, como se o próprio céu lamentasse o que havia acontecido.
Gotas grossas e frias martelavam o chão, transformando a terra seca em uma lama espessa que se acumulava debaixo de Colin. A água misturava-se ao sangue que escorria de suas feridas, tingindo a lama de vermelho.
Colin, ferido e exausto, sentia o peso do mundo sobre si.
A dor era insuportável, seus braços quebrados pendendo inutilmente ao lado do corpo. No entanto, ele reuniu as forças que lhe restavam e começou a se arrastar pelo chão encharcado, a lama grudando em suas roupas, dificultando cada movimento.
Cada centímetro avançado era uma batalha contra a dor, mas ele não podia parar. Não agora.
Finalmente, ele alcançou Leona, que estava caída no chão, imóvel. Seus olhos, cheios de desespero, a examinaram, percebendo a gravidade de seus ferimentos.
Colin queria abraçá-la, segurá-la, mas seus braços inutilizados não lhe permitiam tal conforto. Então, ele fez a única coisa que podia: deitou-se sobre ela, protegendo-a da chuva, seu corpo se curvando sobre o dela como um escudo.
Com os últimos resquícios de sua mana, Colin começou a canalizar sua energia para Leona. Ele podia sentir o pouco que lhe restava sendo transferido, fluindo lentamente para curar as feridas dela.
A queimadura em sua pele começou a desaparecer, a carne se regenerando gradualmente. Os braços dela, antes destruídos, começaram a se reconstituir, embora o processo fosse lento e doloroso.
Quando terminou, Colin sentiu o vazio dentro de si. Toda sua energia havia sido consumida, deixando-o exausto, mas havia conseguido salvar Leona.
Ele se deitou ao lado dela, deixando que a chuva caísse sobre eles. O som das gotas batendo no chão e em seus corpos era quase reconfortante.
As vozes ao redor pareciam distantes, como se fossem de outro mundo. Ele viu Haldor e Kurth correndo até ele, os rostos deles contorcidos de desespero. Eles estavam gritando algo, mas as palavras não faziam sentido para Colin.
Seus olhos começaram a se fechar, a exaustão tomando conta.
Seu último pensamento, antes de ser engolido pela escuridão, foi simples e amargo: “É igual quando perdi para Anton… eu ainda sou fraco… que saco…”
Longe de Runyra, quase no meio do oceano, estava a ilha das fadas, um verdadeiro paraíso de beleza e magia.
Pequenas colinas verdes se estendiam por toda a paisagem, salpicadas de flores que brilhavam com cores vibrantes e impossíveis.
Árvores antigas, cujos troncos eram tão largos que três homens de mãos dadas não conseguiriam abraçar, erguiam-se majestosas, suas folhas balançando suavemente ao ritmo da brisa encantada.
O ar era doce, perfumado com o aroma de mel e flores silvestres, e o som suave de riachos cristalinos serpenteava pela ilha, criando uma melodia calma e eterna.
No centro desse refúgio, havia uma clareira banhada pela luz dourada do sol, onde uma pequena cabana de madeira, entrelaçada com vinhas floridas, abrigava Brighid, Ayla, Morwyna e seus filhos. O lugar era aconchegante, irradiando uma sensação de paz que apenas a ilha das fadas poderia oferecer.
Na cabana, Brighid estava sentada em um tapete de musgo macio, sua pele luminosa refletindo a luz que entrava pelas janelas.
Nos braços dela, sua bebê gargalhava alegremente, contagiada pelas cócegas que Brighid fazia em sua barriga com leves beijos e sussurros carinhosos.
O sorriso de Brighid era radiante, sua alegria pura e contagiante, um momento de felicidade simples e verdadeiro, algo que ela não sentia há semanas.
Enquanto brincava com sua filha, a bebê rindo e se contorcendo de alegria, Brighid sentiu, de repente, um arrepio percorrer sua espinha.
Foi uma sensação súbita e estranha, como se uma sombra tivesse passado sobre o brilho do sol. Seu sorriso desapareceu lentamente, substituído por uma expressão de preocupação.
Ela parou o que estava fazendo e olhou fixamente para a janela aberta, que dava vista para a floresta ao redor. A brisa que antes era reconfortante agora parecia carregar um toque de inquietação. Um sentimento inexplicável de urgência tomou conta dela.
— Colin… — Brighid murmurou baixinho, o nome escapando de seus lábios quase como um suspiro. Algo estava errado, ela podia sentir.
A conexão profunda que ela tinha com Colin lhe dizia que ele estava em perigo, que algo terrível havia acontecido.
Segurando sua filha mais perto de si, Brighid continuou a encarar a janela, seu coração acelerado, enquanto o vento sussurrava ao redor, trazendo consigo um presságio de escuridão.
Em uma clareira sombria e silenciosa, cercada por árvores antigas cujas copas bloqueavam a maior parte da luz da lua, Ayla e Morwyna treinavam incansavelmente.
Ting! Ting! Ting!
O clangor das lâminas reverberava entre as árvores. Ayla e Morwyna se moviam na clareira como predadoras em um duelo imortal. O suor deslizava pelos rostos, mas seus olhos, ardentes como chamas, não piscavam, não vacilavam. Nenhuma delas cederia.
Ayla, firme como um rochedo à beira de um abismo, calculava cada movimento com a precisão de uma assassina veterana.
Sua espada cortou o ar em um arco mortal, mirando o flanco exposto de Morwyna. O aço sibilou como uma serpente prestes a morder.
Mas Morwyna, ágil como o vento que varria a floresta, dançou para longe da lâmina, seu corpo movendo-se com uma elegância quase sobrenatural.
Ting!
