Capítulo 117: O Silêncio na Mesa
— Não é engraçado? Meio que a gente parece uma família, né?
Eu congelei no mesmo instante.
— Hã!?
— …O quê!?
— Ah, é… — Kaito deu uma risada meia forçada, enquanto coçava a nuca.
Eu… não sabia o que dizer. Era como se meu corpo tivesse enrijecido.
Yuki então foi a primeira a reagir, tirando a toalha do pescoço em choque, e o rosto levemente vermelho.
— O-o que você tá falando!?
Kaito parou de rir por um segundo, levantou as mãos em falsa rendição e sorriu, olhando de mim para Yuki com diversão.
— Calma, calma. Eu não disse nada de mais…
Ela apertou a toalha com mais força.
— C-cala a boca, Kaito! Você é idiota! — retrucou, com o rosto vermelho sendo parcialmente escondido pelas suas mãos. — Idiota! Kaito idiota!
— Eh? Qual é, Yuki? — Kaito protestou, mas ela já estava virando as costas, subindo provavelmente para o seu quarto.
— A gente se vê, idiota! — ela disse, e praticamente fugiu pelo corredor, fechando a porta… com um barulho alto.
Eu assisti à fuga dela, ainda meio desconcertado pelo comentário de Kaito, mas sentindo um alívio súbito.
Eu ainda não conseguia encarar ela direito.
Primeiro, o toque de mãos. A visão dela em roupas causais, e então… aquele comentário de seu irmão.
Uma família?
Soltei um pequeno suspiro, sentindo meu rosto ainda levemente quente.
— Ela é tão dramática, eu nem falei nada de mais… — Kaito murmurou, dando de ombros. — Vamos lá, não estragou a cebola, né? Temos que terminar isso antes que esfrie.
— Idiota — soltei, virando o rosto.
— Ei…! Até você…? — ele me olhou, surpreso, e então baixou os ombros, parecendo derrotado.
Não consegui segurar um pequeno riso.
O clima leve voltou pouco a pouco, enquanto voltávamos a mexer nas panelas.
O som dos talheres batendo, o cheiro do curry quase pronto e a chuva lá fora criavam um tipo de tranquilidade estranha… quase reconfortante.
“Família…”
De alguma forma, minha mente ainda continuava presa naquele comentário, quase impossível de ignorar. Mas rapidamente balancei a cabeça.
Após mais alguns minutos de espera, finalmente terminamos o curry. Ele abriu a panela, o aroma delicioso se espalhando pela cozinha, e então me entregou um pouco em uma tigela pequena.
— Aí está — disse, sorrindo, já sabendo que seria bom. — Me diga o que achou.
Eu peguei a tigela, enquanto o vapor subia lentamente. Dei a primeira colherada, e o sabor… era surpreendente.
— Ah! Ficou muito bom — admiti, após engolir. — E bem mais picante do que eu esperava.
— Eu disse! — Ele riu, coçando o nariz com o indicador. — E os vegetais ficaram ótimos. Acho que você devia vir me ajudar aqui mais vezes.
— E-eu!? — engasguei levemente, desviando o olhar. — Não é pra tanto, Kaito…
Ele apenas deu uma pequena risada de alguém satisfeito, pegou os talheres e se virou em direção à pequena mesa da sala.
— Então vamos comer antes que esfrie!
Enquanto pegava a panela também, virou-se para mim.
— Ah, pode ir lá em cima e chamar a Yuki pra jantar?
Hesitei por um instante, segurando os pratos.
— Eu…? — perguntei, sem disfarçar o nervosismo.
— É. Você tá mais perto da escada… vai — respondeu ele, enquanto olhava pra panela.
Suspirei, tentando parecer indiferente, mas meu coração já batia um pouco mais rápido do que eu gostaria de admitir…
Subi os degraus devagar, um de cada vez, até parar diante da porta do quarto dela. A luz por baixo da porta ainda estava acesa. Respirei fundo e bati de leve.
— Yuki…? — chamei, minha voz saindo mais baixa do que o normal. — O jantar tá pronto.
Por um instante, nada. Só o som distante da chuva batendo na janela do corredor… e o leve som do meu coração acelerado.
Pensei em bater de novo, mas então ouvi a voz dela, suave, do outro lado da porta:
— Já vou… obrigada.
Alguns minutos depois, Yuki desceu as escadas. O cabelo ainda com aquelas presilhas, o rosto suave, mas com aquele toque de timidez que me fazia desviar o olhar toda vez.
Ela se sentou na cadeira oposta à minha, e Kaito começou a servir o curry, sorrindo satisfeito.
— Aqui — disse ele, colocando a tigela à minha frente.
— Ah, obrigado.
Logo começamos a comer.
Por um tempo, o único som foi o das colheres batendo contra as tigelas e o mastigar alto do Kaito.
Mas então… nossos olhares se cruzaram.
Por um breve instante apenas.
O suficiente para que a lembrança do toque das mãos na sala voltasse à minha mente.
Ambos desviamos o olhar no mesmo segundo.
“Droga…”
Por que era tão difícil agir normalmente? Não deveria ser tão difícil assim.
Kaito parecia ter percebido o clima estranho no ar. Ele parou de mastigar e ergueu as sobrancelhas, com um outro sorriso esquisito.
— Ei, vocês dois. — Ele inclinou o corpo sobre a mesa. — Tá tudo bem aí? Vocês tão vermelhos… O curry tá picante demais, ou tão com febre?
