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    Ponto de Vista de Shin

    Eu estava sentado de volta à mesa, o som da música ainda tocando de fundo, mas não conseguia tirar os olhos de Seiji. Ele tinha aberto a porta e se afundado na cadeira ao meu lado, olhando dramaticamente para o teto. 

    O cabelo dele estava levemente bagunçado, e ele parecia… completamente esgotado.

    Tinha corrido tão mal assim?

    — Então… — perguntei, com a voz quase abafada pela música da TV. — O que aconteceu lá fora?

    Rintarou, do meu lado, arrumou os óculos e esperou em silêncio também.

    Era estranho…

    O presente tinha sido entregue. Tudo bem. Mas por que ele tava com aquela reação tão… pra baixo? Não era exatamente o tipo de reação que eu imaginava dele.

    — …Ela gostou? Aceitou? — tentei insistir. 

    Ainda olhando para ele, curioso, ele olhou pra mim de canto e suspirou.

    Um suspiro bem longo, até exagerado…

    — Sim, entreguei certinho pra ela… — ele continuou, ainda olhando para o teto.

    “Sério?”

    Era óbvio que ele tinha entregado, mas eu queria saber a reação dela.

    — E…? 

    — Levei uma bronca.

    Hã? Uma bronca? Da Yumi?

    — Como assim? — perguntei, genuinamente surpreso. Yumi não parecia o tipo de pessoa que faria isso, mas eu não sabia de tudo que aconteceu lá fora. — Por quê? Por causa do preço? O presente?

    — Sim… — ele respondeu, ainda desanimado.

    “Ei…”

    Isso começou a me tirar do sério, sendo sincero.

    Tudo bem que ele tava pra baixo, mas aquela resposta não me dava nenhuma informação.

    Ele ia continuar assim até quando!?

    — “Sim” o quê!? — Agarrei nos ombros dele, balançando de leve. — Conta logo o que aconteceu!

    — Ah, calma aí! — Soltei os ombros dele, e logo se ajeitou na cadeira. — …Eu entreguei pra ela e tudo mais, mas ela ficou brava porque era um presente caro. E também disse que algo simples já seria bom.

    Eu continuei em silêncio, sabendo que ele continuaria falando.

    — Aí, ela acabou por me dar uma bronca… Até socou meu braço! — ele disse, mostrando onde ela tinha batido.

    Era… só isso?

    Eu não consegui aguentar a risada. E logo ela escapou, quase superando o som da música.

    Seiji então olhou pra mim, parecendo genuinamente assustado.

    — Ei, Shin! Que sorriso medonho é esse!? — ele disse, se afastando levemente da cadeira.

    Cobri a boca, tentando recuperar o fôlego e respirar normalmente.

    — Nada, nada. É que você tava tão pra baixo que… imaginei que algo pior tinha acontecido. Mas era só isso — respondi, limpando um pouco das lágrimas da risada.

    — Ei!

    — E também… porque eu te avisei — continuei, mostrando um sorriso meio idiota. — Eu disse que uma coisa simples, tipo um aquecedor de bolso, servia…

    Ele então arregalou os olhos por um instante, e baixou a cabeça junto dos ombros, murmurando algo.

    — Tá, tá. Você tava certo — ele disse, mas logo levantou a sua voz, recuperando sua energia de sempre, e veio pra cima de mim. — Agora tira esse sorriso bizarro do rosto!

    — Ei, vai deixar a comida cair! — respondi, rindo enquanto ele fazia cócegas em mim e bagunçava meu cabelo.

    No mesmo instante, Rintarou suspirou e deu um leve tapa na cabeça do Seiji, acabando com a briga boba.

    Voltamos aos lugares, enquanto a música ainda tocava e alguém cantava. Vi que Seiji então olhou para Yumi, e logo sua voz baixou, com uma mistura de alívio e constrangimento:

    — Mas no fim, ela aceitou o presente. E… disse que iria cuidar com… carinho — ele disse, completamente envergonhado, mas sem conseguir esconder o pequeno sorriso ali.

    Olhei de relance para ela, que estava inclinada e mostrando o pulso para Sasaki e Mina. Quando olhei direito, percebi que era a mesma pulseira que Seiji havia comprado. 

    Ambas olhavam para o presente, surpresas, enquanto Yumi tinha um sorriso no rosto, parecendo quase orgulhosa.

    Não consegui evitar, mas um pequeno sorriso surgiu no meu rosto.

    O clima divertido ainda continuava na sala. As risadas, a música, o cheiro de comida. Estávamos tão concentrados ali, nos divertindo, que apenas nos demos conta do tempo quando Akebi levantou a voz:

    — Já tá tão tarde!?

    Então, quase que ao mesmo tempo, olhamos para o relógio pendurado na parede. Já estava anoitecendo. 

    — Pois é… — Kazuki respondeu. Então ele se levantou e bateu palmas. — Bem, acho melhor já começarmos a ir pra casa. 

    — Sim

    — É… não posso chegar tarde.

    — Vamos!

    Todos então começaram a pegar as suas coisas e a se levantar, já para sair da sala. Seiji e Sora, claro, comeram tudo da mesa e só então saíram. Atravessamos o corredor gelado, enquanto ainda podia ouvir pessoas cantando nas outras salas.

    Assim que abrimos a porta principal, fomos recebidos pelo vento gelado da noite. Na rua, as luzes já começavam a acender. Pessoas voltavam dos trabalhos, carros iam e vinham, e lojas ainda emitiam o brilho das luzes natalinas. 

    — Pessoal! Feliz Natal e boas férias pra todos! — Aiko começou, animada.

    — Feliz Natal!

    — Boas férias também!

