Mentiroso

    ―嘘―

    Mentirosa

    Hoje eu venho de humor duvidoso. Com duas informações educativas para todos aqueles que estiverem dispostos a ouvir um jovem adulto resmungão.

    Acredita-se em inúmeras lendas que permeiam vampiros, algumas verdadeiras, outras delírios. Contudo, saber quais poderes tem o seu opositor geralmente só vai te ajudar a discernir como você vai ser morto antes de ser devorado.

    Mas nenhuma dessas lendas importam. 

    Se ao se imaginar de frente a um vampiro, seu primeiro pensamento é uma estaca de madeira, eu sinto em lhe dizer, você é um indivíduo de mente pequena.

    Apenas raciocine.

    Vampiros são noturnos, vampiros sem linhagem ou ghouls tornaram-se pó com uma mera rajada de luz ultravioleta.

    ‘Então a sua dica envolve Lanternas UV?’

    Não, não se precipite.

    A luz UV natural te mantém a salvo durante o dia. Mesmo vampiros de linhagem são velhos caquéticos no sol.

    E digo isso como um exímio fã de vampiros.

    Então, aqui vai o meu conselho. 

    Diga, ‘não’.

    É isso mesmo, um mantra feminista pode te manter vivo por mais um dia.

    Não deixe ele entrar. É simples.

    Quando um dentuço bater a sua porta, você pode até mesmo abrir ela. Só não o convide para dentro.

    Veja. Neste momento, eu estou escorado numa porta que nem mesmo tranca, numa bela noite de lua minguante. Gloriosa noite de Fevereiro.

    Há um morcego degustador de vísceras rente à porta.

    Isto é. Há também o meu segundo conselho.

    Nunca, sob nenhuma hipótese, se submeta a um casamento de sangue.

    Existem três maneiras de se ligar a uma entidade, e até anteontem, eu mesmo só entendia de duas.

    Não é como um selo. Selos são igualdade, eles vão interligar indivíduos com uma relação dependente, mas mútua.

    Também existe a adoção, evitando palestrinha, é mais amigável.

    Em contraponto o Casamento de sangue.

    Ele se parece com os selos. Precisam de um rito físico, interligam indivíduos. Este último é diferente.

    Perfeito para Suzamine.

    Unilateral.

    Então, quando mesmo sem ser convidada ela deu um passo a frente e entrou na casa, na minha casa. Eu não pude reclamar.

    Sem convite.

    Vampiros não deveriam quebrar suas regras assim…

    Mas é assim que é.

    Ela não precisa ser convidada.

    Meu sangue é seu sangue. 

    Essa casa é, infelizmente, dela.

    “Não…” Resmunguei

    “…”

    “Nem com o meu salário.”

    “Hu…”

    “Nem com o SEU salário.”

    “Eu deveria interromper suas recusas vazias ou te deixar lidar com o luto sozinho?” Namae-nai deixou suas sandálias no limiar da porta antes de seguir para dentro também.

    “Você… Aceitei uma yōkai. Uma grande Yokai.”

    Atrás de mim, a figura de uma mulher com um enorme haori branco com detalhes róseos e dois pares de braço escapando da manga folgada. Eu não conseguia ler sua expressão. 

    “Fiz a tatuagem do selo, nomeei. Tudo bem bonitinho.”

    Quando ela apareceu no armário, me assustei, mas tratei tudo com naturalidade. Mazou é um problema, mas é um problema que aceitei lidar, tinha uma noção média do que me esperava. Eu nunca pensei em deixá-la como responsabilidade de outro.

    Contudo.

    Um vampiro?

    Pior, este?

    “Nai-nai. Teremos que conversar mais tarde.” Ela olhava os arredores. Parecia estar contendo sua irritação, seus olhos tinham pequenos tiques.

    “Nai— Que?! Namae-nai, não, absolutamente não.” 

    “Além disso, Nai-nai, você mora nesse muquifo?”

    “Ngh…”

    Na minha sala. Ainda ousou desrespeitar a minha casa.

    Bom, é uma verdade que desde a chegada de Mazou, o chão começou a ter manchas de café aqui e ali. E açúcar no sofá. E salgadinhos na cama.

