Capítulo 480 - Para longe daqui.
A vastidão gelada da cidade-prisão estava em ruínas, os tremores sacudindo as fundações do lugar enquanto o crocodilo colossal se erguia das profundezas do gelo.
Cada movimento da criatura parecia reverberar no próprio tecido da realidade, e seu olhar, ardendo com uma malevolência ancestral, era um prenúncio de morte.
Morgana, ainda com o sangue escorrendo dos lábios e do nariz, observou a criatura com olhos de aço. Somlec estava ao seu lado, os olhos estreitos enquanto avaliava a situação. Ele podia sentir a mana pulsando ao seu redor, quase sufocante em sua intensidade.
— Foquem no diretor da prisão! — Morgana ordenou, sua voz cortante como uma lâmina. — Cuidarei da lagartixa gigante.
Somlec olhou para ela, a incredulidade estampada em seu rosto. — Você não pode derrotá-la sozinha, Morgana. Isso é suicídio.
Morgana não se abalou. Seus olhos brilharam com uma determinação sombria. — Posso, sim, Somlec. Eu consigo.
Ela então sussurrou algo em uma língua antiga, invocando seus aliados pandorianos, que agora estavam em um plano distinto. Suas unhas cresceram, tornando-se garras afiadas como facas, e sem hesitar, ela perfurou seu próprio abdômen. A dor era excruciante, mas Morgana estava acostumada ao sofrimento. O sangue que jorrava de seu corpo tingia o gelo abaixo de seus pés, mas ela não vacilou.
O crocodilo gigante, com seus olhos cravados em Morgana, começou a abrir a mandíbula e uma energia escura começou a se concentrar entre seus lábios.
Era uma magia massiva, uma força que poderia destruir montanhas e arrasar cidades inteiras. A temperatura ao redor começou a cair ainda mais, e a mana de Morgana respondeu ao desafio. Seu corpo se enrijeceu, os músculos pulsando com poder enquanto seus atributos se multiplicavam em uma escalada vertiginosa.
Somlec observava, e pela primeira vez em muito tempo sentiu o gosto amargo do medo. Suor seco escorria de sua têmpora enquanto ele sussurrava, quase para si. — Ela… é uma Monarca Arcana do Caos…
Morgana não perdeu tempo. Ela dobrou os joelhos e saltou, o gelo se despedaçando sob seus pés enquanto ela se lançava contra a criatura.
Seus punhos se cerraram, prontos para golpear a mandíbula do monstro. Mas Yenerack também estava em movimento, preparando-se para intervir, até que Nath agiu antes, lançando uma alabarda de gelo que rasgou o ar, forçando Yenerack a esquivar-se. Foi o tempo necessário para que Morgana atingisse seu alvo.
Com um rugido, Morgana socou a mandíbula do crocodilo.
Baaam!
O impacto foi cataclísmico, um som que ecoou como trovão por toda a cidade-prisão. A energia contida no golpe se desfez em uma violenta explosão, ondas de choque varrendo tudo em seu caminho.
Gelo, neve e destroços foram lançados ao ar, enquanto a criatura soltava um rugido de dor e fúria.
Morgana, no entanto, não teve tempo de saborear sua vitória. A onda de choque a lançou contra o gelo maciço, onde ela começou a se curar imediatamente.
— Morgana! — berrou Nath. — Cuidado!
Mas antes que pudesse se recompor completamente, a cauda colossal da criatura rompeu o gelo abaixo dela, enviando-a voando em direção ao mar glacial.
Bruum!
O frio cortante a envolveu, mas ela já estava em movimento, tentando escapar.
Porém, o crocodilo não lhe deu chance. Sua boca monstruosa se fechou ao redor de Morgana, suas presas como montanhas tentando esmagá-la.
“Esse calango está tentando me devorar?”
Ela lutava desesperadamente, suas garras cravando-se no interior da criatura, tentando impedir que fosse completamente engolida. Mas a criatura era implacável e, com um movimento poderoso, mergulhou no oceano, levando Morgana com ela.
Splash!
O impacto foi devastador. Era como se uma montanha tivesse mergulhado nas profundezas, causando ondas que se espalharam em todas as direções, devastando o que restava da cidade-prisão.
Yenerack, observando a cena de sua posição segura, sorriu. — Eles estão acabados — murmurou, satisfeito.
Enquanto a criatura afundava, a pressão do oceano começou a se intensificar, esmagando lentamente os ossos de Morgana. Ela sentia cada fissura, cada fratura, enquanto o frio do abismo gelado a envolvia.
