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    Ponto de Vista de Seiji 

    — Yumi… podemos conversar? Só nós dois.

    As palavras haviam saído, e não tinha mais volta. 

    Ela olhou pra mim, claramente surpresa, e assentiu. Saímos da sala, indo para o corredor.

    Era frio ali fora, mas o calor da minha mão e rosto me mantinha levemente quente.

    Eu segurava o saco pequeno dentro do casaco. O som abafado de risadas e o instrumental da música que vinha da nossa sala, junto do eco de outras salas, só aumentava a pressão na minha cabeça.

    Ah, isso era ruim! Muito ruim!

    Nem quando eu corria nos campos de futebol, meu coração acelerava tanto assim…

    Quando foi a última vez que me senti daquele jeito?

    …Ah. Certo.

    — Ei, Seiji. O que foi? — Yumi me interrompeu de pensar. — É sobre o karaokê? Minha pontuação foi boa, não é!?

    Era isso que ela imaginava? Por que eu chamaria ela pra falar da pontuação dela…?

    — Não, não é isso! — respondi rapidamente.

    Olhei para ela, depois para o teto e em seguida para o chão.

    Eu simplesmente não conseguia encarar ela recentemente. 

    Acho que isso começou depois daquilo.

    — Então? Desembucha! — ela me olhou, um pouco curiosa e irritada. — Aqui fora tá bem frio!

    Respirei fundo.

    “Relaxa, Seiji! É só entregar!”

    Mas parecia mais fácil falar do que fazer! Por que minhas mãos começaram a tremer!?

    Respirei fundo de novo.

    Lentamente, peguei a pequena sacola do bolso, e estendi para ela.

    — É… isso… eu — comecei, com a voz falhando.

    “Boa, Seiji.”

    Ela iria pensar que eu era realmente um idiota.

    — Eu comprei isso pra você! — finalmente consegui dizer.

    Ainda bem… já tava meio caminho andado. Só precisava que ela aceitasse logo.

    Continuei de cabeça baixa, até que se passaram alguns segundos e… nada?

    Eh?

    Levantei levemente o olhar, me deparando com Yumi me encarando. Surpresa.

    — Um… presente? — ela disse, com dificuldade. Ergueu a sobrancelha e pegou a sacola com cuidado. 

    Ela então abriu a sacola, e eu fechei os olhos e comecei a rezar internamente.

    “Por favor, Deus! Que ela goste…! Que ela goste…!”

    Abri os olhos lentamente, vendo que ela olhou e tirou a pulseira da sacola. O corredor, quase silencioso, fez o som da pulseira ecoar por ali. 

    Nos seus olhos, surpresa completa. 

    Ela provavelmente nunca imaginava que receberia isso de mim.

    Ah, bem, eu também nunca imaginava que daria isso pra ela.

    — Seiji… eu não posso aceitar isso — ela disse, com aquele tom gentil que sempre me fazia sentir diferente. Mas logo um aperto na garganta me tomou. — E por que você gastaria tanto… em algo assim? E pra mim?

    Minha mente congelou.

    Não era… a reação que eu tinha rezado que acontecesse.

    Isso era ruim. 

    Era a rejeição… de novo?

    Por favor, não. Eu não conseguiria aguentar ser rejeitado novamente. 

    Ah…

    Mas por outro lado, a culpa era minha. Lá no fundo, tinha noção que isso poderia acontecer. 

    Aceitar um presente desses de um cara que você rejeitou? Sem chance mesmo.

    Eu era um idiota.

    — Ah, não… é nada de mais! Eu só queria dar algo legal pra você e tal… — respondi, coçando a nuca e rindo forçadamente.

    — Algo legal!? Algo simples já bastava, Seiji… — ela disse, ainda segurando a pulseira.

    “…..”

    O que era isso que eu sentia?

    Não sabia. Acho que também ainda não sei.

    O corredor ficou silencioso. Ou quase. Ainda dava pra escutar as músicas vindas de outra sala.

    Era como se muita coisa passasse na minha mente, mas ao mesmo tempo… nada também.

    — É porque eu ainda gosto de você, Yumi. — Aquela frase escapou da minha boca.

    Ei, ei! O que eu tava fazendo!?

    “Por que eu disse isso!? Que droga, que droga!”

    Yumi parou de falar completamente, acho que também ficou imóvel. O único som era a batida super alta do meu coração. 

    Meu rosto queimava, e eu continuava encarando o chão.

    Ah, ah! O que eu tinha feito!? O que ela tava sentindo?

    Nojo? Medo? Confusão?

    Talvez tudo isso?

    Devia ser normal. Digo, ouvir o cara que você rejeitou dizendo isso… deveria ser esquisito

    Bem mesmo. Do tipo “Ah, você ainda não superou isso?”.

    Eu queria, de verdade. Mas era simplesmente impossível!

    Por quê?

    Fazer perguntas naquele momento não adiantaria de nada.

    Já era tarde. Então não havia problemas em terminar, né?

    — Eu sei, é patético. — murmurei, coçando a nuca, enquanto ainda encarava meu tênis. — Eu… já deveria ter superado e tal, mas eu nunca parei de gostar de você. De vez em quando, me sinto estúpido por ainda ter essas coisas dentro de mim. Desculpa.

    Aquele silêncio era insuportável. Sentia como se eu fosse ficar sufocado ali.

    Isso era ruim.

    De novo, eu tava me humilhando. Mas, pelo menos, consegui dizer a verdade pra ela. Ainda que fosse… vergonhoso.

    Foi aí que eu senti um pequeno estalo na minha cabeça.

    “Eh?”

    Não doeu nem nada, mas foi o suficiente para eu levantar o olhar confuso.

    Yumi suspirou, me olhando de volta. 

    — Você é um idiota! Um idiota, Seiji! — ela apertou a pulseira com a mão.

    Hein?

    Eu fui tão… patético, que deixei ela irritada?

    Não… não podia ser.

    “O que eu fiz…?”

    — Se fosse só um presente, uma coisa simples serviria, como um aquecedor de bolso, luvas e essas coisas! — ela continuou, ainda brava comigo. — Por que você tinha que comprar algo tão caro!? Você não pode simplesmente comprar isso só por que ainda gosta de mim! Entendeu!?

    Que reação era aquela? Eu realmente tava tomando uma bronca?

    Desculpa…

    Eu nem consegui dizer nada, apenas me encolhi, enquanto lembrava da sugestão do Shin de comprar um aquecedor de bolso…

    “Fala sério…”

    — Desculpa, Yumi. Eu só me senti estranho… — continuei de cabeça baixa, sem coragem pra encarar ela.

    Depois disso, apenas ouvi ela bufando profundamente. Acho que ela realmente estava brava comigo. Não, eu tinha certeza!

    — Você é realmente um idiota. Mas ainda assim…

    Levantei a cabeça lentamente, vendo seu rosto… corado? E logo em seguida, um pequeno sorriso surgiu no seu rosto.

    — Obrigada — ela disse, com aquela voz suave e meio doce, enquanto tocava na pulseira. — Eu vou usar e cuidar com muito carinho.

    Ah, isso era ruim.

    Eu… não sabia o que dizer. Não conseguia. Aquela reação dela fez todas as palavras sumirem da minha boca.

    Obrigada? Ela iria realmente usar?

    Ah. Sequer conseguia pensar em algo para responder!

    Minha boca estava aberta, mas sem nada saindo.

    — É… n-não tem… problema? — gaguejei, tentando arrumar minha postura, sacudindo a cabeça.

    “O que eu tô fazendo!?”

    Meu coração parecia que ia explodir de felicidade!

    Só que aquele momento sentimental foi substituído por ela… Aiko. O som alto dela atravessava a parede e invadiu o corredor.

    O quão alto ela conseguia falar!?

    Yumi virou o rosto, balançando a cabeça e dando uma pequena risada.

    — Vamos? Não quero perder o show da Aiko cantando — ela disse, rindo, enquanto caminhava na direção da porta da sala.

    Eu, ainda surpreso e sem reação, assenti e comecei a caminhar do lado dela. 

    Até que senti um pequeno soco no meu braço. 

    — Ei! O que foi dessa vez!? — perguntei, massageando o lugar onde ela bateu.

    — Você é realmente idiota por ter comprado algo tão caro! — Ela repetiu a bronca, inflando as bochechas.

    Tinha algo de fofo nisso. Mas senti meu rosto esquentar novamente. 

    Mesmo que tivesse tomado uma bronca dela, ainda consegui me sentir um pouco mais aliviado.

    Logo entramos na sala, recebidos pela aquela barulheira. Yumi foi até as garotas, enquanto caminhei para o meu lado, sentando perto do Rin e Shin.

    Ainda… cabisbaixo, pela bronca.

    — E então? Como foi? — Shin perguntou, com os olhos brilhando de curiosidade.

    Rin me olhava curioso também.

    Suspirei.

    — Consegui entregar pra ela — murmurei, encarando o teto enquanto Aiko cantava.

    Só que aquele alívio de entregar o presente foi substituído pela vergonha da confissão acidental. 

    Que droga! Aquilo não era pra ter saído mesmo! Meu rosto começou a queimar só de lembrar das palavras que eu disse pra ela.

    Mas bem, já tinha passado. E ela não parecia ter importado tanto com isso… ufa.

    Cobri o rosto com as mãos, enquanto Shin e Rin perguntavam se eu tava me sentindo bem.

    Nem tanto…

    Abri uma pequena fresta entre os dedos, vendo o sorriso caloroso da Yumi. Ela estava lá, rindo com as amigas e… a pulseira no seu pulso.

    Ah.

    Me senti estranho novamente.

    Foi então que aquilo voltou.

    Aquele mesmo sentimento pulsando no meu peito.

    Eu realmente gostava da Yumi.

    …E percebi que isso não mudaria nem tão cedo. 

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