Índice de Capítulo

    Tendo como ponto de partida o Castelo de Lúcifer, e seguindo na direção oposta a do grande Inferno de Areia e da Floresta Perdida, há muitos vales e baixadas.

    A aparência da terra era tão desolada que parecia recém saída de um acidente nuclear.

    As únicas coisas vivas eram as aves carniceiras que voavam em enxames por todos os lados e um tipo de fungo que brotava daquela terra árida e estéril. Era como um tapete felpudo, de cor verde bem escuro, e que projetava cogumelos com formato de guarda-chuva em alguns pontos.

    Diferente do fedor de cadáver apodrecido, típico das regiões próximas do cemitério, o odor ali era mais ácido, e lembrava enxofre e acetona.

    De vez em quando, pequenas bolinhas que pareciam algodão, surgiam flutuando no vento.

    — São esporos daqueles cogumelos que vimos mais cedo — disse Angélica, percebendo o olhar curioso de Renato. — Se um ser humano como você respirar muito disso, pode acabar tendo seu cérebro corroído.

    — Corroído como? — O garoto ergueu uma sobrancelha.

    Clara riu.

    — Corroído da mesma maneira que o Cordyceps, da Terra, faz com formigas e baratas.

    No final de uma depressão que se afundava na terra, havia um vale ainda mais profundo, uma rachadura de proporções gigantescas.

    Conforme desciam, a luz ficava mais escassa.

    Os únicos sons eram os grasnados dos Carniceiros e, de vez em quando, o rastejar de alguma coisa nas rochas íngremes.

    Renato sentiu a garganta arranhando ao engolir e uma leve coceira no fundo do nariz.

    Ele cobriu o nariz com a gola da camiseta, preocupado que pudessem ser os esporos do fungo no ar.

    Clara riu.

    — Tá preocupado com o que, Renato?

    — Não quero respirar os esporos.

    — Oras, e por quê? Eles são inofensivos. A sensação é até agradável.

    — Tenho umas quinze horas de jogatina num certo jogo de zumbi que diz o contrário.

    — Ali! Estamos chegando! — disse Angélica, apontando para baixo.

    Renato viu alguns focos de luz alaranjada que rasgava o escuro profundo.

    Seus olhos demoraram para conseguir distinguir as formas das poucas casas e estradas estreitas.

    Pousaram ao lado de um totem esculpido em pedra, que tinha a forma de um homem acorrentado, e que arrebentava as correntes dos pulsos para ganhar a liberdade.

    Diante deles, um portão trazia no alto a inscrição: “lembrai de toda esperança, ó vós que entrais”.

    — Esse lugar tem um péssimo senso de humor — disse Clara, com desinteresse.

    Angélica deu de ombros.

    — É pra cá que vem alguns demônios necróticos  e as almas humanas que ganham o direito de sair da Prisões Subterrâneas, então… não faz mal nutrir alguma esperança, não é?

    A pouca iluminação vinha de tochas, que cintilavam nas beiradas das ruas, jogando sombras fantasmagóricas nas casas decadentes e aos pedaços.

    O chão era avermelhado. Nem o fungo verde se atrevia a crescer ali.

    E não havia uma alma viva à vista. O lugar estava completamente deserto.

    — Não devia ter alguns… você sabe… almas humanas suplicantes e demônios de baixo nível? — Clara olhou em volta, procurando qualquer sinal de movimento.

    Enquanto andava, Renato pisou em algo macio e úmido. Olhou para o chão, e lá estava um pequeno ursinho de pelúcia, sujo de barro, surrado, com seu enchimento encardido vazando por rasgos na pelagem e com o único olho de botão que lhe restava pendurado na lateral do rosto por um fiapo de linha.

    Renato teve a impressão de que tudo em Baixoforno era como esse ursinho: no fim da vida, deteriorado. Toda a beleza já tinha ido embora.

    — E deveria — respondeu Angélica à pergunta de Clara. — Já sei! A praça do mercado! — Ela abriu as asas e saiu voando.  Clara e Renato a seguiram.

    Quanto ao garoto, é difícil apontar o que ele achou mais absurdo: se o fato dessa miserável vila apodrecida ter uma praça, ou se era o fato dela ter um mercado.

    O lugar, que era tão pequeno que chamar de praça era generosidade, também estava vazio, com exceção de uma única barraca de venda.

    — Onde estão todos? — perguntou Angélica ao vendedor.

    O demônio, que tinha dois olhos cor de violeta, que brilhavam às luz das tochas, se aproximou. Um único chifre crescia do alto de sua cabeça e se curva para frente, como se estivesse apontando para os visitantes.

    Ele sorriu. A maioria de seus dentes eram amarelados, e alguns, totalmente pretos.

    — Estão na taverna — respondeu ele, com uma voz sibilante.

    — Qual taverna?

    — A única que temos em Baixoforno, oras. — Ele apontou na direção sudoeste. — Também é lá que está a primeira princesa.

    — Certo. Obrigada. Garantirei que sejas recompensado, demônio de baixo nível.

    — Obrigado, alteza.

     O demônio percebeu o olhar curioso de Renato para alguns frasquinhos transparentes que estavam expostos em sua mesa. Eram pequenos como pilhas e  continham um líquido incolor.

    — Vejo que meu principal produto o atraiu, humano. — O demônio o observou por alguns instantes com certa curiosidade. — Impressão minha ou tu estás… vivo demais para este lugar?

    — O que é isso? — O garoto apontou um dos frasquinhos, ignorando a pergunta do demônio.

    — São lágrimas, é claro.

    Renato franziu o cenho e encarou o demônio, esperando maiores explicações.

    — Lágrimas de esperança — continuou o vendedor. — Sempre que uma esperança morre, e alguém chora por ela, as lágrimas atravessam dimensões até chegarem aqui no Inferno. Eu as colho com muito cuidado e uso alguns ingredientes secretos para preservá-la e manter o sabor e aroma. Aquele que as tomar, poderá sentir, mesmo que momentaneamente, o que é ter esperança. São inebriantes, realmente. A maior das delícias que o Inferno pode oferecer. Gostaria de provar? Eu aceito dracmas, denários e Moedas da Encruzilhada. Outras formas de pagamento podem ser discutidas.

    — Não, valeu.

    O vendedor apenas assentiu.

    — Se mudar de ideia, estarei aqui.

    Os três viraram as costas e voaram na direção apontada por ele.

    A madeira envernizada da fachada era estranhamente decente e, ao contrário de todo o resto, parecia ainda nutrir um pouco de vida. O letreiro bem grande dizia: “Taverna da Caverna”, um jogo de palavras bem brega, segundo Clara.

    Na entrada, dois sujeitos jaziam caídos, como desmaiados. Um deles era um demônio com três chifres que se projetavam do crânio; o outro, parecia estranhamente humano, usando uma túnica que outrora tinha sido branca, mas que estava tão encardida e empoeirada que parecia alaranjada escura.

    Abraçados um no outro, eram como dois bêbados que não tinham conseguido chegar em casa.

    — Deplorável! — disse Angélica, e passou por cima deles.

    O interior da taverna era bem aconchegante para os padrões infernais e, principalmente, de Baixoforno.

    Diferente do ambiente nojento do lado de fora, o interior era limpo e organizado. Os bancos e mesas eram de pedra polida, o chão parecia encerado. 

    Uma música clássica tocava, mas não era possível saber a fonte do som, haja vista que não havia banda e nem auto falante visível.

    Porém, o mais estranho era que o lugar estava cheio de demônios, reptilianos, demi-humanos e até humanos, todos caídos no chão ou esparramados sobre as mesas. Alguns balbuciavam palavras indecifráveis, enquanto deixavam baba escorrer pelo canto dos lábios; outros dormiam profundamente, roncando alto.

    O cheiro era de tabaco, vômito e bebida azeda. Renato achou familiar e sorriu, sentindo-se em casa.

    Baalat estava solitária, sentada à uma mesa no canto, com uma garrafa de bebida pela metade.

    Renato e Clara se aproximaram dela. Angélica balançou a cabeça de desgosto ao ver sua irmã daquele jeito. Era raro Baalat ficar bêbada dessa forma. Por isso, ela preferiu atender suas próprias necessidades, antes de ir ver sua irmã.

    Foi até o balcão do taberneiro.

    Um homem grisalho, de barba rala e branca, lhe atendeu.

    — Pois não, Segunda Princesa? É uma honra ter você em minha taverna. — O grande charuto preso em seus dentes balançava conforme ele falava.

    — Você tem suco?

    O homem pareceu em dúvida. Pensou por alguns instantes.

    — Tenho vinho, que posso transformar no mais doce dos sucos de uva, se a senhorita assim o desejar.

    — Desejo.

    O homem abaixou levemente a cabeça, numa reverência, e saiu.

    Enquanto esperava, Angélica se aproximou de Baalat, que conversava com Renato junto à mesa. Clara permanecia de pé, ao lado do garoto, observando tudo ao redor com aqueles olhos atentos e vermelhos.


    O taberneiro, sem perder tempo, atravessou a porta que dava acesso a área interna, onde ficava o depósito.

    Tinha um demônio deitado no chão, balbuciando algo, enquanto parecia dormir.

    O taberneiro foi até uma prateleira e pegou uma jarra de vinho.

    Depois, foi até o demônio dorminhoco.

    — Ei, Berry! Acorde! Eu preciso de você!

    A fumaça do charuto que subia começou a se acumular no teto, dando-lhe um aspecto enevoado.

    — Hum… hummm! Pprr! — O demônio pareceu reclamar.

    — Droga, Berry! Eu te falei pra não beber aquela cachaça da Primeira Princesa! Acorde, vamos!

    — Hummm eerr! O Inf.. erno tá… girando…

    — Quer virar comida de ogro cinzento? Ou ser preso nas prisões e torturado por Syrach? Acorde, caralho! A segunda princesa está aí! — O taberneiro o cutucava e chacoalhava, inútilmente.

    — Asssshhhh! Eu… aaarhs — O demônio, tentando falar, acabou perdendo o controle do próprio estômago e jogou no chão a carne de Caracol Pescador que tinha comido mais cedo.

    O taberneiro, impaciente, levou a mão ao próprio rosto, pensativo.

    — Cacete! Vamos todos morrer por causa de um bêbado inútil!

    Mas aí ele teve uma ideia. Se lembrou da vez em que um amigo de Berry resolveu fazer uma brincadeira um tanto duvidosa. Não era o tipo de coisa que alguém faria normalmente, mas o álcool transforma em realidade coisas que só aconteceriam em pensamentos pervertidos.

    O amigo em questão, na época, inseriu o dedo indicador nos fundos de Berry, enquanto este se abaixara para pegar um dracma que tinha derrubado no chão.

    O curioso é que, com o susto, Berry fez uma demonstração involuntária de seu poder. O fogo era seu principal elemento. Não tão forte quanto o de demônios como Phenex, mas deveria servir.

    No salão, Angélica ficou encabulada ao ouvir o grito de um demônio vindo da parte interna, e se perguntou que tipo de suco aquele senhor estaria fazendo.


    Assim que entrou na taverna, Renato não perdeu tempo. Foi direto para a mesa de Baalat.

    — Oh, o humano da súcubo?! — Ela demonstrou surpresa. — Ou melhor, o Condutor de Arimã.

    A voz dela estava mais aguda do que o normal e um bocado arrastada. 

    — Sente-se! — Baalat apontou para uma cadeira, e ficou um tempo encarando aquela peça de pedra, sem falar nada.

    — Obrigado. — Renato se sentou.

    — Você também, súcubo! Sente aí! — As sílabas saiam até meio emboladas. Baalat estava claramente bêbada.

    — Eu estou bem assim. — Clara sorriu de maneira educada. 

    — Hummm… — Baalat deu de ombros. — Você quem sabe. Mas assim… você sabe que se ficar de pé, não vai crescer mais, né? Vai continuar baixinha desse jeito.

    — Minha estatura está boa.

    Renato achou engraçado o jeito de Baalat. Ele estava acostumado a vê-la de maneira solene, até um pouco assustadora, mas neste momento ela não parecia muito diferente dos bêbados que ele já tinha visto milhares de vezes na terra.

    — Eu gostaria de te fazer uma pergunta — disse ele.

    — Um momento! Deixe as perguntas para depois! Primeiro, beba comigo!

    Renato olhou com desconfiança para aquela garrafa pela metade. Em seguida, correu o olhar pela taverna, especialmente por todas aquelas criaturas inconscientes no chão.

    — Não se preocupe! Hic! — Baalat soluçou. — Esses…. Esses inúteis aí são uns inúteis! Não aguentam beber nada! Deviam voltar pra casa da mamãe e beber leite! Mas você aguenta, não aguenta?! Ou vai querer leite também?

    — Eu bebo.

    Renato pegou a garrafa.

    — Ótimo! Vamos fazer assim. A cada copo bebido, você me faz uma pergunta e eu te respondo, certo? E depois, eu te faço uma pergunta e você responde! Nada mais justo, não acha? Que tal, hein, homo sapiens? Macaco de barro? Australopithecus? — Baalat começou a rir, se divertindo com os inúmeros apelidos que conseguia pensar para Renato.

    — Eu aceito.

    — Ótimo! — Baalat passou o copo para ele. — Beba! Será que você sobrevive à minha cachaça especial?

    Renato pegou o copo de dose e o encheu com o líquido da garrafa. Era transparente, com um leve tom de lilás.

    Ele encarou o líquido por um instante. O cheiro de álcool era forte. Com certeza, isso foi a causa do desmaio generalizado dos clientes da taverna.

    Nessa hora, o taberneiro se aproximou, trazendo um copo de suco de uva e o entregou para Angélica.

    Baalat riu. 

    — Talvez você também queira suco…

    — Não! Eu bebo, já disse!

    Renato sorveu o liquido em um único gole. Para a surpresa dele, nem sentiu queimar a garganta. Mas os olhos desfocaram instantaneamente. Foi como se o mundo ao seu redor desse uma volta de 350 graus. Seu rosto começou a formigar.

    Baalat bateu palminhas.

    — Parabéns! Ainda tá acordado. — Ela sorriu. — Agora é minha vez!

    Ela nem usou o copo. Pegou a garrafa e derramou o líquido direito em sua boca.

    Ela pôs a garrafa de volta na mesa e encarou Renato, seria.

    — Muito bem, Re… Re… humano! Faça sua pergunta!

    — Tem uma pessoa que morreu e veio para o Inferno. Eu quero levá-la de volta. Eu preservei o corpo e preciso que a alma dela seja libertada das Prisões. Meu plano é fazer aquela parada da ressurreição, entende? Tipo Lázaro, Jesus… sei lá! Pode me ajudar?

    — Ajudar com a ressurreição? — Baalat franziu o cenho.

    — Libertar a alma dela.

    — Hum… — Ela pensou por um momento. — Desculpe, isso eu não posso fazer.

    — O quê? Mas por quê?

    — Para perguntar de novo, tem que beber.

    Baalat apontou para a garrafa.

    Renato, impaciente, a pegou e derramou o líquido direto na boca, igual Baalat tinha feito.

    — Quem pode me ajudar?

    A primeira princesa assentiu, gostando do ímpeto do garoto. Depois dela mesma beber mais um gole, continuou:

    — Só meu pai. — Ela fez uma careta de desgosto. — Aquele degracado!

    — Seu pai? O Diabo?

    — Sim, ué. Lúcifer! Só ele consegue.

    — Mas irmã! — Angélica se meteu na conversa. — Você já fez isso antes! Não se lembra? Você resgatou a alma daquele garoto amigo da bruxa de emoções.

    Baalat olhou para sua irmã mais nova, se decidindo sobre qual castigo usaria nela. Uma irmã mais nova não deveria contradizer a irmã mais velha desse jeito, principalmente na frente de visitantes. Isso precisa ser punido!

    — Aquilo foi um acidente — admitiu Baalat. — Além do mais, a alma dele ainda não tinha chegado às Prisões. A da sua amiga já chegou, Renato. Tirar alguém das Prisões dessa forma, requer uma autoridade que eu não tenho. Só o grande e babaca Lúcifer, pai ausente de merda! Onde é que já se viu? Sair dessa forma pra jogar com o amigo e deixar todo um reino nas costas das filhas? Imbecil sem noção!

    — Não deveria falar assim de nosso pai! — reclamou Angélica.

    — Pois eu falo! E se ele não gostar, ele que venha reclamar pessoalmente comigo!

    — Como eu  chego até ele? — perguntou Renato.

    Baalat apontou para a garrafa. Renato bebeu mais um gole. Dessa vez, ele achou mesmo que fosse cair. A vista escureceu, o formigamento se espalhou por todo o corpo e foi como ter fogo ardendo dentro do peito.

    — Como… — A voz dele falhou. — Como eu chego até ele?

    Baalat deu de ombros.

    — Vai saber! Em algum microcosmo paralelo do multiverso! Ele tá jogando, sabe? Ele e Deus só ficam apostando. São dois viciados! Tudo começou com aquele cara… qual era mesmo o nome? “Viste meu servo Jó”, disse Deus. “Homem fiel, e blá blá blá”, aí Satanás: “Ah, mas ele só é fiel porque você dá tudo do bom e do melhor pra ele e tal, aposto que se tirar a riqueza dele, ele te abandona” e aí Deus: “quer apostar?”. Depois disso, os dois viraram viciados em apostas. Apostaram sobre quais impérios iriam cair e quais iriam prosperar; apostaram sobre quais asteróides atingiriam a Terra; já jogaram xadrez, chaturanga, poker… até Counter Strike! Mas a moda da vez é o truco. Deus e o Diabo estão há bastante tempo nesse jogo. E sabe o que é pior? Meu pai não ganha uma única partida! Mas eles não param! As poucas entidades que sabem como chegar até eles, não se atrevem a atrapalhá-los. Enquanto isso, eu, ao invés de estar aproveitando minha vida demoníaca, tenho que cuidar desse Inferno! Um saco!

    Renato não pôde deixar de rir. Satanás só perde e continua jogando. Se apresentar o tigrinho pra ele, o Inferno inteiro se torna da Virgínia em pouco tempo.

    — Acho que sei como chegar até ele.

    — Sabe?

    — Há um tempo atrás, eu estive lá. Eu vi o jogo.

    — Não faz sentido. Ninguém consegue chegar lá assim…

    — Foi quando eu morri. Arimã me puxou através das dimensões até chegar no Vazio. Uma dessas dimensões foi a Sala do Jogo.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota