Índice de Capítulo

    — Mas que piada ruim! — Essa foi a voz embargada de Tâmara, carregada de ira e ímpeto, porém entalada na garganta, devido a falta de forças da garota. Suas pernas, trêmulas, mal podiam sustentar o peso do corpo. — Acha que vai conseguir quebrar o Renato assim? Não vai!

    Morte direcionou para a garota um olhar curioso.

    Tâmara deu um passo adiante, com dificuldade, e continuou.

    — Não faz ideia do tipo de coisa que ele já suportou! Nem eu aguentaria aquele inferno! Você é só mais um, dentre uma longa sequência de ratos, que o Renato vai abater!

    Mical estava ao lado dela, usando seu poder para tentar curar totalmente os ferimentos. Porém, ela própria estava ficando sem forças. A ferida causada pela espada de Guerra resistia à magia de cura e drenava sua energia feito um sangue-suga. Sua visão começava a ficar enevoada e o corpo a formigar.

    Morte curvou levemente um dos lados da boca, num sorriso sutil, como alguém que vê algo bobo, porém levemente engraçado.

    Uniu os dedos, para estalá-los.

    Porém, Renato o impediu.

    Não deixaria que matasse a garota.

    O rapaz pulou sobre o cavaleiro, segurando sua mão.

    Aquilo realmente atrapalhou Morte, e o estalo saiu imperfeito, quase inaudível, mas saiu. E as pernas de Tâmara perderam completamente a força e a menina despencou novamente no chão.

    Renato, tomado por fúria, tentou golpear Morte, mas seus punhos não o alcançavam.

    De repente, o ar sumiu dos pulmões de Renato e sangue saiu de sua boca.

    O pé de Hiro estava afundando em seu estômago.

    O chute fez Renato ser arremessado violentamente para longe, e quando bateu contra o chão, rolou por alguns metros.

    Renato se levantou e limpou o sangue dos lábios usando o dorso da mão.

    — Hiro… você…

    — Renato! Você vai precisar me matar!

    — Não vou te matar, amigo! Vou te salvar!

    — É impossível! Acabou pra mim. — A voz dele saiu melancólica.

    Morte riu e deu de ombros.

    — Vou deixar vocês se resolverem. — Os trapos de suas roupas mudaram, curvaram-se e se distorceram até tomarem o formato de duas asas negras.

    — Espere! — Renato tentou impedi-lo, mas Morte bateu as asas e voou para o alto, e desapareceu entre as nuvens. Guerra o seguiu.

    O cavaleiro da armadura vermelha ainda olhou para trás, curioso com o combate que se seguiria, mas como Morte o lembrara há alguns momentos, ele tinha trabalho a fazer.

    O garoto até pensou em segui-los, mas…

    — Renato! — gemeu Hiro, em agonia. — Eu vou matar elas! Vou matar! Preciso matar!

    — Hiro! — Com as suas asas sombrias se projetando nas costas, Renato saltou até o amigo e o segurou, abraçando-o por trás. — Eu vou te deter! Vou te segurar! E aí vamos achar um jeito de salvar você! De salvar todo mundo! Você não precisa obedecer o Morte!

    — Você não consegue me deter! — Hiro gritou, e sua voz saiu estridente e raivosa, e ele golpeou Renato usando o cotovelo.

    Para Renato, foi como ser atingido por um tiro, ou pior. A vista escureceu, e ele foi jogado para trás, e só não caiu porque conseguiu firmar as pernas a tempo.

    — Não pode me deter… a menos que me mate!

    — Não vou te matar!

    — Você precisa!

    Ele saltou, encurtando a distância entre ele e Mical.

    — Hiro, você… — Mical engoliu em seco, olhando aquele garoto que, outrora, fora tão gentil, mas neste momento era a personificação de algo malígno. — Precisa lutar contra isso!

    — Não tem como… — Direcionou um soco em direção a Mical.

    A mão de Renato segurou seu punho ainda no ar, impedindo o golpe.

    A mão livre de Hiro afundou no estômago de Renato, num soco poderoso.

    Hiro curvou as sobrancelhas, numa careta confusa.

    — Renato! Desculpe! Eu não… não… Arg! Você precisa me… eu quero morrer!
    Isso dói demais! Viver dói demais!

    — Hiro…

    — Não chega perto de mim!

    Hiro abriu um par de asas em decomposição, com cheiro de morte, e ganhou altura.

    Novamente, Renato não sabia se deveria seguir o amigo, mas…

    — Renato! — gritou Mical. — A Tâmara! Ela está morrendo!