    Parado, de pé, no meio do tapete. Eu espiei Mazou. Nada disse, mas ela entendeu e se encolheu um pouco, ainda com expressão confusa, deu um sorriso envergonhado.

    “Er, desculpe?”

    Suzamine estava certa. Um muquifo.

    “Certo…” Com uma lufada de fumaça, que fez duas das youkais tossirem, ele começou. “Acho que vocês já estão até se dando bem.”

    Ah sim, duas delas. A pequena garotinha de cabelos brancos permanecia em silêncio, sobre a sombra de Namae-nai, abraçando seus próprios joelhos.

    “Se dando bem? Minha casa não é área 51. As coisas precisam ser conversadas previamente.”

    Ele tragou mais uma vez, calmamente.

    “De fato, as coisas seriam mais simples se você avisasse previamente antes de firmar um casamento de sangue.”

    O silêncio pairou, nós nos encaramos como num duelo de velho oeste, o problema deste? Eu não tenho armas. Eu estava errado.

    “Hu. De modo que já não são mais dois, porém uma só carne.”

    “…Você está brincando comigo?”

    “Aquele que repudiar a sua mulher e casar com outra comete adultério contra ela. E, se ela repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério contra ele.”

    “Arhg. Eu odeio você, e a firma, e o supremo, por favor, morram vocês todos de uma maneira triste e dolor, eu adoraria.” Suspirei. Era uma batalha perdida. “O que mais eu não sei sobre um casamento de sangue?”

    “Além do fato que no caso de uma ordem séria você não pode desobedecê-la, que há sangue dela correndo em suas veias, ele vai te forçar a fazer o que ela quiser, a depender da situação.”

    “Isso significa que eu não posso somente trancá-la num caixão?”

    “Nai-nai, um caixão é uma boa ideia.”

    “…Não.” 

    “Por fim. O que você realmente precisa saber.” Namae a puxou pelo pulso à força, como quem lida com um sobrinho. E ergueu o pulso dela. “Está vendo? Supressores, mas ainda é forte o suficiente para dar trabalho, e precisa de sangue.” Sobre o pulso fino, era possível ver pequenos pontos pretos. Injeções. Ela arrancou o braço fino das mãos enormes de Namae-nai.

    “Vou ter que dar meu sangue?”

    “Pfft—.” Suzamine riu.

    “Este não foi um dos malditos termos que você sugeriu?” 

    “Era um blefe.”

    Ele sorriu, irônico.

    “É magia, você sabe o quanto palavras são importantes. Você disse, você faz. Não se preocupe, não existe possibilidade de você se tornar anémico ou algo assim. E por favor.” Ele encarou a garota, em seguida, pela primeira vez, deu um olhar para Mazou explicitamente. “Trate de Mantê-la com roupas Japonesas.”

    “Você não havia me ensinado que isso é… Cruel?”

    “É cruel com um diabo, um metamorfo, uma górgona. Criaturas fracas. Não se aplica a ela. Amanhã eu trarei mais roupas, para ambas.”

    “Isso é… Está bem.”

    Bom, fato é, surto não resolveu nada.

    Namae-nai começou a sair. Deixando nós três, a garota o seguia. Com o pé no limiar, ele virou o pescoço e acenou para mim.

    “Você tem que ouvir algo.”

    “E deixar essas duas sozinhas?”

    “Ha… Não se preocupe. Você está casado com a vampira, a fantasma nada fará.”

    “O que te garante isso?”

    “Ei, fantasma.”

    Mazou ergueu os olhos.

    “Ela se auto intitula uma alma.”

    “Eu não estou duvidando da sua capacidade, sei bem o que você consegue fazer.” Ignorou minha ressalva, ainda encarando a garota de chifres e dois pares de braços. “Justamente por isso, não deve fazê-lo. Se a vampira sofrer grandes danos, o sangue do seu companheiro virá restaurá-la. Aí sim, nesse caso, ele vai correr risco de vida.”

    Ela assentiu em silêncio.

    Comecei a caminhar até Namae-nai, para a varanda.

    “Certo. Você se lembra da origem do casamento de sangue?”

    “Você só me ensinou que devo matar os dois ligados por este ao mesmo tempo, ou priorizar o subalterno se o primeiro não for possível.”

    “Certo… Nunca imaginei que você faria tal estupidez.” Ele fechou a porta, retirou um cigarro e me ofereceu. Eu fiz que não. “Heh? Por causa da… Tudo bem. O Casamento de sangue originou-se de demônios ocidentais. Como princípio, era usado por machos.” Ele deu uma pausa para tragar, mas a ponta o cigarro pela metade estava inacesa. “Ei, Ievine!”

    Namae-nai, surpreso e exaltado virou-se para sua sombra. A garotinha dos cabelos brancos.

    “Está maior…” Eu soltei. Era a neve, ela está alguns centímetros mais alta. Uma Yuki-onna? “O que foi?”

    “Esse pequeno aqui!” Resmungou Namae-nai, prensando o nariz da menor com os dedos. “Está com a mania horrível de apagar os meus cigarros.”

    “Gah!” Namae-nai largou. “Você tem que diminuir… Otouto.” Disse, num susurro.

    “E pare de me chamar assim, você vai me enfraquecer, seu pivete.” Contra intuitivo, mas ele afagou a cabeça dela enquanto repreendia.

    Espere.

    Pivete?

    “Namae-nai?”

    “Chora.”

    “É… Um garoto?”

    “Huh? Ah, sim. Um garoto. Entre Yukki-Onnas, dá pra acreditar?”

    “Entre uma raça que se chama ‘Mulher das Neves’? É muito irônico haha… O mundo é grande.”

    “Mas a minha Odachi é maior. Onde estávamos?” Ele puxou um outro cigarro no modo automático, mas desistiu ao olhar outra vez para Ievine. 

    “Casamento de sangue.”

    “Isso, isso mesmo. O primeiro caso datado foi de um demônio com sete esposas, há uns quatrocentos anos, poucos detalhes registrados, mas há registros de casos parecidos desde então. Nenhum deles tem tantos detalhes quanto o caso de um vampiro com onze cônjuges.”

    “Isso tem quanto tempo?”

    “Cerca de sessenta anos.”

    “A R/E existe a mais tempo que isto, estranho eles não terem um documento mais velho.”

    “Fui eu que escrevi, não poderia ser tão velho.”

    “Ahh…”

    “Era uma família de vampiros europeus. Italianos.”

    “Certo, de que tais detalhes importam?”

    “Isso… Qual era mesmo o nome da sua vampira?”

    “Suzamine Carnivor Von Zinfandel.”

    “Isso mesmo. Eram vampiros com nome de vinho.”

    “Coincidência?”

    “Ainda precisa ser mais estudado. Mas, o mais chamativo deles se chamava Primo. Primitivo.”

    “Certo…”

    “Há três coisas importantes sobre isso. A primeira é que eu só matei um deles. Os outros desapareceram nas sombras, e seguiram sem dar sinal de vida.”

    “Você os deixou escapar? Não faz o seu estilo.”

    “Eu não nasci o melhor espadachim da era moderna. Aquela nem mesmo era a era moderna.” Ele tragou. “A sua vampira é manipuladora e problemática, mas vocês estão ligados pelas mesmas intenções, ela tende a ser dócil, se não contrariada.”

    “Justo. E a segunda coisa?”

    “Ha… É um pouco cômico.”

    “Você parece de bom humor.”

    “Estou aliviado de você não estar morto.”

    “Eu também.”

    “Namae– Namaueuchi…” Ele corrigiu para o nome que Mazou me deu. “Não. Agora você é um homem casado. Namaueuchi Carnivor Von Zinfandel.” Eu torci o nariz. “Você… Sabe como chamam a uva Primitivo nos EUA?”

    “Isso…”

    Heh.

    Eu nem mesmo precisei viver trinta anos para me arrepender das minhas escolhas de vida.

    Aqui vai uma nova dica novinha.

    Nunca peça uma parceria com uma vampira.

    Eles todos são emocionados demais.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota