Capítulo 9: Longe do pôr do Sol
O palácio era barulhento mesmo quando o sol não havia alcançado o topo da muralha. Empregadas por todo lado limpando, nobres passeando como se estivessem em uma feira.
Lyra percebeu isso logo pela manhã. Passos constantes, vozes baixas, portas abrindo e fechando. Nada parava de verdade. Exceto o tempo.
Aquele dia em especial estava extremamente devagar, passando lentamente, Lyra já havia feito tantas coisas e ainda assim o sol não havia chegado ao topo do palácio.
Ela estava em seu quarto com uma empregada particular que servia para ela.
Ela caminhava pelos corredores usando um vestido oferecido pelo castelo. Eram bonitas, leves, feitas para alguém que deveria se sentir à vontade ali. Mesmo assim, algo incomodava. Não era o tecido, nem o calor. Era o lugar.
Tudo ali parecia pedir que ela ficasse.
A criada que a acompanhava falava pouco. Respondia apenas quando perguntada, sempre com frases curtas.
— Ordens do rei — era a resposta mais comum.
Logo após o café da manhã o rei visitou os aposentos de Lyra, dessa vez com uma roupa mais apropriada para o rei do império. Porém ainda assim não bateu na porta, apenas entrou.
— Bom dia, senhorita Lyra — Disse um sorriso cativante — Hoje você está mais bela do que nunca, vestidos combinam com você.
— hoje eu recebi devidos cuidados para estar minimamente apresentável à vossa majestade — Disse de forma fria como quem não quer conversa.
— Gostaria de almoçar comigo hoje? Te darei essa honra. — Disse se aproximando mais do que o limite.
— Obrigada pelo convite, porém acabei de tomar o meu café da manhã, então ainda estou cheia.
— Isso entristece meu coração, mas preciso aceitar a recusa — Disse arrumando uma mecha de seu cabelo — Irei visitá-la novamente mais tarde, aproveite o dia para passear pelo jardim, ele é bonito mas não se compara aos seus olhos verdes esmeralda.
Seus rostos próximos demais para alguém que estava apenas olhando para os olhos de Lyra. Por um segundo o rei vacilou e olhou para seus lábios, mas conteve seu desejo e se retirou calmamente do quarto.
Para Lyra ainda era estranho um homem se interessar por ela, afinal ela só se importava em ficar forte, Lyra não sentia prazer no romance, não ainda.
Dando ouvidos ao rei, Lyra saiu do quarto em direção ao jardim, os corredores eram mais abertos e decorados, o caminho até o jardim parecia encantado quase como outro lugar, diferente dos outros corredores aquele tinha menos ouro era mais natural — as colunas ainda eram brancas com lindo desenhos e texturas criadas a mão —, havia vasos de plantas e flores, como um corredor de festival.
Lyra acabou nos jardins internos. O ar ali era mais fresco, o som da água da fonte quebrava o silêncio pesado dos corredores. Por um momento, ela pensou em Pip. Se ele estava bem. Se estava sendo bem tratado, afinal não o via desde a audiência, como se propositadamente estivessem sendo separados.
— Bom dia, Lyra, de novo!
Ela se virou. O rei estava ali, sozinho.
— Bom dia, Majestade. De novo.
— Não precisa de tanta formalidade, apenas… — ele parou, como se pensasse melhor. — Não, deixe assim.
Caminharam lado a lado. Não havia pressa. Nem guardas por perto, apenas ele o jardim banhado com flores nunca vistas antes por Lyra, com aromas encantadores e pássaros com cantos harmoniosos que transmitiam paz.
— Esse jardim é diferente de todos os outros — disse ele. — Afinal esse é apenas meu, ninguém pode entrar sem minha permissão
— C-como? — Lyra sentiu um arrepio, entrar em um lugar particular do rei, com certeza uma armadilha romântica.
— Você não sabia? Pensei que só veio aqui a minha procura — Baixou a cabeça para parecer triste — Nossa Senhorita Lyra, você é realmente má.
— Me perdoe Majestade eu não fazia ideia, irei me retirar imediatamente.
Antes que conseguisse fugir o rei pegou em sua mão, a virou para ele e pôs sua franja para trás da orelha.
— Não se preocupe, você é minha convidada especial, esqueceu?
— Mas mesmo assim não posso sair invadindo seu espaço pessoal, né? Com licença
— Ficar ao meu lado é tão incômodo assim?
Lyra sentia o estômago embrulhar, aquelas palavras eram doces e grudadas demais para ela.
Ela deu de ombros.
— É incômodo, gostaria de não cruzar com vossa majestade denovo até a audiência ao pôr do sol. — Disse com cabeça baixa.
O rei sorriu.
— Soube que seu companheiro está usando a biblioteca. — Mudou de assunto com medo de Lyra sair.
— Sim.
— Houve comentários — ele continuou, como se não fosse importante. — Mas nada sério.
Lyra parou por um instante.
— Comentários?
— Antigos preconceitos. Nada novo.
Ela voltou a andar, mas guardou aquilo.
— E depois disso? — perguntou por último. — O que pretende fazer quando sair da capital?
— Seguir viagem.
— Sem planos além disso?
— Meu plano é… — Pensou por um instante — simples.
Ele assentiu, observando-a de lado.
— Simples costuma ser o mais difícil.
O assunto se prolongou sem que ela percebesse, o rei falou do império, de si mesmo, perguntou sobre Lyra, insistência dos nobres para casar, entre outras coisas.
— Eles sempre querem escolher — disse.
— Escolher o quê? — Lyra perguntou.
— Pessoas.
Ela não respondeu.
O passeio terminou sem um convite direto, sem ordens. Ainda assim, quando ele se despediu, Lyra sentiu que algo tinha sido dito sem palavras.
Mais tarde, ao tentar encontrar Pip, ela acabou passando por áreas menos usadas do palácio.
Viu-o de longe.
Pip estava na biblioteca, sentado em uma mesa pequena, afastada das demais. A comida era simples. O espaço também. Dois empregados conversavam perto dali.
— Ele é um Poemas, né? — disse um.
— Sempre ouvi coisas ruins desse nome.
Lyra seguiu em frente em silêncio antes que fosse notada, com o coração incomodado, um sentimento de preocupação misturado com medo.
À tarde, antes do pôr do sol, Pip foi encontrar Lyra em seu quarto com vários pergaminhos em mãos e um livro grosso com o símbolo de uma espada na capa, saia ligeiro ao seu encontro, bagunçado, suado e cansado. Ao chegar no quarto a porta estava entreaberta, iluminado, ao abrir para entrar ele ouve uma voz mais grave e familiar, era o rei, que novamente havia ido visitá-la. O rei voltou a procurá-la. Desta vez, levou vinho.
— Para relaxar — disse.
Ela segurou a taça, mas não bebeu. A conversa fluiu de forma confortável, com alguns flertes e chantagens, mas nada que fizesse Lyra se encantar.
Fracasso novamente para nosso rei.
Pip ao ver o rei e Lyra conversando tão alegremente, decide não incomodar voltando para seus aposentos à espera do pôr do sol
— Majestade, qual o problema do sobrenome Poemas?
Ele pareceu pensar antes de responder.
— Algo correu ao pequenino?
— não exatamente, mas todos falam disso.
— Você não procurou perguntar a ele, Lyra? — O rei parecia verdadeiramente submerso a conversa
— Eu não consegui perguntar, — O coração apertou novamente — Eu não consigo.
Ele não insistiu. Falou pouco. Observou muito.
— Apesar de querer ajudar isso parece algo apenas de vocês dois, — o rei sorriu gentilmente — Se quiser saber pergunte ao próprio Poemas
Quando ficou sozinha, Lyra se sentou na cama. A Eclipse estava encostada na parede, silenciosa.
Ela não pensou no rei.
Pensou em Pip.
Pensou na forma como ele era tratado. Pensou no quanto tudo ali parecia diferente dependendo de quem você era. Pensou no que Pip deve ter passado por causa de um simples sobrenome.
Para Lyra aquilo era sem sentido, como um sobrenome poderia ser conhecido pelos nobres se Pip era um plebeu de fora da capital.
Do lado de fora, o céu começou a escurecer, o Sol começou a sumir no horizonte revelando ser a hora da audiência, o céu laranja com vermelho ao horizonte foi perdendo o charme para o azul escuro iluminado pelas estrelas e pela majestosa lua cheia.
Lyra sabia que aquela audiência não seria nada fácil e tudo o que podia fazer era confiar em Pip e deixar esse sentimento para depois.
— Eu nem falei com Pip hoje, na verdade eu não falo com Pip desde a audiência de ontem, onde ele está dormindo? — Murmurava para si mesma — Espero que os empregados não estejam sendo incômodos com ele.
Lyra sabia que aquela audiência não seria apenas sobre a espada, mas também sobre Poemas, o sobrenome que incomoda todos os nobres.

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