Capítulo 11: Uma noite para respirar
A noite caiu sobre o palácio furtivamente. Durante o dia, tudo ali parecia vivo demais — passos, ordens, vozes, ouro refletindo luz por todos os lados. Mas quando o sol desapareceu atrás das muralhas e as tochas foram acesas, o castelo mudou. Ficou maior. Mais vazio. Mais silencioso, com um brilho majestoso.
Lyra estava em seu novo quarto quando percebeu isso.
O espaço era amplo, decorado demais para alguém como ela, que ansiava por dormir à luz da lua. Cortinas claras brilhantes, móveis entalhados banhados a ouro, uma cama grande que parecia nunca ter sido usada de verdade, com um véu que a cobria para que não fosse possível ver quem estaria dormindo. Tudo era confortável… e desconfortável ao mesmo tempo. Não era maior que o antigo quarto, porém era mais extravagante e delicado.
Lyra já havia vestido o pijama que as servas lhe entregaram, uma camisola de mangas longas, com babados por toda parte. O pijama era vermelho-salmão, feito de algodão, tão leve que mal podia sentir.
Ela sentou-se na beira da cama.
A Eclipse estava encostada perto da parede, não mais envolta em panos escuros, apenas parada. Pela primeira vez desde que chegara à capital, a espada parecia quieta. Seu brilho parecia menos intenso, como se estivesse calma depois de uma tempestade.
Lyra soltou o ar devagar.
A audiência havia terminado, o caso da Eclipse também. O rei havia cumprido a palavra. Mesmo assim, algo ainda incomodava. Não era medo. Era aquela sensação estranha de que, apesar de tudo, ela ainda não estava inteira ali, algo estava faltando.
Foi então que pensou em Pip.
Desde a primeira audiência, quase não haviam se visto. Durante o dia, ela soube onde ele estava, mas não teve coragem de ir até lá. Agora, à noite, após a segunda audiência, a ideia voltava com mais força. Mesmo na audiência, mal se comunicaram.
Ela se levantou.
Caminhou até a janela e afastou um pouco a cortina. O pátio interno estava quase vazio. Alguns guardas faziam rondas silenciosas. Luzes fracas vinham de janelas distantes, provavelmente de empregados que ainda trabalhavam. Mas não foi isso que chamou sua atenção; o que a cativou foi a lua, tão brilhante e prateada quanto a própria prata. As estrelas ao seu redor pareciam vaga-lumes, piscando divertidas. Lyra ficou olhando para a paisagem por um bom tempo, esperando que o sono a visitasse, porém sem sucesso.
Lyra entristeceu o semblante.
Ela sabia que Pip não tinha um quarto como o seu. Não precisava perguntar para entender isso. Durante o dia, já havia notado detalhes demais: a mesa pequena na biblioteca, a comida simples, o jeito como os empregados falavam perto dele sem se importar.
Aquilo a incomodava mais do que gostaria de admitir.
Sem pensar muito, saiu do quarto, abrindo a porta devagar, certificando-se de que ninguém a observava, e foi para o corredor.
À noite, o corredor parecia outro, como mágica. Cada coisa havia mudado, cada corredor era diferente e, mesmo assim, tão parecido. Mas à noite eram nítidas suas diferenças: a iluminação, os desenhos formados pelos vidros das janelas refletidos nas paredes, os quadros e decorações, o cheiro, a atmosfera. Tudo mudava. Era tão silencioso. Não havia empregadas, guardas, ninguém. Apenas o vento balançando, como se quisesse dançar.
O quarto de Pip ficava à frente do de Lyra. Eram apenas dois metros de distância, mas Lyra não conseguia percorrê-los. Ficou parada diante da porta por um bom tempo, até que pudesse escutar algum som ou sinal de que Pip ainda estava acordado.
Até que cansou de esperar e parou em frente à porta de Pip.
O quarto não estava trancado.
Lyra parou diante da porta.
Hesitou.
Não por medo. Mas por não saber se devia.
No fim, bateu.
— Pip? — chamou, baixo.
Houve um estrondo lá dentro. Algo caindo. Depois, passos apressados.
A porta se abriu.
Pip estava ali, de camisa simples, mangas dobradas e cabelo meio bagunçado. Parecia surpreso — não assustado.
— Lyra? — ele piscou, ofegante. — Aconteceu alguma coisa?
— Não — ela respondeu rápido. — Quer dizer… aconteceu muita coisa hoje. Mas agora não.
Ele abriu espaço para que ela entrasse.
Ao entrar, o quarto estava claro, todas as velas ainda acesas. Lyra olhou em volta, e o quarto era tão belo e confortável, com cores em tons de azul e amarelo. Não eram as cores preferidas de Pip, mas o quarto era tão belo que até mesmo quem odiasse a cor ficaria encantado.
