Track 12. Boys & Girls

A manhã parecia mais longa que o normal para Minami. A oportunidade de respirar um pouco de alívio surgiu durante o intervalo. Ela foi se esconder atrás de um murinho, um lugar que quase ninguém frequentava.
Mas seu momento reflexivo não duraria muito, pois Yukino, que a procurava por todos os cantos, apareceu silenciosamente por trás da jovem.
— Achei você! Como tá?
Como se levasse um choque, Minami se assustou e virou a cabeça lentamente em direção a Yukino.
— Tô ótima! — respondeu Minami com a voz trêmula.
— Não tá, não!
Aquelas palavras fizeram os olhos de Minami se encherem de lágrimas. Ao mesmo tempo, ela sentiu segurança em se abrir.
— … Yukino, você que não é muito normal… — Minami soluçava. — … Se eu te mostrar algo, você não vai se assustar?
— Me chamou de louca?
Incomodada, Yukino encarava ela com o canto dos olhos. Minami percebeu e deu uma risadinha.
— Ahhh… errado não tá, né?
Em vez de continuar a conversa, Minami começou a tirar o cachecol. Depois, tirou o casaco e as luvas, revelando a pele que brilhava.
— Não conte para ninguém.
Yukino não demonstrou surpresa alguma com a revelação da colega, na verdade, já tinha pensado em uma solução.
— Por incrível que pareça, eu sei quem pode te ajudar!
— Sério? Sabia que dava pra te contar.
A jovem brilhosa ficou aliviada, e uma ponta de esperança surgiu dentro do coração.
— Vou chamar a Akiko e a Miyu pra verem isso.
— NÃO, PARA! NÃO É PRA MAIS NINGUÉM DA ESCOLA SABER!
Yukino correu para buscar suas amigas, ignorando completamente o pedido de Minami. Ela rapidamente encontrou as duas no pátio e as levou para averiguar a situação. As duas olharam e rapidamente chegaram a uma conclusão:
— Megumi! Tem que falar com a Megumi! — disseram Akiko e Miyu.
— QUÊ?! MAIS UMA PESSOA VAI TER QUE VER ISSO?
Minami sentiu-se encurralada. A discrição não era mais uma opção.
— É que a Potentia da Luz é diferente das outras. Não entendo como funciona, e ela é a única que causa isso — respondeu Akiko.
— Potentia?
— São poderes — explicou Yukino.
— Me sinto naquelas coisas doidas que você assiste, Yukino. Qual é o nome mesmo? — perguntou Minami.
— Anime — respondeu Yukino com um olhar seco e carregado de desprezo.
Durante o diálogo, a música do fim do intervalo tocou. Minami olhou suas roupas empilhadas e ficou preocupada, pois demorava muito para se arrumar novamente, e ela não queria que a vissem brilhando.
— Vai assim mesmo! — sugeriu Yukino.
— Diz que é iluminador — disse Miyu.
— Ninguém vai acreditar nisso — retrucou Minami.
De volta à sala de aula, Minami sentou-se em seu lugar de costume e ficou em silêncio, na esperança de que ninguém olhasse para ela. Seu colega de turma, que sentava ao lado, a encarou e perguntou:
— Minami, o que deu que cê tá brilhando?
— É iluminador.
— Ah, tá!
“Ele acreditou…”, pensou Minami, em choque.
Casa de Sayuri
Sayuri estava em seu ensaio diário, preparando uma nova melodia para o piano. Concentrada, a música fluía com uma incrível leveza, preenchendo o ambiente de maneira harmônica. O cenário parecia o de um ato glorioso e heroico.
— SAYURIIII! — gritou Akiko a plenos pulmões ao chegar em casa.
CLANG. O piano soou quando Sayuri perdeu as notas e teve seus sentimentos cortados. Ela respirou fundo, acalmou-se e virou-se em direção a Akiko, explicando:
— Akiko, não grite enquanto eu estiver tocando, por favor. Eu estava treinando uma melodia mais difícil…
— Mas Sayuri… Temos uma emergência!
Akiko apresentou uma jovem brilhante, iluminada da cabeça aos pés e que precisava de ajuda. Sayuri viu a cena, boquiaberta, e gritou:
— MEGUMI, CORRE AQUI!
Não era costumeiro escutar Sayuri gritar, ainda mais assustada. Megumi desceu as escadas correndo, para verificar o que havia acontecido.
A mulher loira e alta chegou na sala e Minami olhou para ela, ficando encantada com sua beleza. A modelo, ao chegar na sala, se deparou com a cena, tranquila.
— Esfregue bem uma mão na outra e depois bata palmas. Isso vai dissipar a energia — explicou, fazendo os gestos para ela copiar.
Uma sobrancelha arqueada e a boca entreaberta mostravam a confusão interna de Minami, aquilo parecia muito simples para o tamanho do problema dela. Como não tinha muitas alternativas, preferiu imitar o ato, por mais absurdo que parecesse. Esfregou bem suas mãos e bateu palmas. Um leve feixe de luz se espalhou por toda a sala, e ela automaticamente parou de brilhar.
— Quê!? Era só isso? — perguntou Minami, boquiaberta.
— Isso acontece nos estágios iniciais dessa Potentia! Quando desperta, há um acúmulo muito rápido de energia que se concentra na pele, daí precisa dispersar ela. Se quiser, posso te ensinar como usar.
— É… Talvez seja melhor eu aprender, né!?
Apartamento de Koa e Adonis, 21 de março, meio-dia.
Era um dia preguiçoso e o jovem Adonis demorou para acordar. Ele se dirigiu até a cozinha, onde Koa já estava preparando o almoço.
— E aí, Koa! Bom dia — cumprimentou, bocejando.
— Adonis, já é hora do almoço. Não acha que está se levantando muito tarde?
— Mas hoje é domingo. É a minha folga.
Adonis bocejou mais uma vez, atraindo o olhar furioso de Koa. “Folga?”, pensou o homem, parando por um momento.
— Mas já pensou no que vai fazer durante a semana? — perguntou Koa.
— Amanhã tem prova de matemática, trabalho de física pra entregar e minha sala ficou encarregada de coletar caixas de papelão pra gincana.
Koa, numa demonstração de raiva, fincou a faca na tábua de madeira em que fatiava a carne. A resposta do jovem estava bem longe de ser o que ele gostaria de ouvir. Adonis se assustou, deu um salto para trás e arregalou os olhos.
— Adonis… a sua missão! Maureen, Itzel, Yesenia, Rosália, todos já viram as garotas, e você nada até agora!
Adonis uniu as mãos, abaixou a cabeça e respondeu com voz trêmula:
— Eu vou! Eu juro! Não desista de mim!
22 de março, segunda-feira, Colégio
O segundo ano estava em aula de educação física. Neste colégio, as turmas praticavam educação física com meninas e meninos separados. Havia três lugares para isso, o ginásio coberto, a quadra coberta e a descoberta.
Naquele dia o treino era de futebol, esporte que Adonis gostava. Algumas meninas de sua turma assistiam ao jogo e não paravam de elogiar o rapaz.
— Ahhh! É lindo, né?
— Que bom viver na mesma época!
— Que bom estar na mesma sala!
Sendo o atacante, Adonis jogava com a seriedade de um jogador profissional. Sua velocidade era alta, e ele colocava muito esforço no esporte. O esforço fez com que seu corpo e seu rosto ficassem completamente suados, sua pele pingando estava começando a incomodá-lo.
Para limpar o suor, levantou um pouco a camisa e tirou o excesso da testa. O gesto, que era comum entre os garotos, trouxe uma comoção exagerada entre as meninas.
— AHHHHHHHHHHHHHH! — gritaram em uníssono.
— As meninas são estranhas, mano.
Enquanto isso, Aino arrastava Miyu pela mão até a quadra de esportes, com pressa.
— Vem, Miyu, vamos aproveitar que fomos liberadas mais cedo.
— Tá, mas por que estamos indo à quadra?
— Quero ver o Adonis, mas não quero ir sozinha.
