Índice de Capítulo

    Ponto de Vista de Noelle:

    Ao atravessar a porta, fui recebida por uma brisa úmida. A arena não era feita de pedra ou metal, mas de raízes. As paredes se entrelaçavam como se estivessem vivas, e o teto era coberto por folhas que filtravam a luz dourada em feixes suaves. O chão, coberto por musgos na terra fofa, troncos grossos servindo de pilares e flores se abrindo e fechando como se respirassem. Pequenos flocos de pétalas caíam lentamente, mas o ar era pesado, quase parado.

    ENTRE RAIOS E TROVÕES, ATRAVESSANDO A PORTA ILUMINADA, TEMOS ELA! SEDUZIDA PELOS OLHARES BELOS E MALIGNOS DO DEMÔNIO PÚRPURA, A BRUXA RELÂMPAGO! A ÚLTIMA BRUXA! FILHA DE VIOLLET, NOEEEEELLEEEE! — O narrador berrava no microfone com a minha entrada.

    DO OUTRO LADO, EMERGINDO DA LUZ, ELA… já tá lá? — o silêncio tomou conta da arena após o desânimo do narrador ao ver minha oponente sentada sobre um tronco de árvore caído.

    Eu não tive muito contato com os soberanos quando estive em Antares, mesmo assim, era estranho vê-la tão calma.

    O QUE É ISSO SENHORAS E SENHORES? NADA DE ENTRADAS TRIUNFAIS PARA ROSALYNE, A MÃE DAS FLORES! — Pachiru voltou ao seu tom habitual.

    Rosa, também conhecida como a Soberana Ranzinza, segurava na palma de sua mão uma pétala branca, enquanto alterava a sua cor de formato algumas vezes. Seu cabelo, em 2 anos, se tornou um vermelho desbotado, denunciando sua idade avançada, como se o cansaço finalmente tivesse a alcançado.

    Sua armadura, com espinhos e cascas de madeira, rangeu quando ela se levantou. Esticando seu braço, fez com que um dos espinhos se alongasse pelo seu braço, se transformando em uma vinha rígida que servia como uma espécie de cajado.

    — Muito bem, vamos logo com isso — disse brevemente.

    — Não sabia que seu nome era Rosalyne… — comentei enquanto mantinha uma respiração profunda, concentrando minha mente para a batalha.

    — E eu não sabia que você daria tanto desgosto à sua mãe — alfinetou, nada fora do esperado.

    Manipulando as raízes ao redor da arena, a soberana atacou com chicotes em minha direção. Movimentos rápidos o bastante para estalar o ar, mas não o suficiente para me acertar.

    Eu avancei sem dificuldade, esquivando dos chicotes com movimentos simples e ágeis. Há cerca de dois metros da minha oponente, tomei um impulso repentino, projetando a palma da minha mão para as suas costelas.

    Rosalyne acertou violentamente seu cajado no chão, erguendo um muro de vinhas entre nós, centímetros antes que eu pudesse acertá-la. Meu corpo agiu instintivamente, liberando uma descarga elétrica contra o muro que freou meu movimento e me lançou para trás.

    Apesar da idade, seus reflexos ainda não a abandonaram, avançar de qualquer jeito não me levaria a lugar algum.

    — Você é rápida, criança — comentou, mesmo comigo no auge dos 20 anos — Você tem uma energia que já foi embora de mim há muito tempo.

    — Certeza? Você não tá nada mal.

    — Quero que terminar isso o mais rápido possível, mas também, não posso pegar leve — o chão ao nosso redor se remexia, como se criaturas vivas viajassem no subsolo.

    Plantas e arbustos cresceram por toda a arena, transformando o bosque em uma selva. O cheiro das plantas permeava meu nariz, como se quisessem me alertar sobre os perigos que me sondavam.

    Sem dizer uma única palavra, Rosa avançou transformando seu cajado em um chicote com espinhos. Rapidamente, ela ergueu sua arma, chicoteando o que parecia um ataque horizontal. Eu saltei abruptamente na diagonal, me enfiando na salva.

    O golpe do chicote rasgou o chão com seu impacto, criando uma pequena fenda na area.

    Eu me esgueirava entre as plantas ao meu redor, procurando uma brecha para atacá-la. Meus pés caminhavam levemente sob a terra, acreditando estar escondendo minha presença, que logo foi detectada por uma mordida violenta de uma planta carnívora.

    A abocanhada no ar estalou como um bater de palmas, despertando uma grande quantidade de seres botânicos.

    As criaturas tentaram me mastigar diversas vezes, mas meus reflexos e instintos apurados eram suficientes para evitar cada uma delas, mesmo com Rosa ainda tentando acertar um golpe em mim. Cada folha, caule e flor agia como uma espécie de sensor, denunciando minha posição para a soberana.