No mesmo instante, ela contra-atacou, sua lâmina descrevendo um arco fulminante em direção ao ombro de Ayla. Então, no meio do ataque, ambas pararam de repente.
Uma sensação estranha percorreu seus corpos, como um frio gélido que subiu pela espinha e fez com que as lâminas se abaixassem.
Ayla sentiu seu coração acelerar e, por um momento, todo o mundo ao seu redor pareceu se silenciar. Morwyna, ao seu lado, franziu o cenho.
— Você sentiu isso? — Ayla perguntou, a voz sussurrante.
Morwyna assentiu, os olhos ainda fixos em algum ponto distante na floresta, como se estivesse tentando decifrar o que acabara de acontecer.
— Senhorita Ayla, isso foi…
— Colin… uma oscilação na alma… que merda, o que ele está fazendo?
A muitos quilômetros dali, do outro lado da ilha, Valagorn, que havia se estabelecido junto aos Elfos em um assentamento oculto nas profundezas da floresta, interrompeu o que fazia e ergueu os olhos para o horizonte.
Seus sentidos aguçados captaram uma perturbação, uma sombra no ar que não deveria estar ali. Com as mãos firmemente cerradas em punhos, ele sentiu o mesmo arrepio que havia percorrido as esposas do rei.
— Colin… — ele murmurou, seus pensamentos tomados por uma preocupação crescente.
Enquanto isso, em uma região ainda mais distante, Jane relaxava nas águas quentes de uma fonte termal, o vapor subindo ao redor dela em finas espirais.
Ela estava sozinha, aproveitando o momento de paz, quando uma sensação desconfortável a atingiu. Os músculos de seu corpo relaxado se enrijeceram e ela estreitou os olhos, como se pudesse enxergar através da distância que a separava de Colin.
— Merda… — Jane sussurrou, seus olhos fixos no horizonte nebuloso além das montanhas. — O que está acontecendo?
Ryan abriu os olhos lentamente, a escuridão ao seu redor foi substituída por uma penumbra opressiva. Ele piscou algumas vezes, tentando ajustar a visão, até que sua atenção foi capturada por uma figura sentada nas sombras.
Coen estava ali, com um sorriso de canto, os olhos fixos em Ryan com uma calma que fez um calafrio percorrer sua espinha.
— O que… aconteceu? — A voz de Ryan saiu rouca.
Coen inclinou a cabeça levemente, o sorriso não desaparecendo de seus lábios. — Eu o salvei das garras de Colin — disse, com uma suavidade que parecia quase zombeteira.
Ryan franziu o cenho, confuso e desconfiado. — Por quê?
Coen riu, um som frio e sem humor.
— Você é importante agora, Ryan. — Ele começou a caminhar em volta da cama onde Ryan estava deitado. — Eu o vi comandar os espectros, e ainda estava na companhia do novo apóstolo do deus morto. Mas isso não é tudo. Não é o único motivo de você ainda estar vivo.
Ryan sentiu um calafrio percorrer seu corpo e, instintivamente, olhou para o lado. Foi então que percebeu a ausência. Seu braço direito não estava mais lá.
O choque o atingiu como uma onda fria, seu coração batendo violentamente contra o peito.
— Meu braço… — Ele murmurou, incrédulo. O horror e a raiva lutavam por espaço dentro de sua mente. — O que você vai fazer comigo?
Coen parou, virando-se para encará-lo. Seus olhos brilhavam com uma estranha excitação, quase como se estivesse diante de um experimento fascinante.
— Você tem o sangue modificado do experimento de Alexander correndo nas veias, Ryan. Quero fazer um teste.
Ryan tentou se levantar, mas a dor e a exaustão o mantiveram preso no lugar. Ele mal teve tempo de protestar antes que Coen se movesse, estendendo a mão para ele.
— Levante-se. — Coen ordenou, sem deixar espaço para discussão. — Quero te mostrar uma coisa.
Sem alternativas, Ryan obedeceu, seus pensamentos uma confusão de medo e desespero.
Ele seguiu Coen pelos corredores escuros, onde runas antigas brilhavam fracamente nas paredes de pedra, emitindo uma luz opaca e inquietante. Sombras dançavam ao redor deles, como se fossem entidades vivas, atentas a cada passo.
Eles finalmente chegaram a um grande salão.
No centro, erguia-se uma árvore gigantesca, suas raízes torcidas e entrelaçadas formando um emaranhado que parecia conter um poder antigo e assustador. E ali, entrelaçada na árvore, estava Heilee.
O sangue de Ryan gelou ao vê-la.
Uma das raízes estava cravada em seu abdômen, e o sangue escorria lentamente, regando o jardim abaixo dela. A vida estava sendo drenada dela, um gotejar constante que alimentava aquela árvore monstruosa.
— Ela está viva. — Coen afirmou. — E o sangue dela… deve ser o mais puro dentre todos os seres do cosmos. Mas você, Ryan, tem sangue corrompido. Quero ver o que surgirá dessa mistura.
Ryan deu um passo para trás, o medo tomando conta de sua mente. Ele sabia que Coen não tinha limites, que não havia nada que ele não faria em nome de sua curiosidade doentia.
— Não… — Ryan murmurou, tentando afastar-se. — Trabalho para os apóstolos. Se algo acontecer comigo, eles virão atrás de você!
Coen deu de ombros, indiferente. — Não tenho medo dos apóstolos. Nem do deus morto. — Ele disse com uma frieza que fazia o sangue de Ryan gelar. — Finalmente encontrei uma serventia para você, Ryan. Não vai fugir de mim.
Ryan sentiu o desespero apertar seu peito, mas sabia que não tinha para onde correr. Coen havia decidido seu destino, e não importava o que dissesse ou fizesse, ele estava preso naquela teia de loucura.

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