Senti o coração disparar no mesmo segundo.
— N-não! — eu e Yuki dissemos ao mesmo tempo.
O silêncio que veio em seguida foi meio sufocante.
Kaito nos olhou fixamente por alguns segundos, aquele sorriso de quem estava se divertindo às nossas custas…
“Fala sério…”
— Ah, é mesmo? — murmurou, pegando mais uma colherada. — Era só pra ter certeza…
E então, de repente, ele se levantou, exagerando na atuação:
— Ai, que dor de barriga! Preciso ir no banheiro! — ele disse, quase teatralmente. — Fiquem vocês dois aí!
— Hã!? — exclamei, mas ele já estava indo embora… rindo.
Aquilo era tão fingido que quase fiquei sem reação.
Ele achou que eu ou Yuki iríamos acreditar naquilo?
O som dos passos dele ecoou no corredor, seguido pela porta do banheiro se fechando.
Fiquei parado, segurando a colher, sem saber o que fazer.
Como agir naturalmente diante dela… depois de tudo que tinha acontecido?
Kaito não ia ao banheiro, aquilo era estupidamente óbvio. ele só queria… deixar a gente sozinho.
Mas por quê?
— …..
O silêncio que se seguiu era o mais pesado de todos. Talvez por não ter Kaito ali pra quebrar o gelo.
Havia apenas nós dois, o som abafado da chuva e a fumaça da comida subindo lentamente entre nós.
E claro… as lembranças.
— Shin? — A voz dela, quase sussurrando, cortou aquele silêncio.
— Sim? — respondi rapidamente, mas levemente baixo.
Yuki encarava o curry na tigela, mexendo a colher.
— Me desculpa.
Meu coração acelerou de leve, e um nó no meu estômago começou a se formar.
Por que ela estava pedindo desculpas?
— Hã? Pelo quê? — eu perguntei, confuso.
Eu tinha feito algo de errado?
Ela balançou a cabeça levemente.
— …Desculpa por ser egoísta — ela disse, ainda sem me olhar. — Você estava visivelmente desconfortável na sala e… você já deveria estar em casa. Eu te fiz ficar e você teve que vir na chuva… Desculpa.
Fiquei alguns segundos sem saber exatamente o que dizer.
Ela… estava se culpando? Seriamente?
— Hã!? Não! — Eu gesticulei com a colher, desmentindo. — Não foi culpa sua!
Eu respirei fundo, forçando-me a olhar para ela.
— Sinceramente, mesmo que você tivesse sido mais firme e me mandado embora na porta do karaokê, eu ainda teria insistido em te acompanhar — comecei a coçar a bochecha. — Eu não podia deixar uma garota ir sozinha pra casa de noite…
Yuki então ergueu os olhos, piscando surpresa, e sorriu. Havia um tipo de alívio, e um brilho suave.
— Eu sabia que você diria isso. — Ela suspirou, e nós dois rimos, uma risada baixa e nervosa, que quebrou o restante da tensão silenciosa.
Ela deu uma colherada do curry. Eu a observei por um momento, e senti meu coração aquecer novamente.
Desviei o olhar, indo para a minha tigela, enquanto coçava a bochecha.
— E, a propósito… — comecei, com minha voz diminuindo até quase sumir. Eu não tinha planejado dizer isso. — Eu não estou desconfortável. Na verdade…
Eu ergui o olhar, me forçando a encarar ela, com nossos olhos um no outro por um segundo.
— …Eu gostei de ter vindo aqui.
Assim que disse isso, baixei a cabeça enquanto sentia meu rosto esquentar e o coração acelerar.
“O que eu tô falando!? Por que eu disse isso em voz alta!?”
Yuki pousou a colher. Ela parecia estar vermelha, com os lábios entreabertos.
— A-ah… — ela gaguejou, começando a tocar em uma mecha de cabelo.
O silêncio de alguns segundos que se seguiu foi diferente do anterior. Não era aquele silêncio pesado e estranho.
Então a porta do banheiro se abriu. Kaito voltou, limpando as mãos na calça.
— Ah, ah! Que alívio! — ele disse, passando a mão pela testa.
Eu e Yuki nos ajeitamos nas cadeiras no mesmo segundo, fingindo algum interesse nos restos de curry da tigela.
— Ei! Vocês estão bem mesmo? — Kaito perguntou, novamente, com aquele sorriso bizarro no rosto. — Vocês dois realmente estão vermelhos! Certeza que não tão com febre…?
— Estamos ótimos…! — eu e Yuki respondemos quase ao mesmo tempo, e… mais alto do que o necessário.
Tentei focar na tigela e terminar o curry rapidamente, tentando ignorar meu coração que ainda estava acelerado.
Mas eu não conseguia mais olhar para Yuki.
Kaito sentou na mesa, e nós continuamos a comer. A chuva e a neve ainda continuavam do lado de fora, altas.
“Eu gostei de ter vindo aqui.”
Aquela frase que havia dito ainda girava na minha cabeça.
Mesmo com toda a confusão, o nervosismo, e, claro, as provocações óbvias de Kaito…
Ter ficado ali com ela tinha valido cada segundo.
Tentei olhar rapidamente na direção dela. Ela ainda estava levemente corada, como eu, mas havia um pequeno sorriso nos lábios.
E, silenciosamente, eu a agradeci por ter me deixado ficar mais um pouco em sua casa.

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