— Mas eu não tenho interesse.
— Não faz escândalo.
— …
“Não sou obrigada a ficar aqui…”, pensou Miyu, que foi dando as costas e indo em direção à sua sala de aula.
Ao se virar, ela estava tão focada em sair dali que não foi capaz de enxergar direito o caminho e acabou esbarrando com a cara no peito de alguém.
— Opa! Foi mal, não te vi! — se desculpou Adonis para Miyu.
A moça de cabelos verdes não teceu comentários, estava surpresa. Já o ruivo a encarou e se abaixou para medir sua altura.
— Meu! Cê é muito baixa!
— Quê!?
— Veja pelo lado bom! Cê não bate com a cabeça no teto!
— Que sorte, Miyu! — comentou Aino ao fundo.
Miyu ficou ainda mais irritada e emburrada. Adonis se colocou de pé novamente, não entendendo por que a garota estava chateada. Sem dizer mais nada, ela se virou e saiu em direção ao pátio. Aino correu atrás dela.
— E aí!? Seu coração parou?
— Sim, de raiva!
23 de março, terça-feira, Colégio
As primeiras aulas já haviam terminado, e a música do recreio ecoava. Na turma do primeiro ano, a última aula havia sido de Biologia, e a professora fez um pedido antes de todos saírem:
— Tá, galera, eu sei que é intervalo. Mas alguém me ajuda a levar os livros para o laboratório? — disse a professora Mira, mostrando a pilha gigantesca de livros que havia levado para a sala.
No entanto, todos saíram correndo, sem se preocupar em ajudar. Apenas Miyu se ofereceu para ajudar a professora, que agradeceu e entregou alguns livros para ela levar.
O montante de livros era enorme, quase cobrindo o rosto da jovem, que caminhava devagar para não tropeçar. A sala de aula ficava no térreo, enquanto o laboratório estava no segundo andar, e era preciso subir um bom lance de escadas.
Miyu subiu as escadas cautelosamente e parou diante da porta do laboratório, pensando em como abrir a porta carregando tanto peso. Não demorou muito para que uma mão se estendesse e abrisse a porta para ela.
— Obrigada.
— Não tá pesado? Passa uns livros pra mim — disse Adonis, que havia aberto a porta.
— Não, pode deixar.
Os dois entraram no laboratório. Miyu colocou os livros sobre uma mesa, enquanto Adonis começou a explorar o local, cumprimentando o esqueleto e observando os potes de experimentos.
Ela o observava de canto, apreensiva. Não demorou muito para que ele começasse a passar dos limites, mexendo nas substâncias guardadas.
— Bora misturar substâncias — exclamou, pegando dois líquidos e indo até o balcão.
— EI, NÃO MEXE AÍ! — pediu a jovem.
— Olha esse líquido rosa, que legal!
Adonis misturou os líquidos do tubo de ensaio e do erlenmeyer. Miyu se preocupou e se aproximou dele.
— Adonis! Isso é soda cáustica!
— Olha que massa, ficou rosa! Azul! Verde! Agora ficou amarelo!
As cores chamaram a atenção de Miyu, que começou a prestar atenção, quase que hipnotizada com o experimento.
— Sabe por que isso acontece? — perguntou Adonis, olhando para ela.
Miyu se sentiu desafiada e respondeu prontamente:
— Não é difícil! Na água tinha permanganato de potássio, e a soda cáustica tinha açúcar. Foi essa combinação que resultou nessas cores.
— Isso! Cê é inteligente, curti!
A garota não levou o elogio a sério, ignorando o rapaz. Mas não tardou para que ele tivesse outra ideia brilhante.
— Tá, vou levar isso pra casa.
Ele levantou o recipiente com o experimento, deixando a garota furiosa.
— QUÊ? NÃO! DEIXA ESSAS COISAS NO LUGAR!
— EI! EI! EI!
— ADONIS, LARGA!
No meio da confusão, Adonis desviava e Miyu tentava alcançar o objeto. O erlenmeyer acabou batendo no béquer que estava próximo, e um som fino de vidro ecoou pelo ambiente.

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