Capítulo 194: F*da-s* o destino!
O cadáver apodrecido de Hiro ficou alguns segundos caído no chão, até que começou a se desmanchar, como gelatina, tornando-se líquido.
E esse líquido escuro, tão ácido que corroía os pedaços quebrados de asfalto, enquanto escorria por eles, até ser sugado pela terra e desaparecer.
— O quê…? — Renato franziu o cenho, confuso.
— A alma… — gemeu Clara, com dificuldade, ainda caída no chão —, voltou para… — tossiu — os ceifeiros.
— Clara! — Renato foi até ela. — O quê houve? Você se machucou?
— O pacto… eu o desobedeci. Mas não consegui ir mais longe do que isso. — Sua fala era um sussurro entrecortado.
— O pacto… Clara Lilithu, eu retiro a ordem sobre não me seguir. Tem minha permissão para estar aqui.
Ela puxou muito fôlego de uma vez, como alguém que estivera se afogando, mas que conseguiu subir à superfície.
Sentou-se sobre o asfalto. Sua pele, antes pálida e azulada, voltava à cor original, levemente bronzeada, recuperando a vivacidade.
— Renato! Eu deveria amaldiçoá-lo por causa do que me fez passar!
Renato coçou a cabeça.
— É… eu concordo. A Mical também…
— A Mical! — Clara se levantou com um salto. — Aquela garotinha idiota! Precisamos achá-la! Ela… ela pode…
— Ela está bem.
— Está?! — Clara, por um milésimo de segundo, até pareceu aliviada, mas logo pôs no rosto a cara amarrada de sempre, e deu de ombros. — Humpf! E quem liga? Ela merecia mesmo morrer por ser tão idiota. O que houve com ela? Onde ela está? Não que eu me importe, sabe? Só estou curiosa.
Renato sorriu.
— Ela conseguiu chegar até o local da luta. Ela não parecia bem.
— Conseguiu? Mas como? Eu mesma perdi totalmente as forças assim que passei pelo portão.
Ela olhou na direção do grande portão metálico que selava a entrada para seu prédio. Estava a poucos metros de distância.
— Vai ver a Mical é mais forte do que você. — Renato trazia um certo deboche no olhar que irritou a súcubo.
Clara direcionou para ele um olhar sério. Ponderou por alguns segundos o que Renato tinha lhe dito. Depois, balançou a cabeça e gesticulou com a mão o quanto aquilo era absurdo.
— Não, não. Pare de dizer sandices. Ela deve ter recebido ajuda de algum anjo escroto. Essas duas são… falando nisso, eu ouvi mais alguém me seguindo. Mas ninguém conseguiu sequer me alcançar. Se fosse pra chutar, eu diria que…
— As outras também desobedeceram o pacto!
Renato correu em direção ao portão, o abriu e, assim que entrou no quintal, viu Lírica inconsciente no chão, sobre as pedras.
— Ela nem conseguiu chegar à rua… — murmurou Clara.
— Lírica… — disse Renato,apoiando a cabeça dela em seu colo.
— Renato… — Ela moveu fracamente os lábios.
— Tem minha permissão para estar junto de mim. Eu retiro a ordem dada pelo pacto.
A demi-humana sorriu, mostrando seus caninos afiados de gato.
— Que bom que está vivo…
Eles chegaram na área do estacionamento, quando viram Jéssica.
Renato a pegou nos braços e acariciou seu rosto.
— Tem minha permissão para me seguir.
— A minha irmã… ela… a Mical…
— Ela está bem, Jés. A Mical está bem.
— Que bom… — Jéssica sorriu. — Onde… onde ela está?
Subiram as escadas.
O ferimento nas costelas de Renato ainda latejava, e ele caminhava com certa dificuldade, mas não queria preocupar as garotas, então fingiu que estava tudo bem.
Em algum momento, pediu para parar um pouco, e ele ficou ali, apenas apoiado numa parede e respirando.
— Sabe… acha que o Hiro…? — A fala de Renato estava ofegante. — Acha que ele… foi para o Inferno?
Clara o encarou por um momento. Seus olhos analisando a expressão cansada do garoto. É claro que ela perceberia. Ele estava à beira de um colapso, e mesmo assim mantinha a pose de durão. Mas o cheiro não mentia, e nem a forma que o coração dele batia.
— Não. Aquela expressão que ele fez no final… Ele foi para o Céu.
Alguns minutos depois, voltaram a subir os degraus.
Renato andava na frente, então foi ele quem abriu a porta e entrou primeiro.
E seus instintos tiniram no cérebro, e seu corpo se moveu por reflexo, e ele desviou da faca que se aproximava rapidamente, girando no ar.
A faca bateu na parede de trás e caiu no chão.
Diante dele, estava uma furiosa Irina. Seus olhos estavam lacrimejados, não de tristeza, mas de raiva.
