Índice de Capítulo

    — Inferno, doce Inferno! — Clara contemplou a paisagem em volta, antes de pousar no pátio do castelo. Recolheu as asas.

    Renato pousou ao seu lado.

    — Isso aqui fica mais fedido a cada nova visita! — disse o garoto, com uma careta.

    Claro deu de ombros, achando a questão de pouca importância.

    — Não é tão ruim assim.

    — Ei, vocês! — gritou um general demoníaco. Usava uma armadura completa e sua mão estava sobre o cabo da espada, ainda na cintura. Um grupo de demônios o acompanhava. — O que procuram?

    Clara tomou a frente.

    — Viemos ver Angélica. — Sua voz demonstrava muito pouca preocupação.

    — Angélica? — O demônio ergueu uma sobrancelha, parecendo em dúvida. — Não é um bom momento. 

    — Nunca é. Mas mesmo assim…

    — Precisam voltar outra hora.

    De repente, a voz estridente de Angélica reverberou por todo o castelo. Um grito irritado e petulante.

    — Saiam de perto de mim! Não quero saber disso! Chega! Cansei! — gritou ela. As paredes de pedra pareceram tremer. — Mande Hades enfiar essa cortesia burocrática no tártaro de suas partes!

    — Mas princesa…! — disseram vozes em conjunto.

    Sombra escorreu através dos blocos de pedra, no alto de uma parede, como raios de luz pretos.

    E a parede se rompeu, fazendo chover pedra das alturas, e Angélica surgiu voando através do buraco no castelo.

    Ao ver Renato e Clara, ela abriu um sorriso alegre e pousou ao lado deles.

    — Senhor humano! Senhorita súcubo! Que surpresa! Não sabia que viriam!

    — Senhorita Angélica — disse o general demoníaco —, eu os adverti que não era uma boa hora. Devo acompanhá-los até…

    — E quem disse que não é uma boa hora? É a melhor hora de todas! — retrucou a princesa infernal. — Vocês dois, me acompanhem! E você, soldado, garanta que nos levem doces! Muitos doces! E chá! E também…

    — Uísque? — sugeriu Clara.

    — Não! Eu não gosto disso! É amargo e irrita a garganta… — Angélica pareceu devanear. —  Suco de framboesa silvestre! Daquela que brota na Floresta Perdida! E adoçado com mel. Traga uma jarra generosa.

    — Sim, senhorita. — O soldado deixou os ombros caírem, resignado.

    — Se deixar o suco fermentando por uns seis meses, deve ficar bom… — A súcubo pensou alto.

    Angélica os guiou pelos corredores internos do castelo. Eram estreitos e frios, e parecia que alguém sempre os observava por cima do ombro.

    O castelo estava muito agitado, com demônios indo para lá e para cá, e alguns até abordavam Angélica, comentando sobre alguma reunião importante que ela deveria ir, ou sobre os hóspedes hadeanos que esperavam alguma cortesia, e qual decisão ela tomaria na questão dos demônios inferiores que exigiam melhores condições de trabalho.

    A segunda princesa estava claramente exausta e sem paciência, e evitava responder qualquer pergunta de seus servos, dizendo apenas para confiarem e que ela já sabia o que fazer, o que era uma óbvia mentira.

    Quando finalmente chegaram nos aposentos dela, e ela, ao fechar a porta, finalmente se isolou de toda aquela bagunça, pôde suspirar aliviada. Esse era o único lugar onde ainda tinha alguma paz. Ninguém ousaria incomodá-la em seu quarto. Ninguém seria tão burro assim.

    Se desconsiderar a aparência gótica, com todo o chão, paredes e teto feitos de grandes blocos de pedra, parecia um quarto normal de qualquer garota na faixa dos 8 anos.

    No teto, um lustre de cristais de luz iluminavam o local.

    Uma cama grande e confortável jazia no canto, próxima da janela, por onde entrava uma brisa fresca. Os lençóis eram cor de rosa, com uma estampa de algo que só poderia ser uma princesa da Disney.

    E quase no centro, havia uma mesa de madeira, envernizada e brilhante.

    Sentaram-se nas cadeiras.

    — Senhorita Angélica…

    — Ainda não! — Ela interrompeu Renato. — Devemos esperar pelos doces! Onde é que já se viu uma princesa receber convidados sem doces e chá?

    Como os doces estavam demorando para chegar, Angélica começou a ficar impaciente, porém, antes que uma tragédia arrebatasse o castelo, alguém bateu à porta.

    — Senhorita Angélica…

    — Pode entrar!

    Os empregados entraram, trazendo bandejas cobertas com cloches de prata.

    Ao remover as tampas, expuseram as muitas guloseimas coloridas: havia biscoitos, fatias de bolo e um creme avermelhado numa taça de cristal.

    — Oh, eu adoro mousse de romã! — disse Clara, alegremente, e pegou um pouco com uma colherzinha de prata.

    Havia duas jarras de cristal, na qual Angélica despejou o conteúdo de uma delas numa taça: um chá de cor azulada

    Renato pegou um pouco de chá também.

    — É gostoso.

    — É claro que é! — Angélica riu, orgulhosa. Depois pareceu em dúvida.  — Eu pedi para os cozinheiros fazerem brigadeiros, mas ficaram horríveis. Francamente, de que adianta ter servos se eles são tão inúteis assim? Talvez eu devesse mandar enforcá-los!

    — Tenho certeza que eles vão conseguir!

    — Eu tenho minhas dúvidas! Ei, senhor humano, avise sua irmã que ela precisa vir aqui fazer daqueles brigadeiros para mim, conforme prometeu! Antes que eu perca a paciência e eu mesma vá lá na Terra sequestrar ela para trazê-la para cá!

    — Vou garantir que ela venha o mais rápido possível, então não faça nada precipitado, por favor!

    — Humpf! É bom mesmo!

    Clara não pôde evitar de sorrir, achando a situação bastante divertida. Afinal, Irina não saberia fazer brigadeiros como aqueles nem mesmo se tivesse a ajuda dos melhores confeiteiros do mundo.

    — Pois bem — disse Angélica —, agora que estamos devidamente servidos, podemos falar. O que querem comigo?

    — Angélica, eu tenho um pedido.

    — Pedido? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Finalmente decidiu viver aqui comigo como meu bichinho de estimação! Sua vida vai ser incrível! E…

    — Não. Não é isso.

    — Então o que é?

    — Você já deve saber, mas eu lutei contra o Cavaleiro da Peste e venci.

    — Sim, eu sei. Meus… olhos.. que tenho espalhados por aí me contaram em detalhes.

    — Eu só consegui vencer porque tive ajuda.

    Angélica assentiu.

    — Talvez devesse ter confiado no Inferno. Isso evitaria muitos problemas. Além do mais, não suporto a idéia dos anjos pensarem que salvaram algo que é meu. Mas, é… você até que se saiu muito bem.

    — Na luta, eu perdi uma pessoa. Uma amiga importante. A Tâmara morreu, enquanto me protegia.

    — Meus pêsames por isso. E então, como está o chá de Madressilva dos Tormentos?

    — Está ótimo. — Ele bebeu um gole. — Considerando a vida que minha amiga em questão levou, tenho certeza que a alma dela veio parar aqui embaixo.

    — Então você quer visitá-lá? Talvez não goste do que irá ver.

    — Não. Não visitá-la, mas… quero sua autorização pra levar a alma dela de volta.

    Angélica ficou em silêncio por um instante, como se processasse o que tinha ouvido. 

    Olhou para Clara, que apenas deu de ombros, pegou um docinho e pôs na boca.

    — Quer transformar sua amiga num fantasma? Se ela morreu naquela luta, o corpo dela já deve ter começado a se deteriorar. Não tem como a alma voltar para um corpo podre. Ela viraria uma alma penada. Talvez um zumbi irracional e devorador de cérebros. Mas não seria mais sua amiga.

    — Eu preservei o corpo num freezer. Ele não se deteriorou ainda.

    — Isso é meio bizarro.

    Clara sorriu.

    — Não seria a primeira vez que guardo um corpo naquele freezer.

    Renato franziu a testa, enquanto olhava para a súcubo. Em seguida, voltou a olhar para Angélica.

    — Pode me ajudar?

    — Mas é claro que não! Não dá. A vida humana tá sujeita a uma ordem cósmica, entendeu?!. As pessoas nascem, crescem e morrem. Tentar interferir nesse ciclo pode trazer consequências.

    — Não ligo para as consequências! Tudo o que eu fiz em cada maldito dia da minha vida teve consequências, e eu enfrentei todas, e quer saber? Eu sobrevivi.

    Angélica riu.

    — Egoísta como um demônio!

    — Me ajuda. Tô te pedindo!

    — Olha, humano, não é que eu não queira te ajudar. Eu realmente não posso. Não consigo. Eu não tenho autoridade para tirar ninguém das Prisões Subterrâneas.

    Renato baixou o olhar, entristecido. Angélica continuou:

    — Mas eu sei quem pode.

    — Tô sentindo que não vou gostar disso — disse Clara, enquanto mastigava um biscoito.

    — Só dois seres podem fazer algo assim — continuou a Segunda Princesa. — Meu pai, que não está em casa há um bom tempo. E minha querida irmã, Baalat.

    — E onde está Baalat?

    — Droga! — Angélica pareceu irritada. — Eu odeio aquele lugar.

    — Que lugar?

    — Baixoforno, a terra dos esfolados.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota