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    Nada.

    Em algum momento, notou que não havia nada preenchendo sua mente. Existia um vazio infindável em sua existência. Estava deslocada no cenário.

    Não havia como o desespero ou o medo ocuparem a sua mente, afinal de contas ela não conhecia essas emoções… O que era o mundo, exatamente? Sentia o frio do negócio verde tocado pelos seus dedos finos. Caiu algo do céu há pouco e molhou — esse termo surgiu de repente — o chão. Era a chuva. Sim, conhecia a chuva, sabia qual a sua utilidade e a essência por trás do seu funcionamento.

    Logo, notou que o negócio verde em contato com a sua pele era, na verdade, grama. A grama crescia quando era banhada pelas gotas da chuva. A grama crescia, nascia, reproduzia e morria, e isso chamavam de ciclo da vida.

    Qual era a essência por trás disso chamado vida? Claro, a mana era a essência de tudo, não podia existir nada sem a presença dessa… energia vital.

    Pouco a pouco, a mente de foi invadida por diversos termos e a definição deles, as informações adentravam a mente muito rápido, mas conseguia compreender tudo, e, em meio a um desses termos, uma palavra chamou a sua atenção. Nome, tudo possuía um nome… e o seu era Cecily.

    Sim, Cecily, a Deusa do Tempo, embora não entendesse o significado por trás da alcunha. Deuses… deuses eram seres poderosos, superiores a qualquer raça existente nesse mundo, em Niflheim. A função exata de um deus era nublada.

    Ainda compreendendo sobre divindades, veio outro nome próprio à sua mente: Astarte. Quem era essa pessoa que nunca viu antes? Ah, na verdade, a conhecia… era a sua mãe. Astarte era mãe de Cecily. A definição de mãe era simples: a pessoa que a criou.

    A cabeça pesou, eram muitas informações a serem assimiladas. Deitou sobre a grama ainda úmida e tentou entender os dados chegando em fluxo. Como divindade, podia aprender mais rápido que os mortais, foi isso que lembrou de repente.

    Então, deitou-se e deixou a respiração escapar devagar — isso foi um movimento involuntário, ela só aprenderia mais tarde a relação entre as técnicas de respiração e o estado mental e físico.

    Sentia o vazio anterior sumindo. O “nada” foi substituído por conhecimento sobre si e acerca do mundo… mas ainda faltava muito. Por mais que tivesse passado dias e dias reclinada ali, apenas assimilando conhecimento, ainda não possuía certeza de muitas coisas.

    O mais estranho era o fato de não ter muitas memórias sobre si, e as que possuíam estavam faltando pedaços, como se alguém removesse de propósito.

    Astarte… Lucy… Annie… Jarnsasha… Agni… Érebos… As memórias sobre essas pessoas quase não existiam, seus rostos também eram um mistério, só podia visualizar figuras borradas em sua mente.

    Surgiram pessoas irrelevantes também, essas cuidou logo de esquecer. Estava acumulando muito conhecimento, por isso decidiu separar o mais importante, queria organizar tudo a fim de preencher os muitos espaços vazios que ainda existiam.

    Não conhecia muito da própria existência. Se lhe perguntassem “quem é Cecily”, só podia responder com um “é a Deusa do Tempo, a filha de Astarte”. Apenas isso, não sabia quais eram seus passatempos, quem eram seus amigos ou quais poderiam ser os seus objetivos e convicções.

    Ou seja, não entendia qual o sentido da vida da pessoa conhecida como Cecily. Por que ela vivia? Por quem lutava? Havia algo que desejava proteger? Honra? Amigos? Família? Ela… era boa ou má?

    Um sentimento estranho começou a aflorar em seu peito. Não era dor, mas o desconforto a deixou assustada. Doença? Só podia ser isso, não havia outra explicação, afinal um dos pedaços que faltavam em seu ser era dos sentimentos.

    Ela não possuía emoções. Não sentia medo, dor, raiva e nem desprezo, contudo era errôneo dizer que ela era corajosa, forte, calma e complacente, a deusa apenas não conhecia nenhuma das emoções citadas.

    Levaram cinco longos anos até absorver todas as informações. Às vezes, cansava tanto que era obrigada a dormir — a torrente de dados retornava no momento do abrir dos olhos.

    Em cinco anos, a deusa jamais se moveu, continuou no mesmo local, fizesse chuva ou sol, jamais cogitou sair dali, afinal devia haver um motivo para a “outra Cecily” ir até ali. Ela chegou ali um dia e perdeu as memórias ou algo que residia nas redondezas fez isso? Queria descobrir.

    Nos últimos anos, nutriu uma esperança de encontrar algum monstro forte responsável por roubar as suas memórias — uma parte da sua existência. Com as informações que tinha, jamais seria a mesma Cecily de antes, a maior parte dos dados absorvidos eram de senso comum.

    Emoções, interesses, manias, vícios de linguagem e coisas do tipo não existiam nessa Cecily, ela e a pessoa que às vezes surgia em alguns fragmentos de memória, a “outra”, eram pessoas completamente diferentes.

    Um dia, decidiu deixar esse lugar. 

    Ela já não contava mais com a hipótese de um monstro ou entidade muito forte ter tirado as suas memórias e ainda estar pelas redondezas — não ficou chateada ou triste, afinal a habilidade de compreender as emoções era algo inexistente em seu cerne.

    Os seus pés pisaram a grama com cuidado e os olhos precisaram de algum tempo para se acostumarem com novas tonalidades — as cores do mundo. Jamais viu tantas cores antes, pois viveu todo o seu tempo mirando o céu acima da sua cabeça ou as gramíneas sob seus pés.

    Cecily vagou, vagou e vagou, mas quase não fez avanços. O local onde acordou e meditou por cinco anos era distante da civilização, os únicos seres vivos encontrados pelo caminho foram monstros agindo por instinto aqui e ali.

    Sua mente já estava em muita confusão quando encontrou o primeiro grupo de humanos, pareciam ser nômades do… norte? As memórias quase falharam, mas logo lembrou do reino das pessoas de pele mais escura, os humanos à frente pertenciam a esse lugar.  

    Não chegou perto demais, apenas observou e viu o que podia ser aprendido. 

    Cada humano no grupo tinha uma peculiaridade. 

    Após uns dias, Cecily pôde dizer as manias de cada, todos eram pessoas completamente distintas — havia os mais esquentados e as pessoas calmas, cada um reagia de uma maneira diferente perante a um acontecimento.

    Embora observasse com cuidado, a deusa não conseguia entender as emoções, algumas atitudes tomadas pelos humanos eram simplesmente irracionais ou sem sentido para ela.

    Assim, a lua mudou de coloração algumas vezes — isso chamavam de Sucessão Lunar — e a temperatura do ambiente variou, umas vezes fazia todos se encolherem em um único cobertor, outras fazia eles passarem o dia em algum lago. 

    Cecily nem contou quantos anos passaram.

    Um dia, o grupo de humanos decidiu se mover, todos os integrantes estavam diferentes devido ao passar dos anos. Houve um impulso: Cecily quis acompanhá-los, contudo acabou desistindo da ideia, já havia aprendido muita coisa com eles nessa altura.

    Absorveu o vocabulário e um pouco da personalidade de alguns. A palavra “pirralho” e “pirralha”, tão usada por um dos integrantes do grupo de humanos, surgiu em seu vocabulário. 

    Outro desconforto surgiu em seu peito ao pensar sobre a ideia de nunca mais ver aquelas pessoas, mas logo esqueceu disso, afinal não tinha qualquer relação com eles — essas pessoas nem sabiam da sua existência.

    Quando deixaram o local, a deusa loira decidiu coletar os espólios deixados para trás. Havia plantações ao redor do lugar — deuses não precisavam se alimentar como os mortais, por isso não era algo muito útil para Cecily. 

    Os animais foram levados e apenas alguns tecidos, amarrados em árvores pelas crianças ou presos em algumas pedras, ficaram ali. 

    Enquanto perambulava, encontrou algo interessante.

    Era um caderno. Várias vezes viu o humano mais velho, o que mais usava o termo “pirralho”, fazendo anotações em um objeto similar a esse. A deusa folheou, mas todas as páginas estavam em branco.

    Nesse momento, teve ciência de que sabia ler e escrever… 

    Preso à lombada do caderno, havia uma fita com um lápis na extremidade. O lápis servia para escrever nas folhas, também era senso comum. 

    Sem hesitar, Cecily traçou alguns símbolos na primeira página branca, embora nunca tivesse lido ou escrito nada antes, sabia exatamente o que estava fazendo ali.

    “Registros de Cecily”, essas foram as palavras escritas em um tamanho exagerado na folha primogênita. 

    Se a “outra Cecily” tivesse um caderno como esse, em que ela tivesse anotado coisas sobre sua vida, mesmo que fossem apenas assuntos triviais, seria mais fácil para “essa Cecily” entender mais sobre si. 

    Mas e se a outra realmente tivesse um caderno assim e tivesse deixado em algum lugar para essa Cecily encontrar? Era uma possibilidade boa.

    Assim, ela guardou o caderno com cuidado em uma mochila improvisada e seguiu na direção oposta do grupo de humanos. 

    Queria aprender sobre emoções, e para isso buscaria por mais mortais e os observaria de longe, tinha a esperança de que isso remendaria os buracos da sua existência em algum momento, e seria ainda melhor se encontrasse um caderno deixado pela outra Cecily.

    A deusa vagou, vagou e vagou novamente por anos. Jamais interagiu com as pessoas, mas sempre esteve observando tudo de longe. Durante esse tempo, também treinou, algo na sua mente dizia que precisava ser forte.

    Em determinado momento, enquanto meditava, uma informação estranha surgiu em sua mente… “preciso reviver Astarte. A Reencarnação de Astarte, preciso dela para reviver Astarte.” Era como se a “outra Cecily” falasse com ela diretamente.

    Não entendeu, podia até mesmo estar sendo induzida por alguém a fazer algo ruim, mas se agarraria a isso, pois era a única chance de entender a si e recuperar o que perdeu…

    ◈◆◇◆◇◆◈

    Estavam no primeiro andar da hospedaria.

    Os hematomas roxos ainda adornavam o rosto de Cecily, e as pequenas mãos que fizeram isso possuíam ataduras brancas um pouco encharcadas de sangue.

    Nessa hora, havia muitos viajantes em outras mesas ao redor, isso criou um burburinho ao qual as duas garotas não estavam acostumadas.

    — Sim, não há dúvida, o sangue é da neta do tal senhor Higs, o velho tá abalado…

    — Certo que ela desapareceu, mas não é estranho que não tenham encontrado o corpo dela?

    — Mas você sabe, né? Ela não era normal, talvez o corpo dela tenha feito “booom” de vez na floresta.

    — Ou um monstro devorou ela…

    — Ou pode ter sido um pervertido…

    Muitos conversavam sobre o desaparecimento de Mirim e o sangue na encontrado em uma clareira logo na entrada da floresta, contudo Cecily e Luminus ficaram com uma interrogação sobre a cabeça quando descobriram que o corpo da menina nunca foi encontrado.

    Como era possível?

    Quando deixaram a floresta, ele ainda estava lá. O corpo banhado por sangue, lágrimas e vômito…

    — Essa possibilidade é terrível, — sussurrou Cecily — mas talvez possa ter alguém nos seguindo, e esse “alguém” é Azazel van Elsie, ela pode ter pegado o corpo.

    O coração de Luminus vacilou por um momento. Mirim não teria paz nem mesmo após a sua morte? Por que a demônia precisava do corpo dela? Azazel van Elsie e Cecily eram existências que não entendia.

    — Cecily… — a garotinha encarou a deusa loira, deixando de lado o assunto de Mirim por um momento — o que você pretende fazer a partir de agora?

    Um longo suspiro foi escutado antes da outra parte responder:

    — Eu vou para onde você for. Entenda, mesmo que não queira, você é a Reencarnação de Astarte, vai ser forçada a coletar os Fragmentos, fugir não é uma opção. Mesmo se eu não tivesse te tirado do orfanato antes, algo te obrigaria a sair no mundo para cumprir a missão.

    Esse “algo” podia ser a própria Astarte, a mulher que Luminus viu no seu último sonho. 

    Se fosse influenciada pela entidade enquanto ainda estava no orfanato, as crianças, Loright e as irmãs estariam em perigo? Se um dia acordasse e visse o sangue de todos sob seus pés… nem queria pensar nisso.

    Talvez fosse melhor ter saído de lá mesmo, senão jamais se perdoaria. Seu coração foi destruído por matar Mirim, alguém que conheceu há menos de um dia, então matar alguém como Loright a faria buscar a morte mais dolorosa possível incansavelmente.

    — E se eu disser que quero me livrar dessa maldição de ser a “Reencarnação de Astarte”? Você vai me impedir?

    — Não, Luminus. Eu nem sei exatamente o motivo de eu precisar reviver Astarte, talvez eu só esteja sendo manipulada, então independente do que escolher, eu vou ficar ao seu lado, só peço para que você não me abandone mesmo quando conseguir se livrar dela.

    Luminus foi a única pessoa que fez Cecily sentir algo de verdade após muito tempo, a deusa não podia mais se distanciar dela, pois talvez nunca mais pudesse encontrar alguém assim.

    — Eu prometo, Luminus, que também não vou sair do seu lado. Até encontrar uma maneira de se livrar dessa maldição, você ainda vai matar muitas crianças inocentes, mas vou ficar ao seu lado. Não sou seu irmão, na verdade, sou uma completa estranha que não entende nada sobre os sentimentos alheios, mas quero te ajudar. Uma vai suportar a outra, o que acha?

    Essas palavras lembraram a Luminus do abraço desajeitado que a salvou antes. Se Cecily não tivesse feito o contato, como estaria o seu coração agora? Ainda teria forças para se levantar?

    — Está certo, — a menina sorriu um pouco — uma viverá para ajudar a outra, como você disse… Então, além de me livrar dessa maldição, vou te ajudar a recuperar suas memórias. — Ela estendeu a mão.

    A deusa loira ficou um pouco confusa, mas apertou a mão levantada por instinto, ela devia estar surpresa com as palavras da garotinha, embora não soubesse disso.

    — A propósito, eu também preciso do seu dinheiro — disse Luminus, sem conter a risada, apontando para o chá ainda não pago ao lado da sua mão.

    — Aproveitadora! Eu sou apenas uma carteira para você, não é?! — A deusa forçou um tom diferente do habitual, mas logo se sentiu estranha e se recompôs, sentindo o olhar das pessoas ao redor.

    Pfff!

    — Não ria, eu vi humanos fazendo isso antes para transformar o diálogo mais “divertido”, mas o que sinto agora é o que chamam de “vergonha”?…

    Ambas trocaram sorrisos tímidos, foi a primeira interação animada que tiveram desde o início da jornada.

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