Cortinas longas azul-escuras, com um véu bordado com rosas brancas, uma cama grande com cobertas amarelas e muitas almofadas azuis. Cada móvel ali era digno de um palácio. O quarto era tão belo quanto o de Lyra.
— Uau, parece mágico… — Lyra comentou, observando. — Como um quarto de boneca.
Pip não gostou da expressão “quarto de boneca”, mas não demonstrou estranheza.
— Cortesia real. Esse quarto é realmente bonito e confortável.
Ela assentiu e se sentou na cadeira, enquanto ele fechava a porta.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Apenas se olhavam, esperando que o outro desse o primeiro passo.
Não era um silêncio desconfortável. Era apenas… silêncio, espera.
— Hoje, na biblioteca — Lyra começou — eu ouvi umas coisas sobre—
Pip se encostou na mesa, já sabendo do que ela falava.
— Sobre o sobrenome — completou. — Poemas. Era disso que queria falar?
Pip não se sentiu surpreso, mas também não parecia indiferente. Ele já esperava por isso, mas não estava preparado.
— Sim… — ela disse, baixo, constrangida, como se estivesse sendo corrigida. — Eles falam como se fosse algo sujo… e—
Sua voz travava, dando pequenas pausas hesitantes.
Pip respirou fundo, preparando-se.
— É assim mesmo. — Não soou triste nem abatido; foi indiferente.
Ele puxou a cadeira e se sentou de frente para ela, as mãos juntas e os pés balançando, incomodado com a altura da cadeira.
— Minha família é conhecida por isso — disse, direto. — Vigaristas, ladrões. Pra resumir em uma palavra: adulteradores.
Lyra não interrompeu, apenas ouviu com atenção.
— Eles roubavam, faziam o trabalho sujo, vendiam coisas falsificadas, viviam disso. — Ele fez um meio sorriso. — E eram bons nisso. Eles viviam bem, na verdade, vivem.
— E você? — ela perguntou, séria.
— Eu cresci no meio disso, aprendendo tudo isso. Línguas antigas, códigos, armadilhas, fechaduras, leitura de padrões. Tudo o que sei… veio deles.
Ele olhou para as próprias mãos. Agora não estava mais indiferente, mas hesitante e envergonhado.
— Mas aquilo não era pra mim. Eu não podia. Não queria.
Lyra sentiu o peso da frase.
— Quando eu disse que não faria parte disso, sofri severamente. Fui negligenciado, abandonado e, por último, deserdado do sobrenome — continuou. — Disseram que eu estava colocando em risco os “negócios”, que, a partir do momento em que saísse de casa, não deveria procurá-los novamente.
— Mas, mesmo assim, esse sobrenome te assombra. Mesmo assim, você o carrega por onde vai? — Lyra observou, melancólica.
— Carrego — ele confirmou. — Mas isso não me incomoda mais.
Ele levantou o olhar, sério.
— Eu escolhi usar o que sei pra proteger, não para tirar vantagem. Para evitar que gente como Kaley apague verdades. Para impedir que o poder vire abuso. — Pip olhou para a janela, pensativo. — Eu não fui feito para aquilo. Me sinto mais feliz longe deles.
Lyra sentiu algo apertar no peito.
— Mas como sabem que você é um Poemas?
— Características únicas — respondeu. — A cor do cabelo e dos olhos são únicas da família de pequeninos Poemas.
Ela ficou em silêncio por um momento.
— Eu sinto muito, Pip. Não fazia ideia.
— Claro que fazia. Você veio de um lugar quase isolado do resto do mundo. Tem muita coisa que você não conhece, coisas que, mesmo após derrotarmos o Dragão, não vai entender — disse em um tom divertido, contrariando a atmosfera melancólica.
A conversa terminou ali, em um clima agradável e sentimental.
Lyra se levantou em direção ao seu quarto, mas se sentia incomodada. Não queria sair dali. Sentimentos misturados a impediam de sair: o desejo de conversar mais, sorrir mais. A saudade ainda não havia sumido. Sentia que, assim que saísse do quarto, o silêncio dos corredores a incomodaria.
— Eu… posso ficar um pouco mais? — disse então. — Eu estou acostumada com o barulho. Em Milti, o bar sempre estava lotado, e mesmo quando ia dormir, a música e as conversas ainda estavam no auge.
Pip a olhou com atenção.
— Eu não gosto de lugares grandes, nem de dormir sozinha. Sempre dormia em uma rede do bar — ela continuou. — O silêncio pra mim é incômodo, e ficar sozinha é solitário demais.
