Capítulo 96 - Água Etérea
Ponto de Vista de Akira:
O tridente dourado do Leviatã. Uma arma que parecia ser capaz de partir o oceano ao meio. Ainda assim, frente a frente com aquela criatura abissal, eu sorria confiante, certo de que não restariam nem mesmo as sobras de suas escamas.
— RAAAAÁ — O Leviatã rugiu erguendo seu tridente, carregando uma carga poderosa de raios em toda a sua extensão.
Ao apontar o garfo dos mares para nós, eu girei meu bastão em torno de mim mesmo, criando uma torrente de chamas à nossa volta. Seus raios se dissiparam quando se encontraram com a torre fervente, mas isso não o impediu de continuar atacando.
— Dá pra sentir a presença mágica dele aumentando a cada ataque, até quando planeja ficar esperando? — Gwen resmungou.
De fato, o poder que emanava de seu tridente se intensificava cada vez mais, nós precisávamos agir rápido, antes que ele se tornasse poderoso demais.
— Eu vou dar suporte pra vocês dois, então só ataquem ele! — Condensando a torre de chamas em um pequeno tornado na palma da minha mão.
— O que tá fazendo? — a vampira disparou no momento em que ficamos vulneráveis, assim como Shosuke. Eles estavam prontos para atacar, mas ainda assim, a preocupação e choque em seus olhares eram nítidos.
— Tá tranquilo — erguendo a face da minha mão para os raios impetuosos do Leviatã — Foca no teu trabalho! — o pequeno furacão se transformou em um imenso vendaval índigo que engoliu os raios dourados.
As fagulhas azuis tomaram conta das minhas chamas, trazendo o mesmo tom frio para o fogo que me rodeava.
Era possível ver a surpresa nos olhos opacos da besta, o que lhe custou uma grande corte na sua cara escamosa. O espadachim recluso cravou sua espada na lateral do seu rosto, o fazendo agonizar de dor e a arrastou violentamente em um corte único, enquanto Gwen conjurava estacas de gelo que perfuravam sua calda e formavam uma escada para que ela pudesse subir em seu corpo.
Em fúria, o Leviatã desferiu um golpe descendente em um formato de lua com seu tridente, numa tentativa de varrer a vampira.
“KLINK!” Com um salto impulsionado, eu arremessei meu bastão em pleno ar, bloqueando seu golpe.
A trajetória perfeita da arma a trouxe de volta para minha mão, me permitindo ousar um ataque diretamente no seu estômago, conjurando as chamas azuis junto ao impacto.
Seu rugido de dor era como a canção de um bardo, me inspirava, me fortalecia e me instigava a avançar cada vez mais. Gwen continuava a escalar, chegando aos membros superiores da fera.
Os punhos dela se juntaram e se separaram rapidamente, e o gelo explodiu entre eles, formando um cabo áspero e maciço. O bastão se estendeu sem controle, congelando o ar a sua volta, tomando proporções anormais para uma arma ou ataque comum. Então, duas mãos monstruosas, feitas de gelo bruto, se fecharam em torno da arma. No topo, o gume se moldou em uma lâmina curva, irregular e letal, cuspindo fagulhas geladas a cada segundo que se expandia.
— MACHADO DE JOTÛNI! — A vampira esbravejou, girando seu machado de gelo contra as costas da fera escamosa.
O Leviatã resistiu, não deixando que o machado atravessasse seu corpo, apesar de seu corpo enfraquecido mal conseguir segurar o ataque.
Possuído pelo ódio, enfiou seu tridente no chão, erguendo pilares de raio aleatoriamente entre nós. O ar vibrava com tamanho poder, como se perturbasse a natureza ao nosso redor. Shosuke estava prestes a desferir um corte poderoso na criatura, até que um dos pilares surgiu abaixo dele.
— AAAAARG! — eu envolvi meus punhos em uma massiva quantidade de chamas, confrontando o pilar — Não confia em mim, seu cabeludo desgraçado? — resmunguei enquanto empurrava a corrente elétrica para baixo — Eu já disse, FOCA EM ATACAR!