O crocodilo continuava a descer, mais e mais profundo, levando-a para um lugar onde a luz jamais alcançaria.
“Merda… tô ficando sem ar!”
A parte da cidade-prisão que havia se desprendido do continente descia lentamente no abismo gelado, o gelo estalando e se fragmentando à medida que a imensa massa afundava, tragando consigo qualquer esperança de salvação para aqueles que ainda se encontravam em sua superfície.
Nath, com seus óculos escuros e o pirulito pendendo dos lábios, sentiu uma sensação gélida na garganta. Um círculo começou a se formar, e ela instintivamente se jogou para o lado, escapando por um triz antes que o portal se fechasse, deixando apenas uma rachadura no ar.
— Foi por pouco!
De repente, o gelo explodiu à sua frente, estilhaços voando em todas as direções. Somlec emergiu da destruição, seu corpo robusto e encharcado brilhando sob a luz pálida.
Um sorriso perigoso se formou em seus lábios enquanto ele crispava os dedos, faíscas dançando ao seu redor.
— Nath! Não vamos deixar a vampira fazer tudo sozinha!
— Pode deixar, vamos acabar com esse fodido!
Yenerack, em sua posição elevada, estendeu a mão em direção a Somlec, tentando capturá-lo. Mas Somlec desapareceu em um flash de raios, deixando Yenerack temporariamente desorientado.
“Esse desgraçado! Ele consegue usar a árvore-do-céu!”
Seus olhos varreram o campo de batalha em busca de seu oponente, mas Somlec já estava sobre ele, segurando uma lança feita de relâmpagos.
— Peguei você!
Somlec lançou a arma com precisão sinistra, mas Yenerack abriu um portal a tempo, desviando o poder devastador para o oceano, onde explodiu com uma força que fez as ondas se erguerem como colinas furiosas.
Cabrum!
Porém, esse foi o momento que Nath aguardava. Em um movimento rápido e silencioso, ela disparou uma flecha que se cravou no braço de Yenerack, congelando-o por completo.
— Tsc! Essa vadia!
Antes que ele pudesse reagir, Somlec desferiu um soco poderoso, um impacto que enviou Yenerack diretamente para o gelo abaixo.
Cabrum!
O chão tremeu com a força do impacto, e rachaduras se espalharam em todas as direções.
Yenerack, encharcado de sangue e com o braço congelado, se recompôs com uma velocidade aterradora.
— Suas baratas!
Seu corpo ferido exalava uma aura de ódio enquanto ele erguia o braço restante em direção a Nath, preparado para terminar o que havia começado. Mas uma sensação fria percorreu sua espinha, forçando-o a saltar para trás.
Cabrum!
Somlec havia jogado outra lança. A arma explodiu ao atingir o chão, enviando estilhaços de gelo por toda parte.
Yenerack sabia que a situação estava se tornando desesperadora. Ele olhou em direção ao horizonte, torcendo para que seu pandoriano finalizasse a vampira o mais rápido possível.
Morgana sentia a pressão do oceano apertando seus ossos.
Os dentes do crocodilo apertavam em torno dela, quase a partindo em pedaços. Desespero e fúria se misturavam enquanto ela cravava os dedos nas presas da criatura. Com um grito abafado, ela concentrou toda a força que lhe restava e quebrou um dos dentes monstruosos.
O crocodilo estremeceu, um espasmo percorreu seu corpo colossal enquanto interrompia sua descida abissal, as águas ao redor se agitando com seu sofrimento.
Liberta das garras da besta, Morgana sabia que precisava chegar à superfície antes que o oceano gelado a consumisse. Ela dobrou os joelhos, preparando-se para o salto.
Dez círculos mágicos apareceram sob seus pés, cada um menor que o anterior, formando uma escada de poder arcano. Com um impulso titânico, ela foi lançada para cima, disparando como um torpedo em direção à superfície.
Splash!
O impacto quando Morgana emergiu foi violento, a água explodindo ao seu redor em ondas que ecoaram por toda a extensão.
Ela subiu alto, gotas de água cintilando ao seu redor como um manto de diamantes. Lá de cima, seus olhos encontraram os de Yenerack, que a observava com ódio crescente, os dentes cerrados em fúria.
“Essa vadia continua viva?”
Os círculos mágicos reapareceram sob os pés de Morgana enquanto ela enchia os pulmões de ar fresco, preparando-se para sua investida final.
