Capítulo 99 - Soberanos
Ponto de Vista de Saki:
Após horas navegando no calmo e assustador mar aberto, finalmente atracamos em terra firme e eu pude agradecer aos céus por estar viva e fora daquele maldito pesadelo.
Descemos do barco em uma pequena costa escondida atrás de uma muralha de pilares hexagonais de pedra, onde, do nosso lado, estava repleto de árvores espessas, como se protegessem a trilha de terra no meio delas.
— Bem, marujos, acho que vamos seguir por caminhos diferentes a partir daqui! — Vysage, o capitão bebum desceu do seu barco.
— Muito obrigado pela carona! — eu me recompus rapidamente e me virei para ele com um sorriso aliviado.
— Se precisarem de mim, perguntem por aí! — ele riu com sua voz rasgada.
— Pretendo continuar trabalhando com uma criminosa? — brinquei ao estender a minha mão para ele, esperando firmar uma aliança.
— Não conheço nenhum mal-elemento que se culpa tanto depois de matar um homem! — o pirata apertou minha mão — Se você for uma criminosa, é a pior delas!
— Não sei se ser a pior é bom ou ruim! Mas é bom saber que posso contar com sua força algum dia!
— ZAHAHAHAHA! Vão na sombra, marujos!
Akira, Noelle, Shosuke, Gwen e eu estávamos prontos para adentrar a floresta, andando em sua direção enquanto nos despedimos.
— Se cuidem! — Karayan disse, acendendo um cigarro.
Nós trilhamos o caminho de terra, confiando nas habilidades geográficas de Akira. Apesar das árvores projetarem sombras enormes em nosso percurso, o calor era levado embora pela brisa suave, e eu me perguntava como o sol escaldante não nos derretia ali.
— Aliás, Gwen… — quando me virei para a vampira, uma aura gélida pairava ao seu redor, respondendo meu questionamento — O que tá indo fazer em Antares?
— Verdade, você já tava no barco quando a gente chegou — meu amigo pontuou.
— Depois do fracasso de vocês em Nebuloria, eu voltei a procurar pelo Etheris na região — respondeu estranhamente calma — e há algumas semanas, um mago me contou que tem um cara em Antares que consegue rastrear livros mágicos.
Akira arqueou a sobrancelha por um momento, como se soubesse do que ela estava falando, mas não deu muita importância.
Seguimos nossa jornada normalmente por horas até passarmos por uma planície bela e limpa perto da floresta, um lugar perfeito para passarmos a noite. Passamos cerca de três dias caminhando em direção a capital, encontrando pequenas cidades e vilarejos que aproveitamos pra comer algumas refeições decentes e confirmar o nosso caminho.
Na trilha final, pude enxergar ao longe, uma enorme torre flutuante no centro da cidade, um projeto que eu mesma achei estar abandonado.
— Puta merda…
— O que é aquilo? — os olhos de Noelle grudavam na torre.
— É a torre dos soberanos, isso é péssimo pra gente — eu esfregava meu rosto desanimado, tentando encontrar um mundo onde poderíamos continuar com a nossa estratégia — eu tava torcendo pra não ter que lidar com nenhum deles, mas isso acaba com nossas chances de evitá-los.
— Se me lembro bem, aquele soberano citou uma torre — Gwen comentou.
— Pois é, eu deveria ter me ligado! — na minha mente, eu desferi vários golpes no meu próprio rosto — de qualquer forma, ainda tem alguém que está disposto a conversar, essa é a nossa única vantagem.
— E se der errado?
— Pegamos a coroa a força e fazemos tudo voltar ao normal — minha namo- minha amiga respondeu prontamente.
— Tem algo errado nisso aí, como que a gente vai pegar a coroa? — Akira confrontou — Frost pode ter simplesmente escondido ela, sem contar que existe a possibilidade dele nem aparecer!
— Por isso vamos forçá-lo a aparecer — eu choquei os meus punhos, empolgada para pôr o plano em prática — Frost é o rei, mas antes ele era como uma espécie de super astro. Além de ser o primeiro na classificação, seu carisma fez com que ele tivesse vários fãs e se Ego quiser manter a sua posição, ele vai precisar jogar essa carta.
— Além disso, a coroa foi feita para estar sempre com o rei e apenas ele tem acesso — Noelle completou.
— Então vamos ter que derrotá-lo e forçá-lo a usar a coroa?