    Fugindo da selva em alguns segundos, ascendi com a palma da minha mão inclinada para o seu rosto, mas assim que estava prestes a acertá-la, ela abruptamente desviou o meu trajeto, acertando minha mão em um movimento desesperado.

    CESSAR! — apesar do bloqueio, apliquei uma runa em seu braço que, antes de cair, ativei habilmente.

    Correntes elétricas saltaram do chão, se entrelaçando no braço direito de Rosalyne.

    — Tsc! — grunhiu enquanto eu me posicionava em sua frente.

    — Você parece enferrujada…

    — Quem se importa? — resistindo à força das correntes — eu estou velhademais pra uma luta extensa como essa…

    Conjurando vinhas grossas diretamente do solo, ela esmagou as correntes com a força das plantas.

    O cheiro do pólen das flores empesteou a arena, aos poucos os grãos amarelos subiam, alguns, alterando sua corte entre verde, azul e vermelho.

    Rosalyne fechou os olhos lentamente, expelindo os grãos a sua volta, como se criasse uma zona segura em volta de si.

    Técnica Divina: Explosão Sagrada das Flores.

    Transformando seu chicote novamente em um cajado, a soberana perfurou bruscamente centímetros da terra úmida em seus pés.

    Eu não sei ao certo o que foi, a adrenalina, o instinto ou até mesmo uma espécie de concentração absoluta, tudo que eu sei, é que o mundo pareceu desacelerar.

    Os polens ao meu redor começaram a explodir em bolas de fogo coloridas. As ondas de choque de cada explosão balançaram o meu cabelo, junto com a onda de calor que cobria a arena.

    Minhas pupilas perderam o foco nas explosões, mirando diretamente para a bolha de segurança em volta de Rosalyne, que mexia seus lábios rosados calmamente.

    Raios saltaram lentamente sobre o meu corpo, meus joelhos se flexionaram, junto ao meu tronco levemente inclinado. As explosões se aproximavam, grão a grão, o espaço se fechava em bombas que se ativariam a qualquer segundo.

    Eu sumi. Um rastro de raios azuis se formou entre o meu ponto de partida e as costas da soberana. Minhas garras trovejantes que se ativaram no caminho estavam apontadas para as suas costelas, em um ângulo que evitaria órgãos vitais.

    — Eu me rendo — em meio as explosões finais, Rosa derrubou seu cajado, erguendo ambas as mãos.

    O QUE ELA DISSE? ROSALYNE ACABOU DE DESISTIR DA BATALHA? — gritou o narrador — DIFERENTEMENTE DOS SEUS COMPANHEIROS, A SOBERANA ENTREGA O JOGO AO INIMIGO, FINALIZANDO A BATALHA SEM UM ÚNICO ARRANHÃO! — era quase possível ouvir a vaia dos espectadores através dos alto-falantes.

    — Se-Se rende? — eu desativei minhas garras, tomando uma distância segura entre nós.

    — Você ganhou — reafirmou, caminhando para a porta de luz que surgiu na arena.

    — Mas por quê? E-Eu não tô entendendo!

    — Eu já estou velha, criança — inclinando-se levemente para mim, parou — Essa foi a minha técnica mais forte. Se isso não foi capaz de te parar, nada que eu tente irá.

    QUE ABSURDO! SOBERANOS DEVERIAM LUTAR PARA PROTEGER ANTARES E O MUNDO! UMA DESISTÊNCIA COMO ESSA É UM ATO DE REBELDIA!

    — Eu nunca me importei com nada disso. Durante todos esses anos, usei a minha força para ter uma vida confortável e dinheiro. Vou me aposentar em algumas semanas, não vale a pena dar a minha vida em uma luta como essa.

    Ela foi embora, sem mais, nem menos. Apenas partiu sem um pingo de remorso em seus olhos.

    Não havia mais nada para mim ali. Pachiru continuava a entreter seus espectadores, enquanto eu caminhava confusa para porta iluminada.

    — Por essa eu não esperava — Saki comentou, me vendo entrar na sala de espera.

    — Se continuar assim, essa torre vai ser molezinha! — Akira vibrou, sorrindo como uma criança.

    — Eu fui a última? — brinquei, insinuando uma pequena competição.

    Nossa moral estava acima do normal. Saki parecia confiante, diferente de mim, que escondia uma certa dúvida em meu coração.

    Soberanos, guardiões, heróis, demônios… em termos de poder, onde eu me encaixava? Lutar contra humanos e criaturas são coisas completamente diferentes. Eu quase morri na minha última batalha e depois apenas tive a sorte da minha oponente se render. De qualquer forma, eu sabia que essa reflexão não me levaria a lugar algum. Quanto mais tempo ficávamos na torre, mais tempo Galliard ficava nas mãos do Ego, eu precisava me apressar.

    Ponto de Vista de Gwen:

    Escondendo meu rosto com o capuz embutido em meu manto escuro, eu caminhava junto a Shosuke pela periferia da cidade.

