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    Ponto de Vista de Zethar:

    O cheiro da chuva sempre me trazia uma certa paz. Eu caminhava por uma estrada de  terra batida, logo atrás de Keno e meus dois amigos, Sorun e Medaline.

    — Esse lugar é muito longe? — Encharcado, perguntei.

    — Sinto muito por termos vindo a pé até aqui, mas preciso que entendam que era necessário — Keno seguia em frente, olhando para o topo de um pequeno aclive no fim da estrada.

    — Tem certeza que é uma boa ideia deixar o carro lá atrás? — minha amiga ponderava suas escolhas, sem saber se o que sentia era arrependimento ou curiosidade.

    Sorun, diferente de todos nós, tremia enquanto andava, e eu via, mais claro do que nunca, o seu medo. Esse sempre foi o seu jeito. Medroso, acanhado, sempre com um pé atrás para tudo.

    — Sorun — eu toquei seu ombro levemente — cê tá legal?

    Sua resposta foi a de sempre, “mais ou menos”. Era assim que ele respondia sempre que estava com medo de seguir em frente. Seu jeito deprimido poderia ser um saco para qualquer um, mas apesar de tudo, eu via nele um brilho diferente. Mesmo se escondendo e fugindo do mundo, dentro dele, ainda havia alguém que queria ser mais forte, que queria se sentir útil.

    — Com vocês, acredito que esse lugar enfim vai se tornar o que tanto desejo — o homem pôs seus pés no pico do aclive, se inclinando para o abismo — Contemplem, Gamma — pousando sua mão sobre a atmosfera, como se fosse uma parede invisível, ele olhou para nós e mesmo que sem expressão, eu o vi sorrindo.

    O espaço à nossa frente explodiu, estilhaçando em fragmentos translúcidos e revelando uma espécie de mansão, um casarão que se erguia como um quadro em branco. Mesmo que do lado de fora, era possível ver que sua estrutura comportava diversos quartos e outros cômodos, uma casa imensa, com arestas pontiagudas e linhas curvas em sua estrutura, trazendo um estilo elegante e fluido. O portão de ferro, também branco, que protegia o jardim, se abria como um convite, pedindo por artistas que poderiam pintar o quadro.

    — IRADO! — eu gritei ansioso, curioso, empolgado para entrar naquela mansão.

    — É enorme! Você vive sozinho em um lugar como esse? — Medaline, tão chocada quanto eu, questionou.

    — Não! — respondeu com um sorriso — Vocês eram as últimas peças necessárias para salvar o mundo. Os outros estão à sua espera.

    — As últimas? — indaguei com certo desânimo.

    — Não se abale por minhas palavras. O papel de vocês em meu plano é tão fundamental quanto os outros. Todos vocês têm o desejo e o poder de transformar o mundo no que quiserem. Eu confio no desejo de vocês e espero que confiem no meu.

    Ouvindo suas palavras, eu não pude mais conter a minha empolgação.

    — Um mundo sem mentiras, sem máscaras. Esse é o mundo que eu desejo — em um impulso carregado pela emoção, eu me curvei de joelhos diante ao seu rosto apagado — E eu confio esse desejo a você, mestre!

    — Entendi… — ele deu com um sorriso alegre e singelo, como se pedisse para eu levantar minha cabeça — Então vamos dar as boas-vindas a vocês! Pintem esse quadro com seus desejos e eu lhes darei o mundo que tanto sonham!

    Há quase 10 anos, eu confiei o meu desejo e a minha vida ao Mestre. 

    Hoje, não importa se eu vou viver ou morrer, eu sei que meus desejos se tornarão reais. Mesmo assim, eu ainda não posso cair. Cumprir a minha missão, para que os meus desejos e os desejos deles se tornem reais.

    “Mas porquê? Porquê elas continuam avançando?” Eu me questionava desesperadamente, bloqueando os poucos golpes que conseguia.

    “SLAP!” Em um flash incrivelmente rápido, senti uma dor avassaladora em meus ouvidos, seguida de um zumbido eterno e abafado.