— Qualquer um pode usar a coroa desde que a toque, então só precisamos que ele nos mostre uma vez. Se eu conseguir romper o controle mental do Ego por um tempo, podemos conseguir.
— Mesmo sendo um soberano, devemos conseguir se lutarmos juntos.
— Nisso você tá certa — disse com um sorriso orgulhoso — um soberano não vai ser nada! — Talvez, a minha percepção da realidade estivesse completamente alterada.
Com nossas ideias esclarecidas, continuamos a caminhar e pouco após o nascer do sol no último dia, chegamos em Antares, dessa vez, pela porta da frente e com um plano.
A muralha impenetrável continuava a mesma, comum, o problema era sempre depois.
— Tá pronta? — Anzu perguntou.
— Tô!
Noelle e Akira tomaram a frente, caminhando na minha frente enquanto Shosuke e Gwen acompanhavam atrás de mim. No meio deles, eu parecia uma mera prisioneira prestes entregar minha cabeça como prêmio, exatamente como queríamos.
“BLAM!” Dois guardas ao lado do enorme portão de aço maciço bateram suas lanças pontiagudas no chão.
— Parados aí! — ao apontarem as pontas de cristal mágico em nossa direção, comecei a liberar a minha mana pouco a pouco, exercendo uma leve pressão em seus corpos — Não… Não se aproximem!
Seus joelhos tremiam, mas mesmo assim, eles não largavam o seu dever.
— Trouxemos a criminosa procurada, Saki, o demônio púrpura — Akira engrossou sua voz, numa tentativa ridícula de passar imponência.
— O-O quê! — eles caíram de medo, o que me fez perguntar se o que estava na mente deles era tão horrível assim.
Aumentando um pouco mais a liberação de mana, fiz com que minha assinatura mágica ultrapassasse um além dos limites da muralha, ativando um alarme de emergência na cidade inteira.
“ASSINATURA DE MANA HOSTIL DETECTADA! RECONHECIDO COMO DEMÔNIO PÚRPURA! ATIVANDO PROTOCOLO WINCHESTER!” Luzes vermelhas piscavam freneticamente em plena luz do dia, a muralha foi revestida por uma camada imensa de aço, enquanto centenas de soldados caíam do céu ao nosso redor, prontos para acabar com a nossa raça. Armas e lâminas estavam apontados para mim, todos a um passo de me matarem.
Eu não imaginava todo esse alarde, mas meu coração se mantinha calmo, afinal, tudo ainda ocorria como planejado.
Em meio ao som dos passos corridos das armaduras ao nosso redor, uma voz familiar gritou.
— SAKI NAKAMURA! VOCÊ ESTÁ PRESA! — Guldaf vestindo uma armadura prateada, apontou sua espada para mim.
— Bom te ver de novo, Guldaf — brinquei em um tom irônico.
— Sempre soube que não podia confiar em você! Seu demônio! Como ousa usar a filha da bruxa celestial para entrar em nossa cidade!
— Dá pra parar de lenga-lenga e me prender logo? A sua voz me irrita!
Dava para ouvir a sua pressão subir enquanto seu rosto se enfurecia.
— LEVEM ELA! — ele rugiu.
Brutalmente, os soldados ao redor se juntaram para me prender, me segurando como se eu fosse uma espécie de besta mágica, mas apesar da sua valentia, eu ainda sentia suas mãos e pernas tremendo.
— Aí, relaxa! Eu tô me entregando!
— Calada! — um deles acertou uma coronhada no meu queixo, tornando meu trabalho de ficar quieta um pouco mais difícil.
Eu via os punhos de Noelle cerrados enquanto tudo acontecia, o que me apertava o coração, mas sabia que era necessário.
— Levem os outros para a sala de investigação, ainda não sabemos se estão sendo controlados por ela!
Caminhei pacificamente pelas ruas desertas de Antares, casa passo trazia terror para as pessoas ao redor, mesmo protegidas por escudos e armadura dos soldados abrindo caminho.
As algemas em meus pulos impediam o fluxo de mana no meu corpo, filtrando apenas o necessário para me manter viva.
Em poucos minutos, eu já estava trancafiada em uma sala escura, acorrentada por correntes especiais para impedir o uso da mana ligadas às grades, me deixando completamente imóvel e de joelhos no chão.
