Capítulo 479 - O diretor é meu!
O vento nunca cessava o uivo na cidade-prisão.
As muralhas negras, erguidas com pedra escura, estavam cobertas de gelo que estalava sob o peso do frio implacável. No ar, o som de explosões reverberava como trovões abafados, sacudindo as estruturas de pedra e aço.
Boom! Boom! Boom!
As ruas da prisão eram labirintos cobertos de neve suja, onde guardas corriam, espadas em punho, as armaduras rangendo com cada movimento brusco.
Grossas e de ferro, as botas dos soldados esmagavam a neve sob seus pés enquanto avançavam, arrastando prisioneiros de seus esconderijos, espancando-os sem misericórdia.
Gritos de dor e desespero se misturavam ao clangor do aço, mas algo mais se destacava — a rebelião.
Alguns prisioneiros, desesperados e famintos, se revoltavam.
Eles se lançavam contra os guardas com a fúria dos que não têm mais nada a perder, matando-os e roubando suas armas e armaduras. Era uma batalha desigual, mas o caos e a desordem eram a única vantagem que tinham.
Entre as sombras das ruínas, Morgana se escondia. Seus olhos, de um brilho febril, estavam fixos na torre principal da cidade-prisão.
Ainda magra, seu corpo exausto e enfraquecido, ela sabia que não estava em plena forma. Apenas quatro dias haviam se passado desde que havia tirado a coleira do pescoço, e Somlec havia errado em sua previsão — levaria muito mais tempo para ela recuperar todo o seu poder.
Mesmo assim, ela estava inquieta. Sentia o peso da urgência martelando em seu peito, mas sabia que não poderia se precipitar.
Ela respirou fundo, seus pulmões queimando com o frio cortante. — Eu consigo… — murmurou para si, quase como uma prece. A espera era insuportável, mas não havia outra escolha.
Na torre, Yenerack, o diretor da prisão, estava de pé em seu escritório, observando a cidade abaixo com uma expressão séria.
Seu rosto mostrava traços de preocupação. Ele girou para encarar seus subordinados.
— Quanto tempo até que essa rebelião seja contida? — Sua voz era fria, cortante como o vento que assobiava lá fora.
Um de seus homens, coberto de sangue que não era dele, balançou a cabeça. — Ainda não pegamos os líderes dos distritos, senhor. Eles se escondem como ratos.
Outro guarda aproximou-se, o rosto pálido e olhos arregalados. — Estão destruindo os cristais anti-magia da cidade-prisão. Se continuarem…
Yenerack apertou os punhos, a raiva começando a crescer em seu peito. — Não temos escolha. Matem todos os prisioneiros que resistirem. Não podemos permitir que esses vermes tomem o controle.
Foi nesse instante que a janela do escritório se estilhaçou em mil pedaços, lançando estilhaços de vidro e gelo por toda parte.
Scrash!
Antes que Yenerack pudesse reagir, Morgana estava de pé em cima de sua mesa, os olhos ardendo em fúria.
Por um momento, Yenerack ficou sem reação, seus olhos arregalados de surpresa. Sua mente buscava desesperadamente uma solução, e sua mão se moveu instintivamente, tentando ativar o portal de fuga. Mas Morgana foi mais rápida.
Um fragmento de pedra anti-magia voou de suas mãos e se cravou no braço de Yenerack, interrompendo sua magia.
— Maldita! — gritou ele, enquanto a dor pulsava pelo seu corpo.
— Se lembra de mim? Desgraçado!
Morgana avançou, mas os guardas do diretor se interpunham em seu caminho. Ela não hesitou.
Com um chute devastador, quebrou o pescoço do primeiro guarda. Ela girou o corpo com a graça de uma pantera, e seu pé encontrou o segundo guarda com força, quebrando suas costelas em um estalo horrível.
Crunch!
Yenerack, agora tremendo de medo e dor, puxou o cristal e estendeu o braço na direção dela.
Woosh!
Um portal se abriu abaixo dos pés de Morgana, engolindo-a antes que ela pudesse reagir. Ela caiu no vazio, sendo lançada para dentro das entranhas congeladas da cidade, de onde o portal a expeliu com violência contra o chão de gelo, cravando-a ali.
