Capítulo 8: Desejos e desesperos
O palácio parecia outro quando o sol alcançou o ponto mais alto do céu, o brilho intenso dele refletido nos vidros coloridos do palácio criavam desenhos nas paredes, o jardim era mais vivo e o calor intenso abafava os corredores
Durante o dia, as paredes claras refletiam luz demais, quase cegando. À noite, no entanto, o dourado dos candelabros e das colunas se tornava pesado, opressor — como se o luxo tivesse dentes. Lyra percebeu isso assim que foi conduzida para os aposentos reservados a “convidados de honra”.
Convidada?
A palavra soava falsa, mas o tratamento era real e admirável.
O quarto era amplo, exageradamente confortável. Cortinas de seda clara com brilhos dourados dançavam com a brisa vinda da varanda, a cama tinha lençóis finos demais para alguém que havia crescido em Misti, e sobre a mesa repousava uma bandeja com frutas, vinho e doces caros, duas taças e dois grandes sofás de cada lado da mesa. Dois guardas permaneceram do lado de fora. Não a vigiavam de forma explícita, mas estavam ali — sempre ali.
Lyra não se sentia prisioneira.
Mas também não se sentia livre.
A Eclipse permanecia encostada contra a parede, ainda envolta em panos escuros. Mesmo silenciosa, sua presença parecia viva, pulsando como um aviso constante.
— “Apenas um dia”, ele disse… — murmurou Lyra para si mesma, caminhando até a varanda. — Será que Pip também está sendo bem tratado?
A vista dava para os jardins internos do palácio. Nobres passeavam, riam, conversavam como se nada estivesse em jogo. Como se uma espada capaz de mudar o destino do mundo não estivesse sendo disputada ali dentro.
Horas depois, o som de passos anunciou a visita que ela já esperava — e temia.
— Senhorita Lyra — disse o rei, surgindo à porta sem anúncio prévio. — Espero não estar interrompendo seu descanso.
Suas roupas já haviam mudado, usava uma blusa de botões com metade deles desabotoados, uma calça larga e confortável, como se apenas estivesse passeando pelo próprio quarto, sem a presença de uma mulher.
Ela se virou devagar, mantendo a postura firme. Para Lyra aquilo não era bem tentador, apenas um homem sendo um tirano.
— Vossa Majestade. Não fui informada de visitas, fiquei surpresa ao vê-lo.
Ele sorriu. Um sorriso treinado, bonito demais para ser honesto.
— O palácio é… generoso comigo. — Seus olhos percorreram o ambiente antes de voltarem para ela. — Quis garantir pessoalmente que esteja confortável.
Lyra inclinou a cabeça e sorriu, educada.
— Estou bem.
— Apenas “bem”? — Ele se aproximou alguns passos. — Se estiver entendida pode me dizer, o palácio às vezes pode ser mais divertido do que pensa.
O silêncio entre os dois se esticou como uma corda prestes a arrebentar. Lyra não podia transparecer o desconforto e incômodo que ele causara a ela.
Lyra se sentou ao grande sofá e o convidou a se sentar no outro porém ele se manteve em pé
— Majestade — disse ela, escolhendo cada palavra — graças às empregadas estou tendo um dia digno de uma princesa, não me sinto entendida.
— Compreendo, fico feliz então — disse se aproximando cada vez mais do sofá em que Lyra se sentava — Você é de Milti, né? Um vilarejo bem esquecido, me surpreendi ao ver que uma criatura tão magnífica habitava naquele lugar.
— Bom Majestade, eu tive a quem puxar. — Um leve tom de ignorância foi solto enquanto falava — Agora poderia por favor se retirar? Gostaria de me deitar um pouco.
— Como?
— Majestade, já viu que estou bem, então não precisa ficar aqui mas — Se direcionava a porta do quarto — meu propósito aqui é resolver o assunto da Eclipse. Nada além disso. E depois ir embora.
— Ah, a Eclipse… — O rei suspirou, fingindo leveza. — Ela está sempre entre nós
Entre nós.
