Capítulo 192: Âmbar
— Mas que piada ruim! — Essa foi a voz embargada de Tâmara, carregada de ira e ímpeto, porém entalada na garganta, devido a falta de forças da garota. Suas pernas, trêmulas, mal podiam sustentar o peso do corpo. — Acha que vai conseguir quebrar o Renato assim? Não vai!
Morte direcionou para a garota um olhar curioso.
Tâmara deu um passo adiante, com dificuldade, e continuou.
— Não faz ideia do tipo de coisa que ele já suportou! Nem eu aguentaria aquele inferno! Você é só mais um, dentre uma longa sequência de ratos, que o Renato vai abater!
Mical estava ao lado dela, usando seu poder para tentar curar totalmente os ferimentos. Porém, ela própria estava ficando sem forças. A ferida causada pela espada de Guerra resistia à magia de cura e drenava sua energia feito um sangue-suga. Sua visão começava a ficar enevoada e o corpo a formigar.
Morte curvou levemente um dos lados da boca, num sorriso sutil, como alguém que vê algo bobo, porém levemente engraçado.
Uniu os dedos, para estalá-los.
Porém, Renato o impediu.
Não deixaria que matasse a garota.
O rapaz pulou sobre o cavaleiro, segurando sua mão.
Aquilo realmente atrapalhou Morte, e o estalo saiu imperfeito, quase inaudível, mas saiu. E as pernas de Tâmara perderam completamente a força e a menina despencou novamente no chão.
Renato, tomado por fúria, tentou golpear Morte, mas seus punhos não o alcançavam.
De repente, o ar sumiu dos pulmões de Renato e sangue saiu de sua boca.
O pé de Hiro estava afundando em seu estômago.
O chute fez Renato ser arremessado violentamente para longe, e quando bateu contra o chão, rolou por alguns metros.
Renato se levantou e limpou o sangue dos lábios usando o dorso da mão.
— Hiro… você…
— Renato! Você vai precisar me matar!
— Não vou te matar, amigo! Vou te salvar!
— É impossível! Acabou pra mim. — A voz dele saiu melancólica.
Morte riu e deu de ombros.
— Vou deixar vocês se resolverem. — Os trapos de suas roupas mudaram, curvaram-se e se distorceram até tomarem o formato de duas asas negras.
— Espere! — Renato tentou impedi-lo, mas Morte bateu as asas e voou para o alto, e desapareceu entre as nuvens. Guerra o seguiu.
O cavaleiro da armadura vermelha ainda olhou para trás, curioso com o combate que se seguiria, mas como Morte o lembrara há alguns momentos, ele tinha trabalho a fazer.
O garoto até pensou em segui-los, mas…
— Renato! — gemeu Hiro, em agonia. — Eu vou matar elas! Vou matar! Preciso matar!
— Hiro! — Com as suas asas sombrias se projetando nas costas, Renato saltou até o amigo e o segurou, abraçando-o por trás. — Eu vou te deter! Vou te segurar! E aí vamos achar um jeito de salvar você! De salvar todo mundo! Você não precisa obedecer o Morte!
— Você não consegue me deter! — Hiro gritou, e sua voz saiu estridente e raivosa, e ele golpeou Renato usando o cotovelo.
Para Renato, foi como ser atingido por um tiro, ou pior. A vista escureceu, e ele foi jogado para trás, e só não caiu porque conseguiu firmar as pernas a tempo.
— Não pode me deter… a menos que me mate!
— Não vou te matar!
— Você precisa!
Ele saltou, encurtando a distância entre ele e Mical.
— Hiro, você… — Mical engoliu em seco, olhando aquele garoto que, outrora, fora tão gentil, mas neste momento era a personificação de algo malígno. — Precisa lutar contra isso!
— Não tem como… — Direcionou um soco em direção a Mical.
A mão de Renato segurou seu punho ainda no ar, impedindo o golpe.
A mão livre de Hiro afundou no estômago de Renato, num soco poderoso.
Hiro curvou as sobrancelhas, numa careta confusa.
— Renato! Desculpe! Eu não… não… Arg! Você precisa me… eu quero morrer!
Isso dói demais! Viver dói demais!
— Hiro…
— Não chega perto de mim!
