Capítulo 200: Truco com o Diabo - parte II
O Diabo sorriu e acomodou-se em sua cadeira.
— O senhor nos dá licença por um instante?
— Mas é claro — respondeu Deus, levantou-se de sua cadeira e ficou de pé, ao lado da mesa. — Aposto Júpiter, pelo seu Trono de Esmeralda e Césio-137, que você perde.
— Aceito. Vamos garoto! Acomode-se!
Renato ficou meio tímido, o que era raro para ele.
— Tudo bem se eu sentar na sua cadeira?
— Vá em frente — respondeu Deus. — Não é um trono. É só uma cadeira de bar.
— Tudo bem, então.
O garoto se acomodou na cadeira de frente para Lúcifer.
Satã pegou as cartas da mesa e as embaralhou com a habilidade de um mágico experiente. As cartas dançavam nas mãos dele, pulavam de uma mão para outra, giravam, atravessavam umas às outras, mudando de posição no baralho magicamente. Uma até pegou fogo e se tornou cinzas rapidamente, mas quando o Diabo aparou as cinzas ainda no ar, elas voltaram a ser a carta, e ele a enfiou no meio do deck.
O garoto até tentou acompanhar com os olhos, mas foi impossível, então fazer o melhor corte possível era sua missão mais importante.
— Que tipo de truco vamos jogar?
Um sorriso malandro apareceu no canto da boca de Lúcifer.
— Truco paulista, com baralho sujo.
“Baralho sujo” raciocinou Renato. “Pensando bem, as cartas não aumentaram de quantidade enquanto ele embaralhava? E eu não vi nenhuma carta com número em cima da mesa. Então, ele estava jogando com baralho limpo antes. Por que quer mudar agora? Talvez, ele pense que assim fica mais fácil me confundir.”
Renato se permitiu um sorriso discreto, que Lúcifer não deixou escapar de seus olhos atentos.
Essa era a modalidade de truco que ele mais jogava na escola.
O Diabo finalmente entregou o baralho para Renato.
Ele tinha direito a três cortes, que com certeza não desperdiçaria. Essa etapa, se bem feita, lhe daria uma chance real de vencer; porém, se mal feita, significaria derrota certa e rápida.
Renato segurou o baralho com as duas mãos.
A maioria das pessoas corta, imediatamente, bem no meio, dividindo o deck em duas partes iguais.
Uma porcentagem menor, mas ainda assim alta, divide o baralho numa proporção de 30 e 70 por cento, numa tentativa de desfazer qualquer camaço que seu adversário tenha feito.
Um embaralhador experiente deve saber disso, ele preveria esses cortes e faria seu camaço de modo a garantir que as cartas boas vá para ele no final e as ruins para o adversário, mesmo que o adversário tenha a ilusão de ter interferido na ordem das cartas.
Renato pegou uma última carta, da parte da frente do baralho, onde teria o naipe e o valor dela.
Os olhos de Lúcifer olhavam diretamente nos de Renato.
O garoto enfiou a carta mais ou menos no ponto de 30 por cento do deck, mais próximo da parte do dorso.
Uma única carta e 39 lugares aleatórios que ela poderia ocupar.
Mesmo que Lúcifer tenha uma capacidade mental sobrehumana, e consiga calcular infinitas possibilidades, a quantidade de cartas boas era finita, e existia a chance real de Renato ter escolhido uma posição desfavorável para o Diabo.
Segundo corte: ele pegou metade do baralho e passou para a parte do dorso.
Terceiro corte: pegou o miolo do baralho e colocou na frente.
Devolveu o deck para Lúcifer.
Satanás, sem nenhuma expressão, pegou uma carta de baixo do deck e a virou: um 4 de copas, assim definindo aquelas que seriam as mais fortes cartas da mão: os cincos seriam as manilhas!
Em seguida, Satanás entregou três cartas para Renato e pegou três para si, uma carta de cada vez.
Finalmente o jogo começaria.
O truco pode ser mais simples do que o poker, mas traz uma selvageria única. Cada mão jogada é uma batalha, não só de sorte, mas também de habilidade e psicológica.
Demonstrar fraqueza, numa mesa de truco, sempre é fatal, mesmo com boas cartas.
Renato olhou o que tinha na mão. Dois ases, copas e espadas, e um rei de paus. Não era a melhor das mãos! Mas também estava longe de ser horrível.
Lúcifer continuava com aquele olhar repugnante! Neutro, sem nenhuma emoção.
Deus, por outro lado, parecia se divertir enquanto assistia, com um sorrisinho no canto da boca, de quem parecia saber as cartas dos dois jogadores.
A vontade do garoto era bater com as duas mãos na mesa e gritar truco! E na sequência, cuspir uma quantidade absurda de palavrões. Costumava funcionar na escola. Era dessa forma que ele aprendeu a jogar. Mas fazer isso não daria certo ali. Afinal, seu adversário não era um daqueles garotos do terceiro ano metidos a bandidões só porque fumavam no banheiro.
Ele pegou o ás de espadas e jogou na mesa.
O sorriso de Lúcifer carregava tanta superioridade, que faria até mesmo Baalat e Clara sentirem-se diminuídas.
Sem nem revelar uma única carta de sua mão, ele olhou nos olhos de Renato e disse:
— Truco!
Droga! Renato não podia demonstrar fraqueza! Isso poderia muito bem ser um blefe. Mas e se não for?
As cartas mais fortes que ele tinha eram os ases, e acabou de jogar um deles.
Satanás nem precisava de uma mão tão forte para vencê-lo. Qualquer duquezinho faria história!
Melhor entregar um tento, ou ponto, do que arriscar perder três com uma mão ruim.
— Não quero.
Renato devolveu suas duas cartas restantes à mesa, sem virá-las, é claro.
Satanás gargalhou.
— Se for covarde, Renato, vai perder rapidinho!
— Agora eu embaralho!
Ele disse isso tentando parecer ameaçador, como se soubesse fazer camaço. E ele gostaria mesmo de saber!
Um dia, o Hiro até tentou ensiná-lo, mas não deu muito certo.
Entretanto, o Diabo não sabia disso.
O truco também se ganha no terreno psicológico.
Depois dos cortes de Lúcifer, que seguiam aquele padrão mais previsível possível, o jogo recomeçou.
As manilhas agora seriam os reis.
As cartas de Renato? Dama de paus, 7 de espadas e às de copas.
Uma mão pior que a anterior!
“Esse ás de copas tá me perseguindo!” Pensou o garoto. “Quando ele for manilha, ele não vem, certeza!”
Lúcifer nem pegou suas cartas da mesa.
Apenas lhe direcionou um sorrisinho asqueroso e sussurrou:
— Truco!
Merda! Esse cara não pode estar saindo com cartas boas de novo! É matematicamente improvável. Mas ainda assim… possível.
Aceitar truco com essa mão ruim é loucura!
Renato respirou fundo.
Não pode deixar o nervosismo tomar conta. Precisava manter a calma.
Jogadores que trucam toda hora tendem a perder no longo prazo.
O problema era Lúcifer pescando o comportamento de Renato, analisando-o. Mesmo assim, não tinha como aceitar dessa vez!
— Não quero.
Lúcifer gargalhou alto, e até Deus riu um pouquinho.
Mas a próxima seria diferente!
Lúcifer embaralhou e, para fugir do padrão, dessa vez Renato nem cortou. Apenas deu um toquinho no topo do deck com a ponta do dedo.
E funcionou!
Suas cartas, finalmente, eram boas!

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