Track 09. Scandalous Lady

No anoitecer daquele mesmo dia, a praça do centro da cidade estava como de costume. As pessoas retornavam para as suas casas e as últimas lojas estavam fechando. Não havia muitas pessoas na rua, diferente de mais cedo que era um fervo.
A praça central era considerada o coração da cidade. No centro havia um chafariz iluminado, que fazia cintilar as gotas d’água à noite. Em volta havia vários grandes canteiros de árvores nativas da região e arbustos, cuidados pela prefeitura e pela universidade local.
De um dos arbustos, começou a surgir uma luz brilhante, do mesmo tipo que já havia sido vista na vinda de Rosália e Itzel.
A luz foi tomando forma e se revelou uma mulher de aparência jovem, com estatura média-baixa, pele clara e cabelos rosa claro em tom pastel, trançados e presos no alto em cada lado.
Seus olhos eram simpáticos e penetrantes, de cor âmbar, e sua maquiagem era suave. Usava acessórios dourados com gemas preciosas, e um collant em tons de azul e âmbar com pedras incrustadas e botas de cano alto.
— OHHH! Cheguei! É real mesmo! — exclamou a mulher.
— Bem-vinda, Maureen! — Itzel a cumprimentou.
A chegada da bela moça ao planeta já havia sido informada. E Itzel trouxe consigo uma blusa de manga comprida amarela com um ursinho estampado, para entregar a ela.
— Ahhhh, que linda! Essa blusa é a minha cara!
— Que bom! Achei que ia gostar. Vamos até a minha casa — disse Itzel, mostrando o caminho.
— Tá bom! — ela assentiu, vestindo a blusa.
Durante o percurso, observou todos os lugares com atenção: os prédios, as árvores, o chão e o céu. Tudo era muito diferente de sua terra natal. Nada escapava de seu olhar.
— Que lindo! Deve ser bem legal morar por aqui.
— Ah, sim! É sim.
— Eu estava meio preocupada. Rosália disse que aqui era horrível, cheio de monstros, e que eu seria atacada imediatamente.
— Ah! Rosália tende a exagerar um pouco.
— Inclusive, ela estava preocupada se eu te reconheceria. Pensou que você estaria desfigurado, mas você me parece bem.
A última fala de Maureen fez com que Itzel olhasse confuso para ela. Ele não aguentou e soltou uma gargalhada alta.
Após quinze minutos de caminhada, eles pararam na frente de um edifício de esquina com duas torres e dezesseis apartamentos grandes. O térreo possuía salas comerciais.
À frente era possível ver uma luxuosa loja de artigos para banheiro, e, na outra esquina, o caótico posto de gasolina. O prédio também ficava próximo ao campo de futebol da cidade, mas não tanto quanto o de Koa e Adonis.
— UAU! Você está morando nessa casa enorme? — perguntou Maureen.
— HAHAHAHAHA, não é grande não. Isso é um prédio. Tem várias casas nele, de outras pessoas. Chamam de apartamento.
Os dois entraram no local, ele a conduziu até o apartamento em que estava morando. Chegando, abriu a porta.
Dentro do apartamento estavam seus três colegas de quarto: Ren, o dono da videolocadora. Dylan, de olhos verdes, cabelos ondulados e castanhos, escondidos por uma touca de malha, observava Maureen com atenção. Kenta, alto e de aparência agressiva, com piercings, vestes pretas e cabelo com a franja tampando um olho, que não parava de encarar a mulher.
Os três, que assistiam TV e bebiam cerveja, ao escutarem a porta abrindo, se viraram para cumprimentar Itzel. Ren, o mais animado, levantou-se com a cerveja na mão para oferecer ao colega.
Logo o cumprimento de boas-vindas foi interrompido. Os três estavam boquiabertos com a garota que seu companheiro de quarto havia trazido consigo.
— Você mora com humanos da Terra? — Maureen questionou.
— Sim! Moro sim! Eles são inofensivos.
