Capítulo 4 - Randômica.
—Ambição—
―欲望―
—Desejo—
Retornamos do mercado para casa por outro caminho.
Mazou estava brincando com o mudkip, ela colocava ele em cima de muretas e fazia como se estivesse seguindo a gente, andando lado a lado. Dava pulinhos com ele nas irregularidades do terreno, fazia um ‘Yup’ baixinho todas as vezes.
Caminhei entre o meio-fio e ela. Traguei um cigarro enquanto carregava as compras sozinho.
É mal visto, você sempre será mal visto se o fizer. Eu ouvi uma vez, quando meu mentor retornou do ‘Dia passado’. Ele me contou que no exterior, comer um lanche ou fumar um cigarro enquanto anda é tão comum quanto olhar o celular.
Eu devo ter retrucado algo como ‘Oh, lá eles cuidam da própria vida?’. Irônico, eu só queria fazer uma graça. A gente sempre tenta parecer maneiro pra quem admira.
Ele respondeu que lá ‘Ninguém está cuidando nem da própria vida’. Eu calei, óbvio. Aquele evento abalou as coisas para ele, não atoa que ele se afastou das patrulhas e está a todo momento tentando se aposentar.
Se fosse qualquer outro… Mas é assim que é. Não se aposenta o melhor espadachim da era moderna, não se ele ainda for capaz de manejar uma lâmina. É como são os negócios.
“Namaueuchi.”
Meu trem do pensamento foi interrompido, Mazou parou de caminhar e encarava suas mãos, elas estavam juntas como quem pede uma esmola e no centro, o feioso monstro de bolso falsificado.
“Hm.” Parei também. Com os ombros baixos pelo peso e o cigarro entre os dentes.
“O azul morreu.” Declarou.
“Gasp! Morreu?” Cuspi o maço pela metade e me aproximei.
Olhei melhor para as mãos dela, ele parecia mal feito, como sempre foi. Tentei pensar em algum acontecimento diferente, nada veio, ele parecia igual, ela parecia idêntica. Nada fora do comum ocorrera no caminho.
O que seria…?
“Ele não está respirando!”
Ah.
É a Mazou.
Eu olhei ao redor, um parquinho vazio, um estabelecimento pacato e casas fechadas. Foi um bom caminho, nesse horário as pessoas estão ocupadas.
Ora, você pode me julgar após ver sua atitude infantil e bobeirol eventual, mas um yokai sempre é um yokai. Não posso me dar ao luxo de lidar com uma instabilidade emocional de um yokai perto de civis.
Tudo limpo.
“Ele estava respirando antes?” Eu perguntei, tentando trazer a voz da razão.
“Eu não lembro.” Ela acenou negativamente, bem expressiva, de um lado pro outro e então voltou a encarar o brinquedo como quem vê um parente perdido. “Eu não lembro se ele estava.”
Kek—, ‘é porque não estava’.
Era o que eu queria dizer, mas nada de bom viria se eu dissesse.
“A raça dele não precisa de respirar.”
“Ah… Hum hum!” Ela voltou a sorrir como quem acreditou fielmente no que disse.
Não sei se sorrio com a inocência, choro com a estupidez ou me revolto por ter sido dobrado ontem por uma garota tão ingênua.
Ingênua? Só quando quer, na verdade.
Paciência.
Suspirei, resto do caminho até a casa mais isolada ao sul foi longo.
Eu não moro fora da cidade, mas também não moro exatamente dentro dela, numa das últimas ruas do bairro residencial perto da reserva florestal, é possível ver uma rua que desce até um ponto sem saída. Ali, à esquerda fica a casa, é bem difícil de se ver de longe.
Não é tão distante do mercadinho que fomos, mas eu fiz algumas curvas desnecessárias para ela não saber o caminho exato, ela não pareceu perceber, frequentemente durante o caminho ela me parava e apanhava algum pirulito ou biscoito das sacolas.
Comia numa velocidade absurda, assim como o miojo de ontem, como se desaparecessem após engolidos. Chegamos à porta, mas Mazou estava focada demais no novo brinquedo.
Eu parei por um instante, ela não pareceu perceber que eu precisava de ajuda com a porta — ou melhor —, ela não parecia interessada em me ajudar.
Eu sou um homem calmo, ouça. Mas isso me fez crescer veias na testa, minhas sobrancelhas agudas apontaram para baixo e eu chutei a porta com força, o ferrolho não aguentou e abriu passagem…
Haa… Eu quebrei a porta, que infantil. Era só pedir ajuda.
Me dirigi até a cozinha, Mazou veio atrás.
“Namaueuchi.”
“O que foi agora?” Meus pés se arrastavam no chão de madeira.
“Eu tô com fome.”
“Você não sabia cozinhar?” Ora, talvez eu esteja agindo rude demais… “Cozinhe algo.”
Yup, as palavras me escaparam.
Eu posso ser infantil às vezes, né?
“Não consigo me concentrar com fome.”
Que desculpa ruim.
“Você veio o caminho todo pegando doces. Quando foi a última vez que comeu?”
“Ontem.”
Ontem? Ontem…?
Ela está desconsiderando os doces por serem ‘besteira’? Mas o Cup Noodles também não é grande coisa.
Hm… Yokubou… Como se fosse um detetive, uma suposição clicou para mim.
Coloquei as sacolas na mesa da cozinha.
“Mazou-san, você se alimenta de desejos?” Pedi, meu inconsciente queria uma negativa.
“Sim.” Não veio.
Ugh.
“E por que não disse isso antes?”
“Você não perguntou.” Ela me devolveu como se fosse óbvio, uma conclusão supostamente fácil.
“Estúpida.”
Arrastei uma cadeira e me sentei de frente para ela, comecei a pensar de olhos fechados e cabeça baixa.
Desejos, desejos. Eu não possuo desejos de fácil acesso.
Ainda não entendo exatamente como isso funciona, a lógica em cima de yokais é sempre diferente, por um instante a fantasma parecia um verdadeiro enigma de outro mundo. Não se tem tantas informações sobre fantasmas como ela. Ou melhor, sobre Onis como ela.
Quando abri meus olhos, Mazougaharachou estava quase esbarrando o nariz ao meu, me encarava fixamente os olhos. Seus cabelos cacheados que recusavam a normalidade caiam sobre seus ombros e algumas mechas em frente ao rosto. A pele excessivamente pálida e os lábios finos com uma respiração leve — que me faz questionar ainda mais o funcionamento desse fantasma —, e divaguei por um instante.
“Ei… Mazou-san?”
Eram poucas palavras, mas quase não saíram, cada sílaba era levada instantaneamente para ela, o vento era um rápido mensageiro para distâncias tão curtas.
“Sim?” Questionou sem hesitar, senti um cheiro enjoado de açúcar e sabores tutti-frutti sintéticos junto ao soprar das palavras.
“Qualquer desejo?”
“Sim.”
Esses são os momentos chave onde as decisões importam menos que os resultados. Tateei sua nuca, aproximei meu rosto mais, nossos narizes se bateram.
“Namaueuchi?” Ela disse, enquanto eu lia repetidamente os kanjis de ‘Ambição’ e ‘Desejo’ em seus olhos rubros.
“Diga.”
“Sua boca tá com cheiro de cigarro, eu não vou te beijar.” Reclamou, sem se afastar um único centímetro.
Ela lê o que sinto nas palavras né?
“E o que você vai comer?”
“Você só tem desejos lascivos?”
Num contraponto entre sua boca e o resto do corpo, ela se aproximou.
“Poucas coisas me faltam.” Eu respondi. Não precisava mais que isso, ela entenderia. Entrelaçou sua mão com a minha e encaixou nossos rostos, fechei os olhos. Doce, sabor de bala, aquelas que grudam no céu da boca e o sabor só sai quando você come outra coisa.
Senti um peso, ela pôs suas coxas sobre as minhas e travou a minha cintura, eu estava preso ao banco.
Não foi confortável. Mazou não é quente. Na verdade, tocar nela é como sentir almofadas ou roupas. Macio, mas sem vida. Fria como um objeto inanimado.
Isso não é como desejei… E outra, eu não gosto de ser submisso.
—Desejo—
Soltei sua mão e agarrei sua cintura, soltou o aperto das pernas e amoleceu no beijo. Abri os olhos, ela me encarava, todo esse tempo, seu olhar era estoico. Eu hesitei, quando de repente, ela revirou os olhos, derreteu. A pele pálida parecia ter tomado certa cor.
Parecia mais humana.
Mazou, num instante, tornou-se quente como um humano.
Comecei a afastar a nuca, saindo do beijo, mordisquei seu lábio. Completamente entregue. Tão linda e sedutora, ela estava atraente como nunca antes.
As pontas de nossos narizes se esbarraram, ambos ruborizados, o filete de saliva escorria pelo canto do seu lábio agora rosado. Mais um beijo, me aproximei com certa embriaguez, meio tímido, a pressão pelo desejo foi embora.
Ela pôs a mão sobre a minha, a tirou da sua cintura com cuidado, guiando aos poucos para fora. Levou a outra mão ao meu rosto e tapou minha boca.
Smack—.
Ela saiu do beijo.
Se soltando, saiu do meu colo. Natural, como quem fecha uma torneira após o banho. Pegou uma sacola da mesa e foi até a pia, começou a cortar alguns legumes.
“Eto…” Eu comecei, mas fui cortado.
“Você tem que usar manteiga de cacau.” Seu timbre de voz era neutro.
O que?
“Mazo—” Tentei novamente.
“Você deve conhecer, é como se fosse um batom.” Tac— Tac—. Eu ouvi os legumes sendo cortados.
“E-ei!”
“Serve para não deixar os lábios ressecados.” Novamente ignorado.
“Mazou-san!”
“Sim?”
Parou, ela segurou o balcão com uma mão, a outra a faca e virou o rosto para mim.
“Você está saciada?”
“Estou.”
“Oh… Certo.”
É, certo. Ela está satisfeita.
Eu não.
Usado… Bom, era assim desde o princípio.
Trabalho. Mazou é trabalho.
Não tenho contato frequente com mulheres, meus hormônios devem ter trabalhado além da conta.
Só isso. Namae racional, aja racional.
Você precisa agir—
Tanranantan—.
Meu celular tocou, ele estava na sacola de compras que deixei sobre o balcão.
“Alô?”
Tarde demais, antes que eu me levantasse, Mazou atendeu.
“Namae… Ah, você está falando do Namaueuchi, só um momento.” Ela afastou o telefone. “É pra você.”
“Er… É o meu telefone, seria inesperado se não fosse.” Peguei o aparelho da mão dela, ela ainda agia como uma máquina automatizada. “Quem?”
“A voz que eu acabo de ouvir é de quem imagino que seja?”
Ah, era meu mentor.
“Precisamente.”
“A firma está tomando decisões cada vez mais estúpidas, essa nova política da gerência já ocasionou três desligamentos, só neste mês.” Ele resmungou. Eu ouvi sons de objetos movendo ao fundo.
“Esse mês? Hoje não é tipo, dia quatro?”
“Entendeu agora?”
“Ora… Paciência.”
“Em todo caso, o seu equipamento já foi reparado, pegue quando quiser.”
Eu olhei o horário, ainda era antes do meio-dia. Eu conseguiria ir buscar hoje. Era um ótimo momento para escapar do sentimento estranho que surgiu após o beijo.
“Tudo bem, posso pedir uma coisa?”
“Hunf, diga.” Ele suspirou, prevendo algo ruim.
“Eu preciso de… Nove conjuntos de haori-obi, femininos, tamanho G.”
“Você pode comprar isso numa loja qualquer.”
Eu olhei para a Mulher, ela estava de costas, como quem não se importa com a conversa.
Francamente, ela tem problemas de personalidade? Eu preferia a versão boba ou a amorosa.
“Quero que eles escondam ‘cheiros’.” Disse, num tom mais baixo.
“…” O outro lado da linha parecia curioso. “Tudo bem, venha buscar amanhã.”
“Eu quero hoje.”
“…” Silêncio por alguns segundos. “Você não presta.”
Tuuuu—.
E ele desligou a chamada.
“Mazougaharachou? Quando você termina aí?”
“Quando eu terminar.” Séria, rispidamente séria.
“Acha que consegue ficar sem mim por algumas horas?”
“Não.”
Eu disse, não disse? Decida-se mulher, você não pode ser cinco vocês de uma vez só.
Olhei o relógio novamente. Se não demorasse, eu voltaria umas três horas.Em retrospecto, andei sendo conivente com toda e qualquer ideia que Mazou punha na mesa.
Geralmente seguindo a onda.
“Que pena, vai ficar.”
Ela se virou.
“Onde vai?”
“No meu trabalho.” Eu respondi já caminhando para a sala.
“Aquele que é perigoso?”
‘Não tanto quanto você’, eu queria dizer.
Eu nunca sei quando ela está estóica ou se importando mesmo.
Fantasmas são seres fáceis de lidar, mas difíceis de conviver.
“Esse mesmo.”
“…”
Mazou não respondeu. Me encarava como se visse todos os meus pecados. As maneiras de encarar dela pareciam variar de acordo com seu humor, humor esse que parece variar tanto quanto seeds procedurais.
Difícil demais.
“Tudo bem. Vou fazer frango assado com batata e cebola. Feijão com carne de porco, arroz e salada de pepino e tomate, quer algo a mais?”
Isso é um prato diferente, eu esperava um Takoyaki. Ela é estrangeira né? Eu talvez devesse perguntar de onde… Não, não.
“Faça como quiser, só deixe Coca-Cola pra mim.”
“Certo.”
Me senti um recém-casado.
Caminhei até a porta, peguei a chave da moto pendurada no canto.
Nheec—
“Até depois.”
Blam—.
A porta não trancou.
***

(Meu pincel favorito, tamanho 10. Foto free do Japão, um pack aleatório ai. Todas as cores tiradas da própria imagem. Esse foi divertido de pintar, mas ficou horrível haha.)

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