Índice de Capítulo

    Syrach parou diante da cela de Tâmara.

    Vestia uma armadura negra bem polida. Sua pele, quase tão negra quanto a armadura, brilhava à luz das tochas. Os cabelos prateados escorriam pelo pescoço em direção aos ombros, mas mal os tocavam.

    — Deixe-me ver novamente o pergaminho.

    — Syrach, nós já conferimos a autenticidade! — Irritou-se Angélica.

    — Sei disso, minha Princesa, mas… — Fez uma pausa e respirou —, zelar pela ordem e pela manutenção das Prisões é minha responsabilidade. 

    — Mostre a ele, Renato! — ordenou Baalat.

    O garoto entregou o pergaminho enrolado para Syrach.

    O General dos Atormentadores desenrolou-o e o leu atentamente. Seus olhos amarelo-limão brilhavam à pouca luz.

    Aproximou o nariz da gotinha de sangue seco e farejou.

    — Realmente… é um documento legítimo.

    — Não falei?! — Exasperou-se Angélica, batendo o pé no chão. — Acha que nós não reconheceriamos a letra de nosso pai? Foi um tolo, Syrach! Agora cumpra a ordem dada por Lúcifer, o seu Senhor!

    — Sim, senhorita!

    Com um gesto de sua mão, a cela de prisão estalou. Um som abafado veio das profundezas dos túneis.

    Poeira se descolou do teto.

    E as grades, feitas de pedra vulcânica, rangeram e começaram a se desmanchar, derretendo-se.

    A luminescência finalmente saiu da cela e, sem perder tempo, flutuou até Renato. O garoto sentiu calafrios e uma brisa gelada atípica para o lugar onde estavam.

    — Parabéns, Renato! Agora tem um encosto te assombrando! — Gargalhou Clara.

    — Não é muito diferente de ter um demônio. — O garoto deu de ombros.

    — Acho que vai chover sangue hoje — disse Baalat. — Não é comum que almas saiam do Inferno.

    Syrach pigarreou, devolvendo o pergaminho a Renato.

    — Agora que a ordem foi cumprida, suponho que não há mais nada que o humano e esta súcubo precisem fazer aqui. Estás prisões não foram feitas para receber tantos visitantes.

    — Parece até que está nos expulsando — disse Clara, com a voz cortante.

    — Se entendeu dessa forma, entendeu bem.

    — Humpf! Não precisa falar duas vezes! Esse lugar fede a mofo e merda!

    — Talvez esteja sentindo os próprios odores. Quando foi a última vez que se limpou?

    Clara franziu o cenho, irritada.

    — Eu vou matar esse cara…

    — Tem mais uma coisa que eu gostaria de perguntar às princesas — disse Renato, se aproximando das duas.

    Baalat lhe direcionou um olhar superior e entediado.

    — Já não conseguiu sua garota fantasma? De que mais precisa? O que o Inferno pode fazer por você, condutor?

    — O garoto reptiliano. Quero falar com ele antes de partir. Onde ele está?

    — Garoto reptiliano? Qual deles? Existem tantos!

    — O filho de Kazov.

    — Kazov? Acho que não conheço. — Baalat levou o dedo ao queixo, pensativa.

    — O reptiliano que lutou comigo nas Áreas da Segunda Morte. Preciso falar com o filho dele.

    — Ah! Aquele! Por quê?

    — É, Renato, por quê? — perguntou Clara.

    — Tem uma coisa que preciso contar a ele.

    — Uma coisa? Tão misterioso! — respondeu Baalat. — O condutor de Arimã sempre quer um monte de coisas, não é? Mas dessa vez será impossível. O garoto desapareceu há vários dias. Não sabemos onde ele está.

    — Desapareceu?

    — Sim, ué. Sumiu. Mandei investigar o caso porque, sabe como é, eu preciso saber dessas coisas. E ninguém sabe onde ele se meteu. Talvez tenha virado comida de Orc ou de Escorpião do Terror. — Ela deu de ombros. — Disseram que ele ficava perguntando sobre uma irmã que ninguém se lembrava. Sinceramente, acho que ele enlouqueceu depois que o pai morreu. Essas coisas acontecem, sabe? Como era mesmo o nome…? Kazov… era sua única família.

    — Eu acho que ele partiu para procurar pela irmã! — disse a segunda princesa. — Aposto que está numa aventura agora mesmo!

    — Angélica, não existe irmã! Não há sequer um único registro dela. Se ele saiu para procurá-la, — Baalat meneou a cabeça —, está procurando uma fantasia. Se é que ainda está vivo.

    — Entendi… — Renato baixou a cabeça. — Se encontrá-lo, pode me avisar?

    — É claro. — Baalat sorriu. — Mas vai me dever um favor.

    — É justo. Se me dão licença, tenho uma garota para ressuscitar!

    — Ah, não tão rápido! — Baalat pôs a mão sobre o ombro do garoto. — Se lembra do que prometeu antes? Vai me dizer tudo o que aconteceu na sala do jogo. Vamos até o castelo e beba comigo enquanto falamos!

    Renato tinha pressa, mas quando foi que ele recusou um convite para beber?


    — É com imenso prazer e muita alegria que eu chamo esse convidado aqui hoje! Ele! O homem do momento! Um empresário bem sucedido, filantropo e um player importante na geopolítica mundial! E não menos importante, também um pai amoroso, marido dedicado… — Enquanto o apresentador de televisão ia falando, gesticulando dramaticamente com os braços, com certa dificuldade devido a seu corpo rechonchudo, imagens passavam no telão atrás dele, exibindo momentos familiares de Emmanuel Messias abrandando os filhos e a esposa, mas também mostrava momentos importantes, reuniões com líderes mundiais, discursos para multidões, daquele que tinha emergindo do mar. — Ele, o bilionário Emmanuel Messias!

    E o empresário apareceu, saindo de trás das cortinas. Usava um terno elegante, sapatos caros e bonitos, e um Rolex de ouro no pulso. Cabelos cortados, alinhados; um sorriso simpático, com dentes brancos e bonitos à mostra.

    Enquanto caminhava pelo cenário, acenava para a plateia, que, eufórica, gritava o nome dele e aplaudia.

    Cumprimentou o apresentador Sô Joares com um aperto de mão amigável e ambos sentaram-se. O apresentador, em sua cadeira costumeira, levemente mais alta; e o convidado, no confortável banco que ficava ao lado. Dessa forma, ambos olhariam para as câmeras e para o auditório, durante a conversa.

    — Primeiramente boa noite, Emmanuel! Eu fico muito feliz de receber você aqui. Eu sei o quanto sua agenda é ocupada.

    — Ah, que isso… é um prazer estar aqui, Sô Joares! Eu assistia você quando era criança! — O bilionário sorriu.

    — Olha só… acho que eu tô ficando velho! — riu o apresentador. 

    A plateia gargalhou junto. A banda tocou um riffzinho animado, cujo ritmo acompanhou as palmas e risadas do público.

    — Velho não; apenas um clássico! — respondeu finalmente o bilionário. — Igual o Metallica e o Guns And Roses!

    — Oh, que legal! Você gosta de rock?

    — Eu gosto de música no geral, sabe? De cultura. Sempre que eu posso eu vou ao teatro, sabe? Gosto dessas coisas.

    — Sabia que eu fui uma vez na Broadway, e além de não conseguir assistir ao espetáculo, eu tomei chuva e ainda levei um golpe de um daqueles vendedores de lá. Imagina? O cara sai do brasil pra ser assaltado em dólar?

    Mais uma vez a banda tocou o riffzinho, chamando a plateia para uma gargalhada amistosa.

    — É, isso é um problema, Sô Joares! Tem muitos golpistas por lá mesmo. Esses dias eu estava conversando com o presidente dos Estados Unidos sobre uma forma de resolver isso aí. Porque, do jeito que está, vai ficar cada dia mais difícil fazer turismo, não é verdade?

    — É verdade! Mas e essa conversa com o presidente, Emmanuel? Tem mais coisas que você pode revelar pra gente?

    — Tem algumas coisas sim… A gente falou sobre como acabar com todas estas guerras que estão acontecendo, entende? O mundo parece que está a ponto de implodir. Acho que é nosso dever, já que temos recursos, proteger os mais fracos e os inocentes!

    A plateia aplaudiu. O apresentador aplaudiu junto.

    Emmanuel Messias assentiu, satisfeito. Seu carisma era infalível.

    A conversa séria muito produtiva.

    — Assim na Terra… — sussurrou A Besta, baixinho, só para ele mesmo ouvir —… como no Inferno.

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