Ambição

    ―欲望―

    Desejo

    “Namaueuchi.”

    “Chora.”

    “Café.” Ela apontou para a prateleira. 

    Marcas diferentes de café dispostas em fileira, próximos ao leite, coadores e achocolatados, a prateleira do outro lado estava cheia de cereal. Tudo iluminado pela luz branca forte, refletida no piso antiderrapante.

    A primeira vez desde que saímos de casa, que a mulher fantasma formulou uma palavra, foi ‘café’.

    Aprendi algo novo sobre Mazou, ela geralmente não é ativa pela manhã. 

    Dizem que a noite é o horário dos mortos. Vampiros, zombies, fantasmas. Isso deve ser verdade, pois eu nunca vi tanta resistência para sair da cama.

    Eu me levanto ao nascer do sol, toda manhã, independente do horário que dormi. É um costume velho de quando eu ainda morava no litoral. Meu desempenho nunca caiu por mal dormido. A propósito, eu deveria perguntar ao mentor se tem algo haver com o sangue frio.

    Bom, isso não importa. O ponto é que, eu entendo que acordar no nascer do sol não é para todos, é um costume meu e eu respeito a individualidade alheia. Por isso levantei sozinho, deixei ela dormir até as nove enquanto estendia as roupas e organizei a bagunça, até que notei, se eu não a tirasse da cama, não sairia. 

    Assim, prontamente a acordei, cuidadoso, dei leves puxões na roupa e no braço.

    Nem se moveu.

    Por um segundo pensei se fantasmas poderiam morrer uma segunda vez, mas seria uma possibilidade muito absurda presenciar um fantasma morrer dormindo, então presumi que era só ser mais extremo.

    Chamei. Toquei o rosto. Ameacei. Tirei os lençois. Derrubei da cama. Água fria. Berro. Água quente. Cócegas. Absolutamente nada acordou essa forte candidata à protagonizar ‘Sleeping ranker’, nada.

    Até que eu desejei tão profundamente, que ela acordou.

    Simples assim.

    Sorri amargo.

    Mesmo acordado, ela permaneceu sonolenta, eu precisei ajudar ela a se vestir melhor e até a carreguei por metade do caminho, só quando estávamos próximos ao mercado ela começou a agir de fato e andar com as próprias pernas.

    E então, suas primeiras palavras após acordar são…

    “Namaueuchi, café.”

    “Eu não bebo café.” Retruquei vazio.

    “Eu bebo.” Ela respondeu me olhando nos olhos, fixa.

    Olhar para ela foi, de certo agoniante.

    Eu temi que ela fosse chamar atenção demais com seus chifres, então coloquei um boné. Minha ideia era deixar ele apoiado nos chifres, eu não esperava que fossem tão afiados, eles furaram o meu acessório e saíram para o lado, eu olhava seu rosto, as maçãs da bochecha bem firmes, os lábios diminutos e sérios, seus chifres pálidos se sobressaindo pelo boné azul e a pequena franja sobre a testa.

    Não iria desistir. Ela pareceu mais intensa sobre o café. Durante as voltas pelos corredores ela somente apontou para os produtos que queria, sem me chamar em nenhum momento.

    “Qual deles?”

    “Qualquer um, desde que não seja extra forte.”

    “Você não gosta de café forte?” Provoquei e esperei sua resposta, prevendo responder com um ‘criançona’.

    “Eu não gosto de café queimado.”

    “Queimado?”

    “Você não sabia? Isso é conhecimento básico.” Ela falava despretensiosa, como sempre. Como se dissesse que o planeta terra é esférico e que o capitalismo exarcebado é escravidão. “Café de mercado é de má qualidade, tem cascas e grãos ruins no meio. Eu não sou a mais exigente com café, mas os extra-forte são os piores, eles são mais torrados, e por isso vem cheio de impurezas. Já que no fim, o gosto que prevalece é o de queimado.”

    “Oh, isso é um conhecimento bem aprofundado.” Eu não sabia o que comentar após esse fecho, depois de tentar caçoar dela chamando-a de infantil, ela me deu uma resposta extremamente madura.

    “Não, todos sabem disso, todos que conheci sabiam.”

    Ela disse outra vez coisas que me chamaram atenção.

    O quanto Mazou se lembra de quando ainda era viva? Essa é uma dúvida cruel, de uma pergunta que eu nunca devo fazer.

    Isso. Eu não preciso saber.

    Ela não me é hostil, isso é suficiente.

    Tateei a prateleira, peguei dois pacotes de um café qualquer e coloquei no carrinho.

    “Esse é caro… Isso deve dar vários dólares…”

    “Não são dólares, aqui no Japão nós usamos ienes.” Corrigi, seguindo para a próxima sessão.

    “Oh! E quantos ienes ficaria essa compra?” Seguiu logo atrás, analisando os produtos.

    Avaliei o carrinho copiosamente.

    “Oito mil ienes, mais ou menos.”

    “O iene é uma moeda desvalorizada?!”

    “Não, você que gosta de coisa cara.”

    O carrinho médio de dois compartimentos, estava cheio de doces, guloseimas, energéticos e idiotices, tendo algumas verduras e legumes na parte debaixo e alguns poucos mantimentos alimentícios, os quais Mazou confirmou saber cozinhar. Mas confirmou só acenando com a cabeça então não sei se confio muito.

    Também tinha um jogo de talheres, alguns temperos e três Cup Noodle’s, para caso de, talvez, não ter Mazou para cozinhar. É trabalho, de repente, tudo pode mudar.

    Aquele desejo fraco sobre ela desaparecer sem explicação pode se concretizar de repente e, se acontecer, eu não posso me sentir dependente. Me senti mal, mas responsável.

    É assim que deve ser.

    “Já está bom, vamos pro caixa.”

    “Mas e aquele doce de mentol bonito e verde?”

    “Você já pegou três desse.”

    “Não de mentol!”

    Suspirei. 

    Se ela realmente sumir, que diabos farei com tanto açúcar?

    A operadora parecia surpresa, encarou Mazou, estupefata por uns bons segundos. 

    Sorri para ela como quem diz ‘eu te entendo’, tentei parecer reconfortante.

    Não é todo dia que se encontra uma assombração de um e sessenta, ou nesse caso para ela, alguém muito parecido com.

    Logo pela manhã e já com as roupas secas, ela insistiu em vestir o haori de novo, mas o fez tão mal de sonolenta que eu me preocupei em deixar seu visual minimamente decente. 

    Nós caminhamos pelos corredores com ela vestindo somente um haori fechado, um obi laçado nas costas e uma cueca box — além do meu, agora finado boné —, e estava extremamente vulgar, mas ela recusou as calças e shorts. Suas curvas voluptuosas quase corriam para fora do haori, seu busto avantajado ficava demarcado no tecido. Parecia alguém que acabou de sair de um motel.

    Isso é, qualquer mulher que não fosse Mazou.

    Mazou tem orelhas de elfo e chifres de diabo. Era muito mais bizarro que só exibicionismo barato. Estamos num mercadinho de bairro, onde as câmeras são poucas e os clientes são menos ainda, mas mesmo assim, ainda chama a atenção. Não havia mercado que esse figurino não chamasse atenção para si, como se precisasse ser chamativa. Uma tentativa desesperada de ser vista.

    Isso é, qualquer que não fosse Mazou. Ela parece nem perceber ou se importar com olhares, tão confortável e com o mesmo rosto impassível de quando estava dormindo.

    “É cosplay moça.” Cocei a nuca, levemente envergonhado.

    Vi seu olhar alternar entre nós dois repetidamente. 

    “Ela é uma otaku de cosplay, como pode ver, gastou todo dinheiro em lentes de contato e chifres… Um caso perdido.”

    “Eh… E-ela é boa nisso. Haha.” 

