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    Ponto de Vista de Yuki 

    O vapor quente da banheira preenchia o local, abafando o som da chuva do lado de fora. Deixei a água percorrer meu cabelo, tentando lavar o frio e, principalmente, o nervosismo.

    Mas era inútil.

    Eu levei minha mão direita até o rosto. A mão que… tinha encostado na dele.

    Tão perto…!

    Por alguma razão, minhas bochechas começaram a arder, e eu me inclinei, descendo minha cara até o nível da água e fazendo bolhas.

    — Que vergonha!

    Eu ainda sentia o calor da mão dele, um calor que não vinha da água quente. Nada disso. 

    Era a primeira vez que algo assim acontecia… um toque tão simples, mas que fez meu coração acelerar tão rápido.

    Devia ser mais rápido do que quando eu corria.

    Mas…

    …Lembrei da expressão dele do meu lado. 

    Ele parecia tenso, meio desconfortável e sempre desviando o olhar de mim.

    Eu fiz certo em ter deixado ele me acompanhar?

    Se eu tivesse sido mais firme, ele já poderia estar em casa, seguro. Mesmo que algo dentro de mim dissesse que não importava o quanto eu recusasse, ele ainda iria insistir em me acompanhar.

    Ainda assim, deixei-o vir comigo… e então, ele estava encharcado e totalmente desconfortável na minha casa.

    — Droga, Yuki, você é tão boba… — murmurei, afundando a cara na água. 

    Eu só queria que ele se sentisse confortável e agradecer ele, mas em vez disso, eu tinha deixado o ambiente pesado e ainda o forcei a ficar.

    Ah…

    Mas, pelo outro lado… eu me sentia feliz. 

    Talvez fosse meio egoísta da minha parte, mas eu realmente fiquei animada por ele ter vindo me acompanhar até a casa.

    É.

    Talvez eu realmente seja egoísta.

    Porque, no fundo, bem no fundo, e mesmo que ele estivesse tenso, eu ainda queria que ele ficasse na minha casa mais um pouquinho…

    Ponto de Vista de Shin

    — Ah…!

    — Hein?

    Eu ainda continuava parado no corredor, com o coração preso na garganta. Olhei para a figura na porta, e percebi que não eram os pais dela.

    O pequeno alívio foi instantaneamente substituído pelo pânico.

    Era ele.

    Kaito.

    Ele apareceu na porta, completamente ensopado, o cabelo pingando e grudado na testa. Suas roupas estavam escuras de tanta água, e seu rosto… parecia exausto e pálido de frio.

    — …Shin!? — começou, arregalando os olhos ao me ver, sem fôlego.

    — Ah… boa noite — respondi timidamente e forçando um sorriso.

    Ele então entrou completamente e fechou a porta.

    — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, enquanto tirava os calçados e recuperava o ar.

    — E-eu vim acompanhar a Yuki até a casa — comecei, coçando a nuca. — Mas a chuva piorou e ela insistiu em eu ficar um pouco.

    Assim que eu disse isso, ergui o olhar, apenas para ver… aquele mesmo sorriso idiota.

    Espera um segundo…

    Ele provavelmente tinha entendido algo errado.

    — Ah, mas eu já tô indo! Boa noite e boas festas, Kaito! — respondi, caminhando rapidamente até a porta para pegar meus tênis e o casaco. 

    Mas assim que me aproximei da porta, ele a bloqueou com seu corpo.

    “Hã…?”

    — Então vocês já estão nessa fase…? — Ele olhou pra mim, com os olhos semicerrados e dando uma risada rouca e… esquisita. 

    É. Ele realmente tinha entendido algo errado. 

    Sentia que tinha me colocado em uma posição difícil e sem saída.

    — N-não sei do que você tá falando! Eu só acompanhei ela até aqui… — respondi, com a voz falhando e a vergonha aumentando. — …Preciso ir antes que o tempo piore.

    Me aproximei da maçaneta, pronto para ir embora e começar a correr pela chuva. Mas Kaito tinha outros planos.

    — Você não vai a lugar algum, Shin. — O tom dele mudou. Ele me olhou de cima pra baixo com uma seriedade incomum. Um frio percorreu minha espinha no mesmo segundo. Era meio… medonho. — Volta pra sala.

    “Hein!?”

    Dei um passo para trás, levemente assustado. Nunca tinha visto aquela expressão no rosto dele. Ainda assim, aquele sorriso parecia ter… malícia.

    Então me lembrei.

    Eram exatamente como os sorrisos bizarros de Seiji.

    Kaito então saiu de frente da porta, colocando seu casaco pesado no cabideiro. Começou a caminhar pelo corredor, indo em direção à cozinha.

    — Entra logo, Shin. Não tem como sair agora. A chuva tá tão pesada que você vai ficar doente no mesmo instante que colocar o pé lá fora! — Ele disse, e então virou-se pra mim, mostrando as chaves do carro. — Relaxa, eu te levo até casa depois.

    — Ah, mas… eu… — comecei, tentando recusar e apenas sair dali.

    No entanto, já começava a perder as esperanças.