Ele entendeu, mas não falou nada.
— Não consigo dormir bem no palácio. Então, poderia eu ficar só mais um pouco, apenas até que sinta sono?
— Claro — disse, simples. — Pode ficar aqui. Se preferir, pode até dormir aqui. A cama é bem grande.
Lyra sorriu, com os olhos vermelhos.
— Quer um abraço? — disse, sorrindo. — Não é minha especialidade, mas—
Lyra o abraçou, forte, mas sem sufocá-lo. Lágrimas desciam pelo seu rosto, não por ela, mas por ele. Seu coração apertado parecia ficar mais leve a cada lágrima que deixava sair.
— L-Lyra, eu fiquei sozinho até te encontrar na capital, então eu não sei bem como confortar alguém chorando — disse, desconstruído e confuso com a situação. — Eu não tive experiência com isso.
— É justamente por isso que estou chorando — disse, alto, indignada e furiosa. — Você ficou sozinho por muito tempo, aprendendo a sobreviver sem cuidados, sendo tratado como escória, e mesmo assim… mesmo assim consegue falar disso como se fosse apenas uma história comum.
Pip percebeu, naquele momento — só ali —, que Lyra era única. Não em poder, mas em caráter. Reagir dessa forma quando ninguém se importava em perguntar se estava bem, sentir o carinho daquelas palavras, o sentimento nelas. Pip não queria sair daquele abraço.
Eles ficaram ali por mais algum tempo, até que Lyra se acalmasse.
E então, um silêncio absurdamente caótico pairou sobre o quarto.
Foi então que Pip interveio o silêncio, indo até a cama e se sentando à beira dela.
— Já passou da hora de dormir — disse. — Amanhã iremos partir. Precisamos estar com energia.
Lyra, envergonhada pela cena que fez, apenas se sentou do outro lado da cama, cobrindo o rosto com a coberta.
— Lyra, obrigado por chorar por mim — Pip sorriu, com os olhos brilhando de alegria. — Essa foi a primeira vez.
— Chega de dizer coisas tristes — interveio, ainda envergonhada. — Vamos dormir agora.
— Acho que eu nunca vou me esquecer desse dia, Lyra chorando como um bebê enquanto me abraça. Se o rei visse, ficaria morrendo de ciúmes — Pip riu alto ao lembrar da cena, deixando Lyra ainda mais constrangida.
— O rei não está mais sob o feitiço, e você disse que já passou da hora de dormir. Vamos logo.
Os dois continuaram conversando e rindo sobre coisas que ocorreram enquanto estavam separados, até que Lyra pegou no sono e dormiu.
Pip apagou a luminária menor, deixando apenas a luz da lua entrando pela janela.
Os dois dormiram tranquilamente, confortáveis e aliviados.
A noite seguiu quieta.
E, pela primeira vez desde que chegaram à capital, nenhum dos dois se sentiu deslocado.
Extra:
Em algum momento, enquanto Pip e Lyra dormiam, alguém abriu a porta, discretamente, como uma sombra.
Ele se aproximou da cama, vendo os dois dormindo profundamente. Olhou para Lyra, com olhos frios, porém encantados.
— “A mais bela de Milti” — a voz familiar sussurrou para si mesmo. — Eu vim me desculpar pelo transtorno causado ao pequenino e te encontro aqui?
Chamou uma serva que o acompanhava.
— Jogue o vinho da mesa do meu quarto fora — a voz era suave, mas poderosa. — Acho que ainda tinha aquela poção nele.
— Entendido, Vossa Majestade.
Logo após, retirou-se do quarto, em silêncio.
— E-espera, vovô, a pessoa que entrou no quarto à noite era o rei? — exclamou Luiza.
— Nossa, esses servos são bem inúteis. Nem conseguiram sumir com todos os vestígios da poção — disse Ray, se alongando.
Luiza olhou indignada com tamanha ingenuidade de Ray.
— Bom, como a história se resolveu, melhor irem para casa — disse o avô.
— Vovô, como o senhor sabe que o rei esteve no quarto, se apenas ele e a serva estavam lá? — perguntou Pietro, coçando os olhos.
O avô olhou para as crianças como se aquilo fosse um desafio.
— Alguém viu. É por isso que sei.
As crianças, esperançosas por uma resposta reveladora, se decepcionaram com a resposta real.
— Estaca zero, fazer o quê — disse Liz, dando de ombros. — Depois dessa, vou até ir pra casa.
O avô riu, entendendo a intenção dos jovens sonhadores.
— Eu mal comecei e já querem dar uma de detetive? — perguntou a si mesmo no silêncio da sala vazia. — As crianças de hoje em dia estão muito ansiosas.

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