Ela mergulhou de volta no oceano, o impacto criando ondas violentas que se espalharam em todas as direções.
Splash!
Concentrando toda a mana em seu punho, Morgana desceu em alta velocidade, sentindo a pressão do oceano aumentar a cada segundo, como se o próprio mar tentasse esmagá-la. Mas ela não vacilou.
Quando finalmente alcançou o crocodilo, socou o estômago da criatura com uma força descomunal, empurrando-o ainda mais fundo no abismo oceânico.
Boom!
O impacto fez o chão do oceano tremer, o sangue jorrando da boca do monstro enquanto ele se debatia em agonia.
Mas Morgana não parou.
Usando seus círculos mágicos para impulsionar cada movimento, ela avançava sobre o crocodilo, desferindo golpe após golpe, cada impacto liberando uma explosão de poeira e detritos do fundo do mar.
A água ao redor se tornou turva, um redemoinho de violência e destruição, escondendo tanto a vampira quanto a criatura em uma tempestade submarina de fúria.
Enquanto isso, acima das águas, Yenerack se via pressionado de todos os lados. Somlec e Nath atacavam sem piedade, cada um aproveitando as brechas deixadas pelo outro.
Somlec, seus músculos ainda brilhando com suor e mana, movia-se com uma velocidade eletrizante. Raios circundavam seu corpo enquanto ele desferia golpes poderosos, suas mãos em chamas de energia arcana.
Nath, com a precisão de uma caçadora, disparava flechas que cortavam o ar como lâminas de gelo. Cada tiro forçava Yenerack a abrir portais para desviar dos projéteis que poderiam facilmente ter perfurado sua carne.
— Desgraçados! Eu vou acabar com vocês!
Yenerack, apesar da sua habilidade com portais, começava a sentir o cansaço da batalha. Ele abriu um portal para evitar um golpe de Somlec, mas o homem já estava sobre ele, segurando uma lança de raios. Yenerack desviou o ataque, mandando-o para longe, mas foi atingido por um soco devastador, que o lançou em um capote, criando sulco no gelo.
Ele ergueu-se e saltou para longe, era difícil se concentrar com todo seu corpo ardendo.
“Tenho que pedir ajuda dos outros Errantes, caso contrário será o meu fim!”
A água começou a borbulhar e o crocodilo ergueu do mar gelado como um submarino titânico, seu rugido rachando as geleiras ao redor, até que seu peito explodiu, enviando pedaços dele em todas as direções.
Bam!
Morgana saiu lá de dentro, mastigando parte das vísceras da criatura. Yenerack encarou aquilo desacreditado e tentou abrir um portal, mas sentiu uma dor aguda no peito. Seu corpo curvou e ele desabou na neve enquanto cuspia sangue.
— Mer… da…
Jogando o resto da víscera fora, a vampira se aproximou do diretor da prisão.
— Eu disse que mataria você, não disse? Últimas palavras?
Ele tossiu sangue e se contorceu.
— Parece que não.
A vampira apoiou o pé na cabeça de Yenerack e o esmagou lentamente, seus olhos saltando para fora e partes do seu cérebro vazando pela rachadura do crânio.
— Você é mesmo poderosa — comentou Somlec atrás dela. — Por que não vem conosco? Vamos para as terras dos bardos. Pegaremos um barco em Brambéria e navegaremos até lá. Dizem ser uma terra bonita e livre.
— Obrigada pelo convite, mas não posso aceitar. Tenho que reencontrar minha irmã e… uns amigos…
Somlec assentiu, estendendo a mão para um aperto. — Isso é um adeus então, certo?
Morgana apertou a mão dele. — Adeus, Somlec.
— Somlec — chamou Nath. — Vamos, essa ilha afundará!
— Certo! Se cuide, senhorita Morgana!
Eles flexionaram os joelhos e foram para longe, pulando de ilha em ilha até alcançar o continente.
— Senhorita Morgana! — Eriphire veio dos fundos, correndo até a amiga e pulando em seus braços. — Você está viva! Graças aos deuses!
— Pensou que eu fosse perder?
A Calimana fez que não de maneira animada.
— Não!
— Certo! Agora precisamos ir reunir informações e encontrar meus amigos!
— Não é melhor partirmos ao anoitecer? Se sairmos do extremo norte, agora a luz do sol pode feri-la, não pode?
Morgana suspirou. — É… fiquei tanto tempo aqui que me esqueci disso do sol. Não importa, vamos partir à noite!

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