A escolha de palavras fez o estômago de Lyra se revirar.
— Você precisa entender — continuou ele — que poder não se sustenta apenas com armas. Sustenta-se com alianças. Presenças certas. Pessoas certas ao lado do trono.
Ele parou a poucos passos dela.
— E você seria uma presença… muito valiosa.
Lyra sentiu a pressão invisível, não mágica, mas política. Convites que eram ameaças. Promessas que eram jaulas.
— Não tenho interesse em cargos, títulos ou favores — respondeu, firme. — Muito menos em alianças desse tipo. Deveria saber disso já que a Eclipse me escolheu
O sorriso do rei não desapareceu. Apenas endureceu.
— Eclipse isso, Eclipse aquilo. — Segurou‐a pela cintura aproximando seus corpos — Eu não me interesso por aquela espada negra.
Ele tocou na presilha que prendia seu cabelo e a tirou soltando o, longo, cabelo, de Lyra, sua mão se aproximava do rosto dela com casualidade, até que tocasse nos lábios, enquanto a outra mão ainda a prendia a seu corpo.
— Você, faz eu me sentir de um jeito indecifrável — aproximava seu rosto cada vez mais. — tão… tentador…
Lyra empurrou o rei para longe, mas longe do que desejava. Ele olhou para a cena com desdém como se fosse apenas um jogo.
— Majestade eu realmente acho que está na hora do senhor se retirar — sua voz que atuava com delicadeza se tornou firme e intimidadora. — Por favor.
— Pense com calma, Lyra. — Olhou rapidamente para a espada encostada na parede. — O mundo é cruel com quem anda sozinho.
Quando ele saiu, o quarto pareceu maior, o ar havia voltado a circular normalmente por ele e o cheio forte de rosas havia, aos poucos, sumido.
Lyra respirou fundo, apertando os punhos. Não era apenas sobre a espada. Nunca foi. Era sobre ela. Trancou o quarto para que ele não fosse “visitá-la” novamente, se deitou na cama e sua mente apenas conseguia pensar:
— “Será que isso realmente irá durar apenas um dia?”
Enquanto isso, do outro lado do castelo, Pip caminhava por corredores que cheiravam a poeira antiga e segredos mal guardados.
Dois guardas o escoltavam até a Biblioteca Real. Não falavam com ele. Não precisavam. O desprezo estava nos olhares.
— Aqui — disse um deles, destrancando a grande porta de madeira escura.
A biblioteca era imensa. Prateleiras altas, escadas móveis, pergaminhos catalogados por eras e selos reais. Para Pip, aquilo não era intimidador. Era… tentador.
— Um dia — murmurou, ajustando a bolsa no ombro. — Só um dia.
Ele começou pelos registros mais antigos, ignorados pela maioria. Tratados prévios à fundação da capital, mapas de territórios extintos, contratos mágicos esquecidos. A Eclipse não aparecia nos documentos recentes — e isso já dizia muito.
Horas passaram. O sol começou a descer.
— Incrível, essa biblioteca fala tudo sobre a família real, tem até uma pintura do rei atual. — Dizia empolgado de distraindo de seu objetivo.
Pip observou a pintura do rei por alguns segundos, algo nela parecia diferente, era o cabelo? Os olhos? Alguma marca? Pip não conseguia lembrar, apenas tinha uma sensação de que o rei estava diferente na pintura.
Porém como isso não tinha relevância com seu objetivo, ele deixou de pensar nisso e voltou a se concentrar em buscar informações sobre a Eclipse.
— Estranho… — Pip franziu o cenho, analisando um índice incompleto. — Há lacunas. Muitas.
Não era descuido.
Era intencional.
— Como se o livro tivesse sido reescrito.
Foi então que ouviu passos leves demais para serem de um guarda.
— Trabalhando duro, pequenino? — Uma voz familiar e incômoda.
Pip se virou bruscamente.
Kaley Denri estava encostado em uma das estantes, mãos cruzadas, expressão serena demais.
— O mordomo — disse Pip. — Achei que estivesse ocupado… servindo vinho.
Kaley sorriu.
— Todos servimos algo neste palácio. Alguns servem bandejas. Outros… interesses.
— E quais seriam os seus? — Pip perguntou, desconfiado.
Kaley caminhou lentamente pelo corredor se aproximando de Pip.
— A estabilidade do reino. — Parou diante dele. — E o bem-estar do rei.
Pip estreitou os olhos.
— Engraçado. Porque esconder documentos históricos não costuma fazer parte disso. Nem feitiçaria.
O sorriso de Kaley vacilou por um instante. Só um instante.
— Há verdades que não beneficiam a todos — respondeu. — Aquela jovem, Lyra soulin, o rei achou ela bem intrigante.
— Intrigante, você diz? — Pip parou de prestar atenção nos pergaminhos dando atenção total ao mordomo.
— Sim, ele acha ela uma mulher perfeita.
— Como concubina? — Pip cuspiu a palavra.
— Como influência — corrigiu Kaley. — Algo que ela jamais terá vagando pelo mundo.
Pip deu um passo à frente.
— Ela não é uma peça.
— Todos somos — Kaley respondeu, frio. — Alguns só demoram mais a perceber.
Quando Kaley se afastou, Pip soube: alguém estava sabotando sua busca. Registros movidos, páginas arrancadas, selos adulterados.
Mas não tudo.
Já noite fechada, quando os guardas se distraíram com uma troca de turno, Pip encontrou o que procurava: um conjunto de pergaminhos selados com o brasão antigo do castelo — anterior ao reino atual.
A Eclipse não pertencia à capital.
Nunca pertenceu.
Pip seguiu caminho até um quarto, andando pelos corredores que mais pareciam labirintos.
Durante a sua busca pelo quarto, ele se encontrou com o rei, coincidentemente estava vestindo uma roupa muito similar à da pintura no livro.
Pip percebeu na mesma hora o que lhe incomodava naquela pintura, os olhos do rei. Olhos roxos são o símbolo de que o sangue real corre em suas veias, porém os olhos dos rei estavam azuis, um tom escuro de azul que para alguns que o olhassem a uma certa distância nem notariam a mudança.
— Pequenino? O que faz andando pelos corredores a essa hora? — Pergunta o rei parando em sua frente.
— Vossa Majestade eu me perdi pelos corredores à procura do meu quarto.
— Compreendo, irei chamar um servo para que lhe direcione ao seus aposentos. — Disse levantando a mão fazendo um gesto para atrair um servo até ele.
— Vossa Majestade, olhando de perto os olhos do senhor parecem ter um tom de roxo mais cativante se me permite dizer.
— Obrigado pequenino, realmente tem um bom olho, esses olhos são o sinal que sou da linhagem real. Agora irei voltar aos meus afazeres. Até pequenino.
Pip percebeu que algo estava errado, olhos azuis eram sinais de algum feitiço conhecido por Pip o feitiço do afeto.
Feitiço do afeto
Um feitiço que quanto mais fosse usada mas amor a vítima sentiria pela primeira dama ou senhor que visse.
— Agora tudo faz sentido, o rei prender Lyra usando a Eclipse como desculpa é apenas para ter a Lyra não a espada. Nesse caso eu só tenho um suspeito de ter enfeitiçado o rei. — Murmurava para si mesmo pois não queria que o servo que o direcionava ouvisse.
O servo o levou para o fundo dos corredores,um quarto com uma porta de madeira um pouco mofada.
Ao abrir, seu semblante baixou porém acostumado.
O quarto era pequeno com uma capa velha e um único armário de duas portas, mesa pequena e duas cadeiras, havia apenas uma janela de meio metro, o cheiro de mofo e poeira estavam por toda parte, Pip passou a noite inteira ali sem falar nada, apenas se deitou na cama e dormiu.
— Nossa Vovô, pq Pip precisava ser tratado dessa forma, tão diferente de Lyra?
— Pip era um pequenino, e pequeninos eram uma raça desprezada pelos nobres de todos os lugares, principalmente um Poemas

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