Capítulo 195: A flor vermelha
O cadáver do anjo começou a se mexer, primeiro com leves tremores, mas os movimentos foram ficando mais intensos.
Até que um braço se moveu por debaixo dele, finalmente removendo-o, e tirando-o de cima de Abigor.
O demônio se levantou.
Ainda parecia meio tonto, por causa do Elixir de Semi Morte. Seus batimentos, aos poucos, retomavam o ritmo normal.
Ele chutou o cadáver do anjo para longe.
— Arg! Que nojo! Esse alado do Senhor caiu em cima de mim!
E, de uma pilha de três anjos amontoados feito um pequeno monte, mortos, com as longas asas estiradas sobre o chão como lençóis brancos, emergiu Belfegor.
— Sortudo! Em cima de mim caíram três!
Abigor riu e deu de ombros. Ajeitou os óculos de grau e direcionou os olhos verdes, levemente amarelados, fazendo uma varredura no ambiente.
Inúmeros cadáveres de anjos e Putrefatos Rejeitados pela Sepultura.
Não havia mais sinal de vida em lugar algum.
— Sorte a sua, Belfegor, que eu fui rápido. Senão, seríamos mais um desses defuntos.
Belfegor abriu um sorriso.
— Se não fosse pelo meu poder mágico, você quer dizer?
— Não. Não é isso o que eu quis dizer.
— Veja! — disse Belfegor, indo até o cadáver disforme do Cavaleiro da Peste, que naquele momento era uma massa acinzentada e sem qualquer traço humano. Insetos e ratos lhe roíam a carne podre. — O Arco da Pestilência está intacto!
— Então pegue.
Belfegor abriu um sorriso malandro.
— Por que você não pega? Pode ficar com ele.
— Porque eu só quero aquela coisa, você sabe. Todo o resto pode ficar com você. Não me diga que está com medo?
— Medo? Não me faça rir! Apenas… sendo cauteloso. É a arma de um Cavaleiro do Apocalipse, oras! Quem garante que eu não vou ser pulverizado se tocar nisso?
— Parece medo para mim.
— Já sei! Vou soprar nos ouvidos de algum ser humano de coração fraco e fazê-lo pegar para mim!
Abigor assentiu.
— E se o humano de coração fraco ganhar os poderes do cavaleiro?
— Seria problemático. Mas eu me pergunto… por que os outros cavaleiros não levaram o arco?
— Talvez eles não possam usá-lo.
— Tipo uma arma customizada para Peste? Agora que eu não quero pegar mesmo.
Abigor bufou, sem paciência.
— Você tá me fazendo perder tempo! — Ele abriu as asas e voou em direção ao prédio. Pousou em frente àquela enorme porta de vidro.
Belfegor pousou ao seu lado.
— Hora dos espólios! Que tesouros mágicos um cavaleiro poderia ter guardado em seu cofre?
Abigor deu de ombros.
— Como combinado, você pode pegar o que quiser, menos aquilo.
— Sim, eu sei. Mas… tem um problema. — Belfegor abriu um sorriso malicioso.
— Hum? Que prob… droga! — Abigor finalmente sentiu o cheiro. — Oi, primata. — O demônio se virou, enquanto um sorriso falso adornava seu rosto. Ele ajeitou os óculos e encarou Renato, parado diante dele.
— Olha só quem ainda está vivo depois de… morrer?! — Renato usou o mesmo tom provocativo de Abigor.
— Sabe como é… Não dá pra matar um demônio precavido.
— Ah, dá sim. É só ser mais precavido do que ele.
— O brinquedinho da súcubo tem a língua afiada agora! Me pergunto como você descobriu. Talvez, eu deva supor que há um traidor comigo?
Belfegor gargalhou.
— Não é traição se for contra você, Abigor. É apenas auto preservação. Todos sabemos que você é mais traiçoeiro do que pastor de televisão.
— Você costumava ser mais traiçoeiro do que eu, Belfegor. Se esqueceu dos velhos tempos?
Belfegor apenas riu e se dirigiu a Renato.