    Pelo estado dele, a situação lá fora era muito pior do que parecia na TV. Provavelmente seria melhor eu esperar mais um pouco e ir com ele.

    — Relaxa. 

    — Tudo bem… — suspirei, completamente derrotado, coçando a bochecha. — Acho que posso ficar mais um pouco.

    Kaito então sorriu, parecendo satisfeito, e então voltei para a sala de estar. 

    Novamente, sentei na borda do sofá, ainda levemente desconcertado. Mas um pouco menos, provavelmente por Kaito estar ali por perto.

    Yuki e eu já não éramos os únicos na casa.

    — Ainda bem… — murmurei, deixando um suspiro de alívio sair.

    No entanto, aquela pequena calma não durou muito tempo.

    — Ei, Shin! — Kaito chamou da cozinha. — Já que vai ficar, pelo menos me ajude a fazer o jantar?

    “Eh? Jantar? …Eu vou jantar aqui?”

    Naquele ponto, nem adiantaria eu tentar falar algo sobre. Sabia que Kaito iria insistir, e eu iria acabar por ceder completamente.

    Levantei-me, levemente confuso e resignado, e fui até a cozinha, vendo Kaito que já estava de avental. 

    — Eu ajudar no jantar? — Comecei, hesitante.

    — Sim, quem mais? — ele riu. — Consegue cortar isso aqui? — disse, entregando-me uma faca e alguns vegetais.

    — Ah, sim…

    E então, comecei a ajudar no jantar, forçadamente. 

    Kaito cortava a carne, adicionava temperos, enchia as panelas, checava o sabor. 

    Ele era surpreendentemente organizado e parecia saber cozinhar muito bem.

    — Não imaginava que você sabia cozinhar assim — comecei, ainda cortando os vegetais.

    Ele então olhou para mim de canto, e deu de ombros. 

    — Nossos pais trabalham muito, então eles saem cedo e chegam bem tarde — disse, checando a pressão da panela. — Então desde que eu era novo, aprendi a cozinhar, para poder fazer sempre o jantar da Yuki. 

    Eu fiquei apenas em silêncio, vendo ele dizer aquilo com um sorriso sincero no rosto. Acabei por imaginar a cena, deles mais novos e Kaito sempre ajudando na casa… e cuidando de Yuki. 

    A imagem que eu tinha sobre ele mudou um pouco. A imagem de alguém com tamanha responsabilidade desde mais novo.

    — Entendi — respondi, com um sorriso genuíno. — Isso é bem legal.

    — Não é!? — ele riu, coçando o nariz. — Além disso, eu realmente gosto quando ela prova a minha comida e mostra aquele sorriso.

    Vendo Kaito, que parecia estar ali na sua zona de conforto, nunca imaginaria esse lado dele de irmão mais velho.

    O pilar da casa, quando seus pais estavam fora.

    — Acho que é por isso, por nós sermos tão próximos que… as pessoas já nos confundiram como um casal — ele disse, coçando a nuca. — Que nem você naquele festival de verão…

    Minhas bochechas queimaram no mesmo instante, e eu levantei as mãos em defesa.

    — P-por que você ainda lembra disso!? — respondi rapidamente, enquanto ele ria.

    Envergonhado e decidido a mudar de assunto, levantei uma questão sobre a comida que estava sendo preparada.

    — …Falando nisso, o que estamos fazendo? — perguntei, enquanto cortava a cebola.

    — Curry! — ele respondeu, sorrindo, e então virou-se para mim enquanto ainda fatiava. — Oh! Até que você tem jeito pra isso.

    Assenti levemente, com um pequeno sorriso no rosto, enquanto focava na tarefa.

    Enquanto ele me explicava os próximos passos e eu cortava o resto dos vegetais para o curry, a porta do banheiro foi destrancada.

    Eu então levantei o olhar instintivamente.

    Yuki apareceu na entrada do corredor. Ela vestia um moletom folgado e calças de treino, e carregava uma toalha enrolada no pescoço. Seus cabelos estavam úmidos, mas ela parecia mais relaxada do que antes.

    Ver ela com roupas tão casuais… fez com que eu desviasse o olhar rapidamente, tentando voltar o foco para a cebola.

    “Foca… foca…!”

    Ela nos viu ali. Eu e Kaito. Juntos… fazendo o jantar.

    Yuki parou no meio do passo com os olhos arregalados. 

    — Ah, vocês…? — ela murmurou, a surpresa clara em sua voz.

    O calor subiu novamente ao meu rosto. Eu estava na cozinha dela, junto com o seu irmão. 

    Eu me senti exatamente como parecia.

    Kaito, no entanto, sorriu com satisfação, e disse algo que fez eu parar com a faca no ar.

    — Ei! Yuki! Peguei o Shin pra fazer o jantar de hoje — ele disse, rindo perto das panelas. — Não é engraçado? Meio que a gente parece uma família, né?

    “Quê?”

    Meu corpo congelou na hora. 

    Virei a cabeça lentamente na direção dele, com os olhos arregalados e bochechas que deviam estar completamente vermelhas.

    Eu não conseguia acreditar no que eu tinha escutado.

    — Hã!?

    — …O quê!?

    — Ah, uh…

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