    O garoto correu até elas. Se ajoelhou ao lado de Tâmara.

    — Não… por que ela não está se curando?

    — A magia de cura não está funcionando. É parecido com a vez em que eu tentei curar uma menina com câncer. Acho que a morte já estava muito arraigada nela.

    — O que está dizendo? Que a morte já pegou Tâmara?

    — Eu não sei… Talvez seja por causa dos cavaleiros! Precisamos de um hosp… não… não existem mais hospitais… — disse Mical, com um assombro. — Não existem mais médicos. Peste acabou com tudo. E minha magia não funciona…

    — Re… na…

    — Não, Tâmara, não fale! Economize suas energias. Vamos dar um jeito de…

    — Não. — A voz da garota dos olhos âmbares saiu fraca, quase um sussurro dolorido. — Não existe mais esperança para mim. Eu tô… tô morrendo.

    — Eu não vou deixar! Vou te levar para…

    — Renato…

    — Tâmara, eu vou…

    — Renato! Me escuta. Eu te amo tanto! Tanto! Tanto que eu nem sei como… como posso explicar. Não existem palavras. A poesia é inútil. — Lágrimas brotaram no rosto dela. — Toda a poesia do mundo é pequena demais pra caber o que eu sinto.

    — Tâmara… não pode morrer. Não pode. Vamos dar um jeito…

    — Já me disseram que gente como eu não poderia sentir amor de verdade. Eu sei que… sou quebrada. Eu não sou normal. Meu coração é doente. Mas se isso que eu sinto não for amor, então nada mais é.

    — Tâmara! Não deveria ter vindo! Você não deveria…

    — Você não pode me dar ordens. — Ela curvou os lábios num sorriso, com muita dificuldade. Seus olhos lacrimejados brilhavam. — Eu não estou no pacto. E ainda bem! Ainda bem que sou eu… que sou eu quem vai morrer, e não você. Eu não poderia viver num mundo sem você, Renato. Seria… doloroso demais.

    — Tâmara… eu também amo você. Me apaixonei por você, Tâmara! Por isso, vamos dar um jeito de…

    Ela sorriu. 

    — Obrigado por tudo. Você foi a única pessoa que me tratou com alguma gentileza.

    E finalmente os olhos cor de mel perderam o brilho e a luz se extinguiu deles.

    — Tâmara! Não… não pode… — O garoto ficou em silêncio. Apertou os punhos tão forte que começou a sangrar.

    Fechou os olhos.

    Mais alguém tinha morrido, mesmo ele tendo prometido a si mesmo que protegeria a todos.

    Ele até traiu a confiança de pessoas amadas para impedir esse desfecho… e foi em vão.

    Falhou.

    E Tâmara tinha sido a vítima de sua incompetência.

    Sentiu vontade de gritar tão alto a ponto de fazer a garganta arder, mas tudo o que conseguiu foi chorar baixinho.

    Em silêncio.

    Mais uma vez a impotência diante da perda.

    Mais uma vez tiraram algo dele. Algo valioso e insubstituível.

    Mais uma vez ele não pôde fazer nada.

    — Isso… se repete… de novo… e de novo… e de novo…

    — Renato… — Mical pôs a mão em seu ombro. Ela estava chorando. — Sinto muito por ela. Acredito que… se ela tivesse a chance… poderia se tornar alguém melhor.

    — Ela se tornou, Mical. Ela se tornou alguém melhor.

    — Eu sei que isso é triste, mas não temos tempo para chorar agora. Sinto muito. O Hiro… ele pode ter ido atrás das outras garotas.

    Renato olhou para o céu, tentando ver a sombra de seu amigo. Viu apenas nuvens.

    — Ele não quer ferir ninguém.

    — Eu sei. Mas ele vai. Ele quase me acertou agora há pouco. 

    Renato se ergueu.

    — Eu sei. Meu amigo tá sofrendo. Morte tirou dele até mesmo o descanso final.

    — Precisa impedir — suplicou Mical. — Minha irmã está lá. Não pode deixar que ela…

    — Não vou. Não vou perder mais ninguém. Eu juro!

    Palavras do Autor:

    Opa! Bão?

    Tá curtindo a história e gostaria de me apoiar? Considere me enviar um pix de qualquer valor, que vai me ajudar muito a continuar!

    Chave e QR code no link: Chave e QR code pra ajudar o Max

    Além do mais, seus comentários nos capítulos são importantíssimos e também me ajudam!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota