Capítulo 1: Alvorecer
O fogo da lareira estalava baixo, lançando sombras longas pelas paredes de madeira da casa simples. Quatro crianças estavam sentadas no grande tapete de pelo azul; Liz, Luiza, Ray e Pietro, algumas com almofadas, outras abraçadas aos próprios joelhos. À frente delas, em uma poltrona antiga, estava o avô, com os cabelos brancos presos atrás da cabeça e os olhos marcados por um brilho nostálgico — de grandes memória.
— Vovô conte-nos uma história — Disse Ray puxando a bainha da calça do avô.
— Vocês já ouviram falar do Alvorecer? — perguntou ele, a voz calma, mas carregada de peso.
As crianças se entreolharam.
— É aquele grupo que derrotou o Dragão Negro? — Liz perguntou, já inclinado para frente.
— Não interrompa — resmungou Luiza cruzando os braços. — Deixa ele falar direito.
— Mas ele perguntou. — Retrucou Liz.
O avô sorriu de canto.
— Sim… é sobre o Dragão Negro. Mas, antes dele, é sobre ela.
Ele respirou fundo.
— O nome dela era Lyra. Uma jovem que iniciou sua aventura aos dezessete anos, de longo cabelo castanho e olhos verdes. A dama mais bela de seu vilarejo.
O silêncio caiu na sala.
— Ela nasceu em uma vila pequena, esquecida pelos mapas — continuou. — Não era nobre, não era rica. Era filha de um dono de bar… e de uma mulher que todos respeitavam.
— A mãe dela morreu, né? — murmurou Luiza, já com os olhos atentos.
O avô assentiu lentamente.
— Morreu. Não por espada, nem por guerra. Morreu por água contaminada… Água misturada às escamas do Dragão Negro.
Ray fechou as mãos em punhos.
— Que covardia…
— Lyra tinha apenas seis anos — disse o avô. — E, mesmo assim, lembra-se do dia.
A cena mudou.
— A pequena Lyra segurava a mão da mãe com força enquanto homens da vila discutiam em volta de um balde quebrado. A água acinzentada escorria pelo piso desalinhado do bar.
— Mamãe, está doente? — perguntou a menina, com a voz trêmula. — A senhora vai morrer?
A mulher sorriu fraco, sentada no chão frio do bar, segurou a mão de sua filha e aproximou o rosto.
— Não tenha medo… — sussurrou. — A mamãe vai sempre te observar lá de cima. Prometa que crescerá forte e saudável.
— Prometo — respondeu Lyra, chorando.
— E sábia… — a mãe completou. — O mundo precisa de pessoas assim.
— Prometo mamãe, então não morra por favor.
— E feliz, mesmo sem mim precisa crescer feliz — A mãe já não aguentava segurar as lágrimas seus olhos brilhando pelas lágrimas a forçava a deixá-las cair. — Tenho certeza que encontrará muitos amigos, e se esquecerá de mim.
— Não mamãe, eu não quero amigos, eu só quero a senhora e o papai, minha família — A menina que segura a mão de sua mãe sentia que aos poucos a mão perdia a força.
A mãe sorriu uma última vez, acariciando a bochecha rosada de sua filha limpando a lágrima que escorria.
O sorriso desapareceu pouco depois.
Lyra sentiu a mão a mãe esfriar e ficou ali, chorando enquanto segurava a mão de sua mãe até que pegasse no sono.
— E foi assim a despedida de Lyra com sua mãe. Foi ali — disse o avô, fechando os olhos por um instante — que o nome do Dragão Negro deixou de ser apenas uma lenda para Lyra.
Liz engoliu em seco.
— Ela sabia… desde criança?
— Sabia — respondeu o avô. — E não esqueceu.
— Como seria possível esquecer? — Argumentou Pietro olhando para o além com seus olhos arregalados e inexpressivos. — A mãe dela morreu por uma criatura que ela nem conhecia e isso foi trágico, imagina um homem que não conhece sua mãe matá-la e sair impune isso seria terrível, horrível, trágico, lamentável e…
— Tá bom Pietro, entendemos, não precisa gritar nem assustar a gente desse jeito — Liz o interrompeu olhando torto para ele.
— Quem chamou ele para vir? — murmurou Julia para Liz que estava ao seu lado.
— Acho que foi o Ray, eles são amigos… Eu acho — sussurrou para Luiza.
A história avançou.
Lyra cresceu entre mesas de madeira, risadas de bêbados e o cheiro constante de bebidas. O pai trabalhava dia e noite, mas nunca deixou a filha sozinha. Ainda assim, ela crescia e amadurecida antes das outras meninas do vilarejo
— Você devia brincar mais — dizia uma das clientes, certa vez. — Existem tantas meninas no nosso vilarejo.
— Brincar é perda de tempo — Lyra respondeu, segurando um bastão de madeira como se fosse uma espada. — Principalmente com as meninas desse vilarejo.
— Olha a língua, menina — riu o pai.
Mas ele observava em silêncio.
— Ela treinava sozinha — explicou o avô. — Corria pela vila, levantava sacos de grãos, imitava golpes que via em viajantes.
