Mentiroso

    ―嘘―

    Mentirosa

    Como nunca antes, eu desejei a existência Mazou.

    Não como sempre foi, não como uma mulher bonita ou como alguém que me recebe quando chego em casa. Foi mais como presença.

    A retirada do selo foi forçada, isso traz implicações que nem mesmo eu entendo.

    Quando uma entidade é selada num papel, amuleto, talismã ou arma, aquele objeto se torna extensão do yōkai, geralmente aprisiona.

    Mas num escopo de ser vivo, é como se duas almas se misturarem.

    Sincro.

    Talvez não morri pelo pouco tempo, ainda não era uma fusão de almas completa, mas era um elo que vai além de sentimentos, o selo e o yōkai começam a se emaranhar como se fossem duas partes de uma coisa só, uma palavra composta, dois radicais, separados e com significado incompleto.

    Minha alma por um instante sentiu fora do corpo.

    Quando ouvi o vocal ríspido de Mazou, de repente, foi como estar reencontrando um hobbie, um antigo hábito, um pedaço de mim.

    Um amor de infância.

    Quando as pressões emanaram, o pescoço de Suzume torceu na direção da fantasma, sua mão se estendeu na direção dela. 

    Mazou disparou em sua direção em um razante. Como se feitos um para o outro, a mão de Suzamine encontrou o pescoço de Mazou e interrompeu sua disparada, segurando-a no ar.

    Gasp—.

    “Mazou?!” Me levantei com dificuldade, apoiando no meu joelho. 

    As paredes do domínio começaram a tremer e sangrar. Os cabelos negros e desgrenhados da fantasma levitavam, pareciam sencientes, o olhar vermelho afiado emitia uma aura forte.

    “Quieto.” A vampira retrucou, minhas pernas travaram.

    Mazou levou as mãos até o pescoço, tentando sair do aperto enquanto era erguida ao ar, as bochechas infladas e veias saltadas. 

    O espaço pareceu se dobrar novamente, e como se sempre estivesse lá, eu já estava à metros de distância das duas. Ao olhar para o lado, Namae-nai estava guardando sua Odachi na bainha.

    “Pare-a, idiota!” Mas Namae-nai permaneceu impassível.

    “Assustadora.” Ouvi. Agarrada às pernas de Namae, a pequena criança dos cabelos brancos.

    “Ela vai morrer!” Gritei.

    “Não.” Ele enfiou a mão nos bolsos e puxou um cigarro, um dos seus cigarros artesanais. Acendeu calmo. “Se ela for quem é, não vai.”

    “Isso não é hora de falar em enigmas, olhe aqui, o supremo errou! Eles são estúpidos e Mazou não sabe lutar.”

    “Ah…” Soprou uma grande quantidade de fumaça no meu rosto. “Você sabe, se o supremo erra eu sou o primeiro a apontar. Veja.”

    As sombras antes projetadas pelos candelabros se uniram atrás de Suzamine, que não possuía nenhuma sombra. Elas escalaram suas costas e formaram asas de morcego. A Mazou estava sufocando, embora ainda tentasse se soltar. Seus olhos vermelhos pareciam pulsar. Suzamine sussurrava para ela, eu não consegui ouvir.

    “Aí está.” Namae-nai resmungou, tragando outra vez.

    E então, sob as axilas de Mazou, a pele se contorceu. Como se um parasita tentasse se desprender. 

    Os candelabros contorceram em agonia, rodopiaram no próprio eixo como prestes à cair. O grande lustre dourado se dobrou como uma bola de papel, como se tentasse fugir para dentro de si mesmo.

    Os olhos nos quadros começaram a chorar carmesim.

    O trono tombou para trás.

    Trash—! Sua pele rasgou.

    Como uma borboleta escapando da crisálida, um par braços rastejou para fora do tronco da Oni banhadas em musgo. Seus dois novos braços seguraram e torceram os dedos de Suzamine, que parecia muito mais surpresa que assustada.

    Seus músculos tencionaram, primeiro soltando a si mesma, e em seguida correndo ao pescoço da pequena vampira.

    “Está bem.” Namae-nai disse.

    Em menos de um piscar de olhos.

    Nenhum flash, nenhum som de passo, nem mesmo um vulto. Até sua sombra deve ter se sentido atônita quando o velho se moveu para a confusão.

    Já estava lá.

    Era outro nível.

    “Basta.” Solene no meio o combate sem nem mesmo sacar uma arma. Namae segurou ambas pela gola, no mesmo instante os cabelos de Mazou normalizaram e as asas de Suzume retraíram. As duas foram erguidas no ar e pareciam marionetes sem corda. Os dois pares de braço de Mazou pareciam não responder mais.

    Isso é o que é.

    Supressores de aura.

    É a matéria prima das algemas, aquelas que contiveram Suzamine por um tempo.

    Em resumo, é algo da terra. Algo tão humano, que força entidades a jogar nas regras humanas. É o mesmo material que é infundido nas armas dos agentes.

    Ela é nociva para humanos também. Em Youkais, deixam eles quase humanos, em humanos, deixam eles mortos.

    Contudo, uma curiosidade interessante sobre Namae. Ele faz cigarros com supressores de aura.

    Namae-nai, o maior espadachim da era moderna é literalmente uma bomba anti-yōkai.

    “Namaueuchi.” Namae chamou.

    “Mestre?”

    Me aproximei com calma. 

    “O que você dá para ela comer?”

    Se referia a Mazou.

    “É… Açúcar… E às vezes, alguns dos meus desejos.”

    “É uma dieta diferente…”

    Namae sorriu indiscreto, ele percebeu algo nas entrelinhas.

    Foi uma má interpretação? Desejo… Ah. Ele pensou em algo que foi além dos reais acontecimentos. Mas contanto que ele não insira nada nebuloso nos relatórios, estarei bem.

    “Porra! Mas que diabos—!”

    Slap—.

    Namae-nai deu um leve tapa na boca de Suzamine. Mais fraco que o meu de mais cedo, mas fraco que minha sombra também. Meramente um aviso corretivo.

    Isso me faz pensar que eu fui violento com uma criança, transbordei minha insatisfação fisicamente naquele momento? Deveria rever autocontrole… Não, eu abri a cabeça dela com uma machete, o tapa nem deve ter feito cócegas.

    “Por favor, não fale palavrões na frente da criança.”

    Criança? A pequena de cabelos brancos?

    Ela estava atrás da pilha de sucata que restou do lustre, sentada tapando os ouvidos, como uma criança que escuta a discussão dos pais involuntariamente. 

    “Namae-nai.” Chamei. “A vampira disse que não dá pra sair sem a ajuda dela, algo sobre portas, uma porta que só abre para dentro.”

    “Portas? Fala do domínio?” Suzamine tremeu os lábios, parecia prestes a discursar alguma baboseira sobre ser inevitável, quando Namae continuou. “Na verdade é muito mais fácil sair de um domínio vampiro que entrar. Nunca lhe contei? Já caí em vários. Se pudesse mensurar, é como se fosse uma porta mesmo. Ela geralmente está trancada, mas quando é aberta, permanece acessível por um tempo. Imagine que você está tentando entrar e tem alguém segurando ela por dentro, no momento que eu faço mais força e abro, essa pessoa não está lá do outro lado para me bloquear de voltar.”

    Foi uma explicação longa e perturbadora.

    Nunca precisei perseguir uma pessoa por uma porta, mas ele gesticulou com uma vivacidade como se fosse um ‘Ka’ mais ‘Ya” é ‘Kya”.

    “Ungh…”

    Suzamine contraiu, encolheu os ombros sem resposta.

    Então toda explicação metafórica sobre portas que abrem para dentro e fora era mentira? Essa foi uma boa mentira para ser inventada de forma tão leviana, conclui que, ou Suzamine era um gênio do planejamento, ou um gênio da retórica, e ambos eram um ponto para ela.

    “Namaueuchi, leve a entidade de classificação Espírito embora.” Ele soltou Mazou, ela estava prestes a cair como uma boneca de pano, antes que eu a segurasse e mantivesse de pé. “Você precisa ir para casa, estarei lá logo após.” 

    “Mas…”

    “Seu selo foi rasgado, você e ela tem que descansar. Sem discussões.”

    “Se isso era tão perigoso, por que deixou ela se arriscar?!”

    “Perigoso seria deixar ela numa forma frágil lidar com o rompimento, ao menos agora está melhor… Incompleta, eu diria. Mas melhor. E você, sua regeneração é boa, não invencível.”

    “Tsu, certo…” Concordei a contragosto, e então olhei ao redor “Embora… Por onde?”

    “Ah é…”

    Ele sacou a espada.

    Isso me trouxe alguns flashes.

    A primeira vez que vi essa mesma odachi negra em ação, foi antes mesmo de eu ser um caçador. Uma espada com supressores de aura.

    Já era um Namae-nai, mas não sabia as implicações do termo.

    Corte limpo, senti ódio dela por alguns anos, mas com o tempo comecei a aceitar a minha nova realidade.

    Namae pode ser um emissor de supressor de aura, extremamente veloz e com a força mais sobre-humana que conheci, mas ele sempre recusou títulos espalhafatosos de anime, nem nunca nomeou sua espada.

    Uma odachi, com seus um metro e setenta, menor que eu por um único centímetro.

    Ele ergueu ela sobre o corpo.

    Oh, eu tive uma memória ruim.

    Quando a vi descer contra o ar e abrir uma fenda na realidade, lembrei perfeitamente.

    Uma cabeça rolando entre algas e areia.

    A espada que matou a minha mãe.

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