Scrash!
O impacto foi brutal, a dor explodindo em seu corpo enquanto o gelo a envolvia, sugando o calor de sua pele.
— Merda… não fui rápida o suficiente…
Morgana sentiu o frio cortante do gelo sob seus pés e o peso do ar gélido em seus pulmões. Mas antes que pudesse se recuperar completamente do impacto, ouviu botas pesadas se aproximando.
Os guardas vinham, suas lâminas prontas para acabar com o que restava dela.
As unhas de Morgana, curtas e sujas pelo tempo de cativeiro, começaram a crescer, alongando-se em garras afiadas e mortais.
Swin! Swin! Swin!
Num movimento fluido e rápido, como um relâmpago, ela avançou. As lâminas dos guardas mal se ergueram antes de suas cabeças serem separadas dos corpos.
Sangue quente jorrou das artérias cortadas, manchando o gelo cristalino, enquanto os corpos decapitados tombavam pesadamente, como marionetes cujas cordas foram cortadas.
Lá em cima, na janela quebrada, Yenerack observava com uma mistura de raiva e apreensão.
Seus lábios se apertaram em uma linha fina, e ele sabia que precisava agir rápido.
Morgana, de olhos fixos no diretor da prisão, dobrou os joelhos, preparando-se para o salto que atravessaria a distância entre eles. Mas, no exato momento em que se lançou, um portal abriu-se à sua frente.
Woosh!
Ela foi sugada pelo vazio, sentindo o peso da gravidade se inverter e, de repente, se viu despencando do céu, as nuvens cinzentas girando ao seu redor. Antes que pudesse gritar ou se preparar para a queda, outro portal se abriu sob seus pés, enviando-a diretamente para o chão congelado da cidade-prisão.
Scrash!
Ela aterrissou com um impacto brutal, o rosto chocando-se contra o gelo duro, rachando-o sob sua força.
Morgana se levantou com dificuldade, seu corpo agora em agonia. Sangue escorria de seu nariz e boca, pingando no gelo branco como rubis caindo sobre a neve virgem.
— Merda de portais…
O gosto metálico do sangue encheu sua boca enquanto ela ofegava, a dor pulsando em sua cabeça.
Yenerack, ainda flutuando acima, observou sua adversária com um olhar de desprezo. — A rebelião termina aqui, eu mesmo vou acabar com isso.
Ele ergueu uma mão e portais começaram a se abrir ao redor da cidade-prisão. Os primeiros prisioneiros nem sequer tiveram tempo de reagir.
Pequenos portais surgiram na altura de seus pescoços, fechando-se com uma rapidez visceral.
Cabeças rolavam pelo chão, enquanto corpos decapitados tombavam nas ruas cobertas de neve. O sangue dos prisioneiros pintava o branco do gelo com uma cor escarlate vívida.
O pânico tomou conta dos restantes.
Prisioneiros que antes se rebelavam com fúria agora corriam em todas as direções, tentando escapar do massacre. Mas Yenerack era implacável.
Portais menores surgiam sob os pés dos fugitivos, fechando-se sobre seus calcanhares, decepando-os.
Gritos de dor e terror ecoavam pelas ruas enquanto os rebeldes caíam, incapazes de continuar sua fuga.
Morgana, observando o horror ao seu redor, sentiu a raiva e o desespero se misturarem em uma fervura dentro dela.
Sua visão estava embaçada, mas a chama do ódio ainda ardia com força total. Ela sabia que, mesmo enfraquecida, não poderia permitir que Yenerack triunfasse.
Não ali, não depois de tudo pelo que havia passado.
Mas Yenerack não lhe deu tempo para pensar. — Você não pode me derrotar, vampira. — Ele abriu outro portal, desta vez apontado diretamente para ela. — Este é o seu fim.
Foi então que uma figura se materializou acima dele, vinda das próprias sombras: Somlec.
Antes que Yenerack pudesse reagir, Somlec mergulhou em direção a ele com a força de um meteoro. Mas Yenerack, com a destreza de um mestre das artes arcanas, abriu um portal em um piscar de olhos, desviando o ataque de Somlec.
Booom!
A criatura foi enviada diretamente para uma das torres de gelo. O impacto foi tão violento que a estrutura desabou sobre Somlec, enterrando-o sob toneladas de gelo e escombros.
Yenerack fez um muxoxo, observando as ruínas com desdém. — Irritantes até o fim.
Seu desdém foi interrompido pelo som de algo cortando o ar.
Swin! Swin!
Dois discos de gelo passaram zunindo perigosamente perto de sua orelha, obrigando-o a se esquivar rapidamente. Ele levantou o olhar e avistou Nath no topo de uma das torres.
— Vocês são persistentes — Yenerack resmungou, apontando um dedo para ela. Outro portal começou a se formar, destinado a engoli-la, mas antes que pudesse completá-lo, sentiu uma corrente se enroscar ao redor de seu braço.
— Ainda estou aqui!
Morgana, com olhos faiscando de fúria, segurava a outra ponta. Ele abriu um novo portal com um gesto quase impaciente, quebrando a corrente em pedaços e libertando-se.
Scrash!
Nesse momento, tanto Somlec quanto Morgana avançaram sobre ele, os joelhos dobrados e os olhos fixos em seu alvo.
Bam! Bam!
Yenerack apontou para Somlec, abrindo outro portal que o sugou para longe, mas a vampira não perdeu tempo. Com um movimento rápido, Morgana girou a corrente, que se enroscou no calcanhar de Yenerack. Com um puxão poderoso, ela o lançou em direção à torre principal.
Booom!
O impacto foi devastador.
Uma explosão de gelo e pedra ecoou por toda a cidade-prisão enquanto a torre principal desmoronava, enviando fragmentos congelados e destroços para o ar.
— Isso!
Morgana sorriu triunfante, seus dentes brancos mesclando com o sangue em seus lábios, mas sua celebração foi interrompida quando Yenerack emergiu dos escombros.
Sua cabeça estava sangrando, o rosto tingido de vermelho, mas sua expressão era de pura fúria.
Somlec se aproximou, caminhando ao lado de Morgana. — Ele não consegue usar dois portais ao mesmo tempo — disse ele, mais para si do que para ela, como se tivesse acabado de resolver um quebra-cabeça.
Yenerack fez outro muxoxo, respirando fundo enquanto seus olhos avaliavam a situação. — Deveria ter matado vocês quando tive a chance — disse, com a voz carregada de falso pesar. — Mas isso não importa. Posso reconstruir tudo de novo, como sempre.
Então, ele ergueu a voz, falando com uma autoridade que reverberou por toda a cidade-prisão. — Libere o círculo de terceiro nível.
A terra começou a tremer sob seus pés, e o gelo, outrora sólido e impenetrável, começou a rachar. As casas construídas sobre a superfície gelada começaram a desmoronar, mergulhando em um abismo crescente. A tensão no ar era aterrorizante enquanto os prisioneiros corriam em todas as direções, o pânico estampado em seus rostos.
Das profundezas do gelo, uma sombra gigantesca começou a emergir, inicialmente apenas um contorno indistinto, mas logo revelando sua verdadeira forma: um crocodilo colossal, com escamas tão negras quanto a noite e olhos brilhando com uma fúria implacável.
A criatura era uma monstruosidade, maior que qualquer ser vivo que a cidade-prisão já abrigou, cada movimento seu enviando ondas de choque que faziam as paredes da cidade racharem ainda mais.
Parecia um leviatã, uma força da natureza encarnada, com garras que poderiam destruir montanhas e uma mandíbula capaz de esmagar aço.
Parte da cidade-prisão começou a se desprender do continente, as placas de gelo se separando e indo em direção ao mar.
As rachaduras nas paredes se expandiram rapidamente, e prisioneiros que antes lutavam por sua liberdade agora corriam em desespero, tentando escapar do destino sombrio que se abria diante deles.
Morgana, seus olhos fixos na criatura e na destruição ao seu redor, gritou para Somlec. — Vá! Deixe isso comigo!
Mas Somlec apenas sorriu. — E perder toda essa diversão? Nunca!
De longe, a voz de Nath ecoou. — Ei, não se esqueçam de mim!

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