Capítulo 206: Frio do Mal
Assim que os olhos de Tâmara se abriram, ela puxou muito ar para os pulmões. Foi uma respirada profunda e angustiada. Todo o corpo tremeu e se contorceu em espasmos.
Seu tórax ardeu, como se estivesse queimando.
Ela se ergueu, catatônica, e avançou ferozmente sobre a jarra de água e virou o líquido em sua boca. Bebeu com avidez. Com desespero.
A água umidificou seus lábios secos e rachados.
Não importava quanta água bebia, o gosto amargo não saía da língua.
— Preciso de mais! — disse ela, com dificuldades, após beber toda a água da jarra.
O garoto se aproximou.
— Tâmara… você…
— Renato! — Ela tentou pular sobre ele, mas tropeçou nos próprios pés e caiu no chão. Ergueu os olhos para ver aquele que amava mais do que a si mesma. — Meus pés não… respondem! Minhas pernas tremem…minha cabeça dói… — A voz saiu fraca, quase inaudível. — O que… o que… acont…
— Tâmara… — O garoto a abraçou. — Que bom que voltou!
— Eu… o que houve? Por que tá tão frio? Parece que eu tomei a maior surra da minha vida! Meus ouvidos estão zumbindo. Parece que minha cabeça vai explodir! O que houve?
— Tâmara, não se lembra?
— Ah, eu lembro que a gente estava enfrentando os cavaleiros e… acho que eu fui atingida! E aí tudo ficou escuro. — Ela levou as mãos às têmporas e fez uma careta de dor. — Acho que eu me machuquei. Te atrapalhei, não foi?
— Acha que se machucou? — Clara riu. — Você morreu, fofinha. Bateu as botas. Vestiu o paletó de madeira. Se bem que… não chegou a vestir de fato. — A súcubo levou a mão ao queixo, pensativa. — Mas que caiu nas prisões da punição eterna, ah, caiu!
— O quê? Como…
— O Renato foi até o Inferno e resgatou sua alma. — A súcubo deu de ombros. — Ele é mesmo incrível, não acha? Acho que você deveria agradecer a ele de joelhos! E eu ajudei, então seria de bom tom me agradecer de joelhos também!
— Deixamos seu corpo congelado no freezer por todo esse tempo — disse Lírica, um tanto apática. — Mesmo assim, já estava começando a cheirar mal.
— Isso parece um filme de terror! — murmurou Irina, com assombro, enquanto levava as mãos ao rosto e balançava a cabeça.
— Bom… isso explica porque eu tô toda ferrada… — Tâmara moveu o braço com dificuldade e tentou sorrir, mas ao invés disso, fez uma careta de dor.
— Posso ajudar com isso — disse Mical, se aproximando. Ela tocou Tâmara, que foi envolvida pela luz verde curativa.
— Me sinto bem melhor! Valeu, Mical! — Tâmara se levantou, ainda com dificuldade devido às vertigens. — Agora tudo o que eu preciso é de um banho quente! Bem quente!
— Bem quente? — Clara assentiu. — Tá com saudade do andar de baixo?
Tâmara apenas bufou, irritada.
— Você podia tomar banho comigo, não é, Renato?
— Ah, bem…
— Por favorzinho! Diz que sim! Eu acabei de ressuscitar! Acho que mereço um banho quente com o meu Renato!
— “Seu Renato” uma ova! — irritou-se Irina.
— Nosso Renato, então. Mesmo assim, eu acho que mereço! — Tâmara fez beicinho.
— Não gosto da ideia de deixar essa garota sozinha com o Renato… — disse Jéssica.
— Eu também não — concordou Lírica.
— E eu muito menos! Humpf! — Irina tinha uma veia na testa que parecia a ponto de explodir.
— Então está resolvido. Vamos todas tomar banho juntinhas do Renato! — Clara trouxe a solução óbvia. — Sem nenhuma intenção oculta, é claro. Apenas para vigiar a Tâmara, afinal, todas concordamos que ela é perigosa, não é? — A súcubo parecia teatral. — Todas juntinhas, do jeito que viemos ao mundo! Molhadinhas, escorregadias de sabão…
— Não faça parecer algo pervertido, sua súcubo assanhada! — berrou Irina. — S-só vou ir junto pra vigiar todas vocês! Vocês são tão perigosas quanto ao Lázaro de saia psicopata aí!
— Eu não sou perigosa! — protestou Mical.
— Você tem uma bazuca mágica, Mical! Você é perigosa! — retrucou Irina.
— Então está decidido! Todas nós! — Clara tinha um olhar profundamente safado no rosto.
— Ah, até que eu gosto da ideia! — Renato até que tentou conter o sorriso, mas não teve muito sucesso.
**
No meio da madrugada, enquanto Renato dormia tranquilamente junto das garotas, uma brisa gelada soprou diferente no quarto.
Uma fina camada de gelo, azulada e brilhante, começou a cobrir o chão, desenhando no piso ranhuras e padrões ramificados e translúcidos: lindos dendritos de gelo em formato de estrelas e prismas.
Mical, sentindo o frio na pele mesmo dormindo, se encolheu debaixo das cobertas.
E as garras de Lírica, ferinas como garras de leão, tocaram a garganta da invasora. Uma única gota de sangue escorreu na pele pálida feito gelo.
— Como ousa invadir dessa forma? Está tentando nos atacar enquanto dormimos?
— Não. — Lua engoliu em seco. A garra tocando sua garganta incomodou ainda mais. — Eu só…
— Fique tranquila, Lírica. — Clara estava sentada em cima do guarda roupas. A espada do pecado com cheiro de tutti-frutti estava em sua mão, mas ela rapidamente a fez desaparecer. — Essa aí é inofensiva. É só um floquinho de neve que aprendeu a falar!
— E você é uma vadia que aprendeu a ser demônio! — retrucou Lua, com dentes cerrados. — E tire isso da minha garganta! — Lua afastou a mão de Lírica com um tapa.
Clara deu de ombros para as palavras da garota elemental.
— Talvez isso seja mesmo verdade.
— A menina do frio do mal! — disse Mical, acusadora, com o dedo indicador.
— Meu frio não é do mal! — Lua pareceu ofendida.
Jéssica moveu o cobertor, revelando o fuzil que estava escondido.
— Não gosto dessa garota!
— Você dorme armada?! — Lua franziu o cenho. — Gente, que paranóica! — Então seus olhos encontraram os de Tâmara, e a frieza que viu naquelas pupilas âmbares fez até a elemental do gelo estremecer. — Tem alguma coisa de errado com ela.
— Não tem nada de errado comigo. — Tâmara apenas se deitou e jogou o cobertor por cima da cabeça, se isolando de toda aquela bagunça. Usou o peito de Renato como travesseiro, se aninhando confortavelmente nele. Estava cansada demais. É claro que, se a situação pedisse, ela agiria. Mas podia deixar com as outras, por enquanto.
O garoto tinha despertado também, mas permaneceu em seu lugar. Não queria tirar o travesseiro de Tâmara. Ela merecia isso. Precisava de conforto. Ele sentia que devia isso a ela!
— E o que quer, Lua do Frio do Mal? — perguntou Clara, pulando do guarda-roupas e caminhando até ela.
Lírica continuou olhando com desconfiança, mas se afastou um pouco.
Lua respirou fundo, contendo a irritação.
— Fiquei com saudades!
— Eu duvido.
— E também…
— Também? Fale logo, porque você está atrapalhando meu sono de beleza!
— Preciso de ajuda.
— Ajuda com o quê?
— Ajuda para atrapalhar um casamento.
— Casamento de quem? — Clara estava começando a gostar do rumo da conversa.
— O meu — respondeu Lua.

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