O túnel se abre como a boca de um monstro.

    O Time Z pisa no gramado e o estádio reage na hora.
    Não é só barulho — é vibração. O chão treme. O ar pesa.
    Dá pra sentir que algo mudou.

    Akira vai na frente.
    Olhar reto. Mandíbula travada.
    Não é mais só talento — é decisão.

    Atrás dele, Hiori ajusta a faixa no pulso.
    Renji estala o pescoço.
    Genjiro fecha os punhos.
    Keo respira fundo, copiando mentalmente cada movimento que viu no primeiro tempo.
    Nakki passa a mão na perna esquerda, concentrado.

    Do outro lado…

    Aizawa observa.

    Não fala nada.
    Mas os olhos dele se estreitam um milímetro a mais.

    “Eles mudaram…” — pensa.
    “O ritmo… a postura… eles não estão mais procurando o gol.”

    O juiz apita.

    Segundo tempo começa.

    A bola rola e, de imediato, o Time Z mostra a carta.
    Não é força.
    É velocidade mental.

    Akira toca de primeira pra Hiori.
    Hiori devolve sem olhar.
    Renji se projeta, recebe, não dribla — solta.
    Genjiro aparece como opção, mas é só isca.

    Aizawa se move.

    Ele dá dois passos à frente, pronto pra roubar.

    Mas a bola já não está lá.

    “Hã?”

    Akira surge por trás da linha de marcação.
    Recebe de Hiori num passe rasteiro, seco, sem peso extra.
    Tudo calculado pra não dar tempo.

    Aizawa ativa a relíquia.

    A serpente energética começa a se formar no chão.

    Mas Renji entra na jogada.

    Freestyle Monster.

    Dessa vez não é pedalada.
    É mudança brusca de eixo, corpo solto, ritmo quebrado.

    Ele passa perto demais de Aizawa.
    Não encosta.
    Só invade o espaço.

    E isso é suficiente.

    “Ele quer me puxar…” — Aizawa percebe.
    “Eles estão me puxando.”

    Akira sente.

    É agora.

    Ele acelera.
    Sniper Dash.

    Um, dois impulsos curtos.
    O espaço se abre por meio segundo — e meio segundo no Project Zenkoku é uma eternidade.

    Akira arma o chute.

    As duas Berettas surgem atrás dele, holográficas, engatilhadas.

    O estádio prende o fôlego.

    BANG.

    O chute sai limpo. Forte. Direto.

    A bola corta o ar como uma bala real.

    Aizawa gira o corpo, atrasado pela primeira vez no jogo.

    “Não!”

    A bola explode na trave.

    O som metálico ecoa como um tiro dentro do estádio.

    CLANG!

    A sobra cai viva, quicando na pequena área.

    Nakki aparece.

    Camisa colada no corpo.
    Olho brilhando.
    Perna esquerda armada.

    “É agora…”

    Ele não pensa.
    Só sente.

    Chute de esquerda.

    A bola sobe, girando, indo exatamente pro ângulo.
    Não é forte como o de Akira.
    É preciso.
    É limpo.

    Mas Aizawa…
    Aizawa está lá.

    Ele não intercepta com técnica.
    Nem com classe.

    Ele se joga.

    A perna esquerda estica no limite.
    A serpente de energia se condensa num único ponto.

    A bola bate na canela dele.

    Desvia.

    Sai raspando a trave.

    Escanteio.

    O narrador explode:

    “TRÊS MINUTOS DO SEGUNDO TEMPO! ESCANTEIO PARA O TIME Z!”

    O estádio vem abaixo.

    Nakki cai de joelhos, batendo no chão.

    — “Droga… DROGA!”

    Akira se aproxima e estende a mão.

    “Calma. Funcionou.”

    Hiori chega logo atrás.

    “Ele atrasou.”

    Renji sorri, ofegante.

    “Pela primeira vez.”

    Do outro lado, Aizawa respira pesado.
    Suor escorre pela testa.

    Ele encara o Time Z.

    “Então é isso…”
    “Vocês não estão tentando me vencer.”
    “Vocês estão tentando me quebrar.”

    Ele fecha os punhos.

    — “Não vai ser suficiente.”

    Tsubasa já se posiciona pra cobrar o escanteio.
    A Pantera Vermelha ajusta o corpo, olhos no alvo.

    Akira caminha pra área.
    As Berettas ainda não aparecem.

    Mas algo está diferente.

    O juiz apita autorizando a cobrança.

    O ritmo do jogo subiu.
    O Time Z não pede mais permissão.

    Eles impõem.

    E naquele instante…

    Todo mundo sente.

    O gol não saiu.
    Mas o jogo virou.

    E agora…

    É só questão de tempo.

    O escanteio sobe.

    A bola sai do pé de Tsubasa com rotação perfeita, girando como se obedecesse uma equação invisível.

    Na área, tudo vira guerra.

    Genjiro empurra.
    Renji tenta se soltar.
    Daichi sobe no segundo pau como um caminhão sem freio.

    Aizawa observa tudo em silêncio.

    Mas agora…
    ele não está confortável.

    A Visão Astral de Nikoji se abre por reflexo.

    Linhas se cruzam.
    Probabilidades se sobrepõem.
    E todas elas convergem para o mesmo ponto:

    Akira.

    — “Ele não vai chutar…” — Nikoji pensa.
    — “Ele vai atrair.”

    A bola desce.

    Akira dá dois passos pra trás.
    Abre o corpo como se fosse bater de primeira.

    Aizawa morde.

    Dá um passo à frente.

    E nesse micro instante…

    Hiori surge no vazio.

    Sem pedir.
    Sem avisar.
    Sem olhar.

    A bola passa por cima da cabeça de Akira e cai exatamente no pé de Hiori, livre, dentro da área.

    — “Agora!” — grita Renji.

    Hiori arma o chute.

    Mas Aizawa muda o eixo no ar.
    O corpo dele faz uma curva impossível.
    A serpente de energia se estica como chicote.

    INTERCEPTAÇÃO.

    A bola desvia por centímetros.

    Mas não sai.

    Cai viva de novo.

    Genjiro tenta finalizar.
    Zan chega rasgando.
    Baraki aparece no meio do caos.

    O campo vira um amontoado de corpos, gritos e chuteiras.

    E no meio disso tudo…

    Akira para.

    Ele não corre.
    Não grita.
    Não pede a bola.

    Ele observa.

    A Visão Astral se expande.

    E ele entende.

    — “Aizawa não tá defendendo espaço…”
    — “Ele tá defendendo intenções.”

    A bola sobra pra Daichi.

    Ele chuta.

    Aizawa defende de peito.

    A sobra cai outra vez.

    Renji tenta de voleio.

    Aizawa bloqueia com a coxa.

    A torcida já está de pé.
    O narrador já está sem voz.

    — “É PRESSÃO TOTAL DO TIME Z!!!”

    E então…

    pela primeira vez no jogo inteiro…

    Aizawa dá um passo errado.

    Não é visível.
    Não é gritante.
    Mas Akira vê.

    O peso do corpo dele foi meio segundo atrasado.

    Meio segundo.

    Akira grita:

    — “Hiori, SEGUNDA TRAVE!”

    Hiori não pensa.
    Só obedece.

    Passe rasteiro.
    Cego.
    Impossível de prever.

    A bola corta a pequena área.

    Nakki aparece de novo.

    Chute de esquerda.

    Aizawa se joga…

    Mas dessa vez…

    Seu pé não alcança

    A bola passa.

    Raspa no poste.

    E sai.

    Silêncio.

    Um silêncio tão pesado que dá pra ouvir a respiração dos jogadores.

    Nakki cai sentado, incrédulo.

    — “De novo não…”

    Akira fica parado, olhando a trave.

    Não frustrado.

    Concentrado.

    — “Não foi azar.” — ele diz.
    — “Foi atraso.”

    Ele olha pra Aizawa.

    Aizawa o encara de volta.

    E pela primeira vez…

    não parece superior.

    Só parece pressionado.

    Nikoji engole seco.

    — “Ele tá… atrasando…”

    Baraki fecha a cara.

    — “Tá ficando interessante…”

    Agi começa a rir sozinho.

    — “Ah, mano… agora sim. Agora começou.”

    O juiz apita.

    Tiro de meta.

    Mas ninguém respira aliviado.

    Porque agora todo mundo entendeu a verdade:

    A muralha ainda está de pé.
    Mas ela já não é eterna.

    E quando uma muralha começa a cair…

    Ela nunca cai de uma vez.

    Ela desmorona.

    Tiro de meta.

    Aizawa pega a bola com calma.
    Mas dessa vez…
    não é a calma automática.
    É a calma forçada.

    Ele inspira.
    Solta o ar devagar.
    O corpo ainda obedece, mas a mente já está um passo atrás.

    — “Concentração…” — ele pensa.
    — “Só isso. Eles não me superaram. Ainda.”

    Ele bate curto pra Nikoji.

    Nikoji recebe, ativa a Visão Astral.

    O campo se abre em linhas.
    Mas agora…
    as linhas não são limpas.

    Existem zonas de ruído.
    Áreas onde Akira pode surgir.

    — “Estranho…” — Nikoji murmura.
    — “Desde quando ele virou uma variável?”

    Ele toca pra Zan.

    Zan dispara pela direita.
    TREM-BALA ativado.
    O corpo vira borrão.

    Renji acompanha.
    Genjiro fecha espaço.
    Akira não corre atrás da bola.

    Ele corre atrás de Aizawa.

    Aizawa sente.

    Não vê.
    SENTE.

    — “Ele tá me caçando…”

    Zan cruza forte pra área.

    Baraki se projeta.
    Chute de primeira.

    Mas antes da bola chegar…

    Akira surge do nada.

    Ele não corta o chute.
    Ele corta a linha de pensamento.

    Coloca o corpo na frente.
    Amortece.
    A bola sobra morta.

    — “Roubo psicológico…” — Agi ri no banco.

    Akira já gira e toca pra Hiori.

    — “Sem pensar!”

    Hiori devolve de primeira.
    Renji se infiltra.
    Genjiro vem de trás.

    Aizawa corre.

    Corre de verdade.

    Não desliza.
    Não antecipa.
    Ele corre como um humano comum.

    Chega atrasado por meio passo.

    Renji recebe livre.

    Vai chutar.

    Aizawa se joga.

    Defende com o ombro.

    Mas o impacto joga ele no chão.

    Ele rola.
    Levanta rápido.

    E nesse micro instante…

    ele pisca.

    Um piscar real.
    Involuntário.

    Akira vê.

    E pela primeira vez no jogo inteiro…
    sorri de verdade.

    — “Tá doendo, né?” — ele pensa.

    O juiz apita falta pra Time Z.

    Renji se prepara pra bater rápido.

    Mas Akira segura a bola.

    — “Calma.”

    Ele olha pra Aizawa.
    Olhos nos olhos.

    — “Você não tá mais lendo o jogo.” — diz baixo.
    — “Você tá tentando sobreviver a ele.”

    Aizawa não responde.

    Mas a mão dele treme.
    Quase imperceptível.

    Nikoji se aproxima.

    — “Aizawa… você quer que eu—”

    — “Não.” — ele corta seco.
    — “Eu resolvo.”

    Mas a frase sai sem força.

    Akira recua dois passos.

    — “É isso…” — pensa.
    — “Ele nunca teve que se adaptar.”
    — “Sempre foi o mundo que se adaptou a ele.”

    Renji bate a falta rápido.

    Passe rasteiro pra Hiori.

    Hiori gira.
    Solta pra Keo.

    Keo ativa Copiar & Colar.
    Imita o Freestyle Monster do Renji.
    Passa por Zan.

    Aizawa fecha.

    Chega.

    Rouba.

    Mas dessa vez…

    não sai limpo.

    A bola escapa meio metro.

    Akira aparece.

    Puxa a bola.

    As Berettas quase se materializam.

    Aizawa trava.

    Não sabe se fecha.
    Não sabe se recua.
    Não sabe se antecipa.

    Três opções.
    Três futuros.

    E pela primeira vez…

    ele escolhe errado.

    Akira toca pro lado.

    Hiori aparece livre na meia-lua.

    Chute.

    A bola passa a centímetros da trave.

    De novo.

    O estádio explode.
    Não de alegria.
    De nervosismo coletivo.

    Hiori segura a cabeça.

    — “Tá muito perto…”

    Akira fecha os olhos por um segundo.

    — “Não é questão de se vamos marcar.”
    — “É quando ele vai quebrar.”

    Agi gargalha do banco.

    — “Nossa… eu nunca vi o Aizawa ser pressionado assim.”