— Tem uma coisa que Abigor quer muito. Acho que não é prudente deixar que ele fique com aquilo.
Entraram no prédio.
Não tinha tantas coisas. Parecia mais um local deserto. Com exceção, é claro, dos corpos em decomposição.
O cheiro era horrível, até mesmo para os demônios acostumados ao ar tóxico do Inferno. Moscas zuniam por toda parte. Ratos se moviam entre os cadáveres, roendo a ponta de seus dedos ou se movendo por dentro de suas entranhas.
— Morreram de doença — concluiu Belfegor, enquanto deslizava o olhar pelo local. — Peste bubônica, varíola, COVID 19… tem de tudo aqui.
Renato olhou para ele de soslaio.
— Como sabe?
— O cheiro da doença é inconfundível.
— Que sem graça! — desdenhou Abigor. — Peste só chegou aqui e essas pessoas caíram mortas. Sem combate! Nenhum conflito! Não teve resistência. É tão anticlimático.
— O Aerico iria curtir — respondeu Belfegor, com um sorrisinho no canto da boca.
Abigor deu de ombros.
— Aquele cara não tem nenhuma noção estética.
Finalmente encontraram um elevador. Por insistência de Abigor, desceram para o subsolo.
Todo o elevador tremeu quando bateu, com mais força do que o normal, no chão subterrâneo.
Ao sair, eles se viram dentro de um corredor de paredes metálicas, e, no fim, uma porta de aço.
Ela parecia impenetrável.
Tinha um tipo de painel com scanner para impressões digitais.
Belfegor suspirou.
— Aposto que só abre com as digitais de Peste.
— Não dá — retrucou Abigor. — O corpo dele se desmanchou, você viu. Sobrou só aquela massa nojenta.
— Talvez dê para arrebentar a porta na força bruta! — sugeriu Renato.
— É aço reforçado com magia — respondeu Abigor. — Até dá pra arrebentar, mas… não sem destruir o que tá do outro lado.
Renato suspirou, resignado.
— Então… não temos outra escolha. Vou ter que chamar ela.
— Ela quem? — Abigor ergueu uma sobrancelha.
— E quem mais? Minha irmãzinha, é claro.
Mais ou menos 40 minutos depois, o elevador baixou novamente, e quando as portas se abriram, eles puderam ver aquela garota pequena, magrinha, com uma mecha de cabelo azul caindo sobre um lado da testa.
Irina vestia sua blusa do Mickey, e meias longas, listradas, nas cores rosa e branco, que iam até os joelhos. Também trazia uma mochila nas costas; e um olhar atento notaria, pelo volume na cintura, abaixo da blusa, que ela estava armada.
E, o mais curioso: ela trazia nas mãos o arco de Peste, e o encarava com uma expressão de dúvidas.
— Olha o que eu achei… — disse ela, com incerteza na voz.
Os dois demônios se entreolharam.
— Parece que ela não foi pulverizada… — murmurou Belfegor.
— Ainda… — murmurou de volta, Abigor.
— Irina, finalmente…
— Cala a boca! — A garota interrompeu Renato, sem nenhuma cerimônia. — Ainda tô brava com você! — Ela prendeu o arco no ombro.
Renato a segurou pelas mãos.
— Irina… o que eu posso fazer pra você me perdoar?
Ela pensou por um instante.
— Me leve a algum lugar bacana! Com muitos doces, piscinas e tobogãs! Aí eu posso pensar em te perdoar! Até lá, pisa fofo comigo, senão eu te dou uma facada!
Um sorriso curvou os lábios de Renato.
— Combinado, então.
— Humpf! Você fica se achando, né? Só porque tem um monte de garotas te bajulando! Mas eu não te bajulo não, ouviu?! É melhor você começar a me tratar bem melhor!
— Eu vou.
— É bom mesmo! — Ela bateu o pé no chão. — E qual o problema que vocês têm aqui? O que tá rolando?
— Essa porta — respondeu Renato. — Precisamos abri-la.
Ela analisou o painel scanner por um tempo. Depois suspirou.
— Só isso? Porque não usam o dedo do dono disso aqui pra abrir? É só cortar na penúltima falange. Nem é tão difícil, sabe…
— É que não temos o corpo.
— Aí fica mais complicado. Mas não pra mim! — Ela riu e bateu no peito.. — Pode deixar que eu resolvo!
Nessa hora, Abigor se aproximou de Renato.
— Ei, Primata! É melhor se livrar de todas as facas de casa. Essa sua irmã parece meio… maluca.
— E quando foi que eu me envolvi com alguma garota normal? Todas elas são meio doidas de algum jeito! — Renato riu.
— Eu não não sou doida não, tá?! — Retrucou Irina, com a voz carregada de ressentimento. — Meus pais até já contrataram um psiquiatra, uma vez, pra me analisar, e ele disse que eu sou normalzinha, normalzinha!
— Ele disse mesmo? — Renato ergueu uma sobrancelha.
— Não com essas palavras, exatamente, mas disse algo parecido. Humpf! Mas isso não importa! Vamos dar logo uma olhada nisso aí!
Irina começou a analisar o painel da porta, observando-o cautelosamente.
— Hum… sem parafusos… É bem diferente daquele usado por Tâmara. Não conheço esse modelo.
Abigor se aproximou dela, com um sorriso contido no canto da boca. Seu rosto quase tocou o rosto da menina.
— Vai conseguir mesmo abrir?
Irina lhe lançou um olhar com o canto dos olhos, um tanto mau humorado.
— Tá perto demais.
— Oh, desculpe! — Abigor se afastou um pouco. Ele se movia como uma serpente venenosa. — É que esse tipo de situação me deixa tão…
— Tão o quê? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Tá falando igual um pervertido!
— Irina — perguntou Renato. — Acha que dá mesmo pra abrir? — perguntou Renato.
— É claro que dá! — A menina respondeu com um tom de voz alegre. — A gente só precisa… — Não completou a frase. Estava concentrada demais mexendo em sua mochila, revirando alguns apetrechos que estavam dentro. — Achei! — Os olhos dela brilharam de empolgação.
Ela pegou uma caixinha de madeira e a abriu. Tirou de dentro, um pequeno frasco, semelhante a uma garrafinha, de uns 10 centímetros.
Abriu a tampa e despejou seu conteúdo sobre a palma da mão: um pó azulado e brilhante, muito fino.
Depois, soprou o pó sobre o scanner da porta.
— Olha só… — disse Belfegor, impressionado.
O pó grudou na marca da digital do painel, revelando os traços e padrões únicos da ponta dos dedos de Peste.
— Às vezes, a tecnologia humana parece algum tipo de magia — disse Abigor.
— A magia ainda nem começou — respondeu Irina, com um brilho vívido nos olhos. Em seguida, se voltou para a caixinha novamente, e tirou de dentro uma película transparente e retangular, muito parecida com um filme de fotografia antigo, e colou a película sobre as marcas azuladas das digitais.
A porta estalou, um bip soou e uma luz verde brilhou no painel.
— Viu? Consegui. — Irina estufou o peito, orgulhosa.
— Impressionante, garotinha primata. — Abigor baixou o olhar, num tipo de saudação.
Irina apertou os dentes.
— Se esse desgracado me chamar assim mais u… — Então ela parou subitamente e olhou para a porta. — Tem algo estranho…
— Estranho?
— Sim, Rê! A porta já deveria estar aberta. Por que ainda não…
— Acho que tô ouvindo um bip — disse Belfegor.
— Bip? Eu não ouvi nada — respondeu Abigor. A voz dele era tão mansa que dava ódio.
Irina foi até o elevador e tentou abri-lo. Não funcionou. Estava trancado.
As luzes falharam e piscaram.
Ela olhou diretamente para o Renato.
— Caímos numa armadilha!
Foi quando um som estrondoso fez todo o local tremer, o concreto do piso arrebentou, e fogo brotou do chão, como uma flor vermelha e gigantesca, consumindo tudo.
E toda a luz sumiu. O mundo mergulhou na escuridão.

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