— É sério? Ninguém recebia esse tipo de tratamento quando eu trabalhava aqui — disse com a cabeça baixa, evitando a luz forte jogada em cima de mim.
— Se não fosse pelo soberano Drisco você já estaria morta! — Guldaf berrava no meu ouvido — Agora cale a boca e responda às perguntas!
— É pra calar a boca ou não?
— Primeiro de tudo, usou a bruxa celestial para se infiltrar no exército antariano, como fez isso? Como controlou sua mente?
— Não sei… acho que foi o meu charme…
— Não me venha com piadinhas, sua miserável! Entende o que está acontecendo aqui? Por que fez tudo isso? Por que matou milhões de pessoas a troco de nada? — ele cuspia em mim enquanto gritava e eu só pensava em como aquilo era nojento.
— Cuspir em mim não vai te dar as respostas que precisa!
— Frost confiou em você por dois anos, todos confiaram! Por que nos traiu?
— Eu quero meu advogado.
— ADVOGADO? NÃO ESTÁ EM CONDIÇÕES DE PEDIR NADA! Você é uma criminosa da pior espécie e está detida como prisioneira na mais segura penitenciária do continente!
— Prisioneira? — levantei minha cabeça, olhando no fundo dos seus olhos — Eu não sou prisioneira! Sou só uma distração! — com meus olhos brilhando em um tom violeta, comecei a forçar as correntes e algemas que me selavam.
— Você não é nada! — sua fúria logo cessou no momento em que as algemas trincaram.
O rosto de Guldaf era impagável ao ver que suas algemas não eram nada para mim. Enfim, estava na hora de dar uma razão para me chamarem de demônio.
Ponto de Vista de Noelle:
Enquanto Saki era levada para a prisão, Akira, Shosuke, Gwen e eu fomos levados para a base militar da cidade, um lugar onde Saki passava boa parte do seu tempo quando moramos em Antares.
Apesar de não terem nos algemados, as autoridades claramente não confiavam na gente e mantinham suas armas apontadas para nós durante todo o caminho. Dentro da base, em um pequeno cômodo com ferramentas mágicas de ponta, um homem, aparentemente um general, nos olhava de pé, como se procurasse respostas no fundo dos nossos olhos.
O General vestia uma armadura prateada, assim como a de Guldaf, e portava algumas medalhas em um cinto de aço, tentando esbanjar suas conquistas. Seus olhos eram castanhos e furiosos, assim como seu cabelo espetado apenas na lateral da cabeça e seu bigode fino.
— É melhor ela se apressar — Akira cochichou no meu ouvido — esse cara ta me deixando desconfortável.
— O sinal deve vir a qualquer momento… — o respondi, falando baixinho.
— O que estão conversando aí? — ele interrompeu bravamente — não dei autorização para abrirem a boca!
— Foi mal! Foi mal!
— Pois bem! — o general começou a andar de um lado para o outro, ainda com os olhos grudados em nós — As suspeitas a cerca de vocês são fortes–
“WHOOOOOOOOOOOOOOOOAM” uma sirene ensurdecedora tocou.
— ATENÇÃO A TODAS AS UNIDADES! A PRISIONEIRA SAKI NAKAMURA ESCAPOU! REPITO, SAKI NAKAMURA ESCAPOU! SOLICITANDO REFORÇOS NA PENITENCIÁRIA WELT! CERCA DE 20 OFICIAIS FORAM FERIDOS EM MENOS DE 1 MINUTO! AUTORIZAÇÃO PARA ATIRAR CONCEDIDA! AUTORIZAÇÃO PARA ELIMINAR O ALVO CONCEDIDA! — Gritou em um alto-falante próximo.
— Merda! — descuidadamente, o general virou suas costas e correu para a ação, nos deixando completamente livres.
— Esse era o sinal? — Gwen perguntou — Que escandaloso…
— É a nossa deixa! — disse, pondo a mão na bolsa na minha cintura — Shosuke, Gwen! Levem isso com vocês!
Antes de deixar o local, entreguei um papel dobrado para a vampira, dando-lhe uma grande responsabilidade.
— Vambora! — me acompanhando, Akira partiu ao meu lado.
Saímos da base em segundos. Akira escalou um dos postes na rua em busca de um maior alcance de visão em busca da Saki. Acredito que aquilo nem mesmo necessário, afinal, os gritos e disparos da batalha podiam ser escutados de longe.