    Ao tocar meus pés no chão, senti como se mundo estivesse caindo, girando mil vezes antes de sentir o chão novamente. Era estranho, ambas avançavam e eu podia as ver claramente, mas ainda assim, meu corpo bambeava e abria a minha guarda para todo tipo de golpe.

    Quando finalmente fui capaz de me situar na batalha, com meu corpo se contorcendo com a dor dos golpes e meus olhos encharcados pelo meu próprio sangue, uma luz poderosa calmamente pousou em meu peito.

    Ela era quente e aconchegante, mas, ao mesmo tempo, não me trazia outra sensação além do medo. Era como se eu voasse em cima de um pássaro que migrava para um novo destino da sua vida.

    O brilho sumiu de repente, abandonando a sua gloriosa luz divina. Eu não sentia mais o meu corpo, apenas uma dor destruidora que corria por cada centímetro dele. Tudo estava escuro e frio, isso era o medo?

    Foda-se!

    Eu não podia me deixar abalar, eu tinha que me levantar. Minha voz falhava ao tentar chamar pelo meu amigo, meus olhos não conseguiam mais ver a sua verdade e sinceramente, eu não sabia se aquilo me deixava aflito ou aliviado.

    Apesar de não senti-lo, me perguntava se meu corpo respondia aos meus comandos. Eu consegui me levantar? Onde ele estava? Onde o encontro? Cadê? Cadê ele?

    Ele queria ser forte, eu sabia disso. Eu preciso ajudar ele, é o desejo dele. Onde estava meu amigo? Como eu iria ajudá-lo assim?

    — Ei… Sorun… você ainda está aí?

    Ponto de Vista de Saki:

    Sem tempo para verificar o corpo morto de Zethar, Noelle, com a aura brilhante que nossos corpos emanavam, e eu disparamos em direção a fonte de luz índigo que iluminava suavemente a caverna. Os passos apressados de Sorun ecoavam pela caverna, tentando desesperadamente alcançar um pilar robusto de pedra e mana.

    — O quê! — os olhos chorosos e espantados dele se viraram assim que notou nossa presença — Zethar…

    Sorun desfez sua armadura, a transformando em um dezenas de partições automatas. Cada peça voou ao nosso encontro, como balas de um lança-foguetes. Com uma espécie de sensor de aproximação, as peças explodiram no momento em que nos alcançaram em um raio de 1 metro.

    Uma densa fumaça tomou conta de uma boa parte do ambiente, mas para mim, aquilo não significava nada.

    Eu olhei para o lado rapidamente, verificando como Noelle reagia aos efeitos da fumaça, mas apenas o brilho em suas faixas oscilava, me causando certa curiosidade.

    — SAKI! — a voz de Anzu estalou como um chicote em meus ouvidos — ACABE COM ISSO AGORA!

    Trazendo minha atenção de volta ao objetivo, cerrei meus olhos cortando a fumaça.

    — Não! — Sorun chorou — Zethar! Cadê você? ZETHAR! — seus berros falhados ecoavam por toda a caverna.

    Era doloroso. Meus punhos latejavam manchados de sangue, a adrenalina fazia meu corpo inteiro tremer, enquanto no chão, havia mais um corpo morto.

    Seu pescoço torcido e mandíbula deslocada me dava uma ânsia tremenda, eu mal conseguia me manter de pé enquanto aquilo permeava minha mente.

    De repente, minhas mãos frias e apáticas sentiram enfim um calor acolhedor. Mãos pálidas as seguravam, como se estivessem me abraçando, dizendo que tudo ficaria bem. Eu não sabia se tinha coragem pra olhar para cima, mas ainda assim o fiz e acredito ter sido a melhor decisão que fiz em minha vida, porque foi ali que eu a encontrei.

    Seus longos cabelos brancos eram como as cortinas dos palácios do jardim, escondendo parcialmente seus olhos de volta ao tom azul-celeste que eu tanto amava. Meu coração palpitava em frenesi no momento em que nossos olhares perdidos se encontraram por acaso e quase pulou pela boca, quando percebi que podia tocá-la. Ela não era uma ilusão da minha mente em estado de negação, ela estava ali, viva.

