Índice de Capítulo

    Na Taverna da Caverna, em Baixoforno, Angélica era a mais impaciente. Ela batia o pé no chão rapidamente, de nervosismo, e tinha no rosto uma expressão emburrada.

    — Humpf! O senhor humano já devia ter chegado! Aposto que ele morreu! Incompetente!

    E, para aplacar o nervosismo, ela decidiu beber mais um gole de suco. Foi até o balcão e falou para o taberneiro:

    — Me traga mais suco, senhor! E dessa vez, coloque algumas pedras de gelo. Aquele outro estava meio quente.

    O charuto do taberneiro tremeu em seus lábios, bem como suas pálpebras, num tipo de tique. Ele baixou os ombros, resignado. Olhou um tempo para seu próprio dedo indicador, lamentando que teria de fazer novamente aquela coisa desagradável. O cheiro ainda estava impregnado em suas unhas.

    — Certo, senhorita. Seu desejo é uma ordem para mim! — Após uma reverência, ele virou as costas e foi providenciar o suco da menina.

    Instantes depois, um novo grito de agonia ecoou pela taverna, e a luz de uma labareda pôde ser vista, brilhando detrás daquela porta de madeira semi-aberta. Não tinha outro jeito! Era um sacrifício necessário.

    A coisa mais próxima do suco de uva que a Primeira Princesa desejava, e que ele tinha nos estoques, era o vinho de qualidade duvidosa.

    Berry, portanto, deveria usar seus poderes de fogo para ferver o vinho e evaporar o álcool, depois ele precisaria apenas providenciar o resfriamento adequado através de magia.

    O sacrifício dos recantos obscuros e profundos de Berry era um mal necessário, haja vista que o demônio estava desacordado devido à cachaça de Baalat.

    — Quem mandou ser beberrão! — disse o taberneiro, emburrado.

    Baalat ainda bebia sua cachaça alegremente. Era uma bebida única! Tão forte que poderia ser usada para funcionar um motor de carro movido a álcool!

    Seus olhos estavam meio fundos, cansados, e ela já via as coisas de maneira bagunçada. Era como se toda a taverna estivesse girando.

    Clara, por outro lado, estava sentada numa cadeira de outra mesa, com as pernas cruzadas de maneira sensual. Parecia uma lady.

    Uma taça de vinho repousava sobre a mesa, próxima de seus dedos.

    Não podia se dar ao luxo de ficar bêbada. Tinha que ajudar Renato! Ela também tinha interesses em jogo.

    — Ao contrário desta pé de cana aí… — pensou alto demais.

    — O que você disse? — perguntou Baalat.

    — Não disse nada.

    — Disse sim! Você me chamou de pé de cana! Hic! — Soluçou. A voz dela estava falhando. — Eu não… não estou bêbada, se você quer saber? Ouviu? 

    — Impossível não ouvir.

    — Se… se você ficar falando isso… Hic! …vamos ter que acertar as nossas contas nas Areias da Segunda Morte!

    — Eu passo! — Clara bebeu um gole de seu vinho.

    — Tá com medinho? Achei que as súcubos eram… vadias que sabiam lutar, mas pelo jeito são só vadias mesmo!

    — Vadias da melhor estirpe! — Ela ergueu sua taça — Um brinde à rainha das vadias! Euzinha, linda! E não à garotas problemáticas com daddy issues!

    Baalat fez uma careta. Não tinha gostado nem um pouco desse tom sarcástico! Mas antes que pudesse falar alguma coisa, uma luz cintilou no ar. Era um traço vertical, um rasgo no espaço, como uma serpente flutuante e brilhante.

    E dessa luz, saiu Renato. Em suas mãos, trazia um rolo de pergaminho.

    — Renato! — Clara se levantou rapidamente, alegre com a volta dele, mas disfarçou. Pigarreou. — Você demorou! Me deixou esperando aqui com essa alcoólatra dantesca do sétimo círculo do Inferno!

    — Curioso você me chamar de alcoólatra — disse Baalat —, considerando que bebeu quase todo o estoque de vinho da taberna pra tentar lidar com sua preocupação pelo garoto.