— Uma criança treinando? — Ray abriu um sorriso. — Gostei dela.
— E bonita — completou Luiza, sonhadora. — Aposto que era linda.
— Era — disse o avô. — Muito.
Lyra cresceu saudável, forte e sábia como prometeu a mãe, mas também cresceu alegre e gentil, nunca negava um pedido de ajuda, sempre ajudava o pai no bar e as senhoras do vilarejo. Era a mais amada pelos adultos e crianças, e assim ela cresceu. Treinando e trabalhando até seus dez anos.
— Lyra no que está pensando com tanta atenção ao ponto de franzir essa linda testa?— disse o pai certa noite, limpando o balcão.
— Na mamãe, naquela época o Dragão estava adormecido mas já está perto da época dele acordar— respondeu ela.
— Não é verdade, faltam 7 anos até ele acordar.
— Se adormecido ele consegue matar pessoas com tanta facilidade, nem quero ver o que ele pode causar quando esta acordado. — Disse se sentando no balcão do bar. — Pai, tenha certeza que eu vou matar esse Dragão, chega de tantas pessoas morrerem por causa dele — Disse determinada.
O pai parou seus afazeres e se sentou junto à filha
— Querida…
— Pai, é por isso que tenho treinado dia e noite, eu não posso deixar que aconteça com outras crianças o que aconteceu comigo. — Seu semblante entristecido mostrava sua convicção de tal missão.
— Minha querida filha, esse é um motivo muito nobre, mas o Dragão Negro é uma fera muito perigosa.— ele disse enquanto pegava um copo de água para a filha.
Lyra apontou para o próprio peito.
— Eu sei papai, mas vou conseguir.
O avô suspirou
— Não foi ódio que guiou Lyra — explicou às crianças. — Foi responsabilidade.
Quando Lyra completou doze anos, um viajante passou pela vila. Um velho guerreiro, com cicatrizes demais para contar.
— Você segura essa espada errado — ele disse, observando-a treinar.
— Funciona — ela rebateu.
— Funciona… até você morrer — ele respondeu, rindo.
— Então pode me ensinar?
Eles treinaram juntos por semanas.
— Força sem controle mata aliados — dizia ele.
— Coragem sem preparo mata você — dizia ela, repetindo depois.
— Foi ele que falou sobre ela? — Liz perguntou, curioso.
— Não, — Disse o avô, com a mente conectada ao Liz — Lyra não fazia ideia da existência dela.
O velho guerreiro não podia viver naquele vilarejo, então um dia em uma manha silenciosa e fria ele partiu.
— pequena guerreira, não desista desse seu objetivo, afinal ele vai me dar uma bela recompensa por treinar a salvadora do mundo— Falou sorrindo pra Lyra.
Lyra sorriu mas com um aperto no coração, pois mais uma vez teria que se despedir de alguém precioso. Porém com esperança de que não seria para sempre
— Mas lembre-se — ele disse. — Dragões não são derrotados por ódio. São derrotados por quem não recua.
— Sim senhor, e-eu vou sentir saudade, por favor volte um dia. — sua voz trêmula e olhos brilhantes com as lágrimas faziam o velho hesitar.
— Depois que derrotar o Dragão eu voltarei, e dessa vez você irá me contar suas aventuras. Entendeu? — Deu-lhe um carinho na cabeça e logo se virou.
— Sim senhor!
A história voltou à lareira.
Lyra continuou a treinar toda manhã — disse o avô. — Agora ela tinha mais um motivo para realizar sua missão.
— Ela não tinha medo? — Luiza perguntou baixinho.
O avô sorriu, triste.
— Tinha. Todos tem, mas a coragem não é a falta do medo, a coragem é mesmo com o medo presente seguir em frente.
O relógio de parede soou baixo revelando já ser tarde para crianças estarem acordadas.
— E foi a partir de Lyra, — concluiu — que o destino do Alvorecer foi criado.
As crianças não mostravam sinais de sono, nem um único bocejo foi solto por elas, estavam focadas na história do avô.
— Amanhã — disse o avô, fechando os olhos — eu conto como Lyra conheceu ela, Luiza.
Luiza sorriu largo.
— isso é tão empolgada!
Ray murmurou:
— Prometa nos contar até o fim.
O avô abriu os olhos por um instante, sorrindo.
— É uma promessa.
— Eu vou cobrar — Gritou enquanto fechava a porta velha quase quebrando.
— Crianças são bem animadas, me lembra os bons tempos, principalmente contar essa história para elas, dá uma nostalgia muito gratificante. — Dizia o avô olhando a lareira, porém seus olhos estavam focados em outra coisa.
Um barulho alto veio da porta de madeira, e logo os quatro apareceram de novo.
— Vovô, nós voltamos amanhã! Então nos espere e não se esqueça — Exclamou Liz, Luiza e Ray.
— E não morra até lá. — Disse Pietro ao fundo das crianças como uma sombra.
— Ok, vão logo embora.
Nos vemos amanhã, meus pequenos.

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