    As ruas próximas à muralha de Antares eram sujas, mas organizadas. As pessoas ao redor tinham desconfiança no olhar, nos observando como potenciais ameaças, apesar de não cessar as suas atividades cotidianas.

    — Com licença — me aproximei de uma senhora sentada em um banquinho no balcão de um bar, interrompendo sua conversa com o homem do outro lado do balcão — Sabe onde posso encontrar o menino de madeira? — perguntei, da exata forma que Akira descreveu.

    Ela olhou para o homem a sua frente, como se esperasse sua permissão para falar. Assim que o mesmo acenou para ela, sua voz saiu.

    — No fim da rua, o galpão à esquerda — sucintamente.

    — Obrigado — virei-me de costas assim que recebi a informação, a deixando para trás.

    — O que é “o menino de madeira”, Ronald? — ela perguntou ao rapaz.

    — Não faço ideia, mas se respondermos assim, evitamos problemas…

    Seguindo a instrução da moça, alcançamos o galpão velho e empoeirado. Eu estendi o meu punho para perto do portão de ferro enferrujado, sentindo minhas forças sendo drenadas, procurei um ponto onde o metal não estivesse deteriorado e o acertei com uma batida rítmica específica.

    O portão começou a ranger, se abrindo lentamente, revelando um ambiente nada convidativo. Seu interior era escuro e sujo, como se tivesse sido abandonado há anos. Nós vagamos por alguns segundos, procurando alguma coisa viva ali.

    — Tem alguém aí! — clamei, formando um megafone com as minhas mãos.

    — Quem são vocês? — uma voz feminina soou em corredor ao meu lado.

    Por reflexo, criei uma adaga de gelo em minha mão, apontando para o rosto curioso de uma garota.

    Após um clique, luzes em tom âmbar se acenderam pelo galpão e pela extensão do corredor.

    A luz destacava seus olhos dourados com pupilas exóticas em formato de engrenagem e suas tranças verdes combinavam com seu macacão em um tom pouco mais escuro. Ela vestia uma camiseta branca por debaixo do macacão, surrada e suja com graxa e manchas não identificadas.

    — Você é o Kaiser? — eu aproximei a minha adaga lentamente do seu rosto.

    — Eu tô com cara de Kaiser? — ela debochou, inchando sua bochecha com ar.

    — Não é ela — Shosuke enfim abriu a boca, eu até tinha me esquecido que ele estava lá.

    — A… — ela abriu seus olhos em surpresa — eu conheço você!

    — Como é? — eu desfiz minha adaga, guardando a água de volta em minha pequena cabaça de barro.

    — Cadê o Akira e as outras duas? — ela passou por mim, se aproximando do meu colega — Vocês usaram o toque dele, por isso deixei que entrassem.

    — Ele nos pediu pra encontrar vocês da Sombra Dourada. Já devem estar lutando contra os soberanos.

    — LUTANDO CONTRA QUEM? — Ela quase caiu com o coração na boca — ELE VAI MORRER!

    — É um plano idiota, mas pode funcionar.

    Layla deu com um suspiro preocupado, abaixando seus olhos dourados

    — Estão procurando o Kaiser, certo? — contendo sua preocupação ao morder os lábios, ela se virou para o corredor, como se nos convidasse a seguí-la — vou levar vocês até ele, mas não acho que vão conseguir o que querem…

    Curiosos, nós a acompanhamos.

    — Aliás, não acho que um portão de ferro enferrujado iria nos impedir de entrar…

    — É, eu sei… — respondeu em um tom levemente divertido, enquanto o som das engrenagens espalhadas pelo galpão soavam violentamente.

    Caminhamos em silenciosos por um tempo, para um simples galpão, o lugar era bem extenso, o que me fazia duvidar se havia algum feitiço de ilusão ou algo semelhante.

    — Chegamos — Layla colocava sua mão na maçaneta de uma porta de ferro.

    Lentamente, ela abriu a porta que rangia em um tom agonizante, nos dando acesso a uma sala repleta de ferramentas, engrenagens, alavancas e plantas de construção espalhadas.

    — Kaiser, temos convidados.

    — Se for o Milien, diga que ele só entra aqui se parar de me trazer essas malditas maçãs — o homem de longos cabelos castanhos respondeu prontamente, sem ao menos tirar os olhos de seus projetos.

    — Na verdade… — receosa, hesitou ao falar — são amigos do Akira.

    Seu corpo congelou, alguns breves segundos se passaram sem um único piu, até Kaiser se virar pacificamente.

    — Akira nos ajudou a destronar o maldito Welt, dando lugar para um rei pior ainda. Ele caminha ao lado de uma das criaturas mais desgraçadas dessa terra — seu braço de metal começou a se transformar, moldando-se a si mesmo em uma lâmina pontiaguda — Então, antes que eu os mate, querem dizer alguma coisa?

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