    — Eu não bebi tanto assim…. E não estava muito preocupada também…

    — Você mente muito mal! — Baalat riu. — O que tem aí, Renato?

    O garoto entregou para ela o pergaminho, Baalat o abriu e viu o conteúdo.

    — Não acredito! Conseguiu! Você conseguiu mesmo!

    — O Renato sempre consegue — disse Clara, com a taça de vinho na mão. — Não é nenhuma surpresa!

    — Como? — Baalat estava lendo aquelas palavras escritas com a letra de seu pai. E havia até mesmo uma gota de sangue, confirmando a veracidade do documento. — Como conseguiu convencer Lúcifer a te dar a autorização?

    — Ganhei dele no truco.

    *

    Mesmo não sendo sua primeira visita às Prisões, ver as portas se abrindo sempre impressionava Renato: era a boca do vulcão Krakat, onde, dentro de sua cratera, a lava fervia como num caldeirão gigante de fogo.

    E, num sinal de mão do demônio Syrach, a lava se agitou e, semelhante ao mito bíblico de Moisés, se dividiu em duas partes, formando um caminho de escadas feitas de rocha vulcânica flanqueado por paredes de fogo e enxofre.

    Syrach foi o primeiro a descer os degraus. Sua armadura pesada fazia um som surdo e metálico, sempre que seus pés batiam no chão.

    Nas alturas, centenas de demônios sobrevoavam a área em círculo, como abutres farejando carcaça.

    Renato, Clara, Baalat e Angélica seguiram o General dos Atormentadores rumo às profundezas escuras e frias.

    A escuridão em volta era repelida por tochas crepitantes presas às paredes. O chão era todo coberto de cinzas e pó de fuligem.

    O primeiro andar era formado por um longo corredor, ladeado por celas de prisão à direita e à esquerda. 

    Cada cela abrigava um único prisioneiro, que na grande maioria das vezes era humano: homens, mulheres, crianças, idosos…

    Mas algumas celas também abrigavam demônios, demi-humanos, reptilianos e monstros dos mais variados tipos, com tentáculos, garras, chifres…

    Nesse local, não havia diferença entre eles. Eram todos iguais, corroídos pelo tempo, destruídos pela falta de esperança. Era a prisão derradeira. De vez em quando, gemidos e sussurros doloridos ecoavam baixinho.

    Do corredor principal, muitos outros se ramificavam, como numa grande teia, formando um labirinto escuro, úmido, quente e fedido.

    Através de escadas esculpidas na própria pedra que formava o chão, desceram para andares ainda mais profundos.

    Quanto mais desciam, mais opressivo e aterrorizante o ambiente se tornava. Pontas se projetavam das paredes, como se a própria rocha estendesse suas garras para segurar os visitantes.

    — Sentindo nostalgia, princesa? — perguntou Syrach. — No passado, você costumava passar bastante tempo nessas prisões.

    Os olhos de Baalat brilharam.

    — Ando tão ocupada, que não sobra tempo nem para um entretenimento saudável!

    — Eu entendo. Os prisioneiros vão ficar mal acostumados.

    Desceram muitos andares e atravessaram corredores sem fim. O calor e o cheiro podre ficaram ainda piores. E a umidade fazia o musgo crescer nas paredes de pedra.

    Até que finalmente pararam diante de uma cela vazia.

    Não. Não estava tão vazia assim! Renato notou, havia uma luminescência. Um borrão de luz translúcido no meio da cela. 

    — Infelizmente — disse Syrach —, ainda não deu o tempo necessário para esta alma receber um Corpo Renascido de Miséria. Terão de levá-la assim mesmo.

    — Não tem problema! — respondeu Baalat. — Só precisamos da alma.

    — Veja, a luz mudou de cor! Se tornou… alaranjada! — Apontou Angélica.

    — Tâmara reconheceu Renato — concluiu Clara. — Sua alma mudou de cor!

    — Tâmara… — O garoto se aproximou da cela. Tocou a pedra quente e maciça que formava as grades. — Vim te buscar!

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