Índice de Capítulo

    Astarte possuía dez apóstolos.

    Eram dez divindades responsáveis por manter a ordem no mundo de Niflheim.

    Um dos apóstolos de Astarte chamava-se Hime. Era uma deusa bela e poderosa, mas que não sabia por qual motivo precisava lutar ou proteger a humanidade.

    Foi então que Hime conheceu Annie, a filha mais nova de Astarte que tinha como seu objetivo promover a paz no mundo humano, ajudando os necessitados e punindo os maus. A deusa Hime apaixonou-se pelo senso de justiça de Annie e decidiu tornar-se sua discípula.

    Após a traição de Lucy, os dez apóstolos de Astarte foram mortos, contudo suas almas foram recuperadas pelo jovem Karllos Sophiette. O Sophiette Fundador criou um total de dez Orbes Cinzas e transferiu a alma das divindades para os objetos.

    Dessa maneira, os dez deuses poderiam continuar a manter a ordem no mundo de Niflheim na ausência de Astarte, emprestando seus poderes aos Heróis Ádvenas.

    Um Herói Ádvena era um ser humano invocado de outro mundo por um ritual especial. Os deuses não sabiam ao certo qual o filtro Karllos Sophiette usara para selecionar a pessoa trazida para Niflheim, porém certamente deveria haver algum, o Sophiette Fundador não teria sido tão irresponsável ao ponto de fazer uma seleção aleatória — apesar de que começava a suspeitar um pouco da sanidade de Karllos…

    Finalmente, Kurone entendeu o motivo “dessa” e “daquela” Hime portarem armas diferentes. 

    Tanto a garota do futuro quanto do passado possuíam o poder da Hime que outrora foram a discípula da deusa Annie, mas o Orbe Cinza moldava uma arma com base na alma da pessoa invocada. 

    A Inquisidora era uma pessoa calma, serena e fria, alguém perfeita para portar uma katana de aparência frágil. Em contraste, a Hime loira do futuro possuía vícios, uma boca suja e uma personalidade vulgar e explosiva.

    Ficava apenas uma incógnita: por que a nodachi, a grande espada da Hime loira, não possuía fio e muito menos magia? A lâmina que deu à garota a alcunha de Dama da Lâmina Cega só podia ser usada para dar estocadas poderosas.

    Mas isso era algo para se preocupar mais tarde.

    Kurone, junto às duas garotas, ouviu atentamente a história contada pelo Orbe Cinza, ou melhor, pela verdadeira Hime.

    A Inquisidora, ainda com o sangue escorrendo pela face, possuía uma expressão similar ao dos outros ouvintes, como se essa fosse a sua primeira vez escutando essa história.

    — Eu… estou tão confusa… o quê… — verbalizou a garota.

    — É natural sua confusão, afinal, diferente dos outros Heróis Ádvenas, nossa alma está fundida. Eu não poderia confiar meu poder a uma humana e deixá-la fazer o que quiser, por isso decidi assumir o controle.

    — Tá dizendo que você possuiu o corpo dela? Então, até esse momento, a pessoa com quem a gente vinha interagindo era a verdadeira Hime? — questionou o garoto.

    — Exatamente. Porém “possuir” não é a palavra exata. Essa arte nojenta é algo da natureza dos demônios. A possessão demoníaca é um pecado nojento, passível da morte. Não concorda comigo, minha deusa?

    Annie assustou-se por um momento com a aproximação do objeto flutuante, recuando alguns passos. 

    Kurone colocou-se entre a sua companheira e o Orbe, franzindo o cenho com visível incômodo. Ele teve uma ideia do que acontecia aqui e não gostou nada disso.

    — Na verdade, você só tá inventando qualquer coisa pra se justificar, mas você não tem diferença nenhuma desses demônios. — Ele apontou a sua escopeta negra para a esfera.

    — Um ser pecaminoso como você não poderia entender os meus objetivos. E não ouse tocar a deusa Annie tão casualmente com essa mão imunda. 

    Uma lâmina de vento foi disparada do centro do Orbe Cinza. Mesmo sendo um golpe lento, Kurone sentiu que isso poderia facilmente cortar fora qualquer um dos seus membros.

    — Você tá fazendo a mesma coisa dos caras maus e ainda tem a cara de pau de se dizer ser discípula da Nie? 

    — Um ser pecaminoso não entenderia as obrigações daqueles que buscam a paz. É preciso ser cruel com os maus, é preciso erradicar toda a maldade, foi isso que a minha deusa me ensinou. Só assim a paz será alcançada.

    Kurone estalou a língua escutando as palavras sem sentido de Hime. Annie nunca diria isso. Ela era A Benevolente, por mais miserável que fosse seu inimigo, Annie nunca…

    Huh? Ei, pera aí, que pensamento besta.”

    O menino dirigiu seu olhar para a garota confusa às suas costas. Por um momento, seu coração duvidou da natureza da sua companheira. Ele quase deu um soco em si, porém foi impedido pela voz de Ellohim.

    [As palavras da deusa Hime são verdadeiras. A deusa Annie é filha da deusa Astarte, no fim das contas. A deusa Annie foi tão cruel com os seus inimigos quanto a deusa Lucy ou a deusa Cecily.]

    Ele soltou um longo suspiro.

    Claro, Annie não tinha quase memórias de antes de chegar ao centésimo piso do Hangar dos Mortos. Havia a remota possibilidade da deusa nem sempre ter sido tão frágil e submissa, mas, ainda assim…

    — Pro inferno com essa lorota toda. Não existe ninguém mais benevolente que a Nie. Todos os outros deuses são malucos!! — vociferou, apertando ainda mais o punho da sua Franchi Spas-12.

    Kurone não queria ouvir mais Hime falar. Nas ilhas Lou Xhien, ele viu o acesso de fúria que Annie teve, isso trouxe um pouco da natureza cruel da deusa para a superfície. Se ela tivesse a oportunidade na época, Annie teria matado Lao Shi.

    Mas, em contrapartida, algum tempo depois, viu como ela interveio e poupou a vida de Law Zhen com o seu perdão divino. Ele se recusava a acreditar que Annie era má, por isso não se perdoaria se duvidasse da sua companheira novamente.

    — Deusa Annie, diga a este humano qual é a sua opinião. 

    — Bora lá, Nie, manda essa desgraçada calar a boca.

    A garota ficou confusa no meio do fogo cruzado. Era como se dois vendedores estivessem lhe apresentando dois produtos que ela precisaria comprar.

    Uma Annie que buscava promover a paz e a justiça, recorrendo a todos os métodos, até mesmo os mais cruéis, ou uma garota doce e frágil que possuía uma relação quase romântica com essa criança loira? Quem era “Annie”?

    Podia imaginar a luta interna travada no interior da deusa. Há poucos instantes, ela não fazia ideia de sua origem, queria a todo custo descobrir a verdade sobre a sua verdadeira identidade, porém, agora, lhe apresentavam não uma, mas duas possibilidades.

    Quem ela escolheria ser? 

    — Estou tão confusa… — Annie pôs a mão na têmpora e respirou fundo. — Preciso de um tempo para pensar.

    — Deusa Annie, vejo que sua memória, assim como a de todas as divindades, também foi afetada. Prometo, minha deusa, que irei lhe ajudar a recuperar sua memória para que, juntas, possamos continuar a punir os pecadores e promover a paz. 

    — Não escuta essa aí não, Nie. Não faz nem cinco minutos que ela tava tentando matar a gente, e ela ainda tem coragem de possuir o corpo de uma pessoa inocente pra fazer essas coisas. — O menino olhou para a sua amada companheira. — Nie, com certeza vou te ajudar a recuperar suas memórias. Você viu aquele lugar antes, não foi? Aquela pessoa, a Ello, com certeza vai arranjar uma maneira de recuperar a tua memória.

    [Ela se sente lisonjeada ao ter suas habilidades reconhecidas.]

    — E-eu preciso pensar um pouco. Peço desculpas por isso, mas foram muitas informações para apenas um dia.

    — Deusa Annie…

    — Nie…

    — Por favor, peço só um pouco de paciência.

    Ambos não disseram mais nada e Annie pôde respirar um pouco mais tranquila. Aproveitando o momento de pausa, Kurone olhou para a garota de cabelos esverdeados ignorada até o momento.

    — Isso não pode continuar assim, você vai ter que devolver o corpo dela — falou o garoto.

    — Um ser pecaminoso como você ainda ousa fazer exigências? Reconheça seu lugar.

    A figura do Orbe Cinzas piscou de repente e logo desapareceu. Todos entenderam o aconteceu: Hime voltou a possuir o corpo da garota, pois a expressão dela mudou novamente e a katana fina reapareceu em sua mão direita.

    — Este corpo é necessário para que eu…

    Flash!

    Outro clarão surgiu e a deusa Hime viu-se novamente separada da garota de cabelos esverdeados. 

    — Não é possível. A minha punição que apliquei por engano na deusa Annie… voltou-se contra mim e danificou nossa alma?

    — Em outras palavras, o feitiço se voltou contra o feiticeiro — provocou Kurone, com um sorriso maligno no rosto. — Agora, sim, isso tá ficando interessante… me deu até uma vontade de jogar futebol. — Ela encarou o Orbe Cinza.

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