Capítulo 10: Segredos do pôr do sol
O salão da audiência estava lotado.
Candelabros altos lançavam luz dourada sobre os rostos atentos do Conselho Real, refletindo em joias, coroas menores e olhares afiados demais para uma simples reunião. O pôr do sol atravessava as grandes janelas de vidros coloridos formando desenhos atrás do trono, tingindo o chão de vermelho e laranja — como se o próprio dia sangrasse ali dentro.
Lyra sentia o peso daquele lugar nos ombros.
A Eclipse, ainda envolta em panos escuros, repousava às suas costas. Não precisava ser vista para ser sentida. O silêncio ao redor dela era diferente. Expectante — tanto os nobres quanto os conselheiros, todos ansiavam por ela.
Pip estava ao seu lado. Não atrás. Não escondido. Ao lado.
— Comecemos — disse o rei, erguendo-se lentamente do trono. — O Conselho se reúne hoje para decidir o destino da Eclipse… e de sua portadora.
Um murmúrio percorreu a sala.
— Vossa Majestade — iniciou o chanceler —, como é de conhecimento geral, esta arma possui poder continental. Sua posse define equilíbrio político, segurança e—
— Controle — completou uma nobre , com um sorriso fino. — Não sejamos ingênuos.
Lyra cruzou os braços bufando.
— Chamam de controle quando não conseguem possuir algo — disse, em voz clara. — Mas a Eclipse não é uma coroa, nem posse de vocês. Não responde a decretos.
— Responde à força — retrucou outro conselheiro.
— Respondeu a Lyra — Pip interveio. — Ou melhor, responde.
Os olhares se voltaram para ele, alguns indignados, outros divertidos.
— Um Poemas ousa falar? — zombou uma mulher sentada à esquerda do trono.
Lyra sentiu o impacto da palavra.
Poemas.
Não era apenas um sobrenome. Era uma sentença.
O rei levantou a mão, pedindo silêncio.
— Deixem-no falar — disse. — Afinal, ele está aqui pq é essencial, prometeu provas.
Pip respirou fundo.
— Prometi — confirmou. — E cumpri.
Ele abriu a bolsa de couro e retirou um conjunto de pergaminhos antigos, selados com um brasão que não correspondia ao atual reino. O símbolo era mais simples, mais antigo — anterior à fundação da capital.
— Esses documentos — continuou Pip — pertencem aos registros originais do castelo. Não da capital. Do território que existia antes dela.
O chanceler levantou-se bruscamente.
— Isso é impossível! Esses selos foram destruídos! — Disse Kaley que estava atrás do rei.
— Não — respondeu Pip, calmo mas irônico. — Você esqueceu alguns.
Um silêncio pesado caiu sobre o salão, todos olharam para Kaley.
— A Eclipse foi forjada antes da existência deste reino — explicou ele. — Criada para ser empunhada por quem compartilhasse de seu propósito. Não pertence a tronos, linhagens ou moedas.
— Mentira! — exclamou o mordomo. — Isso é fraude! Vocês irão mesmo acreditar em um Poemas?
— Creio que tenha esquecido o significado da palavra fraude — Pip, olhou diretamente para ele — Fraude é apagar páginas da história para justificar poder,
Lyra observava Pip e um sentimento gratificante de orgulho a fez soltar um sorriso discreto contido pela situação.
Mas ao olhar para o rei.
Algo estava errado.
O olhar dele… não estava firme. Não estava como antes. Estava confuso. Mesmo olhando para Lyra seus olhos não demonstravam o mesmo sentimento. Estava Dividido. Como se lutasse contra algo invisível.
Foi então que Kaley deu um passo à frente.
— Vossa Majestade — disse o mordomo, em tom suave — talvez seja melhor encerrar esta farsa. Esqueceu que ele é um Poemas? Um pequenino manipulando pergaminhos não pode—
— Silêncio — interrompeu o rei, levando a mão à têmpora. — Minha cabeça…
Kaley se aproximou rapidamente com uma taça tirada de um lugar desconhecido.
— Majestade, beba — disse, oferecendo uma taça de cristal com líquido claro. — O senhor não descansou bem.
Pip arregalou os olhos.
— NÃO! — gritou.
O salão explodiu em vozes.
O rei, confuso, levou a taça aos lábios… mas antes que pudesse beber, Pip avançou e bateu na mão dele, fazendo o líquido se espalhar pelo chão de mármore.
O público se espantou ao ver a audácia de Pip ao impedir o rei de beber, batendo em sua mão.
— Esse pequeninos perdeu a razão? — o chanceler que estava ao lado do rei reclamou. — O que pensa estar fazendo com Vossa majestade?
— O rei… Está enfeitiçado — disse Pip, ofegante. — Desde o primeiro dia.
Kaley congelou.
— Que absurdo — murmurou ele.
Pip ignorou-o e abriu novamente a bolsa, retirando um pequeno livro de feitiços e um frasco de vidro escuro.
— Página 142, poção do afeto, uma poção que faz o usuário se apaixonar. — Disse com clareza e firmeza.
— Antídoto — explicou. — Encontrado nos mesmos registros que ele tentou apagar. Uma poção de ligação emocional. Amplifica sentimentos até virar obsessão.
Lyra sentiu o estômago revirar, cada toque, aproximação, desconforto que sentia pelo rei era fruto de uma manipulação.
— Foi por isso… — murmurou ela. — O comportamento dele…
O rei encarava as próprias mãos, trêmulas.
— Eu… — sua voz falhou. — Tudo parecia… tão claro.
— Não era amor — disse Pip, firme. — Era controle disfarçado.
Kaley recuou um passo.
— Eu fiz pelo reino — disse, a voz rachando. — Pelos nobres que perderam suas filhas para o rei apenas para serem mortas. Eu queria humilhá-lo! Uma plebeia no centro do poder! Uma escolhida por algo que eles nunca teriam!
— Perderam? — Lyra perguntou, a voz fria.
Kaley a encarou, os olhos marejados.
— Ja deve ter percebido que o rei tem sido pressionado para ter uma rainha — disse ele. — Cada Dama que era levada aos seus aposentos era encontrada morta, e ninguém podia retrucar.
O silêncio que se seguiu foi mortal.
— Ele a matou.. Minha filha — continuou Kaley, apontando para o rei. — Na primeira noite que a convidou para seus aposentos.
O rei se levantou, ficando a duas Palmas mais alto que o mordomo, olhando-o o desgosto e frieza
— Sua filha é…? Aquela — Conteve os insultos por estar na presença dos nobres —, Mulher tentou me matar, sabia?
Kaley sentiu o poder do rei na pele, a frieza daquelas palavras, cada sílaba parecia conter a mais completa verdade.
— Sua adorável filha — Continuou — Morreu por ser uma traidora. E pelo visto o pai também sofrerá o mesmo destino.
— Vossa Majestade, o antídoto. — Pip interferiu.
Pip aproximou-se dele e estendeu o frasco.
— Beba — disse. — Fiz com gosto de morango..
O rei hesitou, então bebeu.
Por um instante, nada aconteceu.
Então ele levou as mãos ao rosto.
Respirou fundo.
Quando levantou a cabeça, seus olhos estavam diferentes. Estavam roxos como a lavanda. Mais intensos. Mais vazios — e mais honestos.
Todos os nobres presentes, apesar da distância, conseguiram notar a diferença nos olhos.
— Sinceramente … — disse ele. — Que bela dor de cabeça.
Olhou para Lyra, não com desejo mas com constrangimento, o efeito da poção havia passado mas os atos cometidos jamais poderiam ser apagados.
— Portadora, peço perdão pela forma que agi nesses dias, você passou… — Seu rosto esquentou por um instante — Por coisas desagradáveis.
— O importante é que já passou. — Disse sorrindo aliviada como se a gaiola que a prendia no castelo tivesse desaparecido.
Ele se levantou lentamente e virou-se para o Conselho.
— Por decreto real, declaro nula qualquer tentativa de posse da Eclipse por este reino. — Sua voz ecoou firme. — Lyra Soulin é livre. A espada também.
Um choque percorreu o salão.
— Kaley Denri — continuou o rei, com dor contida —, você será julgado. Não por vingança. Mas por verdade.
Guardas avançaram.
Kaley não resistiu.
Antes de ser levado, olhou para Lyra. Mesmo em sua situação seus olhos eram de desprezo e ódio pela dupla vencedora.
Quando tudo terminou, o rei voltou-se para Lyra e Pip.
— Esta noite — disse ele — permanecerão no palácio. Por cortesia. Ambos.
O olhar dele encontrou o de Pip.
— Inclusive você, Poemas. Te darei o quarto que fica de frente para o de Lyra.
Não havia desprezo. Apenas reconhecimento tardio.
Lyra respirou fundo.
Não era o fim.
Mas era liberdade.
E pela primeira vez desde que entrou na capital, ela sentiu que podia respirar.

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