    Baraki estala o pescoço.

    — “Se continuar assim…”
    — “o rei cai.”

    E Aizawa, em silêncio…

    Sente algo que nunca sentiu antes no futebol:

    Medo de errar.

    A bola volta pro jogo.

    Kira recebe no meio, gira rápido, já buscando espaço.

    Ele sorri.

    — “Tá cansado de me caçar, Akira?”

    Ele tenta o drible.

    Mas Akira já está lá.

    Sniper Dash.

    Um corte seco.
    Um tapa limpo.
    A bola sai do pé de Kira como se nunca tivesse pertencido a ele.

    — “De novo você?” — Kira rosna.

    Akira não responde.

    Ele acelera.

    Campo aberto.
    Nenhuma linha de passe imediata.
    Hiori pede pela esquerda.
    Renji grita pela direita.

    Mas Akira não olha.

    Ele só vê o gol.

    — “Agora é meu.” — pensa.

    Sniper Dash.
    Sniper Dash.
    Sniper Dash.

    Três impulsos seguidos.
    A defesa do Time U recua em pânico.

    Aizawa fecha o ângulo.
    Baraki acompanha.
    Zan vem rasgando pelo lado.

    Mas Akira não reduz.

    As Berettas surgem.

    Double Berettas Kick.

    Ele chuta no limite.

    Não passa.

    Aizawa não precisa nem ativar a relíquia.

    Ele simplesmente estica o pé.

    Roubo.

    Silêncio.

    A bola escapa.
    Baraki recupera.
    Contra-ataque.

    Três toques.
    Zan dispara.
    Cruzamento venenoso.

    Genjiro corta no último segundo.

    Escanteio para o Time U.

    O estádio grita.
    Mas Akira não escuta.

    Ele para.

    Literalmente para.

    No meio do campo.
    Mãos apoiadas nos joelhos.
    Respiração pesada.

    O jogo continua ao redor dele.

    Mas ele não está mais nele.

    — “Por que eu fiz isso…?” — pensa.
    — “Eu vi todo mundo livre.”

    Ele fecha os olhos.

    E vê tudo de novo.

    Hiori livre.
    Renji livre.
    Genjiro chegando.
    Keo aberto.

    E ele…
    sozinho.

    — “Eu não quis vencer.”
    — “Eu quis provar.”

    O coração dele aperta.

    — “Eu ainda tô jogando contra o Kira…”
    — “Não com o Time Z.”

    Aizawa cobra rápido.
    O Time U ataca.

    Akira continua parado.

    Por meio segundo.
    Por um segundo.
    Por dois.

    Hiori passa por ele.

    — “AKIRA! VOLTA!”

    Ele desperta.

    Corre.

    Mas agora é tarde.

    O chute de Baraki explode na trave.
    A sobra quase vira gol.

    Daichi salva.

    O estádio solta um grito coletivo de quase-morte.

    Akira para de novo.

    Mas dessa vez…

    não por ego.

    Por vergonha.

    — “Se isso fosse gol…”
    — “Eu teria matado o meu time.”

    A mente dele implode.

    Toda a imagem de líder.
    De gênio.
    De predador.

    Quebra.

    Ele vê a si mesmo não como arma…
    mas como risco.

    — “Eu não sou o centro do campo.”
    — “Eu só sou uma parte dele.”

    O mundo ao redor desacelera.

    O barulho vira ruído distante.

    Ele respira fundo.

    Uma vez.
    Duas.
    Três.

    E solta.

    — “Chega.”

    Ele ergue a cabeça.

    Olha pra Hiori.
    Depois pra Renji.
    Depois pra Genjiro.
    Depois pra Daichi.

    Não como peças.

    Como pessoas.

    — “Eu não vou mais tentar ganhar.”
    — “Eu vou tentar fazer a gente não perder.”

    As Berettas não surgem.

    A aura se estabiliza.

    A Visão Astral se reorganiza.

    Não mais focada no gol.

    Mas no campo inteiro.

    Akira se reposiciona.

    Dá dois passos pra trás.

    E pela primeira vez no jogo…

    ele não busca o destaque.

    Ele busca o fluxo.

    O jogo continua.

    Mas algo dentro dele acabou de morrer.

    E algo muito mais perigoso…

    Acabou de nascer.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota