Hitomi e Megumi atravessaram o salão até chegarem em dois homens que estavam conversando. Um estava muito animado, já o outro se mantinha sério, escutando.

    O homem animado falava sobre política, impostos e reclamava do posicionamento da indústria. Movimentava bastante as mãos e braços para demonstrar sua indignação.

    Não muito interessado no assunto estava um homem de postura impecável e semblante que mais parecia uma barreira impenetrável. 

    Alto, loiro, olhos azuis e pele clara, vestido de maneira elegante. Suas mãos com luvas seguravam uma taça de champagne, que parecia ainda estar intocada. Perceptivo, notou a presença de duas pessoas se aproximando e se virou para ver quem eram.

    — Veio implorar para não desfilar amanhã? Está com medo? — disse o homem, encarando Hitomi. Sua voz era séria e firme, seu semblante também, era possível sentir um leve sarcasmo, elegante e discreto.

    — Ah, Kaoru Vacchiano, por favor, até parece… Você choraria encolhido no cantinho se eu não desfilasse para você. — respondeu Hitomi, devolvendo a provocação, com seu tom de voz irônico.

    O homem em questão era o jovem dono e herdeiro das empresas Vacchiano, Kaoru, de quem os repórteres e modelos falavam sem parar. Era dito que, apesar de seus 27 anos, ele era um excelente administrador que tomou a frente dos negócios após o falecimento de seu pai, anos antes.

    A empresa Vacchiano produzia roupas, calçados, acessórios, perfumes. Além do ramo de moda, ainda fazia parcerias com empresas de celulares para produzir modelos exclusivos da marca, aproveitando a onda de popularização desses eletrônicos. Sendo uma empresa tradicional, Kaoru, apesar de aparentar ser rígido, era capaz de trazer modernidade sem perder a essência. 

    Prestar serviço para a Vacchiano era sinônimo de contratos melhores e cachês elevados. Hitomi tinha visão para os negócios e sabia muito bem disso, decidindo aproveitar a chance que o happy hour do evento proporcionava:

    — Quero te apresentar uma pessoa…

    — Ah, a modelo novata, Megumi, que você me empurrou insistentemente… — disse Kaoru, cortando a fala de Hitomi, e não transmitindo nenhuma emoção. Na verdade, era possível sentir até um certo desdém de sua parte.

    Megumi aproveitou a deixa e logo estendeu sua mão para cumprimentá-lo:

    — Prazer em conhecer, Senhor Vacchiano. Vou desfilar para o senhor, espero que goste do meu trabalho.

    Kaoru olhou para Megumi, que estava sorrindo, de maneira simpática, como qualquer modelo bem educada. Ele desviou o olhar para a mão dela, e decidiu retirar a sua do bolso e cumprimentá-la de volta.

    — Não pense que ser conhecida de Hitomi signifique facilidades. É bom que me mostre resultados. — disse Kaoru, seu cumprimento vinha junto do peso do pedido.

    — Compreendo, Sr. Vacchiano. —  respondeu Megumi, firmando o compromisso.

    Hitomi estava olhando a situação e percebeu que Kaoru utilizava luvas pretas. Ela franziu uma sobrancelha, estranhando o estilo do empresário:

    — Luva é tendência agora, Kaoru? Você não costuma ser excêntrico.

    O empresário escutou o comentário e deu as costas a elas, respondendo com desdém:

    — Talvez eu esteja ficando. Vou indo, descansem.

    As duas observaram ele se retirar do salão e ir embora do evento. Hitomi olhou para Megumi, parecia incomodada e um pouco envergonhada.

    — A grosseria é só fachada, o coração é mole. — explicou Hitomi.

    — Tudo bem, imagino que a responsabilidade o tenha deixado mais rígido. — disse Megumi, compreensiva.

    — Tá… se você vê assim, não vai ter dificuldades no ramo.

    A festa continuava, muitas conversas e comes e bebes. Ao fundo, um homem de cabelos roxos parecia bem à vontade bebendo e observando. Era Iker, que havia se infiltrado no local. Ao seu lado estava uma bela mulher de cabelos cor de rosa, seus 1,70m de altura seriam considerados de uma mulher alta, mas não naquele ambiente cheio de modelos acima de 1,75m.

    — Elegante esse evento, não é? —  disse a mulher de cabelos cor de rosa, segurando um drink de frutas vermelhas.

    — Bastante! Eles sabem organizar festas! —  respondeu Iker, com um copo de caipirinha na mão.

    A jovem usava uma maquiagem delicada em tons de rosa, que combinavam com seu olhar curioso que lançava para Iker.

    — Veio para aproveitar?

    — Estou organizando trabalhos, Aaliyah. —  respondeu Iker, com um sorriso simpático.

    14 de abril, Fashion Week, dia 2

    No segundo dia do Fashion Week, os desfiles aconteceram como de costume. Foram mais sete naquele dia.

    Hitomi e Megumi participaram de um desfile cujo tema era “Festa de Gala na Floresta”. A marca de vestidos de festa e gala abriu com uma modelo utilizando um vestido rodado de renda preta e com bordados de cristais. As mangas traziam o efeito dramático, eram compridas, transparentes e pareciam um véu.

    O gelo seco tomou conta do lugar e logo Megumi entrou em um vestido preto e dourado, também trabalhado em cristais. Para o tema, foi colocado uma capa e um capuz feito de chiffon, que davam elegância e dramaticidade. Seus cabelos estavam alisados e sua maquiagem estava impecável e em tons terrosos.

    Após algumas modelos desfilarem, Hitomi entrou com um vestido rodado, e com uma elegância sem igual, balançou a saia de uma maneira em que conseguiu deixar suas pernas à mostra, que estavam vestidas com botas de cano longo. Seu look também trazia um lenço no pescoço, dando mais dramaticidade.

    A última modelo usou um vestido de cetim vermelho, com uma grande abertura na perna, deixando-a à mostra. Adornado de muitos cristais, assim fechou o desfile, com peças caríssimas e de alta qualidade.

    Aquela noite houve outras passarelas memoráveis e a marca que encerrou o dia fez uma aposta cara e ousada: convidaram a maior cantora do momento, Ayu, para fechar a noite. O público ficou animado. De estatura baixa, cabelos loiros e olhos azuis, a cantora de 18 anos já era um ícone fashion e roubou a noite usando um mini vestido com franjas da marca.

    15 de abril, Dia 3 do Fashion Week

    Na manhã do dia seguinte, Hitomi foi fazer uma visita para Megumi. Ela carregava o jornal local em suas mãos, que era enorme e bem completo.

    — Megumi!

    — Hm? —  murmurou Megumi, distraída.

    — Olha isso! — disse Hitomi, entregando o jornal.

    — Hm!? Alguma notícia importante? — estranhou Megumi, pegando o jornal.

    Megumi folheou o jornal, procurando por alguma notícia que fosse relevante. O que poderia ser? Um ataque, alguma curiosidade da cidade? 

    Ela folheou as páginas com cuidado, não sabia o que deveria procurar, até que encontrou um caderno anexo inteiro sobre os dois primeiros dias do desfile.

    Megumi leu e percebeu que estava entre as três modelos que mais haviam chamado atenção no evento. Seus olhos arregalaram. Um sorriso abriu em seu rosto:

    — Estão falando de mim!

    Suas mãos seguravam o jornal com firmeza, os olhos brilhavam, demonstrando uma alegria impossível de não ser percebida. Ela desviou seu olhar do jornal para a sua mentora, que a encarava com admiração.

    — Muito obrigada, Hitomi!

    — Que nada, dei um empurrão apenas, é mérito seu! —  disse Hitomi, virando de costas e saindo.

