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    Um vazio não condizente com a majestosidade do local dominava a Universidade Mágica quando chegaram. No dia que deixou esse lugar, Kurone esteve entre uma multidão de alunos apressados e barulhentos, o cenário pacato era realmente estranho.

    — Acho que chegamos cedo, querido. Temos o campus todo para nós!

    Era a primeira vez voltando das férias, contudo esse ambiente lhe deixava um gosto amargo na boca. Devia haver mais alunos, toda essa atmosfera cheirava a cilada. Era uma estratégia para descobrir a identidade da pessoa que interrompeu o julgamento do condenado no ano passado?

    Com um fluxo menor de alunos, se tornaria mais fácil monitorar os passos de cada um.

    — Cynthia, — a garota chamada virou-se, mostrando-lhe um sorriso condizente com a sua idade — a carta dizia que hoje era realmente o dia para o nosso retorno?

    — Sim, sim, tenho certeza! Acho que os outros alunos devem estar atrasados, mas isso não importa! Vamos lá, eu quero conhecer o lugar! Me mostra tudo!

    Ela puxou a sua mão de repente. Era a primeira vez vendo-a tão eufórica. Cynthia não saía muito da mansão, visitar locais como a Universidade Mágica devia ser uma experiência incrível para ela.

    Por ter sido recebido por um mundo cruel, Kurone não teve tempo de apreciar a beleza de Niflheim, contudo, após retornar ao passado, percebeu que se não fosse pelas forças do mal, esse seria um mundo belo, todo o ambiente à sua frente provava isso.

    Eragon era uma ilha no céu com fazendas fabulosas e construções criativas. As ilhas de Lou Xhien também possuíam todo o seu encanto com um quê oriental. E como esquecer as belas paisagens naturais de Andeavor? Sem dúvidas esse era um background perfeito para uma aventura de fantasia slow life.

    “E o Vassalo da Morte achou que a solução era destruir esse mundo? Só pode ser preguiça de eliminar todo filho da mãe como a Azazel…”

    Mas sabia que nem tudo eram flores. Esse mundo funcionava à sua própria maneira, leu muito a respeito do equilíbrio. Bem e mal andavam lado a lado, eliminar uma das faces era como tentar ir contra as leis da natureza.

    {Ela acha que Kurone Nakano já passou dessa fase de se importar com as leis da natureza.}

    Não respondeu — não queria dar razão a Ellohim, que ficava mais audaciosa a cada dia, porém ela tinha razão, sua existência ia contra as regras desse universo. Veio de outro mundo, tinha um armazenamento infinito de energia vital, voltou da morte e no tempo, e de bônus possuía o feito de ter beijado três das deusas mais populares de Niflheim, sem mencionar que eram irmãs.

    Analisando bem, Kurone Nakano era tão profano quanto Azazel van Elsie.

    “Pensar nisso até fez meu estômago embrulhar.”

    — Esta passando mal, querido? — A pequena Sophiette o encarou com um pouco de curiosidade. — Você fez uma expressão péssima agora.

    — Tô bem, só pensei em algo desnecessário.

    — Tarado…

    — Não é nada disso, ok?!

    Houve uma troca de risadas e um suspiro. Embora fosse um comentário inadequado para uma menina na idade de Cynthia, serviu para o garoto parar de pensar demais. Pensar demais só o levaria à ruína, aprendeu isso da pior forma possível.

    Após a interação que tiveram no meio do campus, ambos caminharam por mais meia hora, parando para uma pausa em frente à biblioteca.

    — Tá fechada…

    — Talvez só vá abrir quando as aulas começarem oficialmente. Mas é uma construção bem luxuosa, também é bonita por dentro?

    — Sim, sim… 

    “Tem alguém lá dentro.”

    E a aura emanada do interior do local era conhecida. A menos que houvesse outra Santa em Andeavor, a pessoa em questão só podia ser Minerva Clergyman. Mas o que a jovem e fazia lá e como conseguiu entrar? 

    Tentou a maçaneta, estava selada com magia, o objeto nem mesmo se movia. 

    Claro, uma Universidade Mágica não utilizaria cadeados ou correntes para trancar suas portas e portões, um feitiço, ou até mesmo uma maldição terrível para afastar intrometidos, seria suficiente.

    Os olhos de Kurone examinaram o cenário. Havia muitas janelas na biblioteca, mas todas em seu campo de visão estavam imaculadas, ou seja, Minerva não precisou quebrar vidros para entrar. Ela teria algum acesso especial? Uma senha, talvez?

    “Só consigo sentir a aura dela, então o bibliotecário não tá por aqui ainda.”

    Decidiu apenas continuar o seu passeio com Cynthia, só teria problemas se forçasse a sua entrada, e o mais provável era Minerva, como professora da Universidade Mágica, ter um meio de acessar locais que os alunos não podiam.

    Mas isso lhe deixou com uma pulga atrás da orelha: Haveria uma maneira de acessar até mesmo os dormitórios? Claro, o grande prédio podia ser adentrado por qualquer um, mas o mesmo não podia ser dito dos quartos, que só permitiam a entrada de quem possuía a chave com o número correspondente do cômodo.

    “Parece que vou ter que ficar bem alerta.”

    O número de alunos perambulando pelos dormitórios aumentou no dia seguinte.

    As conversas nos corredores confirmaram a suspeita de Kurone: estavam reunindo os jovens aos poucos. A maioria dos quartos ainda estava desocupada, e por sorte não havia sinal de que teria um colega de quarto.

    No saguão do prédio que abrigava os dormitórios, avistou a figura de Cynthia entre três meninas de sua faixa etária. Naturalmente, todas tinham aquele ar de garotinhas ricas, mimadas e arrogantes — foi exatamente isso que pensou da jovem Sophiette ao vê-la pela primeira vez.

    Deu apenas alguns passos em direção a sua companheira quando precisou recuar, pois uma bola de fogo em alta velocidade veio em sua direção. Na verdade, não era ele o alvo da magia, sabia disso, pois viu um jovem esguio passando ao seu lado alguns segundos antes, com uma expressão de medo.

    Com um simples movimento usando os pés, esquivou do ataque e olhou na direção da sua origem. Um garoto ruivo, com o cenho franzido, ainda estava com as mãos para frente, a mesma posição de quando lançou o feitiço.

    Ambos se encararam por um momento, mas Kurone foi o primeiro a fazer um movimento e deu as costas para o seu atacante. Ainda estava com o jovem em seu radar, mas não queria criar problemas e atrair a atenção para si.

    Caminhou um pouco após notar que o jovem esguio de antes estava à frente, seguindo seus movimentos, o garoto covarde queria usar Kurone como um escudo humano, pois enquanto estivesse ali, não seria atingido pelas bolas de fogo.

    — O que é que você tá fazendo? 

    Hã?! Tem ideia de como aquelas bolas de fogo doem? Quero dizer, eu poderia lidar com elas, mas estou com preguiça. Fique aí e me sirva de escudo humano, ou eu vou atrás de você depois que acabar com esse ruivo.

    No outro lado, o ruivo fez fogo surgir na palma da sua mão. Estava clara qual era a situação aqui: uma briga de delinquentes. Eram calouros tentando definir o seu território logo em seu primeiro dia.

    Como alguém acostumado a ser um delinquente japonês, entedia bem o sentimentos dos dois jovens, mas também não queria servir de escudo humano. 

    O jovem esguio materializou o que parecia ser uma estaca de gelo na mão.

    A impressão que passava era que Kurone tinha virado uma rede de um jogo de tênis mortal. Antes que pudesse se mover, o esguio saltou para o lado e atirou sua estaca de gelo — a posição dele era mais favorável.

    O garoto servindo como rede moveu a sua cabeça rapidamente para o lado, evitando a estaca de gelo que logo virou vapor ao tocar uma bola de fogo. Dessa vez, Kurone precisou abaixar-se para evitar a sequência de bolas de fogo que veio logo atrás da que vaporizou a estaca.

    Enquanto se movia de um lado para o outro, tentava pensar na melhor maneira de sair dali sem chamar muita atenção. Esquivar ainda era ok, mas devia passar a impressão que era o mais fraco dali.

    “Quando pronto, finja estar despreparado”, era uma citação popular em seu antigo mundo de um estrategista. Pensou em deitar-se e rolar pelo chão até sair da zona de perigo, mas sua atenção foi direcionada para uma figura surgindo ao lado do jovem esguio.

    — Parem já com isso! 

    A pessoa que bradou em tom firme e acertou o garoto usuário do Tipo Elemental Gelo com um chute na bunda foi Cynthia. O semblante da menina era o de alguém pronto para lutar com os dois valentões ao mesmo tempo.

    O jovem esguio levantou com fúria nos olhos, subestimando a oponente e tentando afastá-la dali com socos desordenados. Cynthia não apenas esquivou de tudo, como também desferiu uma joelhada dolorosa nos países baixos do seu atacante, algo que fez os espectadores homens torcerem o rosto.

    Em um salto, a menina pegou uma das estacas de gelo fincadas no chão e a lançou na direção do garoto responsável por lançar as bolas de fogo. Foi um movimento tão rápido que foi impossível o valentão reagir a tempo.

    Por sorte, o objetivo de Cynthia era apenas intimidar. A estaca de gelo raspou a bochecha do ruivo, deixando uma marca roxa no local, e estilhaçou-se ao tocar a parede do dormitório.

    Atônito, o ruivo usuário do Tipo Elemental Fogo caiu sobre seus joelhos e direcionou um olhar de terror para a garotinha loira. 

    Até Kurone espantou-se com tamanha brutalidade, mas viu nesse cenário a oportunidade de baixar a poeira para o seu lado.

    Ah, mommy, você me salvou! Obrigado! Obrigado!

    Sem pensar duas vezes, ele atirou-se na garota e abraçou sua cintura, soltando palavras de agradecimento de maneira patética.

    — Es-espera! O que está fazendo?! E o que quer dizer mommy?!

    O trio que antes estava com Cynthia caiu na gargalhada, provavelmente pensando no quão patético era o garoto agarrado na pequena Sophiette. Houve também palmas vindas daqueles que assistiam à luta entre os dois valentões.

    A mente da menina deu algumas voltas, eram tatos estímulos que ela mal conseguia pensar direito. 

    Ficou decidido ali, mesmo que implicitamente, que quem mandava nessa área era Cynthia Sophiette — e que o garoto que a acompanhava era um perdedor.

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