Hiro abriu um par de asas em decomposição, com cheiro de morte, e ganhou altura.
Novamente, Renato não sabia se deveria seguir o amigo, mas…
— Renato! — gritou Mical. — A Tâmara! Ela está morrendo!
O garoto correu até elas. Se ajoelhou ao lado de Tâmara.
— Não… por que ela não está se curando?
— A magia de cura não está funcionando. É parecido com a vez em que eu tentei curar uma menina com câncer. Acho que a morte já estava muito arraigada nela.
— O que está dizendo? Que a morte já pegou Tâmara?
— Eu não sei… Talvez seja por causa dos cavaleiros! Precisamos de um hosp… não… não existem mais hospitais… — disse Mical, com um assombro. — Não existem mais médicos. Peste acabou com tudo. E minha magia não funciona…
— Re… na…
— Não, Tâmara, não fale! Economize suas energias. Vamos dar um jeito de…
— Não. — A voz da garota dos olhos âmbares saiu fraca, quase um sussurro dolorido. — Não existe mais esperança para mim. Eu tô… tô morrendo.
— Eu não vou deixar! Vou te levar para…
— Renato…
— Tâmara, eu vou…
— Renato! Me escuta. Eu te amo tanto! Tanto! Tanto que eu nem sei como… como posso explicar. Não existem palavras. A poesia é inútil. — Lágrimas brotaram no rosto dela. — Toda a poesia do mundo é pequena demais pra caber o que eu sinto.
— Tâmara… não pode morrer. Não pode. Vamos dar um jeito…
— Já me disseram que gente como eu não poderia sentir amor de verdade. Eu sei que… sou quebrada. Eu não sou normal. Meu coração é doente. Mas se isso que eu sinto não for amor, então nada mais é.
— Tâmara! Não deveria ter vindo! Você não deveria…
— Você não pode me dar ordens. — Ela curvou os lábios num sorriso, com muita dificuldade. Seus olhos lacrimejados brilhavam. — Eu não estou no pacto. E ainda bem! Ainda bem que sou eu… que sou eu quem vai morrer, e não você. Eu não poderia viver num mundo sem você, Renato. Seria… doloroso demais.
— Tâmara… eu também amo você. Me apaixonei por você, Tâmara! Por isso, vamos dar um jeito de…
Ela sorriu.
— Obrigado por tudo. Você foi a única pessoa que me tratou com alguma gentileza.
E finalmente os olhos cor de mel perderam o brilho e a luz se extinguiu deles.
— Tâmara! Não… não pode… — O garoto ficou em silêncio. Apertou os punhos tão forte que começou a sangrar.
Fechou os olhos.
Mais alguém tinha morrido, mesmo ele tendo prometido a si mesmo que protegeria a todos.
Ele até traiu a confiança de pessoas amadas para impedir esse desfecho… e foi em vão.
Falhou.
E Tâmara tinha sido a vítima de sua incompetência.
Sentiu vontade de gritar tão alto a ponto de fazer a garganta arder, mas tudo o que conseguiu foi chorar baixinho.
Em silêncio.
Mais uma vez a impotência diante da perda.
Mais uma vez tiraram algo dele. Algo valioso e insubstituível.
Mais uma vez ele não pôde fazer nada.
— Isso… se repete… de novo… e de novo… e de novo…
— Renato… — Mical pôs a mão em seu ombro. Ela estava chorando. — Sinto muito por ela. Acredito que… se ela tivesse a chance… poderia se tornar alguém melhor.
— Ela se tornou, Mical. Ela se tornou alguém melhor.
— Eu sei que isso é triste, mas não temos tempo para chorar agora. Sinto muito. O Hiro… ele pode ter ido atrás das outras garotas.
Renato olhou para o céu, tentando ver a sombra de seu amigo. Viu apenas nuvens.
— Ele não quer ferir ninguém.
— Eu sei. Mas ele vai. Ele quase me acertou agora há pouco.
Renato se ergueu.
— Eu sei. Meu amigo tá sofrendo. Morte tirou dele até mesmo o descanso final.
— Precisa impedir — suplicou Mical. — Minha irmã está lá. Não pode deixar que ela…
— Não vou. Não vou perder mais ninguém. Eu juro!
Palavras do Autor:
Opa! Bão?
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