    As faixas brancas desapareceram do seu corpo e seu cabelo voltou ao tom prateado habitual. Eu não sabia o que falar, apesar das minhas mãos já não tremerem mais. Meu corpo se mexia por impulso, erguendo minhas mãos ao seu rosto em lágrimas sutis, tocando seu cabelo com delicadeza e cuidado, e trazendo, em silêncio, sua testa de encontro a minha.

    — Me desculpa… — Noelle segurou os meus braços, tentando conter seu choro — Me desculpa, me desculpa, me desculpa!

    Tentei me manter forte, mas o rio de lágrimas em meu rosto denunciava a minha falha.

    Eu a envolvi em meus braços e ela se agarrou rapidamente em minha cintura, apertando com força, em um abraço de culpa, alívio e amor.

    Nós nos afastamos lentamente, mesmo com nossos corpos sendo puxados como ímãs.

    — Você tá viva… — minha voz falhou ao relaxar, ainda com dificuldades de acreditar na realidade.

    Minhas mãos vagavam pelo seu rosto, segurando firmemente em sua bochecha e quando menos percebi, eu a puxei.

    Nossos lábios trêmulos e ansiosos se acalmaram ao tocar. Meu corpo se aquecia rapidamente, em um misto de desejo e realização, e como todos dizem, borboletas voaram pelo meu estômago desenfreadamente. Eu poderia morar naquele beijo.

    Infelizmente, nos afastamos novamente, em um respiro e olhares de “quero mais”.

    — Isso…

    “BROOOM” a terra estremeceu logo NAQUELE momento.

    — O que foi isso? — Os olhos acolhedores de Noelle voltaram ao foco, mudando sua expressão rapidamente.

    “Merda!” Eu resmungava enquanto corríamos em direção à luz azul.

    O brilho do pilar de água que protegia a ilha oscilava como um sinal de que estava fraquejando, ao mesmo tempo que sua estrutura se desfazia rapidamente.

    — O que tá acontecendo? — perguntei confusa, afinal, impedimos que Sorun fizesse seja lá o que fosse — essa é a base do pilar? Vish… sobrou só o bigode — eu suspirei aflita, vendo apenas o bigode característico de Sig flutuando na água.

    — Ele desfez o selo! Mas quando? — Noelle revisitava os últimos minutos da batalha, tentando entender como ele o fez.

    — Era tudo um blefe — Anzu quebrou seu silêncio.

    — Sim… Parece que Sorun já havia desfeito o selo e só continuou correndo para impedir que conseguíssemos restaurá-lo.

    — Não da pra restaurar?

    — O selo já desapareceu, daria pra criar um novo, mas não temos tempo!

    — E o que a gente faz? — gritei ansiosa.

    — A gente morre — Anzu, um poço de otimismo.

    — Não! Não consigo sentir a mana de Sorun ou Zethar. Se assumirmos que estão mortos, isso significa que as correntes irão desaparecer.

    — E então a ilha vai emergir de novo! — a completei.

    — COF! COF! COF! — Noelle caiu repentinamente, em uma tosse estranhamente grave.

    — NOELLE! — eu corri para a socorrer.

    — Espera! — ela me parou com a palma da mão — Eu tô bem!

    — Mas…

    — Eu perdi muita mana, nada de mais — disse ela claramente derrotada no chão — Por isso, a gente precisa que você faça isso.

    — Tsc! Fazer o quê?

    — Infunda mana ao pilar. Não vai consertar as coisas, mas se as correntes desaparecerem, vai ganhar tempo pra ilha subir e não ser devastada pelo mar.

    — Beleza! — Sem tempo a perder, voltei para o pilar.

    Pondo minhas mãos sobre a base e comecei a infundir mana assim como faço com a minha foice. As falhas em sua estrutura rapidamente pararam de aparecer e o tremor bruto sob a ilha suavizou.

    — Acho que funcionou! E ago—

    — COF! COF! COF! — Noelle tossiu de uma forma ainda mais agressiva, mal conseguindo se manter de pé.

