Capítulo 71 - Seguindo o Fluxo
Um embate, outrora incompleto, recomeçou anos depois, em níveis completamente diferentes.
— Oropazzo, que merda você tá fazendo aqui? — a garota de cabelos loiros perguntou enfurecida.
— Não me atrapalhe agora, Elize! — resmungou o Túnica Negra.
— Foi mal aí, seus idiotas— erguendo sua mão transformada em um tentáculo — mas a brincadeira acabou. Não temos tempo pra isso — concluiu ao envolver seu braço pegajoso ao redor do seu companheiro.
O rosto surpreso de Noelle se contorceu com dúvida, como se estivesse vendo o impossível.
— Ora, o que foi? — Elize perguntou, percebendo que estava sendo observada — O que há com esses olhos?
Seus olhos verdes e impacientes se irritaram com o silêncio, soltando como um jato, um líquido verde-musgo e pastoso em direção à bruxa, que por pouco, devido a sua falta de atenção, se esquivou.
O líquido acertou uma árvore poucos metros atrás de nós, corroendo lentamente o tronco.
Noelle voltou aos seus sentidos, se curvando com os braços largados abaixo dos joelhos, transbordando mana ao ponto de fazer com que as marcas em seu corpo reaparecessem.
— Já disse, não tenho tempo pra ficar olhando pra sua cara feia!
O maior deles conjurou um portal pouco atrás das suas costas.
— É melhor você arranjar tempo! — nós três avançamos juntos.
— Heh! — Um sorriso maldoso surgiu no rosto de Oropazzo, rapidamente, congelando o tempo e nos paralisando.
Eu grunhia enraivecida, tentando me debater para me livrar de sua magia.
— Vocês… — parei ao ver o quão inútil estava sendo minhas tentativas — trabalham pro Ego, não é?
— E eu disser que sim?
— Não importa, foi muita coincidência.
— Não faço ideia do que está falando.
— Em Antares… no início, pensei que tinham aparecido para impedir que parássemos o rei, mas, na verdade, só precisavam de tempo para conseguir roubar o Enchiridion.
— Olha só, você pensa! — zombou com um sorriso arrogante — Se não tem mais nada pra falar, vamos embora!
Antes que a transmorfa caminhasse para dentro do portal, Noelle gritou brevemente, tendo sucesso em pará-la.
— A, o quê que há! A gente não tem tempo pra isso! — gritou.
— Como fez para reverter o feitiço? — perguntou com os olhos vislumbrando uma memória que a incomodava há muito tempo.
— Aperta o passo, Elize, não sei mais quanto tempo vou aguentar! — seu companheiro gemeu.
— Não pense que deixei de lado o que fez comigo — Elize virou-se de costas, olhando para minha amiga por cima dos ombros — saiba que a sua hora vai chegar.
Os membros da Túnica Negra atravessaram o portal que se fechou logo em seguida.
A paralisia temporal desapareceu imediatamente depois, nos derrubando no chão inconformados.
— Mas que merda! — Akira disparou aos céus.
— Isso foi… estranho — comentei ao levantar.
— Sim… — Noelle parecia profundamente desconfortável.
— Vocês estão bem?
— Eu tô legal.
— Também.
Voltamos para o acampamento no pé da montanha que havia virado nossa morada pelo último mês, e enquanto comíamos um grande, porém não tão saboroso, pedaço de carne, os últimos acontecimentos vieram a tona durante o silêncio.
— Pelo menos sabemos onde está o Enchiridion, não é? — tentei animar o clima melancolicamente quieto.
— Mais ou menos. Ego pode estar em qualquer lugar, lembra de como nos encontramos pela primeira vez.
— Pelo que me contaram do sujeito, não vai ser tão fácil encontrá-lo — meu amigo pontuou.
— Definitivamente. Mas temos uma vantagem enquanto ele ainda não consegue abrir o livro.
— Espero que sim… — disse Noelle, ainda com um olhar distante — se ele for capaz de todas as coisas que Galliard nos alertou, é só questão de tempo para que isso aconteça. Temos que ir atrás dele assim que possível.
— Passamos o último ano inteiro refinando a forma com que utilizamos a mana e as nossas habilidades — interviu Akira — do jeito que estamos, acha que conseguimos bater de frente com ele?
Eu parei por um momento e não pensei muito até abrir um sorriso de canto e dizer.
— Relaxa! A essa altura, nem esses monstros estão dando mais pro gasto — respondi com arrogância ao puxar um pouco da carne.
— Tá bem confiante pra quem tá em último… — provocou.
— Vocês dois conseguem espalhar poderzinho por tudo que é canto! Eu não tenho culpa se não tenho nenhum ataque em área! — gritei.
Alguns minutos gritando um com o outro, viramos para Noelle, que parecia estar em um mundo há trilhões de quilômetros, tentando chamar sua atenção.
— Noelle! — ambos rugimos.
— Ah! O quê? — perguntou levemente assustada.
— Ela nem tava ouvindo… — resmungou.
— É claro, já deve tá cansada de saber que EU vou terminar em primeiro.
— Melhor você deixar de ser tão arrogante antes que eu enfie esse bastão no meio do seu cu! — Akira erguia seu bastão aos céus como uma ameaça.
— Calma aí! — Noelle se intrometeu — Por quê vocês tão brigando, não tá óbvio que sou eu quem vai ganhar? — uma expressão de dúvida genuína surgiu em seu rosto, seguida de uma risada convencida.
— Você tem que parar de andar com essa garota… — meu tolo amigo resmungou, enquanto eu só conseguia segurar o riso.
No fim, no último dia do mês, Merlin nos encontrou em nosso acampamento durante a noite. Jörmungandr se enrolava pelos braços e pescoço do mago, enquanto o mesmo anunciava.
— Meus parabéns, vocês sobreviveram (mais do que eu esperava) — tossiu disfarçadamente.
— É, a gente sabe — Akira e eu resmungamos como um coral.
— E por que a cara feia?
— Eles estão assim porque perderam! — Noelle respondeu com um sorriso satisfatório e amigável.
— Perderam o que, exatamente?
— Só uma competiçãozinha boba!
— Se fosse uma “competiçãozinha boba” você não estaria com essa cara! — Akira com uma expressão carrancuda confrontou.
— Isso aí! — rabugenta, concordei.
— Bruxa má!
Entre outras e várias “ofensas”, resmungamos sozinhos enquanto Noelle e Merlin voltavam para dentro da barreira criada pelo mago. Mais tarde naquela noite, apesar da derrota não tão surpreendente, não conseguia dormir de jeito nenhum. Eu me levantei ao lado da fogueira apagada e decidi sair para uma breve caminhada pela floresta protegida.
Na beira de um rio, onde outrora já havia lavado meus pés com minha amiga há algum tempo, avistei Merlin sentado com suas pernas cruzadas, observando o fluxo do rio.
— Essa é a primeira vez que te vejo acordada nesse horário… — sem ao menos mexer sua cabeça, o mago comentou.
— É — eu coçava minha cabeça um pouco sonolenta — era pra eu já estar no sétimo sono…
— Algum problema?
— Só não tô conseguindo dormir — eu me sentei ao seu lado, cruzando as pernas assim como ele.
— Talvez seja por que sua mente está muito “caótica”? — brincou com um sorriso maroto.
— Essas piadas tão começando a perder a graça… — já havia perdido as contas de quantas vezes ouvi algo do tipo — mas não… na verdade, eu nem sei o que é.
— O Anzu não está te perturbando?
— Nem… ele é mais do tipo quieto, às vezes até esqueço que ele existe.
— Melhor tomar cuidado com isso.
Em silêncio, sem mais o que falar, apenas continuei observando a água corrente descendo o rio. Comecei a entender o porquê Merlin fazia o mesmo.
— Já que está com algum tempo, vou aproveitar para te perguntar…
Eu ergui minha cabeça, curiosa com o que perguntaria.
— Você treina todos os dias com um empenho admirável, nunca desistindo mesmo quando falha, mas… por quê? — perguntou, me olhando com o canto dos olhos.
Essa não era a primeira que questionaram as minhas motivações, também não foi a primeira vez que não tive uma resposta.
— Digo, você claramente não pertence a este lugar — meus olhos se arregalaram com sua declaração — não tem um lar, parentes ou lembranças… então… qual o motivo de enfrentar um inimigo tão poderoso?
Sua língua, por mais que afiada e um tanto venenosa, me confrontou com uma dura dose de verdade.
— Pra ser sincera, eu tento não pensar tanto nisso. Eu meio que fui jogada aqui sem nem ter tempo para respirar. Tanta coisa aconteceu e… nos poucos momentos que tive para pensar a respeito, eu ficava maluca. Tipo, fala sério! Eu ficava dias trancada dentro de casa lendo mangás e jogando e videogame, agora parece que eu tô presa em um!
— Presa? Então quer voltar para sua antiga vida?
— Não! — gritei, pensando em minha vida de alguns anos atrás — não, eu… só não sei o que tô fazendo. É como se eu estivesse só… — o rio a minha frente clareou meus pensamentos — seguindo o fluxo.
— Bom, eu não posso te ajudar a se livrar desse sentimento, mas… se vai mesmo continuar lutando — Merlin se levantou, deixando o rio para trás — vai ter que entender que uma guerreira como você, precisa de algo para se agarrar. Caso o contrário, toda a sua força será inútil.
Eu me mantive calada, apenas pensando nas falas do mago, enquanto o mesmo desaparecia floresta adentro.
Pela manhã, após conseguir dormir por apenas 10 minutos antes que o sol alcançasse o horizonte, Merlin batia uma concha de ferro em um caldeirão que estávamos usando para cozinhar durante os últimos meses, acordando a todos.
“Logo agora que peguei no sono…”
— Bom dia, Bom dia! — ele gritava com entusiasmo — Hoje é um dia muito especial, então bora levantar!
— Hum? O que foi? — Noelle, limpando seus olhos, perguntou.
— Vocês dois tem ambições bem grandes, por assim dizer — olhando para ambos meus amigos — Potenciais tão grandes que não são capazes de serem atingidos no seu estágio atual.
— Então vai ser mais uma parte do treinamento?
— Cara, você fala tanto desse tal potencial, mas eu sinceramente não faço ideia do que cê tá falando! — confrontou curioso.
— Acredito que vai entender quando chegar a hora, há muito mais para ver do que apenas a “Iluminação”.
— Só tô viajando por aí, da mesma forma que o meu pai, não sei o que demais tem nisso pra você.
— Hahaha! Espere e verá!
Cerca de uma hora depois, todos estavam prontos para partir. Merlin nos guiava pela Floresta de Sylvaturga, nos levando cada vez mais para dentro. À medida que nos aproximávamos do centro da floresta, a atmosfera se tornava cada vez mais densa e gelada, apresentando árvores secas e com troncos azulados.
Akira, Noelle e Eu olhamos um para o outro, acenando com a cabeça sutilmente. Nós cobrimos nossos corpos com uma camada de mana, as partículas elétricas e abrasadas aqueceram os corpos dos meus companheiros, quanto a mim, somente a agitação caótica da fina camada de mana sobre mim já era suficiente.
— Merlin — a bruxa o chamou, promovendo um sopro de ar frio com seus lábios — pra onde estamos indo?
Antes que o mago pudesse responder, uma intensa ventania gélida o interrompeu por um momento.
— O lugar que quero mostrar a vocês é extremamente restrito. A Jörmungandr tem uma restrição que a impede de abrir uma fenda para esse lugar caso não esteja em uma coordenada específica.
— Que coordenada é essa? — perguntei enquanto atravessava a nevasca.
— Aqui! — parando subitamente ao olhar para cima.
Nossos olhares também se voltaram para cima, abismados, encarando uma enorme criatura.
— Essa é…
Bem no centro da floresta, onde seria o seu “ponto zero”, uma imensa árvore era escondida atrás de uma grossa camada de névoa frígida. A árvore certamente possuía mais de cem metros de largura, e sem sombra de dúvidas, quilômetros de altura, o suficiente para que não fosse possível ver o seu fim.
As ramificações da árvore, também pareciam ser infinitas,
— A Yggdrasil! — Merlin interviu — Bom, não passa de uma representação física, mas devo dizer que é igualmente poderosa.
O mago rapidamente impôs seu cajado para frente, apontando para a base da Grande Árvore Divina.
— Surge quaeso, magnanime! 1
Suas palavras fizeram a terra estremecer, o pico nevado que destacava a árvore se erguia lentamente, derramando a neve ao seu redor. Pouco a pouco, quatro pilares surgiam abaixo da pequenina montanha.
— Aí está! — Merlin exclamou — Lady Sylvia.
— Como é? — eu me questionava espantada, pouco antes de avistar a cabeça de uma tartaruga a frente.
— Sylvia? — Noelle também parecia surpresa, mas por outro motivo.
— Lady Sylvia protege a materialização da Yggdrasil e a mantém viva ao circular a energia acumulada da Árvore Divina dentro de si.
— É tipo um coração?
— Por aí… mas não é por isso que viemos aqui.
De forma suave e paciente, Merlin pôs seu cajado a frente do seu rosto, o segurando na horizontal.
— Me sigam — disse ao se segurar ao cajado, que flutuava no ar, em direção ao centro do buraco que Sylvia se deitava.
Nós deslizamos pela cratera, chegando ao ponto principal dela.
— Sua vez, Yo — ordenou à serpente enrolada em seu pescoço.
A gigante serpente capaz de cobrir a terra, Jörmungandr. Sempre estranhei o seu pequeno tamanho comparado as lendas contadas em meu mundo. De qualquer forma, diferente de seu tamanho, seu poder não aparentava ter reduzido e ao receber a ordem do Mago Merlin, rasgou o espaço a sua frente com suas presas, criando uma fenda, uma rachadura no espaço.
A fenda emanava uma forte aura gloriosa, como um ar nobre e requintado.
— Vamos — o mago passou rapidamente pela rachadura.
Akira, Noelle e eu nos olhamos, aceitando seja lá qual, seja o seu convite. Nós o acompanhamos logo em seguida, nos deparando uma vista digna da aura emitida da fenda.
Um céu dourado repleto de nuvens, com raios de sol que as atravessavam delicadamente. Acima das nuvens, as utilizando como chão, diversas estruturas chamavam a atenção, com um material branco como quartzo e a maioria delas com detalhes azuis. Ao centro do que muitos chamariam de uma cidade celestial, uma fonte despejava água em torno de uma esfera perfeita, fonte essa, cercada por estátuas de ouro.
— Que lugar é esse? — Noelle perguntava, maravilhada.
— Esse é “O Jardim”.
- “Levante-se, por favor, magnânimo!” Em latim. Nesse contexto, “Magnânimo” deve ser referido como sábio[↩]

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