Ainda no ar, Shosuke alterou sua postura defensiva, apontando sua espada para o Leviatã. Tentáculos sombrios investiram a partir do cabo da espada e perfuraram as suas escamas na região do pescoço. Os tentáculos se prenderam ao leviatã como se fossem ganchos e ao tentar puxá-los, o espadachim foi projetado em direção ao seu alvo com a espada imbuída em trevas.
Uma estocada perfeita, cravando a lâmina trincada fundo na carne da besta.
— Exibido…
— UAAAAA! — Gwen gritou enquanto caía após o balançar brusco do Leviatã.
Eu incendiei os meus pés e cavei o chão em uma intensa explosão que me impulsionou para cima. Os braços eufóricos da vampira foram fáceis de agarrar e agilmente, girei meu corpo como um peão flamejante, a arremessando de volta pra cima.
Seu corpo balançava desengonçadamente no ar, mas se adaptou em um piscar de olhos ao encarar a besta enfurecida preparando um ataque em sua garganta.
Metros acima da cabeça do Leviatã, Gwen não poupou esforços e conjurou um aríete colossal de gelo maciço. O Leviatã contraía os músculos da sua garganta e de alguma forma, abria suas escamas como se fossem pequenos compartimentos, liberando uma energia perturbadora, que gritava o seu título de guardião.
A vampira mergulhava com o aríete, gritando ao fazer um enorme esforço para empoderar ainda mais o seu ataque, mas o Leviatã, ao erguer sua boca e encarar o golpe, rugiu em uma explosão de raios.
Das suas escamas levemente abertas, fios azuis e o entornaram, se encontrando em um único ponto acima de sua boca. Aquilo era plasma puro, tão perfeito que se curvava como se obedecesse às ordens de um rei monstruoso.
A junção entre raios e plasma resultou no disparo de um feixe poderoso, que apesar de bruto em tamanho, atravessou o gelo condensado como se fosse papel. Por algum milagre, Gwen não foi atingida e eu consegui agarrá-la no ar, amortecendo sua queda.
Eu a segurava agachado no chão, verificando seu estado, mas acredito que a palidez em sua pele era normal.
— Quanto poder… — suas mãos tremiam, mergulhadas em uma rasa poça d’água.
— Ele pode estar fraco fisicamente, mas seu núcleo continua emanando uma pressão sufocante — Shosuke se aproximou, amarrando novamente as faixas que cobriam a espada trincada em seus braços.
— Huh? — confusa, Gwen levantou sua mão encharcada.
— O que foi? Pensou em alguma coisa? Ataques gigantes não vão mais funcionar! — eu soltei o seu ombro, a deixando sentada no chão.
— Você disse que está muito mais forte agora, não foi? — olhando diretamente para as chamas azuis, provocou.
— Com certeza!
— Então pare de bancar o suporte! — gritou, com certa determinação — Ataque com tudo que tem!
“Fzzzz!” o corpo do Leviatã voltava a carregar o seu disparo de plasma.
— Sabe que se ele acertar qualquer um desses ataques já era, não é? — me levantei rapidamente, sacando meu bastão novamente.
— Por isso eu preciso que o ataquem com tudo, ele não pode ter tempo nem pra se defender!
— E o que você vai fazer?
— Um contrato! — ela se levantou em seguida.
— Aaaah… — suspirei sem entender muito bem o que ela planejava, mas não me restava muito além de confiar — Ouviu ela?
— Uhum.
— Acha que consegue me acompanhar? — provoquei, olhando no fundo de seus olhos em uma distância segura.
— Não tenho dúvidas — eu quase pude ver um sorriso em seu rosto.
“PZIUUUUU!” O feixe azulado de plasma cortou o ar até nós.
O vento girou ao nosso redor, o impacto do plasma varreu a terra molhada para cima, mas ainda assim, eu permaneci de pé, com meu bastão impedindo que o feixe de plasma continuasse avançando.
— HAHA! E NÃO É QUE ESSE TRECO É RESISTENTE MESMO? — eu ri confiante, ao mesmo tempo que desacreditado.
— VOCÊ É IDIOTA? — Gwen berrou, pousando após seu salto desesperado.
— O maior de todos — o espadachim afirmou, segurando sua espada acima de uns destroços distantes dali.