    Todos então começaram a retribuir o desejo, trocando sorrisos e acenos, aproveitando o momento de despedida calorosa.

    — Bons estudos também! 

    Seiji e Akira, ao ouvirem isso, se curvaram e bufaram dramaticamente. Começaram a falar algo sobre ter esquecido das tarefas que o professor havia passado. 

    — Eu ainda nem olhei pra aquilo! — Seiji disse, quase fingindo um choro.

    — Claro que esqueceu… — Rintarou respondeu.

    Ele olhou pra Seiji de canto, claramente com cara de quem já havia previsto aquilo, enquanto eu apenas ri.

    — Esquece isso. Vamos logo pra casa! — Seiji disse, voltando ao normal. — Tô quase congelando aqui!

    Fui até eles, mas parei. Parei quando senti o vento gelado bater na nuca.

    “Hã?”

    — Ah, droga. Acho que esqueci o casaco na sala — murmurei. 

    Como que eu consegui esquecer o casaco logo naquele frio?

    — Busca logo, eu e o Rin vamos esperar aqui — Seiji disse, quase batendo os ombros. 

    Sabia que ambos iriam ficar doentes se ficassem ali mais um pouco, e me senti meio mal por isso.

    — Não precisa! Pode ir na frente — respondi, me afastando. — Depois nos encontramos alguma hora pra fazer as tarefas.

    — Sério!? Legal! — Seiji comemorou, dando um sorriso. 

    — Até mais, então — Rintarou disse, arrumando os óculos.

    Então nos despedimos ali mesmo, enquanto outras pessoas também se dispersaram. Entrei no karaokê, indo até a sala onde estávamos. 

    “Cadê… Cadê…”

    Olhei de relance para a sala, e não vi em lugar nenhum. Foi só quando me agachei que achei o casaco debaixo da mesa.

    — Como foi parar aqui…? — murmurei, sacudindo a sujeira dele.

    Vesti o casaco, acenando a cabeça para o funcionário que iria limpar, e voltei para a porta principal. Novamente, o frio me tocou ali na entrada, fazendo com que meus ombros tremessem de leve.

    E foi naquele instante, que eu vi ela. Yuki.

    Ela estava parada ali na rua, olhando para o céu quase escuro, junto do hálito que ficou visível no ar gelado. Ela cobria parte do rosto com… o cachecol.

    — Está esperando o Kaito? — perguntei, após me aproximar.

    Ela olhou pra mim, e parecia… visivelmente preocupada. O que tinha acontecido?

    — Estou sim, mas é que… ele não responde as mensagens, nem atende o celular — ela olhou para ambos lados da estrada, procurando o carro dele entre as luzes dos faróis.

    Talvez, por ser horário de saída do trabalho, ele tinha ficado preso na estrada.

    — Talvez ele tenha ficado preso no trânsito ou assim?

    Ela então parou, olhando a estrada novamente, e então suspirou.

    — Ah, pois é, deve que sim. Acho que vou a pé então… — ela respondeu, começando a se despedir. — Boas férias e Feliz Natal, Shin

    — Ah, sim… igualmente… — respondi, com a mão ainda no ar, acenando.

    Ela começava a se afastar, mas eu senti algo diferente surgir em mim. Um impulso.

    “Ei, o que eu tô fazendo!?”

    Sacudi a cabeça, e logo comecei a correr até ela. 

    — Ei, espera! — falei alto, e ela parou, olhando para trás parecendo surpresa. — …É perigoso pra uma garota andar sozinha de noite! Eu te acompanho até a sua casa. 

    — Eh!? Não precisa! — ela respondeu, meio travada e fazendo gestos de recusa. — Não é longe daqui.

    — Não se preocupa! — retruquei, insistindo. 

    — Mas…

    Ela parecia querer continuar recusando, mas ficou parada. Cobriu o rosto com o cachecol e assentiu levemente.

    Então começamos a caminhar lado a lado, naquele silêncio confortável. Carros iam, pessoas vinham, algumas lojas abertas tocavam música natalina, enquanto andávamos pelas ruas da cidade. 

    Em um dado momento, senti algo leve tocar na minha cabeça.

    “Hm?”

    Foi aí que ergui o olhar para cima, pensando que seria chuva, mas… era neve. 

    A neve começava a cair lentamente, sendo iluminada pelas luzes da cidade. 

    — Ah, olha — disse pra ela, ainda olhando para cima.

    — Oh! Neve! — Yuki abriu um sorriso no rosto, estendendo a mão para tentar pegar um floco. — Que bonito!

    Olhei para ela, enquanto ainda caminhávamos. O cachecol que entreguei ainda no pescoço, cobrindo a boca. E seus olhos brilhando sob os flocos de neve que caíam lentamente do céu. 

    Naquele momento, com as luzes da cidade de fundo e o mundo parecendo ficar silencioso, apenas um pensamento atravessou minha cabeça:

    “Tem outra coisa mais bonita que a neve aqui.”

    Desviei o olhar dela, encarando o chão, envergonhado com o próprio pensamento que surgiu do nada. 

    — É tão lindo que até dá vontade de tirar foto! — ela disse.

    — Sim, com certeza… — respondi, claramente pensando em outra coisa, ainda com o olhar desviado. — Eu… gosto muito da neve. — completei, coçando a bochecha.

    Yuki desacelerou os passos, olhando-me com os olhos arregalados e as bochechas vermelhas. Ela ergueu a mão, e cobriu parte do rosto com o cachecol. 

    — Ah… é… — murmurou, desviando o olhar. — Eu também… acho bonito. 

    E então, continuei andando ao lado dela, debaixo dos primeiros flocos de neve da noite.

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