— Nunca mais ouse me drogar, irmão! Nunca mais!
— Certo, certo… — Renato tinha um sorriso nervoso no rosto e um olhar assustado.
— Ou da próxima vez, eu não vou errar.
— Errar? Você não errou, eu que desviei! A faca estava vindo direto para o meu rosto! Se pegasse no olho, cegava…
— Não seja idiota. Se eu quisesse te acertar, teria acertado! Irmão idiota! Burro! Imbecil! Manézão! Seu escroto safado de uma figa! Tomara que… que… que todas essas meninas lindas aí te dêem um pé na bunda, é só sobre eu pra te consolar! E sabe o que eu vou fazer? Não vou te consolar, porque você é um irmão idiota, burro e manézão que não merece ser consolado!
— Eu não vou dar um pé na bunda dele — disse Lírica, e entrou.
— Cale a boca! — grutou Irina.
— Eu também não — disse Clara, dando de ombros e entrando também.
Jéssica suspirou.
— Eu ainda não me decidi quanto a isso.
— Agora, tudo o que eu preciso — disse Clara —, é de um banho de espuma bem relaxante!
— Eu quero vinho — disse Jéssica. Ela era a que parecia mais cansada, com olheiras pesadas em volta dos olhos. Seus passos eram lentos. Ainda não tinha se recuperado totalmente da punição por desobedecer o pacto.
— E eu… — Lírica levou um dedo à boca, pensativa. — Quero uma noite alucinante de sexo com o Renato.
— Ei! Nem pensar! Ele não merece! — berrou Irina. — Ele merece ser deixado de lado! Não se atreva a tocar no meu irmão! Ele é só meu.
— Você quase acertou uma facada nele agora há pouco.
— Eu errei! Errei de propósito!
— Se tivesse acertado, não teria mais braços! — Lírica rosnou feito um felino.
Renato achou que a conversa estava seguindo por um rumo preocupante, e por isso respirou aliviado quando ouviu passos se aproximando, subindo as escadas.
E ficou ainda mais aliviado quando Mical abriu a porta e entrou.
— Mica! — Jéssica correu até ela, mas parou no meio do caminho. — Isso aí é…?
Mical pôs no chão o volume que trazia consigo.
— É… a Tâmara. Eu trouxe ela nos meus ombros até aqui.
— Ela está… — Irina não terminou a frase.
Mical fez uma expressão triste.
— Morta. Infelizmente ela… não resistiu.
— Não posso dizer que lamento — respondeu Irina.
— Eu não gostava dela — completou Jéssica. — Mas… não posso ficar feliz com isso. Era uma criatura de Deus, afinal.
— Ah, isso aí ela não era, não! — retrucou Clara.
— Se não fosse por ela — disse Mical, com ar melancólico —, talvez eu nem teria conseguido chegar até o Renato. Ela me ajudou. Talvez, não por altruísmo puro, mas ajudou.
— Ela salvou minha vida. Vocês duas salvaram. Ela lutou até o fim pra me proteger. — O sorriso de Renato saiu meio taciturno. — E eu que pensei estar protegendo, fui o protegido.
— E por que trouxe ela pra cá? — perguntou Irina.
— Porque o Renato pediu.
— Não entendo. — Irina franziu o cenho.
— Mical, desculpe pedir isso a você. Deve ter sido pesado.
— Não! Tá tudo bem, Renato! Eu sou forte! — Ela dobrou os braços para mostrar os bíceps, que não pareciam grande coisa. — Eu fiquei mais forte desde… você sabe… aquela coisa com o anjo do deserto.
— Irina — continuou Renato —, eu pedi a ela para trazer o corpo de Tâmara para preservá-lo. Afinal, ela vai precisar dele quando eu a trazer de volta.
— Trazer de volta? — Jéssica arregalou os olhos. — Tá falando de ressurreição?
Clara balançou a cabeça.
— Muitos já tentaram e falharam. Isso é impossível… a menos…
— Clara, acha que ela foi para o Céu?
A súcubo riu diante da pergunta absurda de Renato.
— Mas é claro que não! Ela deve estar numa das prisões de enxofre agora mesmo. — Ela deu de ombros. — Foi mal pela insensibilidade, mas é a verdade.
— Foi o que eu pensei. Eu já queimei por séculos no Gehenna e saí. Já derrotei demônios e anjos. Nada é impossível. A Hoopoe profetizou que uma de vocês morreria nessa luta contra o cavaleiro. E sabe o que eu disse? Foda-se a profecia! Foda-se o destino! E eu digo tudo de novo! Foda-se o destino! Foda-se a morte! Foda-se tudo! Eu vou trazer ela de volta, nem que pra isso sangue tenha que chover do céu e a terra se parta ao meio!

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.