“FWOOOSH” meu corpo acendeu em chamas azuis ainda mais esvoaçantes, cobrindo meus ombros e cintura como uma armadura.
Em um piscar de olhos, concentrei o fogo sob meus pés, e o mundo pareceu se contorcer em calor. O ar ao meu redor vibrou em ondas flamejantes, distorcendo a atmosfera acalorada. Lancei-me contra o Leviatã, girando o corpo em meio às chamas que se estendiam como um pequeno furacão em erupção. O impacto da minha voadora de dois pés ecoou como um trovão, e o colosso marinho recuou, marcado pelo rastro incandescente que deixei gravado em suas escamas.
Usando a estranha aderência de seu corpo, me impulsionei para cima antes que a criatura pudesse me acertar com suas garras e com toda a força guardada dentro de mim, golpeei seu crânio com o meu bastão.
Assim segui, me esquivando e atacando, tão irritante quanto um mosquito. Shosuke por sua vez, atingia seus pontos já feridos, focando seu braço já decepado.
De tempos em tempos, eu observava Gwen, com alguns símbolos a sua frente formados pelo seu sangue.
— AKIRA! — ela gritou — UM SEGUNDO! EU PRECISO QUE A GUARDA DELE ESTEJA ABERTA POR UM SEGUNDO!
— CERTO!
Em um choque repentino entre meus punhos, explodi uma onda de calor a minha volta. As chamas azuis se agitaram agressivamente, devorando meu corpo como se fosse uma besta. Eu desci em queda livre, mergulhando com os cotovelos levantados entre os dedos do Leviatã. O chão que meus pés tocaram no impacto se transformaram em rachaduras brilhantes que carregavam as chamas que escapavam de dentro de mim, retornando em seguida no momento em que concentrei perto do meu núcleo.
O resto do meu corpo estava relativamente frio, esquentando a medida que as chamas seguiam os meus braços estendidos para o céu. Assim como mariposas sendo atraídas pela luz, as labaredas eram atraídas até a palma da minha mão, dilatando o ar em uma dança com as fagulhas que as rodeavam.
— Tá vendo só? Viu como o fogo parece um espírito livre? — Meu mestre, Wukong, falou comigo em nossa arena, logo no início do nosso treinamento.
— É estranho, elas não estavam tão quentes ou intensas, mas ainda assim pareciam devastadoras — eu contestei, tentando replicar seu golpe.
— Sabe por que eu me tornei um deus?
— Na verdade… não.
— Liberdade — O Rei Macaco virou suas costas para mim, encarando o céu acima das nuvens no jardim — Ser um deus poderoso e imortal nunca foi sobre poder governar ou ganhar batalhas, tudo que eu queria era poder ser livre pra fazer o que eu quisesse. É por isso que em cada golpe, em cada ataque que dou, meu corpo e minha mente se unem para esse objetivo.
Naquele momento, eu comecei a entender o porquê aceitaram o chamar de “Grande Sábio Igual aos Céus”
— O seu desejo de libertar e de ser livre deve ser o seu combustível — Ele voltou-se para mim novamente, com sua cara de palhaço como sempre — Talvez assim você se torne alguém menos estúpido! HAHAHAHAHAH!
— ERUPÇÃO DAS CHAMAS LIVRES! — da palma da minha mão, uma cachoeira de fogo ascendeu aos céus, em um balançar inconstante, como se dançasse brutalmente sobre a criatura, torrando o torso do Leviatã.
— A água que corre por toda a ilha está infestada de uma energia etérea — Gwen falou um pouco antes, enquanto eu preparava meu ataque — até o fim desta batalha, eu abdico das habilidades da minha raça e da benção da conjuração elemental, e eu exijo a capacidade absoluta de manipular o elemento que me foi concebido.
A besta rugia com o ardor nas escamas em seu rosto, recuando lentamente em uma tentativa desesperada de apagar as chamas. O ar a nossa volta esfriava, apesar do meu golpe e a terra molhava no solo, secava rapidamente. Até mesmo o tempo parecia congelar, aquele segundo necessário, foi uma janela de tempo onde tudo parecia acontecer. Agulhas de gelo surgiam do chão, com um brilho interno carmesim, emanando uma energia vital serena, como a de alguém tratava a vida com leveza e que não se importaria de dar sua vida pela sua terra.