Carros fortes atravessavam as ruas perigosamente, carregando o máximo de soldados possíveis. Pareciam que eles estavam lutando contra o próprio diabo.
— Ela tá ali! — apontando para frente, a muitos prédios e casas de distância — Tem muita gente nessa confusão…
— Tem certeza que não quer ir com eles? — perguntei, sabendo da preocupação que meu amigo tinha com a outra parte do nosso plano.
— Tenho! — respondeu sem tirar os olhos da confusão na cidade — Acha que isso vai ser o suficiente pra ele aparecer?
— Espero que sim! — eu me preparei para correr, deixando os raios fluírem através da minha carne e ossos.
Rapidamente, disparamos em direção ao demônio púrpura. Não demorou muito até chegarmos, e Saki, que já estava lutando próxima à torre, moveu-se pelo campo de batalha até nós.
— Sabe, me incomoda muito o fato deles terem carros a vontade e mesmo assim levarem a gente a pé… — meu amigo fez uma reclamação até que bem valida.
— Tá reclamando de barriga cheia, ein… — Saki o lembrou do tratamento que ela recebeu.
— Acha que seu plano vai funcionar? — perguntei, questionando a qualidade dessa estratégia.
— É bom funcionar…
Ponto de Vista de Drisco:
O último andar da torre dos soberanos, um lugar onde a minha posição e lealdade ao reino de Antares estava em jogo. Todos os demais soberanos estavam reunidos naquele dia, um evento raro, assistindo toda a situação através de uma tela holográfica, logo quando eu decidi confiar em uma criminosa.
— É melhor ter uma boa explicação pra isso, Drisco! — Rosa, impacientemente, gritava com suas veias quase saltando da cabeça.
Ela vestia sua armadura esverdeada, misturada com plantas e vinhas, se segurando na cadeira para não sair antes que eu permitisse.
— Sempre confiamos em você e em seu julgamento, meu amigo, mas a cada segundo fica mais difícil de te escutar — meu amigo, Spiegel, comentou
Spiegel se mantinha ao lado da porta, tão impaciente quanto os outros, apenas esperando a ordem.
— Já chega! — nosso líder heroico desligou a transmissão, quebrando o botão sobre a mesa.
— Sinto muito por isso, Sincora — até mesmo eu havia perdido a paciência e estava pronto para ouvir seu comando.
Sincora, o símbolo do heroísmo. Mesmo com a armadura pesada fazendo força sobre seus ombros, ele sempre mantinha uma postura ereta com o peito estufado e a cabeça erguida.
Suas tranças azuis caíam sobre seu peitoral e seus olhos alaranjados destacavam a sua pele morena. Suas ombreiras eram cobertas por um manto de plumas brancas, transmitindo uma presença nobre e heroica, e como sempre, inspiradora.
— Drisco, sei que tem uma razão para pedir isso — ele pôs sua mão pesada sobre meu ombro, que apesar de tudo, era suave e gentil — mas não posso permitir que isso continue!
— Entendo perfeitamente, senhor! Devemos ir!
No mesmo segundo em que Sincora concordou com a cabeça, todos os 10 soberanos explodimos as paredes e janelas do andar, descendo em uma queda livre até o confronto.
“BLAM!” Um estrondo correu pela cidade com o pouso perfeito de cada soberano.
— DEMÔNIO PÚRPURA! A SUA ERA DE CAOS ACABA AQUI! — com sua capa esvoaçante, correndo graciosamente com o vento, Sincora anunciou — ENTREGUE-SE OU MORRA!
— Merda… — a criminosa e seus capangas cessaram a batalha imediatamente — Ele não tá aqui!
Eu observava a chacina, olhando os corpos no chão. Minha fúria crescia a cada metro que meus olhos enxergavam, mas ao prestar um pouco mais de atenção, me acalmei em um estranho sentimento de alívio.
Todos estavam vivos, machucados, porém vivos. Não havia cheiro de sangue, apenas da pólvora utilizada pelo nosso exército.
— Sincora, espe–
— Temos um belo show aqui, senhoras e senhores! — um frio tomou minha espinha de repente, e eu sabia exatamente o porquê.
Todo o exército antariano se ajoelhou respeitosamente, curvando sua cabeça e cravando seus punhos cerrados no chão. Nós não fomos diferentes, afinal, o rei gélido é respeitado por cada alma daquela cidade.

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