    Me doía a ver daquela forma, mas o que eu poderia fazer? Deixar toda a ilha ser inundada?

    — Concentração, Saki! — o demônio puxou minha orelha.

    “BROOOOM!” Tudo se estremeceu novamente, abalando meu equilíbrio por um instante.

    Eu sentia como se meu corpo estivesse sendo empurrado para baixo enquanto parte da caverna desmoronava com a agitação que abria buracos acima de nós. A pressão esmagava minhas costas a cada segundo, segundos esses que mais se pareciam horas.

    — GAH! — em um gemido aliviado, a pressão no meu corpo desapareceu.

    Com as costas no chão, meus pulmões buscavam oxigênio desesperadamente, uma luz forte nos alcançava dentro da caverna, mas eu ainda não conseguia dizer com clareza se estava tudo acabado.

    — Noelle! — eu me levantei rapidamente, indo até a minha amiga caída no chão.

    — Conseguimos? — ela tentou se levantar, mesmo com seu corpo fraco.

    — Parece que sim — respondi a colocando sobre meus ombros, apesar da dor.

    Procuramos uma saída pelos arredores, mas apenas os buracos no teto pareciam dar em algum lugar.

    — SAKI! NOELLE! — De repente, escutei a voz do nosso salvador.

    — AKIRA? AQUI EMBAIXO!

    — Nossa… — ele apareceu com seu rosto escondido na sombra, mas eu sabia exatamente a expressão que estava fazendo — Vocês tão acabadas.

    — Cala a boca e ajuda aqui, vai.

    — Como é que você espera que eu traga as duas pra cá?

    — Me poupe, não seja idiota! — fria como sempre, a voz de Gwen estalou em seu ouvido.

    Sem perder tempo, a vampira desceu até nós, criando uma rampa de gelo no caminho. Akira chegou em seguida com seus pés em chamas.

    — O que aconteceu aqui? — perguntou preocupado, olhando para Noelle quase desacordada.

    — Cuida dela primeiro, a mana dela tá esgotada.

    — A fumaça daquele cara… — Noelle pontuou com uma voz sofrida — depois que passamos por ela, minha mana começou a cair drasticamente.

    — Deixa isso pra depois, você precisa poupar energia.

    — Como é que você não tá assim? — Gwen me encarava com um olhar suspeito, como se me culpasse por algo.

    — Isso não importa agora — Anzu se intrometeu.

    — Se eu soubesse, já teria contado — olhando para a rampa de gelo, algo muito curioso me veio a mente — Mas agora me diga aí, como é que você espera que a gente suba com isso?

    — É…

    — Vai fazer uma escada não é?

    — É…

    — Não é?

    Seu rosto ficava vermelho, mais vermelho que o habitual, talvez pela soma entre a vergonha e a raiva.

    — Se depender da precisão dessa aí, a gente não vai pra lugar algum — em um tom sarcástico, meu amigo colocava Noelle em suas costas e incendiava seus pés.

    Ao vê-los partir rapidamente, eu olhei para a vampira, sabendo que ela iria detestar fazer aquilo, porém, mesmo com um enorme desgosto, fez. Agora, vendo além de buracos no teto, consegui enfim ver a luz do sol perfurando as nuvens no céu dourado.

    — Olha só, tá todo mundo vivo! — brinquei ao encontrar Shosuke sentado nas ruínas, felizmente ao lado da minha mochila.

    — Que bom que estão bem.

    — E onde estão os outros dois? Eles conseguiram, não foi?

    — Provavelmente, mas ainda não achamos eles.

    — Vocês não vão encontrar mais ninguém! — uma voz desconhecida por todos acertou o chão, criando uma cortina de poeira.

    Cortando a poeira com sua lança, um homem alto e musculoso se apresentou. Seu cabelo azul e espetado me lembrava o cavaleiro dourado do jardim e com sua armadura em um tom azul-oceano e linhas e adornos prateados, ele transmitia uma aura poderosa, assegurando sua pressão no ambiente ao redor.

    — Sua era de caos acaba aqui, Demônio Púrpura!

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