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    Ainda caminhávamos lado a lado, em silêncio. A neve caía lentamente, sendo iluminada pelas luzes da cidade. E eu estava atento a cada floco que caía em seus cabelos.

    O silêncio, quebrado apenas pelos sons dos carros e das pessoas na rua, não era desconfortável. Pelo contrário.

    Ainda assim, sentia a necessidade de falar algo com ela.

    — Falando nisso, o ano realmente já está acabando… — comecei, quebrando o silêncio. — Já é quase Natal…

    Ao ouvir isso, Yuki moveu o cachecol para baixo do nariz. Eu a olhei de lado, e percebi que ela parecia… animada? 

    — …Você tá ansiosa pelo Ano Novo? — perguntei, meio confuso, mas com curiosidade.

    — Sim, bastante! — ela respondeu, com um sorriso tímido.

    “Hm…”

    Não sabia o motivo dela, mas… do outro lado, eu não me sentia nem um pouco animado assim.

    Isso significava que mais um ano estaria chegando ao fim. 

    Mesmo que outras coisas boas viessem, como minha nova história, concursos e mais, ainda me lembrava daquilo. 

    Que, uma hora, meus tempos ao lado dela acabariam.

    E, só de pensar nisso, meu estômago revirou. Tentei balançar a cabeça, para afastar aqueles pensamentos. Eu ainda tinha bastante tempo.

    — Bastante? 

    — Sim! É que minha avó costuma fazer os melhores bolinhos de arroz! — ela disse, quase babando enquanto sorria. — Mal posso esperar…

    “Hein?”

    O motivo era… isso? Bolinhos de arroz? Talvez houvesse um motivo a mais, talvez não. Mas ela realmente era boba, tanto que quase deixei escapar uma risada.

    — Bolinhos de arroz são bons… — concordei, ainda meio confuso por aquele motivo. — Mas tão bons o suficiente pra te deixar ansiosa pro fim de ano?

    Ela começou a desacelerar o passo.

    — Você não entende, Shin. — disse Yuki, colocando as mãos na cintura, enquanto acenava a cabeça. — Os da avó são os melhores que tem! 

    — É? 

    — É! Ah, se sobrar algum, eu te dou. — ela disse, sorrindo enquanto puxava o cachecol para o rosto. — Você vai ver que realmente não tem igual!

    Aquele simples sorriso… me deixou levemente corado.

    — Tudo bem então. Fiquei curioso pra saber o quão bons eles são — respondi, sorrindo de volta.

    — Ah, mas eu não prometo nada… posso acabar comendo todos sozinha… — ela disse, com um pequeno sorriso tímido.

    — Não acho que você deveria comer tudo… — completei, suspirando.

    — É que eu sou uma atleta, tenho que contar calorias e essas coisas… mas só no fim de ano que posso realmente ser livre!

    — Mesmo assim, não pode simplesmente comer tudo sozinha… — respondi, e ambos rimos.

    Continuamos assim por um bom tempo, enquanto a neve caia. Apenas falando de coisas triviais. 

    Não havia pressa. Não havia ninguém por perto. Éramos só nós dois ali, no silêncio que a neve trazia.

    — Shin, já fez os trabalhos que o professor enviou? Precisa de ajuda? — ela perguntou, curvando levemente a cabeça enquanto me olhava com preocupação.

    Eu estava prestes a responder quando senti algo mais frio e mais pesado atingir meu casaco. 

    “Hm?”

    Olhei para o céu, e as nuvens estavam mais escuras que antes. 

    — Neve? Não… — murmurei, confuso, enquanto olhava para cima. 

    Então uma gota isolada e pesada atingiu meu rosto. Logo em seguida, mais duas. A neve, que era fofa, estava se misturando com uma chuva fria e fina que começaria a cair em instantes.

    — Chuva…? — Yuki murmurou, olhando pra cima também, surpresa.

    Em poucos segundos, a chuva se intensificou. O ar ficou pesado e muito mais gelado do que antes.

    — Ei, rápido! — Yuki começou, já se virando e correndo na frente.

    — Tá!

    Logo começamos a correr pelas calçadas. Aquele silêncio confortável da neve foi rapidamente substituído pelos sons de nossos tênis correndo, e da chuva pesada que já começava a nos deixar ensopados. 

    Em um dado momento, começamos a rir levemente, meio nervosos, enquanto desviávamos das poças de água que começavam a se formar. 

    A água escorria pela minha cara, e meu casaco já estava ficando mais pesado. O cachecol dela também já deveria estar ensopado.

    Felizmente, conseguimos chegar na casa dela. Ainda que completamente molhados…

    Corremos para perto da porta, onde a parte superior da casa oferecia um local mais seco e longe da chuva. O alívio ali foi grande, quase como se o peso da água tivesse saído de nossos ombros.

    Mesmo que não tivesse.

    — Conseguimos… — Yuki disse, respirando fundo e ajeitando o cabelo molhado que grudava na testa.

    — Por pouco… — ri, enxugando a água da chuva no meu rosto.

    Ela então começou a abrir a sua bolsa, procurando as chaves de casa. Dei uns passos adiante, olhando para o céu. 

    Não parecia que a chuva iria parar tão cedo, mas se corresse mais um pouco… talvez conseguiria evitar ficar tão doente.

    “Hmm…”

    Talvez eu conseguisse passar em alguma loja que vendesse guarda-chuvas? Ah, eu tinha sequer dinheiro suficiente?

    “Acho que não vai dar.”

    De qualquer forma, precisava chegar logo em casa.

    — Vou indo! Boa noite e boas festas, Yuki! — disse, já me virando para correr.

    — Shin! Espera! — ela me chamou, e eu me virei, quase já pronto para ir embora pela chuva pesada. — Onde você vai agora?

    “Hein?”

    — Para casa? Preciso correr antes que a chuva piore… — respondi, genuinamente confuso.

    Eu havia esquecido de algo? Não, não. Então o que ela queria?

    — Hã!? De jeito nenhum! — ela deu um passo pra fora, fazendo com que algumas gotas caíssem no seu cabelo. — Você vai ficar doente, olhe pra você!

    Parei e olhei para mim mesmo por um segundo. Sapatos completamente molhados, calça e casaco encharcados, cabelos pingando.

    Ah…

    Acho que mesmo se eu corresse rapidamente para casa, eu não iria conseguir evitar ficar doente.

    Mas claro, não queria que Yuki pensasse nisso e se sentisse culpada por eu ter me oferecido para ir com ela.

    — Ah, isso? Não tem problema! É só um resfriado… — respondi, forçando um sorriso.

    — Não mesmo! Entra, por favor. — ela disse, com a voz… suave, e suas bochechas avermelhadas. — Pelo menos até a chuva se acalmar um pouco.

    Eu… hesitei no mesmo instante. Como se meu corpo tivesse congelado.

    Acho que realmente tinha congelado.

    Entrar na casa de uma garota? A casa de Yuki?

    Não, não. Eu não podia fazer isso. 

    A vergonha e o nervosismo me atingiram em cheio. Nunca tinha feito isso. Era… íntimo demais, mesmo que fosse… só para fugir da chuva.

    — Hã!? N-não precisa, sério mesmo! Eu vou ficar bem — respondi, gesticulando com a mão tentando negar aquele pedido.

    Achei que ela fosse entender, mas parecia que eu estava errado…

    — Incomodar? Nada disso! Você tá até tremendo de frio — ela insistiu, com a voz firme e levemente… impaciente.

    Reparei com mais cuidado, e realmente estava tremendo de frio. Meu queixo subindo e descendo rapidamente, por causa das roupas molhadas.

    Ainda assim, eu simplesmente não podia.

    Desviei o olhar do chão, dando de cara com a Yuki. Seu rosto, iluminado pela luz de fora da casa, claramente pedindo para que eu entrasse.

    E foi aí que eu senti.

    “Fala sério…”

    Não adiantaria eu continuar recusando, ela realmente queria que eu entrasse…

    Então suspirei, passando a mão pelo cabelo molhado. 

    — Certo, acho que posso esperar um pouco… — assim que disse essas palavras, Yuki sorriu, parecendo aliviada.

    Ela então pegou as chaves, abrindo a porta. O calor de dentro rapidamente nos envolveu.

    — Com licença…

    — Pode deixar aqui — Ela disse, já entrando na casa após tirar seus sapatos molhados.

    Assenti, enquanto tirava também.

    Olhei em volta, vendo o lugar onde a Yuki morava, ainda meio desconcertado.

    E, enquanto isso, apenas um único pensamento atravessava minha mente:

    “Como eu fui parar nessa situação…?”

    Aquilo… era a última coisa que eu imaginava que iria acontecer naquela noite.

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