— Uma técnica que perfura e congela o alvo, sugando toda a energia vital contida na estátua petrificada. A revelação dessa técnica, através do um contrato, permite que ela se torne imparável…
De repente, com um único e violento corte, Shosuke empurrou o Leviatã novamente para frente.
— ACUS AETHERIAE! — Ecoando como um trovão, a atmosfera ao seu redor se partiu em estilhaços de granito. Centenas de agulhas voaram como projéteis disparados por um rifle, atravessando com facilidade a casca do Leviatã, em um impacto sútil.
Ele rugia, berrava e lutava pela sua vida, buscando inutilmente por alternativas. A pele do guardião, antes vibrante e reluzente, começava a perder a cor, tingindo-se de um tom morto e opaco. Seus movimentos, outrora violentos e indomáveis, se tornavam lentos, paralisados, enquanto o gelo avançava como um veneno divino, aprisionando sua carne e sua alma. Em questão de segundos, não restava apenas dor em seu rugido, mas também a agonia de um titã sendo devorado pela morte gelada.
O silêncio perturbador e incerto correu entre nós, até finalmente ser quebrado pelos passos da vampira.
— Eu admito, isso foi impressionante — comentei.
— Ele realmente parece que está morto.
— Bom — Gwen, majestosamente, desgrudou seu corpo do solo, deixando seu cabelo esvoaçante correr — Pra mim, isso é ótimo!
Ponto de Vista de Saki:
Noelle se movia como nunca havia visto antes, era difícil acompanhá-la, era difícil até mesmo vê-la. Ainda assim, eu conseguia, graças a minha absorção elemental, encaixando socos atrás de socos nas manoplas de Zethar, que suava ofegante em nossa batalha.
Sorun, distante de todos, controlava suas esferas irritantes pra lá e pra cá, em muitas vezes, ajudando Zethar a evitar nossos golpes. Eu via os seus olhos girando desenfreadamente, olhando para cima, para baixo, para os lados, para cada cristal ao seu redor, prevendo nossos movimentos, mas mesmo assim, mal conseguindo uma brecha para contra-atacar.
Para ser sincera, eu não conseguia pensar muito. Era como se tudo que eu estivesse fazendo fosse no modo automático, sem nem mesmo prestar atenção no que estava acontecendo, tudo que eu sabia era que naquele momento, com aquela mulher, tudo ficaria bem.
— SAKI! — com um olhar preciso, Noelle acenou para mim, transmitindo perfeitamente o que queria que eu fizesse.
Com uma pequena explosão de luz, Noelle criou dezenas, talvez milhares de pequenos brilhos espalhados pela caverna. A purpurina não era o suficiente para afetar nossa visão, mas era clara o bastante para notarmos com certa frequência. Uma sobrecarga de informações para quem estava tão atento aos detalhes.
— AAAAAAAAAH! — canalizando minha mana na região dos punhos, deslizei meu braço por cada uma de suas defesas, encaixando um puro soco de força bruta em sua barriga.
— GAH! — eu vi seus olhos atordoados por um breve momento antes de rolar pelo chão da caverna.
— ZETHAR! — Seu amigo correu, o ajudando a se reerguer.
— Quebre… o selo… — ele se levantava com certa de dificuldade, aproveitando o tempo para recuperar o fôlego.
— Mas desse jeito você vai morrer!
— O Mestre vai criar um mundo perfeito. Um mundo sem falsidade… onde a mentira não existe — Noelle e eu o escutávamos sem interrupções, caminhando lentamente em sua direção — Eu o sigo para que esse mundo seja criado… e essas duas aí… elas estão na lista de prioridades…
— Isso não importa agora! Morrer aqui não vai–
— Mesmo que eu não viva para ver esse mundo… isso não me importa — Zethar se levantou por completo — Eu confio de coração no Mestre, e isso é tudo! Vá e quebre o selo, Sorun! Aqui e agora, vamos decidir o futuro do mundo!

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