Enquanto os dois conversavam, Ren o puxou para o canto para tirar satisfação:
— Itzel, você não disse que tinha namorada.
— Não, ela é só uma amiga.
— Amiga? Pô, mano, apresenta essa sua amiga aí! — pediu Dylan, levemente alcoolizado.
— Essa é Maureen. Vou mostrar a cidade pra ela. Até mais.
Itzel foi rapidamente com sua amiga em direção à porta. Enquanto eles saíam, os três que ficaram apenas fizeram um “HUUUUMMM” em uníssono. Itzel se mostrou ainda mais irritado e bateu a porta com força. Maureen se espantou com a atitude de seu amigo.
— Itzel, é como Rosália disse? Você está sendo mantido em cativeiro?
Assim que ficaram sozinhos, ela apontou para os seus olhos e deu duas piscadas:
— Pisque duas vezes se precisar de ajuda!
Itzel encarou a moça de cabelos rosa claro de maneira séria e sem graça e deu um suspiro longo. Ele voltou a caminhar e a explicar um pouco sobre sua vida no planeta:
— Eu trabalho com eles e divido o aluguel.
— O que é um aluguel?
— É quando você paga para morar numa casa emprestada.
Enquanto conversavam, seu amigo Ren, alcoolizado, abriu a janela e gritou do segundo andar:
— TENHAM UM BOM ENCONTRO!
Itzel queria xingar o amigo, mas ficou tão chocado que a única coisa que conseguiu fazer foi ficar encarando a janela, boquiaberto.
— Itzel, eles acham que estamos juntos? Por que não fala que já tem a Rosália? — perguntou Maureen, esbaforida.
— Eu… não falo sobre minha vida pessoal.
Não precisaram caminhar muito para chegarem na lancheria próxima, que ficava há apenas uma quadra de distância. O lugar não era muito grande, porém era aconchegante e famoso na cidade.
Localizada numa esquina, a lanchonete servia no local e também fazia tele-entregas. A especialidade local era o X Salada com maionese caseira, milho e ervilha, além da carne, é claro, e do alface e vinagrete.
— Ohhh! Vamos experimentar comidas da Terra?
— Vamos! Convidei Koa e Adonis também!
Os dois foram procurar uma mesa com quatro cadeiras para caberem todos. Logo Adonis apareceu e foi se aproximando do local. Ao ver seus amigos, abriu um sorriso e os cumprimentou animado:
— Daê! Itzel, Maureen! Como tão? — disse Adonis, apressando o passo.
— Oi Adonis! Koa já está vindo? — perguntou Itzel.
— Ah, não. Ele disse que não precisava porque você ia cuidar de mim.
Itzel não gostou de escutar aquelas palavras, pois percebeu que precisaria pagar o lanche de todos sozinho, além de ter que ficar de babá. Sua carteira voltaria muito mais leve aquele dia.
— Senta aí! — pediu Maureen, apontando para a cadeira na frente de Itzel.
— Valeu! — agradeceu Adonis, sentando-se.
— Eu vou pedir o que acho que vão gostar — informou Itzel, com o cardápio em mãos.
— E isso é bom? — questionou Maureen, olhando a imagem do X Salada no cardápio.
— Não entendi nada, mas também não conhecia a comida da escola, bora experimentar isso. — comentou Adonis, pegando o outro cardápio.
Itzel já era bem familiarizado com o local, pois costumava vir com seus amigos. E já conhecia seus amigos de Finalia há tempo, permitindo que ele escolhesse o que achasse melhor. Ele chamou o garçom e fez os pedidos para todos. Enquanto isso, Maureen conversava em paralelo com Adonis, curiosa com as experiências do jovenzinho:
— Conta aí Adonis, o que veio fazer?
— Eu? Ah, tentar localizar as Potentia.
— É que pelo visto você tem a mesma idade delas, fica mais fácil — explicou Itzel.
— Mas isso não faz lógica! Por que você e a Rosália não procuram? Vocês que viram! Não seria mais fácil?
— Rosália ficou apavorada, não quer mais voltar. Eu só vi a mais velha. Não fixei a aparência das outras. E no colégio fica mais fácil de procurar sendo estudante.
— Tá, tendi… Mas cara… tô odiando a escola. — comentou Adonis.
— HAHAHA, então está bem enturmado. Acho que o que você tem que fazer é encontrar alguém com comportamento estranho.
— Todos são estranhos. Acho que tenho que procurar o contrário…
— Você devia arranjar uma namorada. — propôs Maureen, se colocando na conversa.
— QUE!??? QUE NOJO!! — o escândalo de Adonis na lanchonete fez com que os clientes olhassem para ele.
— Maureen… eu não sei como isso vai ajudar na missão. — Itzel estava igualmente chocado com a proposta.
— Ahhh, vai ajudar a criar boas memórias! Eu tive vários na sua idade!
Os dois encararam ela seriamente, nem responderam. Maureen continuou falando de seus namoros. Os dois desviaram o assunto e continuaram conversando e trocando ideias sobre o planeta e o que estavam passando.
Durante esse tempo, um garçom alto, de cabelos castanhos, que aparentava estar por volta dos 25 anos, veio trazer as bebidas à mesa. Essa foi a descrição de Maureen sobre ele, que o analisou de cima a baixo.
— Chegaram as bebidas!
As bebidas foram servidas nos copos. O líquido de cor amarelada e cheiro amargo na taça de Itzel chamou a atenção de Adonis, que perguntou:
— O que é essa bebida aí que você vai beber?
— Isso é cerveja! É para adultos. Só eu e Maureen podemos beber.
— E essa bebida preta de bolinha é o que?
— Se chama refrigerante. É o que as crianças tomam.
Maureen escutou as explicações e pegou a taça de Itzel para beber, sem esperar ser servida. Ela acabou tomando tudo em apenas um gole. Porém, ao sentir o gosto amargo e salgado da bebida, devolveu o líquido de volta ao copo, enojada.
— QUE COISA HORRÍVEL ITZEL!
— NÃO COSPE DE VOLTA NO MEU COPO MAUREEN!
— Itzel, tem mais disso? — pediu Adonis, erguendo a garrafa de refrigerante vazia e apoiando o pé na cadeira.
— JÁ TOMOU TUDO? — Itzel se espantou. — E senta direito!
— Isso é bom mesmo? — Os olhos âmbar de Maureen brilhavam fitando o copo, como um filhotinho.
— Muito, mas se não gostar eu tomo tudo, sem problemas! — respondeu Adonis, segurando o copo.
— Traz mais dois refris — pediu Itzel ao garçom.
— Pode deixar, chefia!
A noite passou e eles beberam e comeram seus lanches enquanto conversavam e riam. Ao final do passeio, Maureen estava com a barriga cheia. Itzel sabia que a rotina em Finalia não era fácil e se sentia aliviado por ter feito seus companheiros se divertirem um pouco. Adonis também parecia aliviado por ter reencontrado os dois, sua expressão era leve e estava sorridente.
— Ai, comi! — Maureen colocou a mão na barriga.
— Vamos indo, então — disse Itzel depois de pagar as contas.
— Brigadão Itzel! Chama pra próxima! — Adonis cumprimentou os dois e saiu correndo em direção à sua casa.
Itzel e Maureen voltaram caminhando juntos em direção ao prédio onde ele morava.
— Essa noite você fica lá em casa.
— Ahh! Vou ser sua amiga de aluguel? — Maureen colocou a mão no rosto, demonstrando sua felicidade.
— Haha, não. É só hoje, amanhã veremos um lugar pra você.
Ele deu uma leve pausa, olhou para o céu e voltou a encarar Maureen, informando:
— A previsão para amanhã é de chuva e trovoada.
A expressão de Maureen mudou rapidamente e ficou mais séria, ela demonstrou um sorriso que mostrava que havia compreendido a mensagem.
— Ótimo! Já vou começar a movimentação.

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