    Ela acreditou?

    O atendimento ao público é tenso, talvez essa nem seja a coisa mais bizarra que ela já viu.

    Bom, é japão, Hokkaido em dois mil e vinte três, com a ascensão dos youtubers, tiktokers e Streamers, não deve ser tão incomum encontrar pessoas vestidas como ‘diaba safada’ na rua, eu mesmo quase matei um cosplayer uma vez achando que era um yōkai.

    Em minha defesa, aquele jiangshi parecia extremamente convincente. Para ser sincero, nem sei se foi a decisão certa deixá-lo ir embora. Ainda duvido da integridade daquela maquiagem.

    “Namaueuchi.” Um beliscão, puxou o tecido da minha camisa.

    “Sim, sou eu.”

    “Quero ver aquilo.” Com a outra mão ela apontou para o canto ao lado da porta, com uma máquina de come-moedas.

    “A máquina gachapon? Tudo bem.” Entreguei uma moeda e ela caminhou animada, esboçou um sorriso leve. Coisas simples deixam a vida mais bonita.

    “Com licença, moça?”

    “Uh, sim?” A mulher do caixa se assustou quando a chamei. Ela estava olhando diretamente para mazou, que estava agachada em frente a máquina para crianças, agindo tão virtuosa que com outra aparência, se passaria por uma.

    “Eu quero cigarro, aquele lá.”

    “Ah… Sim, sim, do qual?”

    “Filtro azul, maço.”

    “Certo…” Ela já estava tateando a cartela, quando parou e olhou melhor para o meu rosto. “O senhor possui vinte anos?”

    “Vinte e um.” 

    Mentira.

    Eu não sou o maior mentiroso que conheço. Na verdade, eu não seria nem mesmo mentiroso se não fosse pelo maior mentiroso que conheço.

    Minha mãe me ensinou a ter valores, os bons, acordar cedo, etiqueta básica, atenção, honestidade.

    Meu mentor me ensinou a quando usar, e quando não usar, que nem todo tempo é necessário ser honesto e principalmente, que cigarros são importantes.

    ‘Cigarros são a garantia de que você não vai precisar sofrer até os cem anos, e o pouco que viver, será sem estresse’. Ele disse.

    Apanhei o documento falso do bolso e a apresentei.

    É mesmo, ele também me deu um documento falso.

    Pensando melhor, o meu mestre é a minha maior má influência. 

    “Namaueuchi! Eu tirei o azul!” Voltou correndo animada, abriu a palma e me mostrou uma miniatura do mudkip.

    Feio, sua cauda era laranja e ele tinha um acabamento terrível, mas ela parecia feliz com sua aquisição de baixa qualidade. É um mercadinho de bairro de qualquer maneira. 

    “Você vai cuidar do azul?”

    “Vou!”

    “Tudo bem então, pode ficar.” 

    Seu olhar cheio de ternura poderia ser descrito com moe. Ela fechou os olhos e mostrou os dentes, seria mais fofo se eles não fossem estranhamente pontudos.

    Que criançona.  Eu nem precisei tentar dessa vez, nem parece a mesma Mazou que metralhava confiante sobre cafés.

    “É para entrega?” Perguntou a caixa.

    “Não, eu vou levar.” Ela me olhou incrédula, como se disse-se: ‘Tudo isso?’, mas apenas sorri, destaquei um cigarro da caixa e firmei ele entre os lábios. Senti que meu sorriso e o de Mazou se assemelhavam um pouco, por azuis diferentes e motivos iguais.

    Peguei todas as sacolas com a direita, com a esquerda eu tentando de maneira falha acender o cigarro. Fui seguido até fora por Mazou, que tropeçava desatenta brincando com o ‘Azul’.

    ***

    (comprasmazo.png)

    (O pincel “[c) Pencil-6 Quick Shade]” do Krita, tamanho 20,00 e opacidade 100%.)

    Notas:
    A Fofinha demais o demônio

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