    À noite, houve mais desfiles, um mais glamouroso que o outro. Também aconteceram apresentações, mas o momento mais esperado da noite era, sem dúvidas, o último. E os comentários dos espectadores, ansiosos por esse momento, não paravam.

    — Vacchiano vai fechar o terceiro dia! Certeza que vão roubar os holofotes.

    — Eu nem acredito que vou assistir esse desfile!

    — Ele guardou segredo total das peças da coleção!

    — Ah, você tá sabendo as últimas fofocas sobre o Sr. Vacchiano?

    — Não tava sabendo disso não… já vai ser a segunda, não é?

    No backstage, os modelos estavam se vestindo e sendo arrumados com extremo cuidado, tudo para se alinhar aos altos padrões da marca. Seriam roupas femininas e masculinas, de tecidos impecáveis que chamariam muita atenção.

    Mas no camarim, nem as peças caras chamavam tanta atenção quanto… Senhor Vacchiano. Não era por sua fama, afinal, quem trabalha com organização de desfiles já estava acostumado a ver pessoas influentes. 

    Os olhares direcionados a ele já não eram mais apenas pela sua fama, ele estava reluzindo, literalmente. Sua pele emitia luz, um brilho leve. As pessoas até tentavam, mas não conseguiam disfarçar a estranheza, e Kaoru percebia isso:

    “Que droga. Esse negócio piorou demais… Se não fosse o dia do desfile da marca… eu nem viria. Consegui desviar dos repórteres… Mas com certeza teve gente que viu essa desgraça.”, pensou.

    Acostumado com os imprevistos, a correria dos preparativos era mais organizada. Cinco minutos antes estavam todos já posicionados, e os looks de troca de roupa estavam organizados nas araras para permitir a troca rápida dos modelos. Tudo estava numerado, etiquetado, com nome e foto. 

    Nada poderia dar errado, tudo estava calculado. No entanto, antes do início do desfile, uma escuridão tomou todo o local.

    “Por que… as luzes apagaram mais cedo?”, pensou Kaoru, que acabou por iluminar o ambiente com sua pele brilhante.

    Um vento forte, como um tornado, soprou de dentro do hall do shopping, no local onde acontecia o evento. Arrastando tudo em sua volta, aquilo não era um fenômeno previsto por nenhum noticiário. Roupas, cadeiras e pessoas voaram. As divisórias do camarim caíram, e muitos se machucaram por conta do impacto.

    — FOI TUDO PELOS ARES, EVACUAR! — avisou a equipe de segurança do local, para apressar os participantes do evento.

    Alguns corriam por si, outros ajudavam os que estavam feridos. A evacuação do local foi feita o mais rápido possível, e o clima do local era de pânico total.

    Hitomi, que estava detrás de umas placas divisórias, levemente machucada, avistou Megumi próxima a ela, também ferida:

    — Megumi, você tá bem? Acha que isso é…

    — … Estou… sim… deve ser…

    Ainda no local, Kaoru Vacchiano estava paralisado. Olhos arregalados, pupilas dilatadas e punhos em riste revelavam que ele sentia um misto de raiva e medo.

    “Que escândalo, tudo foi pelos ares… O desfile foi destruído, a minha pele está brilhando.”, pensava enquanto olhava para sua situação. O estresse parecia ter desencadeado uma piora em sua situação. Antes ele reluzia, agora brilhava como se fosse um farol.

    “Até meu sangue brilha… Isso deve ser um pesadelo, como um filme de terror trash.”, Kaoru continuou pensando, tentando disfarçar o medo que sentia com seu sarcasmo.

    Enquanto os pensamentos permeavam sua mente, de repente uma figura masculina apareceu. 

    — Você tem Potentia de luz, não é? Não me informaram sobre homens com poderes neste lugar. — disse Iker, com sua voz grave e firme.

    Kaoru não foi capaz de entender uma palavra que o homem proferiu. Mas sentia em sua alma que seu pesadelo estava para piorar.

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